O Preço da Liberdade

4 O Tabuleiro de Carvalho




​A Sala do Conselho estava impregnada com o cheiro de tabaco, pergaminho antigo e o peso de decisões que afetavam milhares de vidas. O Rei Alexander, Michael e Saullo estavam debruçados sobre um mapa da fronteira sul, discutindo as rotas de comércio que passavam pelas terras da Baronesa Rossi.

​— Se não garantirmos a escolta armada nessas estradas, Mellyssa Solomon terá problemas para escoar a produção — dizia Michael, ajustando os óculos. — E problemas para ela significam menos impostos para nós.

​A porta de carvalho maciço se abriu. Não com um chute, como era o costume de Adrian, mas com uma calma calculada.

​Adrian entrou usando uma túnica formal de couro e seda, o cabelo devidamente penteado e uma expressão de seriedade que parecia quase uma fantasia de carnaval em seu rosto.

​A reunião parou instantaneamente. Alexander deixou a pena cair sobre a mesa.

​— Adrian? — O Rei franziu a testa. — Você está perdido? A ala das cortesãs fica no sentido oposto.

​Saullo deu uma risada curta, batendo no ombro do primo.

— Veio pedir aumento na mesada, Adrian? Ou finalmente bebeu tanto que esqueceu onde fica o próprio quarto?

​Adrian não sorriu. Ele caminhou até a mesa e puxou uma cadeira pesada, sentando-se entre o pai e o tio.

​— Quero participar — disse ele, a voz firme. — Sou o príncipe herdeiro. Já passou da hora de eu entender como este reino funciona, seja a hora que for, seja o assunto que for. Quero ser parte dos trabalhos de Aethelgard.

​O silêncio que se seguiu foi quebrado por uma gargalhada estrondosa de Michael.

— Ouçam isso! O leão acordou! Alexander, seu filho finalmente decidiu que governar é mais interessante do que perseguir taberneiras!

​— Não me diga que é uma promessa de bêbado — Alexander provocou, mas havia um brilho de orgulho escondido nos olhos. — Pois bem, se quer trabalhar, comece revisando o orçamento das patrulhas do sul.

​— Falando no sul... — Adrian começou, mas sua voz morreu quando ele olhou para a grande janela que dava para os jardins internos do palácio.

​Lá embaixo, Mellyssa Solomon caminhava sozinha. Ela usava um vestido de seda leve, verde-esmeralda, e carregava um livro. Ela parou perto de uma fonte, observando as flores com uma expressão de paz que ele nunca tinha visto em seu rosto.

​Adrian sentiu aquela fisgada de irritação e desejo novamente. Ele se virou para os homens da mesa, adotando um tom de desdém calculado para mascarar o que realmente sentia.

​— Estávamos falando das terras da Baronesa, não? — Adrian apontou com o queixo para a janela, onde Mellyssa estava. — Olhem para ela. Parece uma estátua de gelo decorativa. Dizem que ela é uma grande administradora, mas eu aposto que ela só sabe contar moedas porque não tem nada mais emocionante para fazer naquelas noites frias do sul.

​Saullo riu, aproximando-se da janela para ver.

— Ela é uma mulher difícil, Adrian. Dizem que o Barão Rossi morreu de tédio tentando conseguir um sorriso dela.

​— Tédio? — Adrian soltou uma risada debochada, sendo seguido pelos outros homens. — Eu diria que ela é como um daqueles livros de contabilidade: cheia de números, mas sem nenhuma história que valha a pena ler. Ela caminha como se o chão não fosse digno de seus pés. É uma arrogância que chega a ser cômica para alguém que só tem títulos porque o marido teve a cortesia de bater as botas.

​— Cuidado, Adrian — brincou Michael, rindo enquanto voltava para o mapa. — Se ela te ouvir chamando a fortuna dela de "cortesia do falecido", ela te compra e te vende antes do almoço.

​— Ela não teria ouro suficiente para me comprar — Adrian retrucou, com um sorriso de lado, observando Mellyssa fechar o livro lá embaixo e olhar para cima, como se sentisse que estava sendo observada. — Mas eu adoraria vê-la tentar. Ela é tão rígida que, se tropeçasse, provavelmente quebraria o chão, e não o próprio ego.

​Os homens caíram na risada, o clima na sala de reuniões tornando-se leve com as piadas de Adrian sobre a Baronesa. Ele continuou a desdenhar da seriedade dela, chamando-a de "Rainha do Gelo Sem Coroa", enquanto os outros se divertiam com sua língua afiada.

​Mas, enquanto ele ria junto com o pai e o tio, seus olhos não saíam da figura verde-esmeralda lá fora. Ele podia falar o que quisesse para os homens, mas a verdade é que o "tédio" da Baronesa era a única coisa que realmente o mantinha acordado naquela sala.