O Preço de Uma Guerra
10 Estamos Bem?
Nunca mais vi Santana. O corpo dela nunca foi encontrado, porém fizeram uma cerimônia em homenagem a ela, cerimônia essa que eu não consegui ir na época, assim como Puck, que provavelmente se sentiu culpado pela morte da minha melhor amiga. É incrível como a nossa mente guarda a voz de uma pessoa. Até hoje consigo ouvir a dela dizendo “Rach você é uma idiota” ou “Olha que cara gato”. Finn esteve comigo durante os dias em que me deprimi. Puck partiu uma semana depois para a faculdade em Nova York, eu o entendo, já que se eu pudesse, eu não teria ficado em Los Angeles nenhum segundo a mais. Em cada lugar que eu ia, me lembrava dela, da risada dela, do seu sorriso e também seu senso de humor negro.
Santana sempre me apoiou nos momentos mais difíceis da minha vida. Ela estava comigo quando meu primeiro namorado me deu um fora, quando caí pela primeira vez de uma bicicleta... Ela estava comigo nos momentos em que eu me senti sozinha, nos momentos em que briguei com Finn e precisei de alguém para me consolar. E agora? O que eu vou fazer sem ela?
Essa foi a primeira perda de muitas que a guerra me trouxe, uma das perdas que juntas formam o preço da guerra na minha vida.
Um dia, eu estava no meu quarto, olhando pela janela e me lembrando do dia da serenata. Aquele dia foi tão incrível, foi tão bom vê-la feliz daquele jeito. Nem percebi que Finn tinha entrado no meu quarto até que ele me abraçou por trás.
–Pensando Rach?- ele perguntou
–É Finn... Já faz um mês mas, sei lá eu... Eu não consigo acreditar que perdi ela pra sempre.
–Você abriu a carta do Puck?
–Não! Eu tinha esquecido!- fui rapidamente até a minha mala (que eu nem mesmo tinha arrumado) e peguei o envelope branco.
Querida Santana,
Sinto muito ter reagido daquele jeito com você. Eu te amo e espero que você ainda me ame também. Quando a Rachel entregar essa carta a você, provavelmente eu estarei em Nova York estudando. Mas se você quiser me ver mesmo depois do que fiz, estarei disposto a ir até você em qualquer momento, em qualquer lugar e quando nos encontrarmos novamente vou te abraçar forte e tocar seu ventre pra deixar bem claro que o pai dessa criança já a ama e a quer.
Eu te amo Santie. Nunca deixarei de amar.
Com amor, seu Noah Puckerman.
Eu não fui capaz de ler a carta até o fim. Finn a tomou da minha mão e terminou de lê-la em voz alta para que eu pudesse ouvir.
~~*~~
É ano novo. 1942. Diferentemente da comemoração de 1941, essa não teve contagem regressiva, risos, abraços e brilho nos olhos. Muitas das pessoas que estavam na última festa, já não estavam mais entre nós. Esse será o primeiro ano da minha vida sem a minha melhor amiga. Posso dizer hoje, que 1942 foi um dos piores anos que já vivi.
A guerra lá fora finalmente começou a afetar o dia a dia das pessoas americanas. Pouco tempo depois dos EUA declararem guerra ao eixo e se juntar aos aliados, muitos países americanos também o fizeram, países como Brasil, México e Argentina.
Não via Puck há muito tempo, já que ele se mudou para Nova York em junho do ano passado.
~~*~~
1942-Janeiro
Minha vida acabou voltando ao normal. Nessa época eu descobri o quanto aquele ditado “O tempo é a cura para todas as dores” é certo. Não vou dizer que superei a morte dela, mas vou dizer que me conformei. Amanhã dia 8 de janeiro será o meu aniversário de 19 anos e... Não sei se conseguirei comemorá-lo já que o último foi planejado e decorado por Santana e foi nele que ganhei aquela maldita viagem!
Logicamente, meus pais não deixaram que passasse em branco. Logo de manhã eu e Finn tomamos um banho de piscina juntos e por um momento eu esqueci o quanto minha vida tinha mudado nesse último ano. Só Finn era capaz de fazer isso, capaz de fazer com que eu esquecesse os meus problemas, sou grata a Santie por isso. Já que foi ela quem resolveu nos ajudar a esclarecer nossos sentimentos.
Santie nos chamou para a sua casa, o azar foi tanto que eu cheguei depois de Finn, o que me forçou a cumprimentá-lo. Ele não me respondeu. Apenas me olhou e voltou a sua atenção para o livro que lia. O silêncio era total, mas Santana fez o favor de quebrá-lo.
–Finn vem aqui!!- ela gritou fazendo com que déssemos um pulo no sofá.
Ele se levantou e caminhou devagar até ela, aparentemente, estava tão assustado quanto eu com o grito de nossa prima louca.
–O que foi?-perguntou mal-humorado.
–Quero que resolvam o que está acontecendo entre vocês!
–O que está acontecendo?- se fez de confuso.
–Não se faça de confuso Finn!! Você sabe exatamente do que estou falando.
–RACHEL VEM AQUI!- agora sim eu estava com medo. Santie e eu éramos amigas mas algumas vezes suas atitudes me davam medo. Assim como Finn me aproximei devagar até me juntar a eles. Não olhei nos olhos de Finn.
–Quero que se olhem!- Santana disse mais calma. Não obedecemos.- QUERO QUE SE OLHEM AGORA!! ANDEM LOGO! OLHO NO OLHO!- Dessa vez ficamos realmente com medo dela. Melhor não arriscar. Nos olhamos. Por um momento ficamos apenas Finn e eu naquela sala. Sempre li em livros que sensações como essa, só acontecem quando se está apaixonado. Naquele momento eu percebi. Eu correspondia Finn. Me apaixonei de repente. Mal sabia eu que aquele sentimento nunca iria acabar de verdade.
–Vou deixar vocês sozinhos- falou Santana, nos trazendo de volta ao mundo real.-Por favor não se matem o.k?- continuou- vou estar ali fora.
Santana deixou bem claro que estava de olho em nós dois, para impedir que não acontecesse nenhuma agressão ali dentro.
Finn estava distante. Era como se apenas seu corpo estivesse ali enquanto seus pensamentos viajavam pelo universo. Pensei que ele não diria nada, mas como que para me surpreender, ele finalmente fala alguma coisa.
–Não sei o que dizer.-falou baixinho, meio sem jeito.
–Nem eu- confessei no mesmo tom, só que mais sem jeito ainda.
–Sabe... não mudei minha opinião sobre estar apaixonado por você.- ele tomou coragem e me olhou nos olhos, com um sorriso com covinhas tão encantador que era capaz de levar qualquer garota para a Lua.
–Que bom porque eu...- Falo ou não falo? Falo ou não falo?? Ai meu Deus!! Falo.- também não mudei minha opinião. Acho que o sentimento é recíproco. Também estou apaixonada por você.
Pela sua expressão, era possível ver que por aquela, seus ouvidos realmente não esperavam. Ele estava espantado, porém aos poucos o espanto se tornou um sorriso. Um belo sorriso de covinhas. Aquelas covinhas! Um dia ele me derrete com elas! Em seus olhos, havia uma pergunta. "Sério?". Fiz que sim com a cabeça, e para minha surpresa ele sorriu mais ainda, como se fosse possível.
–Devemos esperar e ver o que acontece?- perguntou.
–Acho que essa é uma boa ideia.-continuei- O que tiver de ser será certo?
–Certo.- ele fez uma pausa- estamos bem?
–Estamos bem.
~~*~~
Ahh Santana eu nunca serei capaz de esquecer você. Minha prima, amiga, irmã.
Meus pais prepararam uma festa pro meu aniversário. Bem simples. Apenas a nossa família. Eu usava um vestido nude que ia até os joelhos, e meu cabelo estava preso de lado, fazendo uma linda trança. Meu sapato era de salto grosso, frente boneca. Preto. Eu e Finn dançamos a noite toda, porém eu podia ver que por baixo daquele sorriso lindo, estava uma grande tristeza.
Quando a festa acabou e ficamos apenas eu e Finn no salão conversando, ele segurou a minha mão e olhou bem no fundo dos meus olhos.
–Rach eu...- ele parou e respirou fundo- Aconteceu o que eu tinha mais medo...
Eu sabia que mais cedo ou mais tarde aquilo aconteceria.
–Você foi chamado- afirmei com lágrimas nos olhos como uma criança que pergunta se o cachorrinho doente vai ficar bem.
–Mas você pode recusar não pode?- o pânico era nítido na minha voz
–Rachel, eles não me chamaram, eles me convocaram.
–Então você vai?- perguntei
–Sim Rachel, eu vou para a Guerra, mas eu prometo voltar por você. Eu prometo. -ele acariociou a minha bochecha com a ponta dos seus dedos- Estamos bem?
–Estamos bem.
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