O Príncipe de Amicitia
4 Doce Infância
Notas iniciais

Balançando um pequeno graveto de um lado para o outro, o pequeno Yoongi, recém-chegado aos oito anos, corria pelo quintal fingindo ser um grande espadachim. Dava pulos, giros e até cambalhotas, mergulhado em sua fantasia heroica até o corpo cansar. Seus golpes com a “espada” improvisada eram desajeitados, mas, aos olhos do pequeno Min Yoongi, ele era o mais valente e habilidoso guerreiro do mundo.
— Socorro! Socorro! — gritou Lucy, sua irmã mais velha, entrando na brincadeira com entusiasmo — Um monstro terrível está me perseguindo! Será que existe um herói corajoso o bastante para me salvar?
Antes que ele pudesse responder, Lucy o agarrou no colo e começou a enchê-lo de abraços e beijos nas bochechas.
— Lucy! Para com isso! Eu sou um espadachim sério, e você tá deixando minhas bochechas doloridas! — reclamou, limpando o rosto com as mãos, tentando recuperar sua dignidade de herói.
— Ah, é assim? Pois quanto mais você limpar… mais eu vou te beijar! — disse ela, rindo, enquanto o cobria de mais beijos e começava a fazer cócegas em sua barriga.
Yoongi gargalhava tanto que mal conseguia respirar. Quando finalmente parou o ataque de carinho, Lucy ficou apenas olhando para ele, com ternura. Havia algo mágico naquele sorriso infantil, naquela expressão livre de qualquer peso do mundo.
— Te amo, meu pequeno e bravo guerreiro... — sussurrou, emocionada.
— Também te amo, Lucy — respondeu ele, dando um beijo tímido no queixo da irmã.
Em troca, ela o beijou no topo da cabeça e o abraçou forte, como se quisesse protegê-lo para sempre daquele mundo que ainda não conhecia a doçura de um menino como ele.
Yoongi aninhou-se no colo da irmã, sentindo seus longos cabelos roçarem levemente seu rosto. Assim como ele, Lucy tinha os cabelos brancos como algodão e a pele clara como porcelana, quase pálida. Para Yoongi, ela tinha um cheiro doce, algo que ele não sabia exatamente o que era, mas que o acalmava. Estar ali, envolto em seus braços, fazia com que se sentisse protegido. Era quente, seguro como um refúgio. Ele queria ficar ali para sempre.
— Está bem, Lucy… — murmurou, tentando se soltar do abraço —, agora me coloca no chão. Já sou um homem, não posso mais ficar no colo.
— Ora, ora… meu irmãozinho já se acha um homem — disse ela com um sorriso afetuoso, passando os dedos carinhosamente pelos fios bagunçados de seu cabelo.
Yoongi franziu o cenho e estufou o peito, tentando parecer mais alto, mais sério.
— Eu sou pequeno agora, mas você vai ver só, Lucy! Um dia vou ser maior que você. E quando eu crescer, vou virar um herói de verdade. Vou salvar as pessoas e lutar contra monstros gigantes! — disse com os olhos brilhando de empolgação.
Lucy sorriu, encantada com a pureza daquele sonho. Naquele momento, ela acreditava com todo o coração que aquilo se tornaria realidade.
— Eu sei que você será um grande herói, meu doce irmãozinho…
Ela o apertou mais uma vez antes de se levantar.
— Mas agora vamos entrar. Já está ficando tarde, e eu fiz um bolo bem gostoso pra você. Tem caramelo, do jeitinho que você gosta.
— Obaaa! Vamos, Lucy! Vamos! — exclamou Yoongi, pulando de alegria. — Eu amo bolos e caramelos! Quero comer tudinho!
Com os olhos brilhando de felicidade, ele a puxou pelo braço, correndo em direção à casa. E Lucy, sorrindo, o acompanhou como se aquele instante fosse um daqueles que ficam guardados no coração para sempre.
…
Eles viviam em um pequeno cômodo de alvenaria, apertado e frio. Havia apenas uma cama de madeira já desgastada pelo tempo, com partes começando a apodrecer. Em um canto, uma lareira improvisada por Lucy servia tanto para cozinhar os poucos alimentos que conseguiam quanto para aquecê-los nas noites úmidas e geladas.
Apesar da pobreza, das paredes nuas e do chão de pedra, Yoongi enxergava aquele lugar com olhos de criança. Para ele, era como um castelo, não por sua aparência, mas pelo simples fato de dividi-lo com sua irmã. Ele não sabia o que era viver com luxo, tampouco se importava com isso. Mesmo que, às vezes, sentisse fome ou visse outras crianças comendo doces que ele nunca experimentara, bastava conversar e brincar com Lucy para que tudo o mais deixasse de importar.
Lucy, com apenas quatorze anos, já carregava o peso de um mundo inteiro nas costas. Trabalhava de sol a sol, em tarefas pesadas demais para sua idade, apenas para conseguir alguns pães velhos ou um punhado de grãos. Muitas vezes, a comida não era suficiente para os dois, e então ela abria mão da própria refeição para que Yoongi pudesse comer. Saltar refeições se tornara rotina, e a fraqueza passou a acompanhá-la como uma sombra.
Com o tempo, Lucy começou a dormir mais, o corpo pedindo trégua. A palidez natural de sua pele contrastava com uma beleza rara e delicada, que chamava atenção por onde passava, embora isso a irritasse profundamente. Mas aquela beleza começava a se apagar pelo cansaço, pela fome e pela dureza da vida.
Mesmo assim, ela sorria para Yoongi sempre que podia. E para ele, aquele sorriso ainda era a luz mais bonita do mundo.
— Lucy, vamos brincar lá fora? — perguntou Yoongi, com a voz baixa, os olhos marejados ao ver sua irmã cada vez mais fraca, quase não saindo da cama.
— Meu doce Yoongi… — ela respondeu com esforço, tentando sorrir apesar da dor que lhe corroía o peito. — Estou um pouco cansada… não consigo brincar agora.
Ela tossiu, virando o rosto rapidamente e cobrindo a boca com as mãos. O gosto metálico do sangue voltava, quente e amargo, mas ela fez o possível para esconder. Não queria assustá-lo.
— Você tá doente? — Yoongi se aproximou com passos tímidos, observando-a com atenção. Lucy estava mais magra, os olhos fundos, a pele ainda mais pálida.
— Não é nada, irmãozinho… Assim que eu melhorar, vamos brincar bastante, tá bem? — A voz dela saiu fraca, arrastada, como se o sono estivesse prestes a vencê-la.
Yoongi assentiu devagar, tentando sorrir de volta, mas seu pequeno coração apertava no peito.
— Eu sou um herói… e vou te salvar, Lucy. Prometo. Vou achar um remédio pra você melhorar.
Com cuidado, ele puxou um velho manto e a cobriu até os ombros. Depois ergueu os pezinhos, curvou-se e depositou um beijo em sua testa, ela estava muito quente, quente demais.
— Vai ficar tudo bem, Lucy — sussurrou.
Sem fazer barulho, saiu de casa. No jardim, pegou seu fiel graveto, aquele que para ele era uma espada lendária, poderosa, capaz de vencer qualquer monstro. Armado e decidido, adentrou a floresta. Porque os heróis salvam quem amam.
A noite estava fria e cerrada como um véu sombrio. O vento cortava a pele de Yoongi como pequenas lâminas, fazendo seus ossos tremerem sob o tecido fino e gasto que mal cobria seu corpo. A fraca luz da lua mal conseguia atravessar as copas altas das árvores, mas ainda assim projetava sombras longas e inquietantes sobre o chão irregular da floresta.
A cada passo que dava, o silêncio ao seu redor parecia se tornar mais denso. Entre os arbustos, olhos brilhantes o observavam. Eram animais? Criaturas da noite? Ou apenas o reflexo do seu medo? Ele não sabia. Apenas segurava firme seu pequeno graveto, que em sua mente era uma espada poderosa, e continuava a caminhada.
Apesar do medo, o que mais o assombrava era algo ainda mais cruel: a fome.
Seu estômago se contorcia em dores profundas, como se fosse um monstro dentro de si. As pernas vacilavam, fracas, e sua visão começava a embaçar. Não conseguia lembrar da última vez que havia comido algo. Só sabia que precisava continuar por Lucy.
De vez em quando, sentia como se algo o estivesse seguindo. Um arrepio corria por sua espinha, e seus pés hesitavam. Mas ele balançava a cabeça, tentando afastar os pensamentos.
“Imaginação fértil”, era o que Lucy sempre dizia quando ele ficava assustado com sombras ou sons estranhos. Talvez ela estivesse certa. Talvez fosse só sua mente cansada, seu estômago faminto, pregando peças em sua coragem.
Mesmo assim, apertou o graveto com mais força e seguiu em frente, cambaleando pela trilha escura, em direção à aldeia mais próxima, onde, ele acreditava com todo o coração, encontraria um remédio para salvar sua irmã.
Ao chegar a uma pequena aldeia nos arredores da floresta, Yoongi foi imediatamente envolvido por um aroma doce e acolhedor que flutuava no ar. Seus olhos se arregalaram e seu estômago gemeu alto.
“Pães... ou será que são bolos quentinhos?” — pensou, salivando.
Sem pensar duas vezes, seguiu o cheiro como um abutre faminto atrás de um banquete. O instinto falou mais alto que o medo.
A origem daquele perfume mágico era uma casa simples, com uma janela entreaberta. Yoongi se aproximou com cuidado, apoiando-se na parede para espiar o interior. Seus olhos brilharam ao ver uma grande mesa repleta de pães recém-assados, bolos decorados e doces de todos os tipos.
Olhou em volta. Nada. Nenhuma movimentação visível. Mas vozes abafadas vinham de outro cômodo, o que fez seu coração acelerar. Ainda assim, a fome era mais forte.
Com todo o cuidado do mundo, ergueu-se na ponta dos pés e, em um pulo silencioso, atravessou a janela, caindo suavemente no interior da casa. O cheiro era ainda mais tentador ali dentro, e ele não perdeu tempo. Agarrou um pão, se enfiou embaixo da mesa e começou a devorá-lo como se aquilo fosse sua primeira refeição em dias, talvez fosse mesmo.
Mas a tranquilidade durou pouco.
— Ora, ora... veja só. Um ratinho entrou na nossa casa. — disse uma voz grave, áspera e cruel.
Yoongi congelou.
Abaixando-se diante da mesa, um homem corpulento surgiu diante dele. Tinha um rosto suado, olhos pequenos e cruéis, e um sorriso torto que causava arrepios. O garoto engoliu seco.
Num piscar de olhos, uma faca reluziu à luz bruxuleante da casa, cortando o ar bem diante do rosto de Yoongi.
Ele tentou recuar, o pão ainda na mão, o coração descompassado. Num instinto desesperado de sobrevivência, rolou para o lado, escapando do golpe. Mas não completamente.
Um corte agudo se abriu em sua bochecha.
A dor foi como fogo. O sangue escorreu quente por entre seus dedos trêmulos quando ele levou a mão ao rosto. Sua visão embaçou pelas lágrimas, mas o medo o mantinha em movimento.
Ele não sabia como, mas precisava sair dali.
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