O Preço da Flor de Ferro
10 Vidros Quebrados e Palavras de Fogo
A atmosfera de conto de fadas começou a se dissipar assim que as portas do quarto de núpcias se fecharam. Jasmine não conseguia tirar o som da tranca daquela porta de carvalho da cabeça. O silêncio de Heitor durante o jantar, embora educado, soava agora como uma parede de pedra.
Heitor estava terminando de desabotoar os punhos da camisa, de costas para Jasmine, quando ela disparou a primeira pergunta, sem rodeios.
— O que tem naquela sala, Heitor?
Ele parou o movimento por um segundo, mas não se virou.
— Eu já respondi no jantar, Jasmine. Poeira e memórias. Nada que deva ocupar seus pensamentos.
— Poeira não precisa de uma fechadura de ferro reforçada! — Jasmine deu um passo à frente, a voz subindo de tom. — Eu aceitei me casar com um estranho para salvar minha família. Eu aceitei entrar na sua cama e confiar a minha vida a você. O mínimo que eu mereço é a verdade sobre a casa onde moro!
Heitor se virou lentamente. Seu rosto, antes doce e atencioso, estava rígido.
— Há uma diferença entre ser minha esposa e ser a dona dos meus segredos mais antigos. Algumas portas são trancadas para proteção, Jasmine. Não para esconder crimes, mas para preservar o que resta de mim.
— Proteção de quem? De mim? — Jasmine soltou uma risada amarga, os olhos brilhando de lágrimas de raiva. — Você me olha como se eu fosse uma joia que você comprou e colocou num pedestal, mas no momento em que eu faço uma pergunta, você se torna o Duque de novo. Onde está o homem que limpou a fuligem da minha fazenda? Ou aquilo também era uma máscara?
— Não ouse questionar a minha sinceridade! — Heitor elevou a voz, e o som reverberou pelas paredes altas, fazendo Jasmine recuar um passo, assustada com a força do comando dele. — Eu dei tudo a você e aos seus. Reconstruí sua vida das cinzas!
— E em troca, você comprou o meu silêncio e a minha obediência? — Jasmine gritou de volta, as lágrimas agora escorrendo livremente. — Se é assim, Heitor, você não é melhor do que o incêndio que nos destruiu. O fogo levou as plantas, mas você quer levar a minha voz!
Heitor caminhou em direção a ela, a expressão tomada por uma mistura de fúria e dor. Ele parou a poucos centímetros do rosto dela.
— Você não entende as sombras que este castelo carrega. Eu tentei criar um mundo perfeito para você aqui dentro, longe da podridão do meu passado!
— Eu não quero um mundo perfeito! Eu quero um mundo real! — Jasmine rebateu, batendo com a mão no peito dele. — Eu prefiro a fome na minha fazenda destruída do que a fartura em um castelo cheio de mentiras e portas trancadas! Se você não confia em mim o suficiente para me mostrar quem você foi, então você nunca terá quem eu sou de verdade.
Houve um momento de silêncio absoluto, onde apenas o som da respiração pesada de ambos era ouvido. Heitor parecia prestes a explodir, mas, em vez disso, ele se afastou bruscamente, pegando um vaso de cristal sobre a cômoda e arremessando-o contra a lareira. O vidro estilhaçou-se em mil pedaços, refletindo a chama do fogo.
— Saia — ele disse, a voz agora baixa, rouca e perigosa.
— O quê? — Jasmine perguntou, chocada.
— Se a minha proteção é uma prisão para você, então saia! — Ele apontou para a porta, sem olhar para ela. — Durma em outro quarto. Durma na biblioteca que você tanto gosta. Mas não fique aqui me olhando como se eu fosse um monstro.
Jasmine limpou o rosto com as costas da mão, recuperando sua postura de "flor de ferro".
— Com prazer, Duque Martinez. Espero que suas memórias e sua poeira lhe façam boa companhia esta noite. Porque elas parecem ser as únicas coisas que você realmente ama.
Ela saiu do quarto, batendo a porta com força, deixando Heitor sozinho no escuro, cercado por estilhaços de cristal e pelo peso de um segredo que agora ameaçava destruir a única luz que ele havia encontrado em décadas.
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