O Primor de Meredhelle

1 Capítulo 1: Meu Ultrajado Florete


No caminho da viagem, eu recitava um mantra que permanecia em uma frase uníssona em terceira pessoa: “Por favor, chegue logo, Reino de Meredhelle, o pobre Hiei não aguenta mais!”. E enquanto repetia isso incontáveis vezes, ao andar como um peregrino desorientado, ia percebendo que aquela floresta em que estava parecia ser o estágio final da caminhada, pois aos poucos começava a ver a famosa legião de estrelas desta terra após o vespertino. O céu já estava bem escuro e os grilos já começavam a arquitetar sua orquestra para mascarar o silêncio da noite. — Tudo como havia lido nos livros e escutado pelos anciões.

Estou nesta viagem a mando do Rei de Iudora, reino de onde vim. Meu cavalo havia fugido no meio da noite anterior, e por isso, fui condenado a seguir só em rumo a Meredhelle. Por mais que eu tenha um porte físico considerado bom, andar o dia todo de um reino para o outro não é a atividade mais agradável do mundo, ainda mais quando se está com pressa.

E a cada quilômetro andado, eu encontrava um jeito de me desatar daquelas roupas pesadas que o Rei obrigava-nos a vestir, com um lenço ou um par de luvas para lá e para cá. Sai de minha terra com um grosso paletó negro cheio de adereços formais e agora na parte dorsal só estou com uma camisa branca fina, quase transparente de suor. A calça escura de veludo e os sapatos já estavam todos encobertos de poeira, o que me deixava com um aspecto mais fiel com a de um mendigo do que um soldado real de Iudora.

Mas isso é o de menos. Para qualquer outro guerreiro de onde vim, tirar o uniforme no caminho de uma missão seria algo irrevogável e proibido, mas no meu caso, estas formalidades sempre foram diminuídas, já que sou um dos homens de mais confiança do Rei. Não me acho mimado, mas acho que não iria aguentar ser subordinado sem tais privilégios.

E para aliviar a tensão muscular, sentei em um pé de uma árvore qualquer para descansar enquanto refrescava a garganta, já tão áspera. Naquela altura do campeonato, tudo me incomodava. Meus fios dourados insistiam em grudar em minha nuca suada, enquanto meu par de óculos embaçava-se a cada suspiro ofegante que dava. E minhas mãos então? Ao atritá-las entre si, esfarelavam-se em areia de tão encardidas que estavam. Deveria pois então, fazer bom uso deste tempo para estar apresentável para a princesa de Meredhelle. Já me deixaram avisado que o seu gênio forte poderia ser um dos contratempos que me impediria de vários privilégios; logo, tirar essa pose de condenado pelo cansaço já seria um bom começo para nos darmos bem, embora lidar com garotas mimadas talvez seja uma das coisas que mais sei fazer com maestria.

Enquanto descansava e lavava meu rosto com um pouco de água que havia no cantil, me orgulhava que meu foco não ter se perdido. Estava anestesiado com seriedade, em meus poros só exalavam determinação. Minha missão precisava ser completada, sem mais nem menos.

Meu objetivo para muitos poderia soar bem simples, coisa que não é verdade. A princesa de Iudora, reino de onde vim, estava sofrendo de uma complicada doença. – No meio de uma guerra mágica, um dos invasores acabou adentrando o castelo, contaminando-o de magia negra. Como a princesa possuía um corpo frágil, acabou contraindo uma grave doença crônica, cujo a cura é tão misteriosa quanto.

A magia negra que passava pelos errantes criminosos de Iudora é como pisar em um pântano exilado. Ao pisar na água fétida, você percebe que a poluição da água é tão grande que seus pés ficam opacos; então logo, tudo o que se oculta por ali é desconhecido, não se sabe onde se está pisando. Fica em oculto se a sua próxima andada será a sua última ou não, se encontrará uma cobra venenosa ou um buraco profundo. Você pode conhecer todos os caminhos daquele lugar, desde a posição de suas folhas até o horário que o coaxar dos sapos se inicia, mas mesmo assim, andar por ele sempre será um desafio.

A magia negra é traiçoeira, desconhecida, áspera em seu caráter, cujo até os magos mais experientes se sentem novatos eternos em qualquer imprevisto casual. Eles podem ter aprendido com os melhores professores nas melhores universidades, até podem ter lido hipoteticamente todos os livros do mundo a respeito, mas o objeto de estudo é tão imprevisível, tão perverso, que suas regras e postulados nem sempre são válidos.

Então, segundo os melhores magos contratados pelo Rei, uma utópica solução de cura para qualquer um dos males misteriosos causados pela magia negra seria a energia que existe em Meredhelle, uma terra abençoada, repleta de lendas de seres e poderes místicos, berço dos arcanos e magos experientes. — Tal energia poderia estar centralizada em um único ponto: em um artefato mágico, que teria o poder de transcender males poderosos.

O empecilho disto tudo é que o tal artefato é apenas uma lenda mítica até para os próprios moradores de Meredhelle, ou seja, não há como saber de imediato que o que eu estou procurando existe ou não. A única coisa que me resta a fazer como guarda de confiança do Rei é agarrar esta esperança com todas as forças e tentar torná-la possível.

Afundado nestes pensamentos sistemáticos, nem percebi que havia abaixado completamente minha guarda. Nisso, fui surpreendido com um barulho esvoaçante nos arbustos dentre a densidão da floresta. Foi algo meio sinistro e macabro, porque já estava tudo escuro e eu já nada mais via além de mim mesmo. Naquele primeiro momento pensei que se tratava de um animal ou algo assim, mas meus reflexos se sentiram ofendidos quando fui atacado com um raio cortante em minha direção, o mais inesperado possível.

Foi uma investida tão surpresa que demorei para perceber que se tratava de uma espada. Quando me dei conta que havia uma pessoa me atacando com uma lâmina dourada que não pairava em inércia ao ar, já me encontrava rendido pelo desconhecido. Cai para trás tentando me defender com o florete real que trajava no cinto, mas era muito fino para ser potente contra aquela espada grossa e afiada. Nossas armas ficaram travadas e o inimigo empurrava para frente enquanto eu tentava me defender, resistindo as investidas. — A lâmina alheia parecia tão brilhosa e irradiante que me fez ficar um tanto hipnotizado, me atrapalhando para deduzir quem era que a portava. A arma tinha caráter dourado, reluzia a ouro, algo que me deixou deveras curioso naquele momento.

E sem muito esforço, a lâmina cortou meu florete ao meio, deixando-o totalmente inútil. O impacto do golpe foi tão forte que eu fui lançado até uma árvore mais próxima, debatendo-me inofensivo, entregue ao oponente. Minha cabeça deu várias cambalhotas que me sentia enojado de tão tonto. Não foi um ataque necessariamente forte e ágil, mas foi algo feito com muita técnica e precisão.

A minha visão estava um pouco turva, mas ao estar debatido no chão, conseguia ver o meu pobre florete destruído a alguns palmos de mim. Para frente, sentia a aproximação do inimigo, ainda muito receoso com a minha presença. E a cada momento que meus sentidos iam se recuperando da batida da cabeça, conseguia definir melhor a visão e ver quem estava por trás de tudo aquilo. Uma silhueta fina ia se tornando cada vez mais visível.

– Quem é você? – perguntou ela.

Notas finais
Bom, é isto para o primeiro capítulo. Eu estava em dúvidas se categorizaria ou não esta parte como um prólogo, pois tentei focar mais nas ações dos personagens e muito pouco em apresentações... Mas para começar, algo bem descritivo para preparar terreno para os futuros acontecimentos da trama. Obrigado por lerem!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.