O Preço do Pecado
21 As Sombras do Passado
Enquanto a mansão Laurentis vivia dias de uma paz inédita, o sangue derramado no passado começava a cobrar o seu preço nas profundezas do submundo. Em um galpão abandonado na zona industrial de Chicago, cercado por contêineres marítimos e sob a luz fria de uma lâmpada fluorescente que piscava no teto, um novo perigo se materializava.
Sentado em uma cadeira de ferro atrás de uma mesa improvisada, um homem de feições angulares, cabelos raspados e olhos azuis como o gelo da Sibéria limpava uma faca tática com um lenço de seda. Seu nome era Viktor Petrov, o filho legítimo e herdeiro do antigo chefe da máfia russa que Heitor havia degolado com as próprias mãos dois meses atrás. Viktor carregava no peito não apenas o desejo de assumir o controle das rotas de contrabando da cidade, mas uma sede de vingança doentia, fria e calculista.
A porta de ferro do galpão rangeu. Um homem magro, vestindo o terno escuro padrão dos seguranças da família Laurentis, entrou com passos rápidos e cabeça baixa. Era Felipe, um dos capangas que Heitor havia contratado recentemente para reforçar o perímetro externo da mansão após o casamento. Felipe, no entanto, era um rato infiltrado, vendido ao ouro russo.
Viktor nem sequer ergueu os olhos da faca quando o traidor parou diante de sua mesa.
— Você está atrasado, Felipe — Viktor disse, a voz mansa, mas carregada de um sotaque russo pesado e ameaçador. — Eu não gosto de esperar. Meu pai costumava dizer que o tempo é como o sangue: uma vez perdido, não volta mais. E Heitor Laurentis me fez perder muito tempo.
Felipe engoliu em seco, ajeitando o casaco, o suor frio descendo pela nuca. — Desculpe, Viktor. A segurança na mansão está um inferno desde que o Don casou. O Enzo mudou os turnos e inspeciona cada carro que entra ou sai. Ficou difícil sumir sem chamar atenção.
Viktor finalmente cravou a faca na madeira da mesa com um baque seco, levantando os olhos gelados para o capanga. Um sorriso cruel brotou em seus lábios finos.
— Mas você está aqui. O que significa que tem o que eu pedi. Me conte sobre o monstro de Chicago. Como está o homem que cortou a garganta do meu pai? Ele ainda chora pela noiva morta de três anos atrás? Ele ainda dorme com um olho aberto?
Felipe deu um passo à frente, inclinando-se sutilmente, ansioso para despejar a informação e garantir sua recompensa.
— Não, Viktor. Essa é a grande novidade. O Heitor mudou. A mansão não é mais o castelo de gelo de antes. Ele está vulnerável.
Viktor arqueou uma sobrancelha, os olhos brilhando com uma curiosidade predatória. — Vulnerável? Heitor Laurentis? Aquele animal não tem sentimentos, Felipe. Ele é uma máquina de recolher dinheiro e empilhar corpos. O que mudou?
— A esposa, a tal da Natasha — Felipe revelou, com um sorriso maldoso. — O casamento não é de fachada como todos no porto pensavam. Eu tenho observado os dois pelas janelas da ala oeste. Heitor montou uma oficina enorme de arte para ela dentro da mansão só para não deixar a garota sair na rua. Ele passa as tardes lá dentro com ela, ajudando a limpar as coisas, carregando caixas. Meus colegas do turno da noite dizem que os gemidos dela ecoam pelos corredores até de madrugada. Ele está completamente louco por ela, Viktor. O lobo foi domado por uma restauradora de quadros.
Viktor Petrov soltou uma risada curta, uma gargalhada gélida que ecoou pelas paredes vazias do galpão. Ele se levantou lentamente, contornando a mesa, a postura imponente exalando pura maldade.
— Uma mulher... — Viktor murmurou, batendo as palmas das mãos, deleitando-se com a informação. — Quem diria? O grande Heitor Laurentis encontrou uma coleira. O homem que achou que podia destruir a minha família com as próprias mãos agora tem um ponto fraco que brilha como o ouro.
— Sim — Felipe continuou, alimentando o ego do russo. — O Enzo e o Marco estão preocupados. Eles sabem que se alguém pegar a garota, o Heitor entrega a cidade inteira de joelhos só para não ver um fio de cabelo dela ser tocado. Ela virou o coração dele, Viktor.
Viktor parou a poucos centímetros de Felipe, os olhos fixos no traidor. Ele estendeu a mão grande e segurou o ombro do capanga com uma força que fez o homem hesitar.
— Você fez um bom trabalho, Felipe. Muito bom — Viktor disse, o tom de voz caindo para um sussurro conspiratório e mortal. — Meu plano inicial era apenas colocar uma bala na cabeça de Heitor no meio da rua para vingar o meu pai. Mas a morte rápida é um presente que ele não merece. Eu quero que ele sofra. Eu quero que ele sinta a mesma dor que eu senti ao ver o império do meu pai desabar.
Felipe franziu o cenho, sutilmente confuso. — O que você vai fazer, então?
Viktor puxou a faca tática da madeira da mesa com um movimento brusco, observando o reflexo da lâmina sob a luz fraca.
— Eu vou tirar dele o que ele mais ama, Felipe. Eu vou arrancar a Natasha daquela mansão. Quero ver o grande Don de Chicago rastejar nos meus pés, chorando como um bastardo, implorando pela vida da boneca dele. E quando ele estiver completamente destruído, sem forças para lutar... aí sim, eu corto a garganta dele na frente dela, antes de fazer a garota sofrer o mesmo destino.
— E como vamos pegá-la? — Felipe perguntou, o medo misturando-se com a ganância. — Como eu disse, a segurança está pesada. Ela quase não sai da ala oeste.
Viktor sorriu, um espetáculo de puro sadismo. Ele enfiou a mão no bolso e puxou um maço grosso de notas de cem dólares, jogando-o no peito de Felipe, que o agarrou com pressa.
— Você vai continuar observando, rato. Quero saber os horários exatos em que Heitor sai para os galpões do porto. Quero saber quando a segurança diminui ou quando ela fica sozinha naquela oficina. No momento em que ele der um passo em falso e deixar a guarda baixa... nós atacamos. Prepare o terreno, Felipe. A queda da dinastia Laurentis vai começar pela mulher do Don.
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