O Primeiro Amor de um Garoto
2 Cap. 2 - Caldos de Praia.
Notas iniciais
15/10, Domingo, às 20:15 — Casa.
Aqui eu mais uma vez! Cheguei quase agora da praia. A praia é aqui pertinho e eu normalmente chego mais cedo, hoje não deu porque ela estava lá. Lavínia. Torço sempre pra que ela nunca troque de biquíni, pois aquele vermelho... JESUS! Saí daqui de casa umas 3 horas da tarde, junto com Tiago e Sara. Mas como é de costume, minha irmã tem que fazer o chilique dela.
— Sara, não adianta. Vai levar ele sim! – Minha mãe gritou do portão.
— Ah, manhê! Eu vou tá com a galera.
— E o que isso tem? Ninguém da "galera" tem irmão, não?! Vai ser com seu irmãozinho e o amigo dele. – Dando a ultima palavra ela entrou pra casa.
— Droga, pirralho! Vem logo! – Gritou Sarah.
— Cala a boca Sarah, eu também não quero ir com você! – É uma mentira, porque eu quero chegar perto da amiga dela.
***
Quando colocamos o pé na areia, virei um completo desconhecido pra minha irmã.
— Cara, a sua irmã se acha. – Disse Tiago quando Sarah estava longe. Concordei com ele.
Depois fomos logo para o objetivo: Sentar num cantinho isolado em cima de uma pedra alta. É, eu sei, não é muito animador, mas acredite que pra nós dois isso é irado! Outro dia vimos um bebum só de cueca com uma garrafa de 51 na mão, cantando com a fala enrolada "Ó querida, Ó querida, Ó querida Clementina!". Nos mijamos de rir!
Mas o meu objetivo não é ver gente pagando mico. Eu tenho a Lavínia agora. Quer dizer, não de "ter" no sentido literal, quem me dera...
Hoje ela usava o biquíni vermelho, os cabelos negros presos num coque e uma canga estampada amarrada na cintura. Com facilidade era a garota mais bonita da praia. Franzi a testa ao ver um garoto, da mesma turma dela, fazia de tudo para tocá-la, mas de forma sútil, brincando de fazer cócegas. Mas eu sei que ele não estava de brincadeira. Queria ir lá e mandá-lo para o meio do mar junto com Titanic. Ri de mim mesmo apenas com a ideia. Olha só pra mim, sou apenas um moleque magricela. Eu iria tomar uma surra pior que a da minha mãe.
— Cara, dá um tempo! Você fica secando de um jeito que parece que vai comer a garota. – Disse Tiago, fazendo careta.
— Não tô não! – Mentira. – Espera, que cheiro é esse? Baunilha?
— É, comecei a fazer a barba hoje de manhã. – Disse ele, alisando o queixo.
— Mas você nem tem barba! – Exclamei.
— Mas tenho pelo no saco! Eu percebi que já está na hora de eu virar homem, porque, se um mané que nem você já beijou uma garota, quer dizer que já passou da minha hora.
— Que besteiras você tá falando? O mané aqui é você e foi ela que ME beijou. – minhas bochechas arderam ao admitir isso em voz alta.
— E? De qualquer maneira teve beijo. Mais ainda, está afinzão dela. – Disse, apontando o dedo pra mim, mas depois dando de ombros quando eu não respondi. O que eu posso falar? É a verdade. — Ei, olha ali. – Tiago apontou para os garotos correndo atrás do professor com a prancha de surf embaixo do braço.
— Maneiro.
— E se agente entrar pro curso? – Sugeriu Tiago.
— Acho melhor não. Você fica caindo toda hora e entupindo os ouvidos com água. – Respondi, dando de ombros.
— Ah, cara, vamos! É um jeito de arrumarmos umas gatinhas. – Tiago parecia mais empolgado a cada instante.
— Então vai lá você. – Falei.
— E o nosso pacto de amizade? Se um arrota, o outro arrota também, se um peida, o outro peida também.
— Que pacto é esse? Isso é nojento. – Falei, mas rindo também.
— Oi, meninos... – Ouvi a voz mais doce vindo atrás de mim.
— Meu! – Tiago conseguiu dizer.
— O que... – Perdi a fala quando virei o pescoço. Primeiro vi duas pernocas lindas e molhadas, depois a parte de baixo de um biquíni vermelho, logo o umbigo mais perfeito, e então os seios mais redondos e lindos presos pelo biquíni. Por um instante eu odiei aquela peça de roupa.
— Aram... – Lavínia coçou a garganta, obviamente constrangida. Rapidamente subi o olhar para o rosto dela. — Tudo bem com vocês? Eu só vim dizer um Oi pra vocês.
— Tchau, ham, quer dizer, Oi. — Sério, eu tenho que ganhar o premio de idiota do ano. Pelo menos ela sorriu.
— E aí, o que fazem por aqui? – Posso estar sendo um pretensioso, mas tenho que essa pergunta foi só pra mim.
— Hã, é... – Eu empaquei. Não poderia dizer que ia ali só para ficar observando-a de longe que nem um perseguidor. Dei uma cotovelada de leve no meu amigo em busca de ajuda.
— Surf! Isso, a gente veio surfar! – Tiago disse, me deixando com o queixo no chão.
— Sério, que legal! Particularmente eu adoro, o que é engraçado já que eu não sei surfar. – Disse, mudando a posição o peso do corpo de um pé para o outro, fazendo a parte de cima do biquíni ceder um pouco. – Mas por que vocês ainda estão aqui? Cadê a prancha?
— Ah, é que ainda vamos começar. Hoje estamos só olhando. – Respondi.
— Entendi. Bom, eu vou indo. A gente se vê, Luquinhas.
Melhor do que ela ter dito o meu nome, foi ela ter piscado antes de ir. Fiquei tão feliz que nem lembrei de brigar com Tiago pela escapada estúpida dele. Agora vou ter que realmente fazer aulas de surf! Lavínia gosta de surf, então surfarei. Não posso discordar da garota que eu gosto.
Tudo isso é muito estranho. Até mês passado o meu mundo era o vídeo game, minha coleção de carrinhos e o futebol com a galera. Agora eu só penso nela. No começo eu não entendi o que estava acontecendo, sou estúpido, e nunca tinha me interessado por garotas. Demorei para sacar que eu estava afim da amiga da minha irmã.
Pedi a minha mãe a verba para o curso de surf na praia. Ela adorou, disse que vai ser ótimo eu ter um hobby além de colecionar carrinhos colecionáveis. No dia seguinte tratamos com o professor, que por ironia do destino era o bebum do outro, porém eu não contei a minha mãe isso se não ela não iria deixar. Carruna o nome do cara.
Hora do jantar, fui.
16/10, Segunda às 15:20 — Casa.
Hoje é a minha primeira aula de surf! Espero que Lavínia esteja lá. Ou não, será vergonhoso se ela me ver tomando caldos. Já vou indo porque Tiago está cansado de esperar no portão.
16/10, Segunda às 17:40 — Casa.
Por que tenho que escrever nessa porcaria? Que saco! Tudo, tudo isso é uma merda!
16/10, Segunda às 18:55 — Casa.
Tá, talvez eu que seja uma droga.
16/10, Segunda às 21:10 — Casa.
O meu dia até que começou legal, minha mãe obrigou Sarah a me acompanhar até a escola. Não reclamei por ser taxado de criança-que-precisa-ser-levado-a-escola dessa vez, porque escutando quando Lavínia pediu por telefone a Sarah se podiam ir juntos para a escola. Então eu peguei o bonde e fui com elas.
Mesmo que o assunto das duas eram só coisas chatas do tipo maquiagem, cólicas e roupas, para mim, tudo o que saia da boca dela era interessante.
— E você, vai ficar quietinho sem dizer nada? – Lavínia perguntou de repente para o menino encolhido (que sou eu), surpreendendo os irmãos.
— Ham... – Não consegui articular nada, ela estava me encarando com aqueles olhos de cor de avelã, vestida com o mesmo uniforme que usava quando me beijou.
— Deixa esse chato pra lá, amiga. – Disse Sarah-Chata, estalando a língua.
Lavínia fez uma careta, mas resolveu ignorar minha irmã. — Quando começa suas aulas de surf?
— H...hoje.
— Legal, vou estar com a galera, mas também de olho em você, ok? – Disse, terminando com uma piscadela.
Dessa vez o meu rosto inteiro queimou! Sarah, impaciente por não ser o centro da conversa, puxou Lavínia para frente, nos forçando a retomar o passo.
***
Cheguei em casa apressado, quase nem mastigando o lanche de tanta pressa para ir. Lavínia disse que iria estaria lá me observando. Não tem incentivo melhor que esse. Tiago, doido para atrair "gatinhas", estava pior do que eu, me esperando no portão da minha casa.
Quando começamos a aula, não teve nada maneiro. Tivemos que colocar as pranchas no chão, na areia mesmo, e deitar sobre ela. Depois fazer os movimentos com os braços, como se tivesse nadando. Só que sem água. Na areia. Tenho certeza que parecíamos dois bocós. Por sorte Lavínia ainda não tinha chegado.
Quando ela chegou na praia com seus amigos, já estávamos indo para o mar. Não consegui ficar em pé na merda da prancha de jeito nenhum. Tá, em parte a culpa era minha que não tirava os olhos da garota mais bonita do lugar. Levei muito caldo, muita pranchada no pau e ainda engoli muita água salgada.
E nada de ela olhar na minha direção! Eu não queria que Lavínia me visse passando vergonha, porém preferiria não ser ignorado. Será que ela estava só brincando quando disse que observaria o meu surfe? Um pouco desgostoso, acumulei determinação e concentrei-me na prancha. Eu iria dominar aquela coisa! Nadei para longe da areia, procurando uma onda. Quando avistei uma, fui em direção a ela. Tremendo um pouco, consegui ficar em pé e pegar um pouco da onda. Arrisquei olhar para o lado e vi Lavínia olhando para mim, sorrindo. E aquele sorriso foi fatal. Me desequilibrei e caí que nem merda na água. Encontrei com Tiago quando saí da água.
— Cara, você tinha que ver a sua cara de idiota quando caiu! – Disse Tiago, rindo aos montes.
— Não enche – Reclamei. — Pelo menos eu tentei. Você, idiota como é, só ficou no raso.
— Não fiquei nada! Além do mais eu gosto de viver. E se eu me afogasse? Eu não quero que aquele pingunço barbudo do professor venha fazer uma respiração boca-boca em mim.
Rindo, sentamos no nosso lugar de sempre na maior pedra do conjunto de pedras de toda a praia. Não demorou muito e eu já estava procurando Lavínia com o olhar. Ela estava sentada em cima da sua canga, conversando com seus amigos. De repente nossos olhos se encontraram. Tentei desviar, mas era tarde demais. Ela me chamou com o dedo. Me ajeitei (embora não tivesse nada para ajeitar), inflei o peito e fomos até lá.
Duas garotas lindas estavam sentados ao seu lado, que Tiago não se incomodava em esconder o interesse.
— E aí. – Falei, tentando parecer um garoto descolado.
— Oi. Meninas, esse é o Luquinhas, irmão da Sara. – Ela apresentou — E este é Tiago, o amigo fofo dele. É Tiago mesmo né?
— Aham. – Respondeu Tiago, praticamente babando em cima das meninas. Dei uma cutuvelada nada discreta nas costelas dele. — Ai.
E foi aí que as coisas começaram a desandar. Aquele garoto, o exibido, que fica arrumando pretextos para tocar em Lavínia apareceu, saindo da água com uma prancha debaixo do braço, parecendo um colírio das revistas da Sarah.
— Fala aê, moleques.
— E aê. – Disse o garoto que o acompanhava, igualmente descolado.
Não vou mentir, eles me intimidaram. Vou causar risadas se alguém tentar comparar os nossos físicos. A diferença é latente. O mais alto, Diego, começou a dar dicas di Surf, rindo e balando aquele cabelo preto espetado com luzes douradas no topete. O outro era um pouco mais magro, cabelo louro escuro. Carlos o nome dele.
— Cara, o negocio é se concentrar só na prancha e esquecer a onda. – Diego deu a dica.
— Você podia aprender com ele, Lucas. Diego é um ótimo surfista. – Lavínia disse, sorridente.
Quando menos esperei, o ar foi roubado de meus pulmões. Diego se curvou o corpo e puxou Lavínia num beijo de língua (infelizmente deu para perceber). Lavínia empurrou ele, protestando. Ela ficou envergonhada, me encarando e depois desviando o olhar. Repetindo a mesma sequencia por três vezes. Não consegui mais ficar ali. Dei uma desculpa esfarrapada e fui embora. Tiago me seguiu, preocupado achando que eu poderia me jogar na frente de um ônibus. O caminho para casa foi silencioso. Tiago não tentou puxar assunto. Acho que ser amigo é isso, apoiar em silencio quando é preciso.
///
Entrei no quarto chutando tudo que via pela frente, o que só contribuiu para piorar a bagunça. Tentei escrever no caderno, mas não conseguia ficar parado. Eu estava espumando de raiva. Aquele desgraçado filha da puta beijou a garota dos meus sonhos. Um beijasso na boca! Os lábios mais belos de toda a história. Cansado de sentir raiva, tomei um banho e fui assistir tevê na sala. Numa parte boa de um dos meus desenhos preferidos, a campainha tocou.
— Oi... – Disse, a garota mais bonita de todas.
— Olá..., quer dizer, Oi.
— Hum, eu posso entrar? – Perguntou ela, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Eu já disse que as orelhas dela são perfeitas? Pequenas e fofas.
— C..CLARO! – quase gritei. — Mas a Sarah ainda não chegou do Shopping com a minha mãe.
— Tudo bem, eu não vim pela Sarah. – Disse, escondendo um sorriso. — Que desenho é esse? — Perguntou, apontando para a tevê após se sentar no sofá.
— Sei lá, só estou passando pelos canais. Nem gosto de desenho. – Menti.
— Sei. – Disse, num tom que sabia perfeitamente que eu estava mentindo. — Sabe, sobre mais cedo... Ele, Diego, não é o meu namorado. – Ela encara nervosamente o dedos das mãos que descansavam em seu colo.
— Saquei. – Respondi, seco, não conseguindo esconder o mau humor nas palavras. Se não era, por que ele simplesmente beijou ela? Tão naturalmente.
— Você não viu porque foi embora, mas eu bati muito nele depois daquilo. Diego é só um idiota que sai beijando todo mundo.
— Mas vocês são amigos, né?
— Sim, faz pouco tempo que me mudei para o bairro e ainda tenho poucos amigos. Mas isso não lhe dá direito de me agarrar e fazer uma coisa daquelas. Quero dizer, só quem eu dou permissão.
Sim, mas ele não tem direito de me agarrar e fazer um coisa daquelas... Só quem eu dou permissão.
— Permissão?
— É – Ela deu de ombros, despojada. — Por exemplo, quando eu tomo a iniciativa para um beijo, o garoto sabe que tem carta branca. – Lavínia riu, um pouco encabulada, mexendo mais ainda os dedos.
— Tanto faz, quer dizer, quem você beija não é da minha conta, não é? – Falei, nervoso.
— Aham. E é uma pena.
Lavínia inclinou-se para mim e depositou um beijo na lateral do meu pescoço. Se despediu e foi embora. Só de lembrar eu me arrepio todo! Agora que eu tenho que ir, fui.
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