O Primeiro Segundo da Eternidade
1 I -Como Rá trouxe o sol
Faraós do passado petrificados no vasto e frio salão imortalizados e superiores ao tempo pairando, deuses gélidos e distantes. Ozymandias os analisava com certa frequência sempre que pudera. Era obcecado com tal lugar desde sua infância quando seu pai o trouxera.
O salão dos faraós não ficava em outro lugar que não sob o palácio real. A glória daqueles que um dia governaram o que parecia ser o mundo e trouxeram grandeza. Ozymandias conhecia cada faraó, de cada dinastia conhecida. Sabia seus nomes como se eles com ele falassem e quisessem sobreviver ainda que em sua mente.
Os grandes que pisaram sobre as areias nas quais agora ele caminhava. Estáticos... Sublimes. Ali, o jovem príncipe refletia sobre a vida e sua natureza inconstante bem quanto ao mundo como ele conhecia.
Sentia que cada um dos faraós que já viveram um dia olhavam em sua alma.
Horemheb, seu pai, ali o encontrara naquele dia.
— Contemplando novamente governantes que mais nada tem a governar? — Indagava-se o faraó, movendo-se lentamente com sua túnica de linho, adornada com ouro em seu peitoral.
— Não é importante olhar para o que eles fizeram meu pai? — Retrucou Ozymandias com sua famosa arrogância. — Afinal é sobre o que eles construíram que reinamos.
— Oh sim, — Apressou-se o faraó. — O trono de ouro sobre o qual me sento foi erguido pelos faraós do passado. Mas onde estão seus corpos agora se não mumificados em grandes mausoléus com adornos de ouro construídos por milhares de escravos. Pois bem te digo, carne da minha carne, que de nada interessam as riquezas deste mundo ilusório. As maiores pirâmides de nada serviram se não para atiçar a vaidade de corpos decadentes. Pois o mais rico e o mais pobre tem o mesmo fim. O corpo desmorona.
— Mas aos grandes é dada a honra de serem lembrados para sempre. — Retrucou novamente o jovem príncipe.
— Não se engane, Ozymandias. O tempo derrota a todos no final. — O faraó então o convocara. — Subamos, tenho anúncios a fazer.
E assim ambos fizeram. O salão faraônico estendia por metros a fio. Em seu centro Horemheb sentava-se erguendo seu cetro — heqa, — e em sua cabeça o pschent — a coroa dupla branca e vermelha. Os sacerdotes de Amon, Rá, Ptá e Seti permaneciam ao lado do faraó direito do faraó. Seus filhos, Amenófonis e Ozymandias, bem como generais e alguns representantes provinciais permaneciam ao lado esquerdo.
Servos e servas se encontravam a disposição carregando comida, água, vinho e o que mais fosse necessário. Ali o faraó atendia aos casos que demandavam sua atenção.
— Meu primôgenito, aproxime-se. — Ordenou o faraó. Amenófonis ajoelhou-se diante do trono que se estendia atráves das escadas a cerca de três metros de altura entre dois gigantescos pilares circulares. — Amenófonis me trouxe boas novas. Sua esposa, Hathsepsuth, carrega consigo aquele que será meu primeiro neto.
Sarcedotes e generais igualmente felicitaram ao faraó por tamanha felicidade.
— Meu filho mais novo, aproxime-se. — Ordenou novamente o faraó. Ozymandias ajoelhou-se diante do trono ao lado de seu irmão. Ambos não poderiam ser mais diferentes. Amenófonis era alto, de pele mais clara. Ozymandias, por outro lado, era baixo, porém muito forte. Sua pele mais escura, tanto que ganhara o apelido de Ozymandias, o negro. — Tens 17 anos desde seu nascimento e com muito cuidado escolhi pra ti uma novia adequada. Tua prima Nefertari de Mehet, virá do Baixo Egito para casar-te contigo. Ela já sangrou e trará para ti a mesma honra que agora tem o teu irmão.
Ozymandias assentiu. Vira Nefertari apenas uma vez quando ela ainda mal andava. Agora seria sua primeira esposa, com quem formaria sua família.
Mas não era o olhar de Nefertari que Ozymandias desejava. Sua futura esposa estava a meses de distância, enquanto aquela que despertava suas paixões se encontrava ali mesmo no salão de seu pai. e era o olhar dela que ele procurava.
Isitnefert tinha sua idade, porém era apenas uma serva. Possuía olhos castanhos profundos como os de uma serpente. Era a mulher mais linda que o jovem príncipe já vira e era a companhia constante de suas conversas.
Todo dia em segredo ele a procurava ao raiar do sol e conversavam até terem de voltar para seus afazeres. Conversavam sobre o tudo e as vezes sobre o nada. As vezes apenas se olhavam como se fossem amantes distantes em tempos de outrora. Em silêncio se despediam como se já tivessem dito tudo o que precisavam apenas com o olhar.
— Quando o sol raiar. — Prometia Ozymandias, — Estarei aqui para te ver.
— E se Rá decidir que o sol não deve surgir amanhã? — Indagava Isitnefert, com temor e ingenuidade.
—Então eu mesmo irei para Mehet e lutarei contra o próprio Rá para que o sol se erga novamente.
E assim ele a cativava.
Mas agora... Seu pai planejava seu casamento com uma egípcia pura como deveria ser e não uma serva. E o olhar que o jovem príncipe encontrava era o de uma mulher desolada. Rá trouxera um novo dia e para castigá-lo uma nova mulher.
Em silêncio ele se ergueu junto com seu irmão.
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