— Bom dia, W…O que aconteceu com você, cara?— indagou Percy, preocupado e amigável como sempre.

— Comigo?— murmurou Will, distraído e derrotado.

— É…está tão para baixo que a grama embaixo dos seus pés está morrendo…Tem certeza que está tudo bem? Sabe, quando a Annabeth diz que não é nada, é mentira e ela ainda me bate por que não sei do que se trata.

Will corou, ele geralmente era o cara feliz da vida, que saía por aí cantando e fazendo o que queria, uma criança mimada. Mas é claro, quando algo acontecia com Nico, era como se tudo que o fizesse feliz evaporasse como folhas secas no outono. Por isso nunca gostara do outono.

— Nico está doente e não me deixa entrar em sua cabine para cuidar dele — admitiu Will, suspirando, infeliz.

— Ah…— Percy precisou de um tempo para processar, então disse:— Mas você é médico, quer dizer, quase isso. Por que ele não te deixa ajudar?

Outro suspiro infeliz.

— Ele não quer que eu fique doente. Como se eu fosse tão fraco.

— Cara, é só esperar uma semana. Nenhuma gripe dura tanto.

— Uma semana? A de Nico dura quase meses! Ele não se cuida e tem imunidade baixa, sempre fica descalço e não fecha as janelas para dormir. Sem contar que só come besteira e diz que nunca tem fome.

Percy deu um passo para trás, assustado com as emoções frustrantes de Will. Ele não fazia idéia de como era namorar o bebezão da relação, já que ele era o da dele. Annabeth quase nunca adoecia e se recuperava rápido, tomando vitaminas e todo o tipo de tônico, era esforçada e inteligente com tudo. Toda vez que Percy ficava doente, ela o chamava de Cabeça de Alga Estragada.

Apesar disso, Percy, quando ficava carente porque ela estava muito concentrada nos estudos constantes e não lhe reservava atenção, pegava resfriado de propósito. Era o paraíso, apesar da dor de cabeça e o calor que a Novalgina lhe causava.

De qualquer forma, Will só queria que Nico dependesse mais dele, confiasse nele e deixasse o garoto tomar as rédeas, mas claro que não era fácil, Nico era orgulhoso, odiava demonstrar fraqueza e causar transtornos pelos outros, tinha um forte senso de vergonha na cara e senso comum, mas exagerava nas qualidades.

— Quer saber, Will? Acho que sei como ajudá-lo. — Percy sorriu de forma astuta demais para sua personalidade, fazendo um frio na espinha percorrer Will, mas este estava tão desesperado que não insistira.

Percy marchou pelo acampamento, sem hesitar, e voltou alguns segundos depois, puxando Jason, que arrastava Frank, que carregava Leo num dos ombros, como um saco de batatas. Provavelmente, batatas seriam mais pesadas que aquele magricela.

Will ficou com medo de verdade, Percy trouxera o exército de péssimas idéias e constrangimento. Todos queriam-lhe bem demais, era quase sufocante, Nico sempre reclamava, mas Will sabia que era só fachada de ranzinza, no fundo, Nico adorava todos eles e mataria qualquer um que os tocasse. Literalmente.

— De novo os pombinhos estão com problemas — resmungou Leo. — Vocês precisam pegar leve, vão acabar ficando sem tema para as brigas de casado.

— Não liga para ele, Will — consolou Frank, o cara de 2m com um coração tão grande quanto, parecia uma mamãe urso. — O amor sempre vence. — Dito isso, abraçou Will, esmagando-o.

— Nada se mete entre o meu casal predileto! Nem uma gripe!— exclamou Jason, dando um polegar positivo, sorrindo como um idiota.

Tudo que Will fez foi franzir e se preocupar mais ainda. Mas afinal, não tinha mais como fugir, estava na mão daqueles caras sem noção, o que nem sempre era uma boa idéia.

— O.k., esse é o plano….— começou Leo, sorrindo, engenhoso.

Aquilo só podia ser idéia de Leo. Era genial, perigoso e idiota. Mas ainda era genial, e isso era tudo que eles precisavam. O filho de Hefesto correu pegar uma de suas novas invenções, uma minhoca de 3m do mal. Ela tinha dentes e arrancava braços. Seu nome era Leo Jr.

Os garotos se posicionaram, incluindo Will, que posicionou seu arco com uma flecha de bronze, pronto. Frank recebeu o sinal e gritou "Meu Deus! Uma minhoca gigante! Will, cuidado!" alto o bastante para que Nico ouvisse dentro de sua cabine e o resto do acampamento não tivesse idéia do que rolava com a luta de minhoca gigante na porta da cabine de Hades.

Will disparou uma flecha na minhoca quando ela foi ativada, e pelo visto, ela urrava. Podia ouvir Leo choramingando sobre quão importante o Leo Jr. era para ele. A minhoca avançou em direção a Will, mas o garoto não era bobo.

— Socorro!— continuou Frank, se preocupando pelo fato de Nico não ter ao menos espiado pela janela para ver se o namorado estava vivo.

— Ei, cuidado, Will, essa minhoca solta…— Leo foi interrompido pelo fogo saindo da boca circular da minhoca, por pouco não torrando Will.

O garoto tropeçou e começou a rastejar para longe da minhoca, assustado com a visão da boca grotesca e dentada e inflamável da criatura de Leo. Will não era lá muito bom em lutar, somente usava o arco, mas não parecia eficiente naquele momento. Se sentia idiota por pôr tantas pessoas em risco por causa de sua solidão e preocupação. Nico devia achá-lo patético.

Will estava à beira das lágrimas, frustrado e decepcionado em como tudo estava terminando. Seu único consolo foi que Nico estava seguro dentro de sua cabine. Manteve esse pensamento até que teve certeza de que seria tostado.

Estava assustado demais para conseguir ouvir o que Frank gritava para ele, em forma de urso, tentando arranhar a minhoca, que era forte e o dera um safanão, mandando-o para longe. Ou o Leo, que tentava desesperadamente desligar o bicho por um controle, que parecia ter sido esmagado por ele mesmo, no meio da confusão. Ou Jason, que estava inconsciente, pacificamente, como sempre. Ou Percy, que estava lutando com dentes e garras contra o Leo Jr. que parecia interessado em comer a cabeça dele. Percy era ótimo com a espada, talvez o melhor espadachim de todo o acampamento, mas continuava sendo o Percy, por isso, tropeçou numa pedra para desviar de formigas que carregavam folhas para um formigueiro, e caiu.

As últimas esperanças de Will acabaram e tudo que ele desejou foi que a minhoca o comece e se satisfizesse, deixando os outros em paz. E enquanto esperava a criatura alcançá-lo, pensou em Nico, queria que ele fosse seu último pensamento, teria feito um poema, mas não estava tão inspirado assim.

Só se lembrava das últimas semanas, que eram sempre tão cheias por causa do gênio dos dois e de todos os amigos estranhos deles. Se lembrava de como Nico se encolhia para dormir e sempre tinha os cabelos bagunçados. Também lembrava das horas que passaram fazendo uma maratona de Harry Potter e Senhor dos Anéis — Will escolhera estes respectivos filmes porque eram longos e o dariam desculpas para ficar mais tempo com seu namorado. Lembrava do dia que Sally, mãe de Percy, trouxera um karaokê para eles e Will cantara Dont'cha das Pussycat Dolls para Nico, fazendo o garoto engasgar de surpresa.

Eram boas memórias para se ter antes de morrer.

Mas ele não iria morrer, pois quando a minhoca abriu sua imensa boca com cheiro de queimado, Nico saiu da cabine, de samba canção de caveiras e uma camiseta preta, cabelos bagunçados e olhos vermelhos de quem acabara de acordar. O garoto empunhava sua espada preta, que fazia todos recuarem de medo, e avançou contra a minhoca, tossindo e tudo.

Nico fez o que nenhum deles conseguira, destroçou o Leo Jr. em questão de segundos, esfaqueando-o e escalando-o, fazendo-o queimar-se. O filho do deus dos mortos parecia satisfeito em destruir algo problemático como uma minhoca gigante, salvar seu namorado, e poder voltar a dormir. Ele não disse nada, apenas olhou para Will, checando que o idiota ainda estava vivo e com sua cabeça loira inteira, então voltou para a cabine, assoando o nariz.

Will se recuperou rapidamente do choque e correu até a porta antes que Nico a fechasse, não tinha passado por tudo aquilo — todos eles — para Nico simplesmente fechar a porta na cara dele. Will iria entrar de qualquer jeito. Não foi muito difícil, pois Nico estava exausto de lutar e estava febril.

O filho de Apolo estava feliz de ver que quando se tratava da segurança de Will, Nico faria qualquer coisa. E ao mesmo tempo, ficou irritado, porque esse qualquer coisa incluía machucar-se em prol de salvá-lo. E tudo que machucasse Nico era absurdo e devia ser eliminado, era o que Will pensava.

O garoto ultrapassou a porta e a fechou, a tempo de segurar Nico, que desmaiara em seus braços naquele instante.

Não era por menos também, o quarto estava lotado de embalagens de salgadinhos e balas de goma, o garoto não comera nada a não ser aquela porcaria toda, e as únicas bebidas eram Red Bull. O quarto estava bagunçado, com roupas, toalhas e cobertas por todos os metros quadrados, o cheiro era de ambiente fechado e mal ventilado, os ácaros deviam estar dando a festa, pois nenhuma luz devia ter ultrapassado as cortinas escuras da cabine.

Will ajeitou seu namorado na cama e cuidou dele, preparou ambrosia e nectar para quando ele acordasse e ajeitou o quarto o melhor que pôde, ao menos se podia ver o chão agora. Abriu as janelas e deixou ventilar, trocou os lençóis e tudo o mais, deixando tudo limpo e saudável para a melhora de Nico.

Demorou meio dia para Nico acordar de seu cansaço mortal, e quando acordou, não se lembrava de nada, inclusive, de que estava doente, por isso não disse nada quanto a presença de Will. Apenas o observou.

Nico sentia que não via Will há anos, não se esquecera de detalhe algum do garoto, mas havia um vazio em seu peito e ele estava com medo do garoto resolver sair da cabine agora que ele acordara, mas tinha medo de dormir e não vê-lo ao acordar de novo.

Will leu o medo no rosto do garoto e interpretou de forma errônea, achou que Nico o queria longe dali, porque se preocupava e achava que ele não bom o bastante para curar-se caso pegasse a gripe do garoto. O filho de Apolo se levantou da cadeira em que estava sentado para monitorar o namorado e se preparou para sair dali.

O garoto reagiu instantaneamente, esticando as mãos como um bebê querendo a mãe, e disse, desengonçado:

— NÃO…não vai — balbuciou, ainda um pouco febril demais para manter o autocontrole.

Quem ficou surpreso foi Will, que escancarou o maxilar e corou.

— Você…não quer ficar sozinho de novo?— questionou o garoto, ainda não acreditando.

Foi a vez de Nico corar, apesar de já estar vermelho por causa da febre.

— Quer dizer…hã…você não está ocupado, certo? A enfermaria está livre de heróis desastrados, não?— Nico tentou parecer natural, mas não era tão fácil. Mas pouco importava, ambos pareciam estar numa espécie de transe, aliás, no mesmo transe.

Will não conseguiu responder, mal ouvia, e Nico mal se lembrava de que havia falado ou feito pergunta e esperava resposta alguma. Andou até Nico, calmamente, e o abraçou com força, sentindo saudades. Ele adorava a sensação dos cabelos cacheados dos dois se enrolando uns nos outros, loiro e castanho escuro. Gostava do cheiro de sabonete de Nico e sua ausência de vaidade. Das mãos frias e pálidas como um fantasma, dos olhos como buracos negros e os lábios rosados.

— Não vai ficar doente?— murmurou Nico, voltando aos poucos a si, ainda abraçado ao garoto.

— Eu gosto de resfriados, principalmente se você é o enfermeiro — garantiu, beijando a bochecha magra do namorado. — E tenho a pequena suspeita de que você também está começando a pegar gosto por eles.

— Se você é o médico — retrucou Nico, revirando os olhos e beijando Will. — Só que da próxima vez que quiser me ver, não precisa tentar se matar e levar todo mundo junto, nem sei de onde tirou a minhoca de 3m que cospe fogo.

— Leo — explicou, constrangido.

— Imaginei. Bem, acho que vou dormir, preciso estar disposto para ser eu enfermeiro, para quando você acordar gripado amanhã.

Eles sorriram, astutos e carinhosos, e foram dormir.

Com ambos resfriados, teriam que achar mais trilogias e bruxos para assistirem.

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