O Primeiro Guardião

4 𝓒apítulo 3 : Rupturas


A criatura continuava avançando, Estela ainda não conseguia se mexer, ainda estava presa nas amarras do medo.

Grrrrr!

Outro rosnado atrás dela finalmente a fez sair do transe, ela se mexeu para olhar para trás, mas antes mesmo de completar o movimento outro monstro, semelhante ao que já corria em sua direção, esbarrou nela, as garras arranhando o braço dela.

As garras rasgaram a pele, o ferimento ardeu instantaneamente, fazendo Estela soltar um grito surdo e horrorizado. O outro braço se moveu para esconder o ferimento, que sangrava demais para um corte superficial. Entretanto seus olhos foram para os monstros à sua frente. Eles não colidiram. O que a arranhou pulou sobre o outro, agarrando os ombros monstruosos com aquelas garras enormes, o derrubando, as patas dianteiras o forçando contra o chão, arranhando a cintura do outro.

Eles rolavam contra o chão, era como assistir a luta de cães raivosos.

Estela parou de olhar tudo aquilo quando percebeu que um dos monstros literalmente batia brutalmente a cabeça do adversário no asfalto após conseguir subir novamente em cima dele. Ela pegou as sacolas que já tinham caído no chão a muito tempo e se virou, abandonando os dois seres para simplesmente começar a correr.

No primeiro passo, ela quase tropeçou, mas não parou, se agarrou na parede e voltou a tentar correr, a ardência do corte e a dor do impacto no ombro a deixando hiper ciente de tudo ao seu redor — os rosnados de um, as lamúrias do outro, o frio contra sua pele, o súbito silêncio.

Ela gemeu de decepção, prevendo a morte, ela empurrou a parede, as pernas tremendo enquanto ela tentava acelerar. Algo arfava atrás dela, o barulho das garras raspando o asfalto cada vez mais perto dela. Estela praguejou.

— Merda, merda, merda! — ela conseguiu dizer, ainda cambaleando com as sacolas.

Aquele monstro estava tão perto que ela sentia as lufadas de ar sobre sua cabeça, mentalmente ela implorava por uma morte rápida.

Mas o que veio não foi uma mordida, nem um soco.

O monstro simplesmente a segurou nos braços, o que provocou um grito horrorizado de Estela. O monstro reclamou, com um lamúrio semelhante ao de um cachorro.

Ela não teve muito tempo para pensar, nem conseguia — pelo mais incrível que pareça.

Em poucos segundos ela estava no próprio quintal de casa, respirando pesadamente, o monstro a colocou no chão, olhou literalmente nos olhos dela e apontou o focinho para a porta. Estela prendeu a respiração, mas seguiu, tremendo, procurou as chaves nos bolsos. As achou rápido, mas não conseguia achar especificamente a da porta no molho de chaves.

Ela olhou para trás tremendo, o monstro ainda estava lá, a encarando com um rosnado que fez o peito dela vibrar.

— Já vai, só mais um segundinho... tudo bem? — Ela tentou sorrir, se virando para a porta, finalmente sentindo o frio do metal das chaves em sua mão.

Achei!

Ela encaixou na fechadura e girou, um clique anunciando que a porta estava aberta. Estela entrou sem pensar duas vezes. Bateu a porta tão rápido que o som ecoou pela casa toda. Então ainda trêmula, se virou para encarar a porta, esperando algo: batidas, rosnados, qualquer coisa. Mas não aconteceu nada, sequer passos se afastando. Ela suspirou, enfiou a chave na fechadura novamente e girou até trancar.

Ela respirou fundo, tentando se acalmar, mas até sua respiração tremia. Ela se virou para encarar o corredor de casa, lembrou dos pais...

Mas a casa estava em silêncio.

Estela deixou as cervejas no chão, e caminhou lentamente até a sala onde seus pais estavam antes, no meio do caminho ela encontrou o pai, dormindo no sofá, o ronco pela primeira vez baixo. Ela suspirou em alívio.

Mas ela tornou a caminhar, indo até o quarto da mãe. Assim que chegou a porta, a morena respirou fundo e girou a maçaneta com lentidão. Suzane dormia também, mas a janela estava aberta. A garota sentiu uma batida desgovernada no coração, seus olhos encarando com terror a janela, ainda parada na porta, esperando que talvez aquele monstro voltasse, seu corpo estava paralisado de novo.

O que a tirou daquele transe dessa vez foi o ronco do pai na sala, que foi tão alto que fez Estela se mexer para frente, pronta para correr. Finalmente ela agiu, olhou para o pai uma última vez para confirmar que o som veio dele, e entrou no cômodo encarando a janela com cautela e enquanto se aproximava lentamente. Assim que chegou, a fechou com um baque surdo. Entretanto, ela continuou olhando para fora.

Não aconteceu nada.

Então a cacheada puxou as cortinas com força.

Sua mãe só roncou mais alto, e se remexeu na cama.

Estela não ficou mais tempo ali porque enquanto encarava a escuridão, mais se lembrava do monstro, do medo. Saiu do quarto e foi para o banheiro. Assim que fechou a porta seu corpo finalmente relaxou mais, como se o pico de adrenalina tivesse abaixado pelo simples fato de estar levemente mais segura, mesmo que ilusoriamente.

Finalmente a dor veio. Os músculos das pernas começaram a ceder, a fazendo se escorar na porta, literalmente derretendo contra o chão. O ombro no qual o monstro esbarrou? Destruído, doendo tanto que levava a dor até o pescoço. O corte ardendo tanto que parecia que jogaram vinagre sobre.

Ela encolheu as pernas deixando os joelhos e o peitoral próximos, os abraçou e olhou em volta, como se precisasse ter mais uma confirmação da sua solidão. Ela parou para pensar.

O desespero de semanas. Os sonhos que prometiam a morte. Aqueles dois monstros.

Seus ombros tremeram com os primeiros soluços. Tudo saiu em lágrimas quentes e grossas, pingando sobre seus joelhos e coxas. Estela fechou os olhos, mas a única coisa que conseguia ver aquele monstro horrível correndo em sua direção, a baba escorrendo como se ele estivesse ansioso para matar ela. Então abriu os olhos.

Ainda tinha o outro monstro. Pensando bem, buscando a imagem na memória, o monstro que esbarrou nela era diferente do primeiro que ela viu. O primeiro era mais escuro, e tinha pelos falhos tanto por cicatrizes quanto por pelos ralos, além de ser muito mais magro que o outro.

O outro, aquele que a arranhou, tinha pelo mais puxado pro castanho, tinha o pelo mais cheio e pelo o que ela se lembra de o ter por perto enquanto ele a carregava, era mais musculoso.

Era como se esse de pelagem acastanhada estivesse a protegendo desde o início. Se não fosse pelo impacto e pelo corte, ela não teria saído do transe. E o corte sequer foi o de um monstro raivoso.

Esses pensamentos só serviram para a deixar mais confusa.

Ele a defendeu? E ainda a deixou em casa?

Não podia ser aquilo, podia?

Então respirou fundo, tentando recobrar a plena consciência.

Estela olhou para o lado, se lembrando de sua "janta", um X-Tudo que encarou monstros e um banheiro. Ela conseguiu rir, mas não pegou a sacola, simplesmente se levantou, e encarou no espelho seu reflexo bagunçado e lacrimoso.

A morena suspirou, mas não fechou os olhos novamente. Mesmo com sono, tudo aquilo a deixava com tanto medo que ela provavelmente não conseguiria dormir. Ela limpou as lágrimas com o pulso bom, se virando em seguida para olhar o ferimento no braço.

Não era um corte muito profundo, o sangue nem escorria mais. Mas era nítido que deixaria uma grande cicatriz em sua pele. Ainda ardia como se fosse recente.

Decidiu cuidar do ferimento. Se abaixou, pegou dentro do armário gazes e álcool 60%. Assim que ergueu o corpo novamente e se viu no reflexo do espelho, agora com mais atenção, reparou no quão irreconhecível estava. Cachos emaranhados, pele úmida, olhos inchados. Com um suspiro, ela voltou a atenção para o ferimento. Virou o álcool sobre o machucado, fazendo uma careta de dor instantaneamente, reprimiu um grito de dor cerrando os dentes. Álcool e sangue pingando sobre a pia branca do banheiro.

Ela deixou arder. O importante era não perder o braço. Mesmo que seu queixo tremesse de dor.

Assim que foi suportável se movimentar, ela pegou as gazes desenrolando parte e posicionando uma ponta sobre o ferimento, enrolou em toda a extensão do ferimento. Cortou as gazes com os próprios dentes, e se abaixou novamente para pegar esparadrapo, passando pelas extremidades da gaze para manter o curativo no lugar.

Deixou tudo jogado no banheiro, a bagunça do curativo, o sangue misturado ao álcool na pia. Apenas pegou o X-Tudo ainda empacotado para viagem. Mesmo que ela quisesse simplesmente voltar para o quarto, acabou indo até a porta da frente novamente, verificar que estava trancada mesmo, girou a chave até não conseguir mais, unicamente para ter certeza de que eles estavam mesmo "seguros". Se é que isso era possível.

Estela se afastou lentamente da porta, tentando evitar barulhos. Mas ainda não era suficiente. Eles ainda não estavam seguros ali. Então ela voltou a verificar, ela verificou cada janela, certificou-se que todas estavam trancadas e só quando confirmou isso foi para o próprio quarto.

Quando abriu a porta, se lembrou de ter fechado tudo antes de sair... significava que estava tudo seguro ali. Foi como se um peso saísse de suas costas.

E ela podia ter ido para a cama, podia comer na mesa que usava para estudar. Mas simplesmente não conseguia. Ela ficaria vulnerável, com as costas como ponto fraco.

Estela sentou no chão para comer e relaxou um pouco. Simplesmente se sentia mais confortável ali, onde tinha visão para todo o quarto.

A noite se seguiu assim, ela sentada lá, pensando em tudo aquilo mais uma vez. Repassou cada detalhe que ela conseguiu revisitar sem se sentir paranóica, sem ficar encarando a janela do próprio quarto como se um monstro terrível fosse pular pela janela para a estraçalhar.

Sinceramente, ela não queria pensar que monstro era aquele que a tentou atacá-la.. Mas podia imaginar. O pior era que Estela sempre teve pavor de lobisomens. Ela se lembrava até hoje do terror que sentiu quando seu pai a fez assistir o clipe de Thriller do Michael Jackson.

Na verdade, assim que o pai soube que a filha caçula tinha medo de lobisomens, o homem fez questão de mostrar homens se transformando em lobisomem. Toda noite de lua cheia fingir que tinha um lobo uivando para a lua — ele até tentou a convencer de que ele era um lobisomem.

Aquele medo profundamente enraizado nasceu quando ela tinha sete anos, ela se lembrava ainda. Era uma aula sobre folclore brasileiro, e a professora estava passando um vídeo sobre a versão brasileira da lenda. O vídeo em si era bem simples, o problema era que em alguns trechos apareciam fotos horríveis de lobisomens, que na época, causaram terror na pequena Estela.

O ar fez falta nos pulmões da garota, que tentou bruscamente puxar o ar de volta. Ela não percebeu que tinha prendido a respiração. Um breve tremor passou por sua espinha. Mas o que mais importava, era que tudo que Estela achava ser mentira, virou realidade do dia para noite. E não podia ser verdade. Esse era o problema. Era impossível existir lobisomens na vida real... certo?

Estela divagou assim até os primeiros raios de sol brotarem, quando ela ouviu a mãe e o pai conversando na cozinha, o suave barulho de panelas batendo a lembrando do som familiar de casa.

Seus olhos começaram a pesar, finalmente, como se o corpo saísse do estado de alerta. Seu corpo estava cansado demais. E ela só precisava relaxar.

Seus olhos se fecharam finalmente, sua cabeça esquecendo de tudo apenas para focar na escuridão dos olhos se fechando.

Ela nem reparou na porta do quarto abrindo.

— Estela? — A voz de seu pai foi alta demais.

Estela, que não dormiu um segundo sequer, abriu os olhos, ainda no chão, ela não tinha forças para se mexer. Era como se seu corpo simplesmente não obedecesse e estivesse pesado demais.

— Bom dia... — ela praticamente gemeu as palavras, antes de bocejar.

— O que você está fazendo no chão?!

Seu pai, Luis, estava claramente irritado, o que chamou a atenção de Suzane, que saiu da cozinha para ir ver o que estava acontecendo. Assim que chegou no quarto, e viu sua filha no chão, a preocupação transbordou, seus olhos indo para o curativo mal feito no braço dela.

— Filha? O que aconteceu com seu braço?!

A mais nova não respondeu nada, só deixou a cabeça pousar em seus próprios joelhos..

— Pai... me leva pra cama...? Não consigo me mexer...

Ambos os adultos se entreolharam, e então Luis pareceu se acalmar, murmurando um "Claro, filha", antes de se aproximar para carregá-la até a cama.

— Desculpa...

Foi só o que Estela se lembra de ter dito antes de cair no sono.