O Preço do Pecado

7 A Última Nota da Noite



​De volta ao quarto, o vapor do banheiro aos poucos se dissipava no ar. Heitor já estava vestido com uma calça de moletom escura, sentado na beira da imensa cama de casal. Ele acendeu mais um cigarro, observando a silhueta de Maite pelo espelho. Ela usava um roupão preto felpudo da própria mansão e secava os cabelos longos com uma toalha, os movimentos firmes escondendo a exaustão que pesava em seus ombros.

​Heitor soltou uma lufada de fumaça e suspirou, um som pesado que raramente deixava seu peito. Ele olhou para as próprias mãos calejadas. Não era um homem velho, tinha recém completado 38 anos, mas a liderança da máfia e o peso do sangue derramado pelo pai o faziam se sentir como se tivesse o dobro da idade. Havia uma fadiga na alma que o cinismo mal conseguia disfarçar.

​Ele apagou o cigarro, deitou-se de costas na cama com os braços atrás da cabeça e ficou esperando.

​Maite terminou de secar os cabelos e caminhou até a poltrona, onde Heitor havia deixado uma camisola de seda preta com rendas na barra. Ela vestiu a peça fina, sentindo o toque suave contra a pele que ainda ardia pelos abusos da noite. Sem pressa, ela foi até o bar do quarto, pegou dois copos pesados de cristal, serviu uma dose generosa de uísque puro em cada um e caminhou até a cama.

​Ela estendeu um dos copos para ele. Heitor o pegou, os dedos roçando nos dela. Maite sentou-se na beira do colchão, mantendo uma distância segura, e deu um gole longo no destilado, sentindo a garganta queimar.

​— Um brinde ao seu cansaço, Laurentis — ela ironizou, o olhar afiado voltado para ele. — Você suspirou como se carregasse o mundo nas costas. O topo do crime é muito pesado?

​Heitor deu um gole no uísque, apreciando o sabor amargo, e soltou uma risada rústica.

— Você não tem ideia do que é carregar esse topo, garota. Meu pai achava que era Deus. Eu só tento não deixar os abutres comerem o que sobrou.

​— E para isso você precisa ser esse monstro ignorante? — Maite virou o rosto para ele, o deboche estalando em suas palavras. — Me diz uma coisa... Quantas garotas você já cobrou como pagamento de dívida? Quantas filhas de devedores infelizes já passaram por essa cama para satisfazer o seu ego doentio?

​Heitor girou o uísque no copo, os olhos castanhos fixando-se nos dela com uma seriedade gélida que fez o estômago de Maite revirar.

​— Nenhuma — ele respondeu, a voz firme e direta. — Você foi a primeira, Natasha. E provavelmente a única. Eu não aceito carne como pagamento. Eu aceito dinheiro, propriedades ou sangue.

​Maite estancou o copo no ar. O choque ricocheteou em seu peito. Ela soltou um suspiro audível, as defesas vacilando por um breve segundo enquanto tentava processar aquela informação. Ela era a única. A exceção em uma regra de puro terror.

​— Por que eu? — ela sussurrou, a voz perdendo um pouco da pose áspera.

​Heitor colocou o copo na mesa de cabeceira com um baque seco. Ele se moveu rápido, avançando como um predador sobre ela. Antes que Maite pudesse reagir, ele a puxou pela cintura, deitando-a de costas no colchão e prendendo-a sob o seu corpo. O copo dela escorregou e caiu no tapete, mas nenhum dos dois se importou.

​— Porque quando eu vi a sua foto, eu quis ver se você era de verdade — ele rosnou, o jeito bruto de mafioso ditando cada palavra enquanto segurava as mãos dela acima da cabeça. — E eu queria quebrar esse seu orgulho. Mas você só me dá mais vontade de continuar jogando.

​Heitor não deu tempo para ela responder. Ele atacou a boca de Maite com um beijo intenso, faminto e possessivo. Não era um beijo de amor, era a pura reivindicação de um homem acostumado a tomar o que queria. A língua dele invadiu a dela com força, arrancando dela um gemido sôfrego de submissão misturado ao desejo que reascendia como pólvora.

​A camisola de seda foi puxada para cima com pressa e ignorância. Heitor a tomou novamente ali, no meio da madrugada, com uma urgência quase desesperada, enquanto Maite enterrava as unhas nas costas dele, rendendo-se completamente àquela tempestade carnal. Os corpos se moviam em uma sincronia violenta até que ambos atingiram um clímax ruidoso e exaustivo, desabando um nos braços do outro.

​Dessa vez, quando o silêncio voltou, nenhum dos dois se afastou. O cansaço extremo finalmente os venceu, e eles adormeceram profundamente, a pele de Maite colada ao peito coberto de tatuagens do mafioso.

​Quando os primeiros raios de sol cortaram as frestas da cortina de veludo, o relógio no pulso de Heitor marcava exatamente oito horas da manhã.

​Ele abriu os olhos devagar, sentindo o lado direito da cama frio. Heitor sentou-se rapidamente, o instinto de alerta sempre ligado. Maite não estava mais lá. A suíte estava vazia, o silêncio da mansão restaurado.

​Ele olhou para o lado e, em cima do criado-mudo, ao lado do copo de uísque vazio, havia um pedaço de papel rasgado. Heitor pegou o bilhete. A caligrafia dela era firme, elegante, mas a mensagem transbordava o veneno de sempre:

​"A dívida do meu pai está paga e o contrato acabou. Não ouse olhar na minha cara ou pisar no meu museu. Esqueça que eu existo, Laurentis. Você teve o meu corpo, mas eu continuo livre."

​Heitor encarou o papel por alguns segundos. Um sorriso sombrio, lento e genuinamente perigoso surgiu em seus lábios. Ele amassou o papel na palma da mão e jogou-o no chão, sussurando para as paredes vazias do quarto:

​— Só está pago quando eu disser que está pago, Natasha... E eu ainda não acabei com você.