O Preço do Pecado

26 O Julgamento do Lobo



​A chuva torrencial que caía sobre Chicago naquela madrugada parecia lavar o sangue das calçadas, mas no subsolo de um frigorífico desativado na zona norte, o ambiente era abafado, denso e fétido. O cheiro de carne podre misturava-se ao odor metálico de sangue fresco.

​No centro do galpão, amarrado a uma cadeira de ferro aparafusada no chão de concreto, estava Viktor Petrov. O herdeiro do clã russo já não lembrava o homem arrogante de dias atrás. Seu rosto era uma massa disforme de hematomas, o olho esquerdo estava completamente fechado pelo inchaço e a camisa de linho branca estava rasgada, ensanguentada e grudada à pele.

​Heitor Laurentis estava de pé, a poucos passos da luz fraca de uma lâmpada que balançava sobre a cabeça do russo. Ele havia tirado a jaqueta de couro; vestia apenas uma camiseta preta justa, gasta e manchada. Seus braços maciços e tatuados exibiam as veias saltadas, e as mãos, cobertas por bandagens pesadas, seguravam uma barra de ferro maciço. O olhar castanho de Heitor estava completamente vazio. Não havia raiva, não havia pressa. Havia apenas a frieza de um carrasco.

​Romeu estava encostado na parede de azulejos descascados ao fundo, com os braços cruzados, observando em silêncio. A ignorância e a brutalidade dos Laurentis haviam chegado ao seu ápice.

​Viktor cuspiu um gole de sangue no chão, soltando uma risada fraca, tossindo em seguida. — Você... você demorou, Laurentis. Achei que o grande lobo de Chicago fosse mais rápido no faro.

​Heitor deu um passo à frente. O som de suas botas pesadas contra o concreto ecoou como uma sentença de morte. Ele bateu a ponta da barra de ferro no chão, provocando um estalo metálico agudo.

​— Eu não estava com pressa, Petrov — Heitor disse, a voz grossa, ríspida, perfeitamente calibrada na escuridão. — Eu queria ter certeza de que cada soldado seu, cada galpão, cada centavo que o seu pai construiu fosse queimado primeiro. Eu tirei tudo de você nos últimos três dias. Você está sozinho. Ninguém vem te buscar.

​Viktor ergueu a cabeça com dificuldade, o único olho aberto brilhando com um sadismo desesperado. Ele tentou usar a última arma que tinha: a provocação.

​— Você acha que ganhou? — o russo sibilou, a voz falhando. — Você escondeu a sua vadia... a Natasha. Mandou ela embora feito um covarde. Mas você sabe... você sabe que eu estive perto. Eu quase peguei ela dentro da sua própria casa. E se eu tivesse pego... Laurentis... eu teria quebrado aquela garota no meio. Eu ia fazer ela gemer o meu nome enquanto você assistia.

​O silêncio que se seguiu foi sufocante. Romeu desencostou-se da parede, dando um passo à frente, mas Heitor levantou a mão esquerda, parando o irmão. Heitor não gritou. Ele não perdeu o controle. Em vez disso, ele caminhou até Viktor com uma lentidão predatória. Ele inclinou o corpo, aproximando o rosto do ouvido do russo, exalando o hálito de uísque e cigarro.

​— O nome dela não é Natasha — Heitor sussurrou, a voz tão baixa e gélida que fez os pelos do pescoço de Viktor se arrepiarem. — O nome dela não importa mais para você. E sabe qual é a diferença entre eu e você, Viktor? É que você planejou a dor dela por vaidade, por uma vingança barata. Eu? Eu mandei a mulher que eu amo para o outro lado do mundo, quebrei o coração dela e fiz ela me odiar... só para garantir que um lixo como você nunca pudesse chegar perto. Eu sacrifiquei a minha própria alma por ela. Você acha que as suas palavras me machucam?

​Antes que Viktor pudesse processar as palavras, Heitor ergueu a barra de ferro com uma velocidade assustadora e desferiu um golpe seco, brutal, direto no joelho esquerdo do russo.

​CRACK!

​O som do osso se estraçalhando foi nítido. Viktor soltou um rugido de dor desumano, o corpo curvando-se contra as cordas, as veias de sua testa quase estourando enquanto ele arfava, o rosto ficando pálido.

​— Isso é pela Vanessa e pelo bebê que ela carrega — Heitor disse, a voz ríspida, sem alterar o tom. Ele girou a barra de ferro nas mãos. — Agora vamos começar a falar sobre o que você pretendia fazer com a minha esposa.

​— Seu... desgraçado... me mata de uma vez! Atira em mim! — Viktor gritou, o suor misturando-se ao sangue que escorria por seu queixo.

​— Matar você com uma bala seria um presente, Petrov — Heitor rebateu, a ignorância mafiosa ditando o ritmo. Ele largou a barra de ferro no chão com um baque barulhento e pegou uma faca tática de sua cintura — a mesma lâmina com a qual havia matado o pai de Viktor. Ele segurou o cabelo raspado do russo, puxando a cabeça dele para trás com força, expondo a garganta tensa. — Seu pai chorou antes de morrer. Ele implorou pela sua vida, sabia? Ele disse que você era fraco. E ele estava certo. Você é só um garoto brincando de ser Don.

​Heitor pressionou a lâmina fria contra a bochecha de Viktor, cortando a pele lentamente, milímetro por milímetro, fazendo o sangue novo brotar. O russo gemia entre dentes, os olhos arregalados de puro terror diante da face do verdadeiro demônio de Chicago.

​— Eu vou te dar uma hora, Viktor — Heitor sussurrou, os olhos castanhos fixos nos dele, brilhando com uma promessa letal. — Uma hora para você sentir cada pedaço do seu corpo parar de funcionar. Eu vou tirar os seus dedos, um por um. Vou rasgar a sua carne até você esquecer como se pronuncia o nome de qualquer mulher. E quando eu cansar do seu barulho... aí sim, eu vou fazer com você exatamente o que fiz com o velho. Vou abrir a sua garganta e ver o seu clã desaparecer no ralo desse esgoto.

​— Laurentis... por favor... — Viktor balbuciou, a arrogância russa finalmente desabando diante da tortura psicológica e física implacável. O medo da morte lenta o havia quebrado por inteiro.

​— Tarde demais para pedir por favor, bastardo — Heitor rosnou, a voz grossa de satisfação.

​Ele se afastou, olhando para Romeu. — Tranque as portas. Enzo e Marco me ligam daqui a pouco do Brasil. Eu quero acabar com isso antes de ouvir o relatório da minha mulher.

​Romeu assentiu, caminhando até a saída e batendo a porta de ferro do frigorífico. Na penumbra do subsolo, sob os gritos abafados e desesperados de Viktor Petrov, Heitor Laurentis limpava a lâmina da faca no próprio braço, pronto para encerrar de vez a dinastia russa em Chicago e limpar o sangue das sombras que o afastavam de sua Maite.