A luz da tarde entrava suavemente pela janela dos aposentos reais, mas Selene quase não notava a paisagem. Suas mãos, antes ocupadas com documentos e mapas, agora repousavam sobre a curva leve e ainda quase imperceptível de seu ventre. Ela se olhara no espelho minutos antes; os seios latejavam sob o corpete de seda e a silhueta, outrora esguia, começava a dar sinais de uma nova vida.

​O som de botas pesadas ecoou no corredor, rápido e urgente. A porta se abriu com um estrondo, revelando Adrian. Ele ainda vestia o traje de caça, o rosto suado e a respiração curta, carregando o pânico de quem achou que perderia o que mais amava.

​— Selene! — ele exclamou, correndo até ela e caindo de joelhos a seus pés. — O mensageiro disse que você pediu o médico... Você está pálida. O que houve? É alguma dor? Algum veneno? Diga-me, por favor!

​Selene desviou o olhar da janela para ele. Havia uma serenidade estranha em seu rosto, um brilho que Adrian nunca tinha visto.

​— Estava pensando que as paredes da torre leste recebem muito sol pela manhã — ela começou, a voz baixa, como se falasse sozinha. — Seria um bom lugar. O berço teria que ser de madeira clara, talvez bétula, para não parecer tão pesado quanto o resto deste castelo. E as mantas... as mantas precisam ser de lã de ovelha de Delavga, para serem macias na pele.

​Adrian franziu a testa, a confusão substituindo o medo. Ele segurou as mãos dela entre as suas.

— Do que você está falando, Selene? Berço? Lã? O médico... o que ele disse? Você está doente? Por que está falando essas coisas desconexas?

​Ela sorriu, uma lágrima solitária escapando e rolando pelo rosto. Selene pegou a mão de Adrian e a guiou lentamente, posicionando-a sobre sua barriga, pressionando-a contra o calor de seu corpo.

​— O médico disse que não há doença, Adrian. O que eu sinto... é o peso de uma nova alma. — Ela o olhou profundamente nos olhos. — Eu estou falando que as masmorras e os campos de batalha não são mais as coisas mais importantes deste reino. Estou dizendo que, em alguns meses, o Rei de Ferro e a Rainha de Gelo não serão mais apenas dois. Nós seremos três.

​O silêncio caiu sobre o quarto, mas não era o silêncio gélido de antigamente. Adrian ficou imóvel, a palma da mão captando a vida que florescia ali dentro. Seus olhos, sempre tão firmes e severos, inundaram-se de uma emoção avassaladora.

​— Três... — ele sussurrou, a voz falhando. — Um filho? Nosso?

​— Nosso — ela confirmou.

​Adrian soltou um soluço sufocado que misturava riso e choro. Ele escondeu o rosto no colo dela por um momento, deixando que a ficha caísse. Quando se ergueu, ele a beijou com uma doçura que parecia derreter qualquer resquício de dor do passado. Seus lábios encontraram os dela com uma promessa silenciosa de proteção eterna.

​Depois, ele se afastou apenas o suficiente para olhar para o ventre dela. Com uma reverência que nunca fizera a nenhum soberano, ele inclinou-se e beijou a barriga de Selene, alisando a pele por cima do tecido com uma devoção quase sagrada.

​— Ouviu isso? — Adrian murmurou contra o ventre dela, como se o bebê já pudesse entender. — Você vai ter o sol de Delavga e a força de Oakhaven. E eu juro, pela minha coroa e pela minha vida, que você nunca conhecerá o frio que seu pai um dia carregou.

​Ele voltou a abraçar Selene, apertando-a com cuidado, sentindo que o futuro do Norte agora tinha um nome, um berço e, finalmente, um coração cheio de amor.