O Preço da Magia
1 Episódio 01: E Assim Virou Mortal...
Notas iniciais
O Monte Olimpo se erguia em imensurável elevação, resplandecente e distante dos olhos humanos por consequência da espessa camada de nuvens que isolava os deuses nos domínios idílicos daquela terra. Sua atmosfera era normalmente suave e agradável, contudo naquele específico momento havia apenas hostilidade a quem quer que dali ousasse se aproximar.
Trovões indomáveis ecoavam abaixo das nuvens — agora enegrecidas — que cobriam o Olimpo, indicando o humor intratável de Zeus e desencorajando qualquer humano que tencionasse visitar as proximidades da terra divina na intenção de orar por suas súplicas mundanas, quase sempre ignoradas pelas deidades.
O ser supremo a todos os deuses se prostrava em seu majestoso trono acima do prisioneiro que se aproximava, os olhos relampejando ansiosos, munidos do mesmo ardor dos relâmpagos que estavam sob o seu estrito comando. O brilho autoritário que se impregnava nos orbes divinos analisou Hades com desprezo conforme ele chegava mais perto, guiado por dois asseclas do Olimpo, as íris turbulentas de Zeus combinando perfeitamente bem com o semblante mascarado pela intolerância direcionada ao deus traidor.
Hades foi jogado de joelhos aos pés do trono de Zeus, seus lábios perniciosos se abrindo num sorriso de dentes pontiagudos ao vislumbrar o espaço vazio ao lado do senhor do Olimpo.
— Onde se encontra sua bela esposa, irmão? Ocupada demais para me recepcionar? — Seus olhos dançaram em troça, ainda que sua postura o obrigasse a se manter submisso perante o deus supremo.
— Hera tem suas próprias obrigações, Hades, e elas não incluem lidar com traidores. — Avisou, erguendo-se altivo do trono, sem jamais desviar a atenção do renegado irmão — Este encargo concerne apenas a mim. Só assim posso garantir que a punição será de meu agrado.
— Entendo. E de que tipo de traição eu fui acusado, se é que posso perguntar? Do mundo inferior fica difícil acompanhar as novidades do Olimpo. — Constatou, o tom sereno e jocoso abusando do cinismo, o sorriso ainda perdurado nos lábios cianóticos de Hades fazendo turbilhonar novas ondas de fúria em Zeus.
— Não teste minha paciência, Hades! Conhece muito bem as razões que te trouxeram ao Monte! — Rugiu, o timbre de sua imperiosa voz soando como um dos trovões que lançava esporadicamente aos mortais, como um poderoso lembrete de sua soberania — Hércules sumiu de seu berço, e junto dele havia resíduos de enxofre que provêm do submundo. Para onde levou meu filho, Hades? — Questionou, pondo-se à frente do deus subjugado, sua ira ainda sob controle, porém não por muito mais tempo.
— Ah, meu adorável sobrinho, é claro! Quase me esqueci... Não se preocupe, irmão! Um dia, talvez, torne a vê-lo. — Anunciou com enorme tranquilidade, não se afetando em nada pela feição distorcida em ódio que Zeus lhe ofertava — Contudo, por um infortúnio do destino, perderá o crescimento do seu primogênito. Ele pertence aos mortais agora.
— Ousa desafiar-me dessa forma? — O deus colocou-se diante do traidor, que ainda lhe oferecia apenas expressões peçonhentas, cada traço se dobrando em enorme despeito ante a autoridade do outro — O que fez ao meu filho, aberração?
— Apenas cobrei uma antiga dívida, Zeus! Talvez ainda se lembre dela... — O descaso sumiu subitamente de seu rosto, agora tomado apenas pelo amargor de seus solitários dias no submundo.
O deus do Olimpo ergueu um enorme raio acima de sua cabeça, um movimento tão ágil quanto o mero piscar de olhos, os músculos exuberantes de seu braço completamente tensionados, iluminados pela eletricidade que despontava do relâmpago. Os zumbidos emitidos pelas faíscas que extravasavam da inusitada arma tornavam-na ainda mais ameaçadora. Fez menção de lançá-lo sobre Hades, porém sua intenção foi freada por uma terceira voz.
— Zeus! — Hera chamou com autoridade, caminhando decidida para junto de seu consorte, sem nem mesmo dignar um único olhar ao deus dos mortos, ciente de que essa seria a forma mais segura de controlar a raiva irreprimível que apenas crescia em si.
— Não devia estar aqui, Hera! — Zeus a repreendeu, ainda mantendo a arma elétrica na mira infalível de seu irmão, revezando olhares igualmente irritados entre a deusa e Hades — Deixe que eu mesmo cuido deste insolente! Ele terá o que merece!
— Hércules também é assunto meu! — Replicou, a voz soando decidida numa nova reprimenda, ignorando a expressão descontente que Zeus lançou, rápido e certeiro como um de seus trovões.
— Hades o tornou mortal! Se não estiver disposta a ver as consequências que advirão de seus atos, deixe-nos a sós!
— Eu sei muito bem o que Hades fez! — A deusa disse, encarando-o pela primeira vez com enorme asco e alguma angústia — E justamente pela ousadia de seus atos, a morte é misericordiosa demais para ele.
— O que tem em mente, minha deusa? — As íris de Zeus faiscaram, periculosas e subitamente interessadas.
— Hades exilou Hércules no mundo mortal, para longe de nós, sem a dádiva de seus poderes. Sugiro que lhe dispense o mesmo tratamento cortês! Retire cada gota de sua deidade, meu deus, e prenda-o no submundo, junto aos mortos que sempre fez questão de negligenciar em seu ofício.
Zeus sorriu, a farta barba branca que rodeava seu rosto acompanhando o movimento ascendente de seus lábios, afinal descansando o braço que empunhava o raio e desfazendo a mira que tinha o irmão por alvo.
O rosto de Hades, contudo, permanecia indecifrável, embora seus sentimentos mais internos estivessem em indiscutível ebulição, ainda mais ardentes do que as labaredas que dançavam dinâmicas no alto de sua cabeça.
— Parece-lhe justo, irmão? — Zeus perguntou em completa zombaria, ainda mais aceso em seu brilho divino.
— Justiça nunca foi parte de sua natureza. — Respondeu simplesmente, a voz agora apática não mais transbordando a antiga troça. Hades encarou nenhum ponto em especial, já preparado para o que viria em seguida, a mágoa disfarçada o atingindo em seu mais profundo íntimo por razões que jamais ousaria admitir.
Zeus verbalizou um rugido de pura intolerância, as enormes e fortes mãos com as palmas elevadas dando início ao incômodo procedimento. Hades gritou, surpreso com a dor profusa que o invadiu assim que a essência de sua divindade começou a abandoná-lo. Uma fumaça escura foi extraída de seu corpo e flutuou direto às mãos bem abertas de Zeus, desaparecendo em seguida, e conforme o cerne apoteótico se perdia de Hades, o brilho azulado que o rodeava tornava-se paulatinamente apagado, assim como a força do fogo que dominava seu couro cabeludo, tornando-se chamas anêmicas e sem o mesmo brilho de outrora.
O último fiapo de sua soberania divina foi arrancado, levando junto um abafado gemido enfraquecido. Hades caiu, sem qualquer resquício de força, tombando diante da própria condição que beirava a mortalidade, sentindo-se ainda mais desprezível naqueles termos em que se tornara o menor dos seres, quase tão patético quanto um humano.
— Minha história com o Olimpo ainda não terminou, Zeus! — Avisou, usando os braços magros e trêmulos como fonte fraca de apoio, erguendo a cabeça com certa dificuldade na tentativa de encarar tanto Zeus quanto Hera, ambos impassíveis naquele contexto de ruptura.
— O Monte Olimpo não faz mais parte de sua desgarrada existência, irmão. Eu o exilo a viver nos arredores do submundo, seu lugar de único direito, tendo apenas os mortos para confraternizar até o fim de seus dias.
Após tais palavras, Hades começou a ser transportado para o mundo inferior, seu físico se tornando translúcido no Olimpo como um forte indicador de que logo partiria dali para nunca mais ser capaz de retornar. Porém, antes que finalmente se fosse, Hera e Zeus ainda ouviram suas últimas palavras destinadas a eles.
— Eu não tenho irmãos — Hades corrigiu Zeus, dedicando aos senhores do Monte um último olhar, uma mescla complexa entre frieza e melancolia, e assim partiu, tornando-se prisioneiro do próprio reino que tanto execrava.
Hera deixou-se cair sobre o trono que simbolizava seu governo ao lado de Zeus, o corpo curvilíneo e iluminado da deusa tombando numa fraqueza atípica, imprópria ao lugar. O rosto que normalmente carregava traços gentis agora era dominado pela mais desconcertante angústia, afundado por entre as delicadas mãos, tornando sua postura ainda mais encurvada e derrotista.
— Hera! — Zeus foi ao encontro da companheira, segurando seus dedos trêmulos com preocupação, um sentimento raro ao deus do Olimpo — Sente-se mal, meu amor? — Inquiriu num sussurro carinhoso, erguendo o rosto relutante e belo de sua deusa para que pudesse encará-la.
— Não, Zeus! Eu só quero meu filho de volta! — Disse, permitindo que seu consorte a envolvesse num abraço rígido, quase desajeitado.
— Vamos recuperá-lo, Hera, eu te prometo. Teremos Hércules de volta, qualquer que seja o custo.

O deus dos mortos tombou no cenário mórbido e infrutífero do mundo inferior, ainda dominado pela desconcertante fraqueza que indicava sua patética condição. Sua respiração estava rápida quando obrigou-se a levantar, os olhos intrépidos marejados pela vergonha do que se tornara.
Tentou invocar o poder das chamas que tão bem dominava, notando não ser capaz de produzir sequer uma faísca em meio a todo o gritante esforço que dispensara naquela tarefa antes simples. Hades gritou dominado por sentimentos difusos que vagavam entre raiva e frustração, fitando os dedos finos e levemente azuis com enorme desalento.
Fez um novo teste, dessa vez tentando transportar-se ao mundo dos mortais. Concentrou-se como nunca naquele intuito, mentalizando com força a terra desgarrada daqueles que apenas viviam para servir aos deuses. Novamente, nada ocorreu, além de um arrebatador cansaço. Apesar de seu incalculável esforço, o enxofre impregnado no submundo ainda o rodeava, parecendo despontar com um odor ainda mais forte, como se zombasse das tentativas fracassadas de Hades.
Ele rugiu, um som melancólico que seria capaz de abalar os alicerces do submundo caso Hades ainda estivesse em posse de seus poderes. Ajoelhou-se sobre o chão negro, derrotado.
Zeus, pela segunda vez, arruinara todo o significado de sua existência.
— Nossos caminhos tornarão a se cruzar, Zeus! Os deuses do Olimpo ainda hão de ouvir meu nome, e quando esse dia chegar, darão cada gota de sua imortalidade para tornar a esquecê-lo! — Abstraiu, de súbito recordando-se que ainda seria possível manter relações com o mundo dos mortais, ao menos.
De uma forma muito mais trabalhosa, mas ainda assim possível.
Ergueu-se num salto, elevando a voz o máximo que pôde, percebendo que até ela perdera sua potência divina.
— Pânico! Agonia! — Chamou os serviçais, seres moldados pelo próprio submundo que foram designados a servi-lo.
Duas criaturas de tamanho diminuto surgiram numa corrida desajeitada por conta das pernas curtas, os seres parecendo completamente deslocados naquele contexto em que a morte imperava. Uma nova onda de fúria invadiu Hades pela percepção de que Zeus incumbira dois inúteis para auxiliá-lo com os mortos, uma forma a mais de humilhação naquele trabalho em que fora aprisionado. Eram nada além de duas criaturas lamentavelmente incapazes, porém que agora, finalmente, demonstrariam alguma serventia.
— Às suas ordens, vossa maleficência! — Disseram de prontidão, num uníssono pouco sincronizado e apartado pela falta de fôlego que a breve corrida causara, ambos derrapando desajeitados à frente de Hades e batendo uma continência que soava estúpida, irritando-o ainda mais.
— Tragam as moiras até mim! — Ordenou, sabendo que se estivesse em posse da plenitude de seus poderes, certamente descontaria todo o ódio guardado naquelas nefastas criaturas.
— Sabíamos que iria nos chamar... — Uma das senhoras do destino apareceu em seu campo visual, seguida pelas outras duas irmãs.
— ...Por isso viemos! Nós...
— ...Sabemos de tudo! — A terceira completou, a trinca de deusas responsáveis pelo passado, presente e futuro encarando Hades com imparcialidade, suas aparências idosas e quase decompostas transmitindo a atemporalidade de seus milênios imensuráveis.
— Senhoras! — O tom de Hades se abrandou naquele cumprimento, satisfeito em vê-las. — Preciso que compartilhem comigo o dom de sua clarividência! Zeus...
— ...Retirou seus poderes, sabemos.
— Precisamente. E agora, na minha condição, eu necessito saber se essa situação pode ser contornada. Se puderem fazer uma de suas premonições, se possível sem as rimas... — Cogitou, entediado.
— Não revelamos o futuro. — Disseram juntas, pouco se compadecendo da situação desfavorável do deus, destituído de seus poderes.
— Senhoras, abram esta exceção em nome dos dias antigos em que nossos caminhos se encontraram! — Hades pediu, usando implicitamente um tempo já transcorrido que, indiretamente, contribuira para a situação atual do desprezado deus.
As três irmãs se fitaram num breve segundo, considerando em silêncio as palavras do senhor do submundo, e por fim a tríade assentiu, decidindo ceder. Uma estrutura luminosa e circular surgiu no exato epicentro entre as moiras, revelando imagens que elas com facilidade interpretavam. Suas vozes se firmaram como uma única naquele solene tom profético e largamente disseminado.
— Por centenas de anos você terá de aguardar, até que sua esperança há de findar.
— Tudo bem, em versos então... — Hades suspirou, contudo as milenares deusas prosseguiram, como se sequer o ouvissem.
— Mas não se engane, Hades, seus poderes podem voltar. Deve, por começar, buscar por uma alma em tormenta, a se estragar. Encontre um poderoso mago do lado de lá, e sua força se regenerará. Mas é bom alertar; toda magia com um preço virá!
— O problema, caras senhoras, é que eu não mais disponho de centenas de anos! Meus poderes me foram tirados, o que significa que não possuo mais a eternidade dos deuses. — O deus replicou num esforço visível para manter intacta a paciência já escassa.
As moiras se revezaram em três frases, curtas, porém capazes de destruir todas as expectativas de Hades.
— Nem toda sua essência foi drenada...
— ...Sua imortalidade se mantém preservada...
— ...Assim como a ira que alberga, degenerada...
Houve uma breve pausa, e logo as três irmãs retomaram o discurso.
— Enquanto permanecer no submundo, a contagem de seus dias cessará. Saia, e um mortal se tornará.
Com o fim da profecia, as três irmãs foram sugadas num movimento espiral pelo círculo de luz, que logo tranformou-se num discreto ponto e desapareceu, tornando o mundo inferior novamente sombrio em seus prelúdios mortíferos.
— Zeus manteve acesa em mim a chama dos deuses, ainda que restrita ao mundo inferior... — Conjecturou consigo mesmo, incapaz de compreender as razões do irmão mais velho — Que tipo de pretensões podem se alimentar por trás disso? — Questionou-se, um mero pensamento que acabou por ultrapassar os limites de seus lábios, crispados pela eterna desconfiança quando o assunto envolvia seu odioso irmão.
Contudo, por mais que a situação o intrigasse, não chegou a temê-la. Em si havia a plena consciência de que Zeus cometera um crasso erro ao permiti-lo viver...
...Um erro que por certo seria fatal ao Deus do Olimpo.
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