A sala de carvalho do conselho privado estava impregnada com o aroma de fumo de cachimbo e couro. Adrian ocupava a cabeceira da mesa, com Alexander à sua direita e o velho Rei Alexander à esquerda. Saullo, sempre atento, girava uma taça de conhaque, observando o jovem Conde Delavga com um olhar que misturava curiosidade e a eterna desconfiança de quem já viu de tudo na corte.


​Marcos abriu um mapa de linho sobre a mesa, apontando para as regiões montanhosas do Norte com uma segurança que impressionou até o Rei Adrian.

​— O café das minhas províncias não é como o que chega do Sul, Majestade — começou Marcos, a voz firme e profissional. — Ele cresce na altitude, sob a névoa. O grão é mais denso, o aroma é persistente. Minha proposta é estabelecer uma rota direta que ignore os atravessadores das cidades portuárias. Aethelgard terá o monopólio desse fornecimento.

​Adrian inclinou-se para a frente, analisando as linhas do mapa.

— Uma rota direta pelas montanhas? O terreno é acidentado e os bandoleiros costumam gostar desses desfiladeiros. Como pretende garantir que a carga chegue intacta aos meus armazéns?

​— Com escolta privada, Senhor — Marcos respondeu prontamente, sustentando o olhar do Rei. — Eu não confio a segurança do meu ouro ou do seu café a milícias locais. Meus homens são treinados nas terras frias. Se um grão de café cair no chão, eles saberão o motivo.

​Alexander, que passara os últimos minutos em silêncio, interveio com sua precisão habitual.

— O custo de transporte por essa rota é elevado. O lucro de Aethelgard viria do volume ou da exclusividade? Porque, se o preço final for o dobro do café comum, meu povo continuará bebendo a mistura barata das províncias vizinhas.

​Marcos sorriu para o jovem príncipe, reconhecendo nele a mente de Mellyssa.

— Da exclusividade na exportação, Alteza. Aethelgard não apenas consumirá o café; ela o revenderá para as cortes de Roma e do Leste. Nós seremos o filtro por onde o luxo passa. O lucro não está no que o povo bebe, mas no que os Reis dos outros países pagam para ter o que vocês possuem.

​Saullo soltou uma risada baixa, batendo a taça na mesa.

— Ouça bem, Adrian. O rapaz tem o espírito de um pirata e as mãos de um banqueiro. Gostei da lógica. Se ele conseguir passar por aquelas montanhas sem ser saqueado, teremos ouro líquido em nossas mãos.

​O Velho Rei Alexander, que até então apenas observava, limpou a garganta. Sua voz era cansada, mas carregava a autoridade de décadas.

— E o que o Conde busca em troca? Ninguém oferece um monopólio de mãos beijadas. Quer terras? Títulos de pesca? Ou talvez uma voz permanente neste conselho?

​Marcos fez uma breve pausa, o momento exato para que sua resposta soasse pesada.

— Busco aliança e estabilidade, Majestade. Minhas terras são ricas, mas isoladas. Estar sob a proteção comercial de Aethelgard é o que garantirá que minha linhagem prospere pelos próximos cem anos. Não busco sua coroa, busco a sombra da sua árvore.

​Adrian estreitou os olhos. Ele sentia algo naquele rapaz. Não era medo, era uma familiaridade incômoda, um reflexo de uma ambição que ele próprio tivera um dia. Mas a lógica comercial era impecável.

​— Vamos analisar as planilhas de Alexander — decidiu Adrian, levantando-se. — Se os números forem tão sólidos quanto sua fala, Conde, teremos um contrato antes da colheita.

​— Como desejar, Majestade — Marcos curvou-se, fechando o mapa.

​Enquanto os homens se levantavam e o clima relaxava, Saullo aproximou-se de Marcos, oferecendo-lhe um charuto.

— Você é jovem para carregar tanta responsabilidade no Norte, Delavga. Onde aprendeu a negociar assim?

​— Com as perdas, Senhor — Marcos respondeu, com um brilho frio e fugaz nos olhos. — Nada ensina mais sobre o valor do café e do ouro do que saber exatamente o que é não ter nada.

​Adrian, que já estava na porta, parou por um segundo ao ouvir aquilo. Ele não disse nada, mas a frase ecoou em sua mente enquanto caminhava pelo corredor. O lobo estava dentro da alcateia, e ele acabara de ganhar a chave da despensa.