O Preço da Coroa
13 O Navio que Partiu, a Coroa que Ficou
O porto de Edimburgo, o mesmo lugar que meses antes transbordava esperança com a chegada dos mantimentos, agora era o cenário de uma despedida silenciosa. Maria Benevides, vestindo uma capa escura e carregando apenas uma pequena mala com o essencial, observava as águas cinzentas do Mar do Norte.
Ela ouvira os sinos. Os sinos do castelo que anunciavam o noivado oficial de Edmund com a Princesa Isabella de Castela. Cada badalada era um prego no caixão de seus sonhos.
— Você tem certeza, minha filha? — Jorge perguntou, segurando a mão da esposa Elena, que chorava baixinho.
— Eu não posso ficar aqui, pai — Maria respondeu, a voz embargada. — Cada vez que eu olhar para aquele castelo, vou lembrar do que poderia ter sido. Na França, posso começar de novo. Posso ser apenas Maria, não a "traidora que salvou o rei".
Sem olhar para trás, Maria subiu a prancha de um navio mercante francês. Enquanto as velas se abriam, ela sentiu o cheiro do mar e o gosto amargo da derrota. Ela estava indo embora, levando consigo o coração do Rei da Escócia.
O "Sim" de Chumbo
Três semanas depois, a Catedral de Edimburgo estava adornada com lírios brancos e as bandeiras de Castela e da Escócia. O incenso preenchia o ar, mas para Edmund, o perfume era sufocante.
Ele estava parado no altar, vestindo o manto real de arminho e ouro. Isabella caminhava em sua direção, bela e majestosa, um símbolo perfeito de dever e estabilidade. Edmund olhou para a multidão, buscando inconscientemente um par de olhos castanhos furiosos e cheios de vida, mas só encontrou rostos nobres e sorrisos diplomáticos.
— Edmund Blake, você aceita Isabella de Castela como sua esposa e Rainha? — o Arcebispo perguntou.
O silêncio na catedral durou um segundo a mais do que o normal. Edmund sentiu um aperto no peito, uma vontade de gritar, de fugir. Mas ele lembrou-se do povo faminto que agora tinha pão, e da paz que aquele casamento garantiria.
— Aceito — ele disse, sua voz soando como o bater de uma porta de cela.
O Grito no Silêncio
Enquanto o casal real saía da catedral sob uma chuva de pétalas, o Rei Henrique e Lorde Archibald corriam pelos corredores internos do palácio, suados e ofegantes. Eles carregavam um tubo de metal lacrado com o selo de um clã extinto das Terras Altas.
— Nós conseguimos! — exclamou Archibald, abrindo o documento sobre a mesa do gabinete real. — Aqui está a prova! O bisavô de Maria era o herdeiro legítimo do Clã MacKenzie, destituído injustamente. Ela não é plebeia, Henrique! Ela é a Duquesa de Kintail por direito de sangue! Roma não teria escolha a não ser abençoar a união!
Henrique olhou pela janela e viu a carruagem real de Edmund e Isabella passando pelos portões, cercada pela guarda de honra. O povo gritava "Vida longa ao Rei e à Rainha!".
— É tarde demais — sussurrou Henrique, deixando o documento cair no chão. — O casamento foi consumado perante Deus e os homens. Edmund está preso a Castela.
— E Maria? — perguntou Anastácia, entrando na sala com o rosto pálido.
— Partiu para a França há vinte dias — respondeu Archibald, com a voz falha. — O navio já deve ter aportado em Calais.
Edmund, agora no banquete de núpcias, levantou sua taça para brindar à "felicidade" do reino. Ele sorria para as câmeras da história, mas por dentro, ele era um homem devastado. Ele tinha a coroa, ele tinha a aliança, ele tinha a paz... mas ele tinha perdido a única coisa que tornava a vida digna de ser vivida.
O documento que provava a nobreza de Maria ficou esquecido sobre a mesa, uma verdade brilhante que chegara com o sol de um dia que já havia terminado em escuridão.
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