O Preço da Flor de Ferro

5 Entre Sedas e Estantes


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​O quarto simples de Jasmine estava transformado. Sobre a cama de madeira rústica, repousava uma nuvem de seda e renda francesa. Heitor enviara a melhor costureira da capital para garantir que a futura Duquesa estivesse impecável.

​O Vestido e a Inocência

​Jasmine se olhava no pequeno espelho de mão, enquanto a costureira ajustava o corpete. O vestido era de um branco marfim, com bordados delicados que pareciam pequenas videiras subindo pelos braços.

​— Você está parecendo um bolo de nata, Jasmine! — Rebekah exclamou, sentada no chão, observando tudo com os olhos arregalados. — Se eu te morder, você é doce?

​Jasmine riu pela primeira vez em dias, a tensão nos ombros cedendo um pouco.

— Não, pequena. Sou só eu aqui dentro, não sou um bolo.

​— Mas se você vai casar com o Duque, você vai ter que comer em pratos de ouro? — Rebekah continuou, franzindo o nariz. — Eu ouvi dizer que gente rica não come feijão. Eu não quero ser rica se não puder comer feijão.

​A costureira sorriu, e Jasmine acariciou o cabelo da irmã.

— Acho que o Duque nos deixará comer o que quisermos, Rebekah.

​Nesse momento, Açucena entrou com um envelope de papel grosso e um selo de cera escarlate.

— Um convite, Jasmine. O Duque deseja que jantemos no castelo hoje à noite. Ele enviou uma carruagem para nos buscar.

​A Chegada ao Castelo Martinez

​A carruagem era forrada de veludo, e o trajeto até o castelo foi feito sob o olhar maravilhado de José e Rebekah. Quando os portões de ferro se abriram, revelando a fachada iluminada por centenas de tochas, até Jasmine sentiu o coração falhar uma batida.

​Eles foram recebidos por uma fileira de criados, mas à frente de todos estava Heitor. Ele não usava a camisa suja de terra de dias atrás; vestia um traje de gala azul-noturno que realçava seus olhos claros.

​— Sejam bem-vindos ao que em breve será o lar de vocês — disse Heitor, oferecendo o braço a Jasmine.

​Um Jantar Inusitado

​A mesa de jantar era imensa, mas Heitor pedira que os lugares fossem postos próximos uns dos outros para evitar a frieza da distância. O jantar foi uma mistura de etiqueta refinada e o caos adorável de uma criança de seis anos.

​— Senhor Duque? — Rebekah chamou, balançando as pernas na cadeira alta. — Por que essa colher é tão pequena? É para fadas?

​Heitor soltou uma risada genuína, que ecoou pelo salão.

— É para o doce, Rebekah. Mas se você quiser acreditar que as fadas a usam quando não estamos olhando, eu não vou desmentir.

​— E esse castelo tem fantasmas? — a menina insistiu, com a boca suja de molho. — Se tiver, a Jasmine pode expulsar eles. Ela tem a mão pesada quando está brava!

​José engasgou com o vinho, e Açucena ficou vermelha. Heitor, porém, olhou para Jasmine com um brilho divertido nos olhos.

— A mão pesada, é? Tomarei cuidado para não deixá-la brava, então. Obrigado pelo aviso, pequena Rebekah.

​O Refúgio de Papel

​Após o jantar, enquanto os pais de Jasmine descansavam nos sofás da sala de estar com Rebekah, Heitor convidou Jasmine para conhecer a biblioteca.

​O cheiro de couro velho e pergaminho envolveu Jasmine assim que as portas duplas se abriram. As estantes subiam até o teto, carregadas de conhecimento.

​— É lindo... — sussurrou Jasmine, caminhando entre os corredores de livros.

​— Eu me refugio aqui quando o mundo lá fora se torna barulhento demais — Heitor confessou, parando perto de uma mesa de carvalho. — Sei que você gosta de histórias, Jasmine. Ouvi dizer que você costumava contar contos para as crianças na feira.

​Jasmine parou, surpresa.

— O senhor anda perguntando sobre mim?

​— Quero conhecer a mulher com quem vou partilhar minha vida, não apenas o rosto que vi na fazenda. — Heitor deu um passo em direção a ela, a luz dos candelabros suavizando suas feições. — Eu sei que você aceitou isso por obrigação. Mas aqui, nesta sala, você é livre para ler, para escrever e para ser quem quiser. Não quero que este castelo seja uma gaiola para você.

​Jasmine olhou para as mãos dele — agora limpas, mas que ela vira carregando peso em sua fazenda.

— Por que o senhor é tão diferente do que eu esperava? — ela perguntou, a voz quase sumindo.

​Heitor sorriu de lado, um sorriso melancólico.

— Talvez porque eu também saiba o que é ser julgado pelo que as pessoas veem por fora, e não pelo que carregamos por dentro.

​Pela primeira vez, Jasmine não desviou o olhar. Naquela biblioteca silenciosa, entre milhares de histórias escritas, ela sentiu que a sua própria história estava começando a mudar de gênero: de uma tragédia de sacrifício para algo que ela ainda não ousava nomear