O coração de Jasmine batia contra as costelas como um pássaro enjaulado. Ela ouviu a voz de Maurício no corredor, elevando o tom para prender a atenção de Heitor, ganhando segundos preciosos. Com as mãos trêmulas, ela empurrou os jornais para o fundo da arca, saiu do quarto proibido e trancou a porta.

​Correndo para o escritório, ela jogou a chave na gaveta de fundo falso. O estalo da madeira encaixando soou como um tiro no silêncio do cômodo. No instante em que ela soltou o puxador, a porta se abriu.

​Heitor estava parado ali. Seus olhos percorreram o ambiente, fixando-se nela com uma intensidade analítica.

​— Jasmine? O que faz no meu escritório a esta hora? Pensei que estivesse descansando — a voz dele era calma, mas carregada de uma suspeita latente.

​Jasmine forçou a respiração a se estabilizar, embora sentisse o suor frio descer por sua nuca.

— Eu... eu precisava de uma pena extra. Queria fazer algumas anotações, escrever para minha mãe, mas a minha quebrou. Procurei nas suas gavetas, espero que não se importe.

​Heitor caminhou lentamente até ela. O som de suas botas no piso de madeira parecia marcar o ritmo do pânico dela. Ele parou a poucos centímetros, observando o rosto pálido da esposa.

​— Uma pena? — ele repetiu, a voz suavizando levemente, mas os olhos ainda frios. — Bastava ter chamado um criado. Não precisa revirar meus pertences por algo tão trivial.

​Ele contornou a mesa, abriu um armário lateral e retirou um tinteiro de cristal, uma pena de ganso imaculada e um maço de papéis de alta qualidade.

— Aqui está. O melhor papel do ducado para as melhores palavras.

​— Obrigada, Heitor — ela murmurou, pegando os objetos com as mãos ainda instáveis. — Eu vou para a biblioteca. Com licença.

​Ela saiu apressada, sentindo o olhar dele queimando em suas costas até desaparecer no corredor. Assim que ficou sozinho, a expressão de Heitor mudou. A máscara de cortesia caiu, revelando uma frieza absoluta.

​Ele não se sentou. Em vez disso, fixou os olhos na gaveta que Jasmine acabara de fechar. Ele sabia exatamente onde a chave estava. Ele a deixara ali com um propósito: era o seu termômetro de confiança.

​Heitor puxou a gaveta e removeu o fundo falso com a ponta dos dedos. A chave estava lá, reluzindo sob a luz do candelabro. Mas havia um detalhe. Ele sempre deixava a chave com o dente voltado para a esquerda, uma marca sutil que só ele conhecia.

​Agora, a chave apontava para a direita.

​Um sorriso amargo e perigoso surgiu em seus lábios. Ele fechou a gaveta com uma calma aterradora. Jasmine não apenas procurara uma pena; ela atravessara a linha que ele desenhara com sangue.

​— Então você escolheu a curiosidade em vez da vida, Jasmine — ele sussurrou para as paredes vazias. — Que assim seja.

​Ele caminhou até a lareira e observou as chamas, enquanto sua mente já começava a traçar o destino da "flor de ferro" que, agora, sabia demais.