Notas iniciais
O que te faz lutar? os meus motivos eu teria que descobrir logo, se quisesse sobreviver.

“ — Meu precioso Mōkṣa, tão pequenino. — Seus dedos finos e perversos acariciaram meu pequeno rosto. — Mal consegue imaginar o futuro grandioso que te aguarda. — Podia não entender o que me aguardava, mas ele me afastará de meu pai, então nada que ele pudesse me dar, eu iria querer. Seu dedo indicador passou por minha bochecha e virando-me em seu colo, o mordi com toda força. — Criança maldita. — Ele esbravejou claramente irritado, enquanto balançava o dedo para cima e para baixo.

— Me de ele aqui. — Minha mãe me tomou nos braços, e eu me aconcheguei neles. — Alguma notícia de Caio? — Brincando com um colar de asas que pendia por seu pescoço, vi em seus olhos flashs de esperança e tristeza, que foram disfarçados com ira, no momento que Kael os fitou.

— Porque tem tanto interesse nisso, irmãzinha? — Ele pegou seu maxilar entre os dedos, apertando com força, provocando nela um “bico” contorcido.

— Ora, seus soldados não são tão melhores que eu? Acho engraçado ainda não terem o achado. — Com um tapa ela tirou a mão do irmão de seu rosto, e lançou suas palavras como dardos certeiros nele.

— É aquele mago. — Kael sentou-se, apoiou os cotovelos na mesa, baixou a cabeça e passou a mão nos cabelos sedosos. — Ele o está escondendo. — Sua frustração era tão sólida que podia ser sentida.

— História. — Thamy ironizou. — Você já o encontrou uma vez.

— Já sim, mas ele sempre muda. É quase impossível rastreá-lo. — Pela primeira vez desde que o vi, eu via fraqueza nele. Kael agora parecia desarmado de sua ironia e sarcasmo, completamente indefeso e sem saber para onde ir, nem o que fazer.

— Meu irmão. — Mamãe me colocou no chão e caminhou até ele. — Sempre há o que fazer. — Ela levantou seu rosto, obrigando a olhá-la. — Se não acharmos ele, faremos uma emboscada e ele virá até nós. — A maldade iluminou os olhos de ambos. Com medo, e meio desnorteado por ter ouvido aquelas palavras vindas de minha mãe, eu comecei a chorar. Ela desviou a atenção de Kael, e sua atitude e face maternal se voltaram para mim. — Quieto meu filho, tudo ficará bem. — Mesmo sem entender bem o que aquelas palavras significavam, eu me acalmei e com seu toque quente e acolhedor, adormeci em seus braços.”

Acordei suado e arfando. Ainda era noite. Me sentei na cama e sequei o suor da testa com a palma da mão. Isso não poderia ser real. Thamy, a mulher que eu amo, tramando com seu irmão uma emboscada para me pegar? Não, não poderia ser verdade. Fechei os olhos com força e levei as mãos a cabeça. Lágrimas rolaram por meu rosto e novamente me senti traído por ela. Me sentia desmotivado. Não importava quanto eu pensasse, não entendia por que ela estava agindo assim. Em momentos era carinhosa e demonstrava amor; em outros, era fria e tramava contra mim, como se eu não significasse nada para ela; era fria e calculista. Sem dizer, que sempre voltava para aquele que mais a subjugava, fazendo tudo que ele ordenava, apenas para ter seu reconhecimento.

Kael era cruel e, como ele, Thamy estava aprendendo a ser igual. Talvez fosse algo de instintos ou natureza daquela família. Imaginando a face triste de Mōkṣa e o medo que ele vinha sentindo naquele lugar, levantei-me e fui para o jardim treinar.

A lua estava à pino e iluminava com sua luz pálida todo o jardim. Repeti inúmeras vezes a sequência que Filipe havia me ensinado, até a exaustão.

Deitei-me sobre a grama, apoiei a cabeça sobre as mãos e fitei o céu estrelado. Minha mente vagou por lembranças de Thamy e se deteve na imagem de nós dois na praia, deitados na areia, com o sol banhando seu corpo nu. Seus olhos verdes encontraram os meus e seus lábios sorriram.

“— Está bem? — Questionei-a acariciando seu belo rosto.

— Como nunca tinha estado antes. — Thamy disse aconchegando seu corpo no meu, encostou o rosto em meu peito e inspirou profundamente. — Amo seu cheiro. — Disse ela de encontro ao meu peito.

— Fico feliz por poder te fazer feliz. — Sorri e ela riu.”

Sua presença se materializou ao meu lado. Fitei seus olhos verde-esmeralda, admirando-a, e neles havia um tom de tristeza e culpa.

— Por favor, me perdoe.

Sua voz acariciou meus ouvidos em um sussurro. Sua mão esquerda afagou meu rosto e seus lábios tocaram os meus em um beijo calmo que selou o pedido de desculpas. Ela montou em cima de mim e deslizou uma das mãos a minha nuca e a outra acariciou meu peito. Tomando consciência de sua real presença, agarrei sua nuca com força e puxei sua cintura de encontro ao meu quadril. Ela gemeu baixinho, o que fez os pêlos de minha nuca se eriçarem.

Nossos beijos se intensificaram cheios de sentimentos. Sentia tanta falta dela que quando seus lábios deixaram os meus, eu me sentia arfando. Como das outras vezes sua presença se desfez como fumaça e desabei com olhos fechados sobre a grama novamente. Me sentia entorpecido com suas aparições e sumiços repentinos. Isso tinha que acabar, mas por mais que fizesse muito esforço, meu raciocínio lógico parecia parar no momento que encontrava aqueles olhos, fazendo-me pensar apenas em tê-la cada vez mais. Eu ficava aparentemente frágil em sua presença e, no momento, isso poderia custar minha vida.

— Caiu da cama, Caio? — Filipe se aproximava.

— Não consegui dormir. — Assumi, me colocando sentado.

— Então deve estar disposto para mais um dia de treino. — Filipe estava perto o bastante e tentou um chute em minhas costelas. Felizmente eu fui mais veloz. Com um movimento rápido, desviei do pé dele e girando sobre os punhos, fiquei de pé. — Muito bom, garoto. Está mais rápido.

Ele deferiu diversos golpes em minha direção e consegui desviar de todos. Claramente ele ficou irritado por não conseguir me acertar, então chutou meu joelho, me desestabilizando e acertou minhas costelas. Eu arfei, voltando a postura de defesa, e investi contra ele. Soquei em várias direções até achar um ponto fraco. Mirei meu punho direito em sua orelha e ele defendeu, mas deixou o outro lado desprotegido. Era o que eu precisava. Acertei em cheio sua face e ele tombou; apoiou a mão no solo e inclinando o rosto para o lado, cuspindo sangue.

— Muito bom, Caio. — Ele voltou a ficar de pé. — Aprendeu rápido e muito bem. — Ele sorriu e deu leves tapas em meu ombro.

— Agora é minha vez. — Tarcísio, surgiu atrás de Filipe empunhando duas espadas, uma do modelo Joyeuse, com o cabo e o chappe dourado e um dragão esculpido no pomo. E na outra mão estava uma Mythril Brand, com o cabo prata polido. Girava as espadas com o punho, fazendo movimentos rápidos e precisos. A luz do sol que surgia iluminava as lâminas afiadas. Filipe saiu da minha frente e tomou o lugar ao canto do jardim, onde Tarcísio costumava ficar. — Essa será a sua. — Apontou a espada para mim, deixando a ponta a pouco centímetros de meus pescoço.

Girou o cabo na mão e me ofereceu a Mythril Brand. Tomei-a na mão, sentindo seu peso e o metal gelado sobre minha palma. Levante-a e passei os dedos sobre a lâmina. Era fria e lisa, e eu podia ver meu reflexo nela.

— Vamos lutar ou vai ficar admirando a espada? — Ele riu, brincalhão. — Primeiro, ao empunhar uma espada você deve encontrar seu equilíbrio. Ela deve ser o prolongamento de seu corpo. É preciso que você encontre seu estilo. — Eu fitava a lâmina, tentando absorver cada palavra dele. — Entendeu? — Ele baixou os ombros ficando na minha altura e fitou-me.

— Entendi. — Disse assentindo afirmativamente.

— Segundo, com espadas, qualquer erro é crucial. — Seus lábios se curvaram expondo suas presas e Tarcísio me direcionou um olhar ameaçador. — Vamos começar devagar. Você deve bloquear.

Tomamos alguma distância e apontamos a espada um para o outro. Tarcísio atacou primeiro, levou a lâmina acima de sua cabeça e tentou atingir meu lado esquerdo. Virei a espada, mas não consegui bloquear seu ataque, o que me custou um belo corte no braço. Em seguida, girou o punho e atacou lateralmente, tentei endireitar a espada para colocá-la reta a minha esquerda, mas senti que iria cair. Apertei-a mais firmemente e as lâminas se chocaram; com a força dele a espada ficou a centímetros de meu rosto.

Mesmo que Tarcísio deferisse golpes lentos, era difícil controlar o peso da espada em minhas mãos. De inúmeros golpes que Tarcísio investia contra mim, consegui bloquear poucos. Ele parou para respirar, baixou a lâmina e sorriu satisfeito.

A sequência se repetiu. Eu tentei focar toda a minha atenção em suportar o peso da lâmina e controlá-la. No primeiro golpe, eu perdi o controle e a espada caiu sobre a grama. Tarcísio inclinou a cabeça para o lado, semicerrou os olhos e me fitou, curioso. Senti toda a frustração de não conseguir, fechei os punhos com força, com a risada de Filipe às minhas costas e voltei a apanhar a espada do chão.

Depois de muitas tentativas fracassadas, o sol já se punha e eu colecionava alguns machucados por todo o corpo. Respirei fundo e foquei em cada movimento de punho, braços, pernas e pés que Tarcísio fazia, a fim de aprender o máximo que eu podia. De repente ele girou nos calcanhares, atacou e eu defendi. Desviou minha atenção para seus pés e, então com um movimento rápido, passou do meu lado, abaixando-se sobre um dos joelhos e deslizou sobre o gramado. Incapaz de me defender de seu golpe, apenas senti a lâmina gélida cortando minha carne.

— Agora vamos brincar de verdade. — Seu sorriso maléfico voltou aos seus lábios.

— Tarcísio, já chega… — Filipe se aproximava de nós. — Ele precisa descansar.

— Na guerra de verdade, não haverá descanso. — Tarcísio olhou Filipe por sobre os ombros que levantando ambas as mãos na altura da cabeça, voltou ao seu lugar para nos observar. — Levante sua espada! — Disse Tarcísio voltando sua atenção para mim.

Continuei em silêncio e fiz o que ele pediu. Minhas mãos estavam trêmulas, o que tornava ainda mais difícil controlar a espada. Senti meus machucados aos poucos se fecharem e minhas forças se restabelecerem. Tarcísio voltou a atacar e eu a defender poucos golpes, me machucar muito e aprender razoavelmente.

Ao amanhecer, eu já me encontrava no mesmo ritmo dele. Gotas de suor escorriam por minha face e feridas quase cicatrizadas davam espaço para novos cortes. Ao meio dia paramos para descansar. Aquela iria ser a primeira parada desde que começamos a treinar no dia anterior.

Almoçamos com Saruman e depois de um banho, troquei de roupa, pois as minhas já não passavam de farrapos. Vesti um moletom velho e sai para o jardim. Tarcísio estava sentado ao pé de uma árvore e Filipe se exibia com chutes altos, socos e giros.

— Temos um malabarista aqui. — Entrei rindo no jardim.

— Nosso garoto voltou animado. — Filipe arrumou as roupas e sorriu.

Me coloquei em sua frente e fiquei na posição que ele havia me dito. Filipe pareceu satisfeito e começamos a luta. Eu havia melhorado, mas ainda apanhei muito. De certa forma Filipe parecia querer se vingar por eu ter acertado-o no rosto, e investiu sem piedade contra mim. Após minha terceira queda de face no chão, Filipe resolveu pegar mais leve comigo, e passou a mais me ensinar os golpes, do que lutar realmente.

Tarcísio tomou seu lugar e me jogou a lâmina. Deixei-a cair, pois pela minha falta de prática, se tentasse pegá-la teria decepado os dedos. Apanhei-a do chão e direcionei-a a ele. Tarcísio voltou a deferir a mesma sequência de golpes e meu progresso foi mínimo.

Ao final daquele dia, Filipe e Tarcísio se exibiam com as espadas. Ambos tinham uma agilidade e domínio impressionante sobre elas. Giravam-nas no pulso e deferiam golpes certeiros um contra o outro. Ao final da luta, colecionaram poucos cortes e riam alegres com seus feitos; sentaram-se ao meu lado e logo perceberam minha expressão de desapontamento.

— Relaxa Caio, logo estará tão bom como nós. — Filipe deu leves tapas em meu ombro, tentando me consolar.

— Tomara. — Respondi tristonho.

“— Kael, nós o encontramos. — Um dos capangas de Kael, entrou alvoroçado gritando em sua sala, me tirando de meu sono leve nos braços de minha mãe.

— Onde ele está? Diga! — Kael o tomou pelo colarinho e puxou-o para perto de seu rosto.

— Ele está… — O capanga parou por um momento, fitou-nos e sussurrou no ouvido de Kael, o paradeiro de meu pai.

— Ótimo. — Kael sorriu maleficamente e satisfeito. — Vá, recrute nossos melhores guerreiros, que em breve iremos buscá-lo.”

Notas finais
Esse era apenas o inicio da minha jornada, e eu sentia o cheiro de perigo se aproximando.