O Primeiro e o Último Amor Proibido
1 Capítulo 1 – O começo de tudo
Capítulo 1 – O começo de tudo
O despertador tocou às 5h40 da manhã, mas Tailan já estava acordado. Há dez minutos ele encarava o teto do quarto, os braços cruzados atrás da cabeça, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo. Aquela era a hora em que o silêncio ainda reinava em São Cabaré, antes dos vizinhos ligarem o rádio alto, antes dos gritos de bom dia no portão e do cheiro de gordura frita invadir as calçadas.
Levantou devagar, ajeitou o lençol da cama e andou até o altar montado sobre uma estante simples de madeira. Ali estavam suas guias, as imagens dos Orixás, um copo com água, um vaso com arruda, uma vela branca já pela metade e um punhado de fé. Ele se ajoelhou, fez o sinal da cruz, depois o ponto da cabeça, e sussurrou:
— Que Oxalá me abençoe no dia de hoje. Que Ogum abra os caminhos, que Oxum me mantenha firme, e que Exu me guie com sabedoria. Laroyê.
O cheiro do café vindo da cozinha o puxou de volta pra realidade. Sorriu. A mãe.
Tailan saiu do quarto e foi direto abraçá-la por trás, como fazia desde menino. Maria era baixa, arredondada, com o cabelo preso num coque desalinhado e a cara de quem já viveu muita coisa. Ela fingiu reclamar, mas no fundo, adorava aquele carinho.
— Vai me derrubar, rapaz! — disse ela, rindo. — Já não basta quase me dar um infarto quando dorme demais?
— Dorme demais? Mãe, são nem seis da manhã.
Ela empurrou uma xícara de café quente pra ele e colocou um pão com manteiga na mesa.
— E é por isso que eu reclamo. Quem acorda essa hora devia voltar pra cama.
— Mas se eu volto, ninguém paga as contas — ele respondeu, dando um beijo na bochecha dela antes de morder o pão.
Era assim todos os dias. Tailan podia ter uma vida corrida, uma agenda que quase o esmagava, mas sempre encontrava tempo pra ela. A mãe era tudo o que ele tinha. O pai? Nunca conheceu. E, sinceramente, nem fazia questão.
Às seis e meia, ele já estava em cima da moto, a 150 vermelha que a mãe havia conseguido comprar com o dinheiro de um benefício acumulado. Foi o presente de aniversário pelos 19 anos.
“— Tu merece, meu filho. Só não vai morrer de acidente, pelo amor de Deus”, ela tinha dito, enquanto entregava a chave como quem entrega um pedaço do coração.
Ele usava a moto como extensão do próprio corpo agora. Rodava Bahia Crystal como se conhecesse cada canto, cada rua com nome de flor, cada curva traiçoeira. O serviço nos correios era puxado, mas dava uma sensação de liberdade. O vento no rosto, o ronco do motor, as cartas organizadas na mochila... Era quase poético.
Na central, o movimento começava devagar. Ele já conhecia todo mundo ali, desde os carteiros mais antigos até o porteiro que vivia reclamando da vida. Cumprimentou alguns colegas, pegou a rota do dia e foi surpreendido por uma voz nova.
— Mey, certo? Tailan Mey?
Ele se virou e quase esqueceu de responder.
Ali estava Jefferson Augusto. Segundo chefe da central. Camisa social clara, mangas dobradas até o cotovelo, cabelo cacheado cortado baixo dos lados e um olhar firme, mas educado. Moreno escuro, corpo forte, mas sem exagero. E alto. Tão alto quanto ele.
— Sou o Jefferson. Vamos nos ver bastante por aqui. Pontualidade e foco, beleza? É disso que eu gosto.
— Sim, senhor. — Tailan respondeu num tom automático, mas o “sim, senhor” ecoou nele de um jeito esquisito. O tipo de jeito que fazia o peito aquecer e a garganta secar.
Saiu da central com a cabeça girando. Tentou esquecer aquilo. Não podia dar espaço. Jefferson era seu chefe. Um homem. E ele... ele não podia se permitir. Não aqui. Não agora.
As horas de trabalho passaram voando. Quando deu meio-dia, ele voltou pra casa, almoçou rápido com a mãe — feijão, arroz, ovo frito e couve refogada —, e partiu pra faculdade.
Estava no segundo semestre de Direito na estadual. Era um curso puxado, exigente, mas ele gostava. Gostava de aprender sobre justiça, de imaginar que um dia poderia ajudar gente como a dele, do bairro, da quebrada. Gente que não tinha voz, nem vez.
A aula foi intensa. Leitura de jurisprudências, discussão sobre a Constituição, seminário sobre direitos fundamentais. E mesmo exausto, Tailan se manteve atento. A educação era o único passaporte que ele via pra um futuro mais digno.
Quando o relógio marcou 18h50, ele já estava a caminho do terreiro. A gira daquela noite seria de Caboclo, e seu coração vibrava só de pensar.
Chegou no espaço sagrado com respeito. Cumprimentou cada irmão e irmã de fé com um sorriso sincero. Trocou de roupa, colocou o branco, amarrou a guia com reverência e entrou no salão. As velas acesas, o cheiro de ervas queimando, o som do atabaque... Era ali que ele se sentia inteiro.
Durante a gira, o corpo de Tailan dançava com firmeza. O espírito, leve. Ele se entregava, rezava, cantava, e quando o Caboclo se manifestou nele, foi como se a energia da floresta tomasse seu peito. Era força, era raiz, era ancestralidade pulsando em cada passo.
Naquele espaço, ninguém julgava. Ali, ele era só ele. Filho de Oxum. Filho de Maria. Filho do mundo.
Quando a gira terminou, já passava das dez da noite. Tailan voltou pra casa com a alma limpa, mesmo que o corpo estivesse moído.
A mãe já estava deitada, mas deixou a luz da sala acesa. Ele entrou, tirou os sapatos, pegou um copo d’água, e foi até o quarto. Sentou na cama, respirou fundo e sorriu.
Era só o começo. Mas alguma coisa dentro dele dizia que aquele dia... tinha sido diferente. Jefferson, o olhar dele, a energia estranha entre os dois — aquilo não era normal.
Ele só não sabia ainda o quanto tudo isso ia mudar sua vida.
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