O Preço da Coroa
5 O Gosto do Vinho e o Cheiro da Mudança
O vestido de serva era pesado, feito de uma lã áspera que pinicava a pele de Maria, um contraste humilhante com os tecidos finos que ela costumava ver de longe. No avental branco, o brasão dos Blake bordado em linha dourada parecia uma marca de gado. Ela carregava uma bandeja de prata com uma jarra de cristal e duas taças, subindo as escadas em direção ao gabinete real sob o olhar vigilante de dois guardas.
"Seja paciente, Maria", ela repetia mentalmente. "Faça isso pelo papai. Faça isso pela mamãe."
Ao empurrar as portas pesadas do gabinete com o quadril, o som de vozes alteradas a atingiu. O conselho e representantes do parlamento estavam reunidos em volta da grande mesa de carvalho. Edmund estava na cabeceira, parecendo exausto, com as olheiras fundas de quem não dormira.
— Isso é suicídio financeiro, Majestade! — esbravejou um lorde de rosto rubro, batendo com o punho na mesa. — A carga que chegou da Inglaterra custou uma fortuna em impostos de importação!
Maria aproximou-se em silêncio, os olhos baixos, mas os ouvidos atentos. Ela começou a servir o vinho tinto, o líquido borbulhando nas taças de cristal.
— A carga de mantimentos será distribuída conforme minha ordem — a voz de Edmund surgiu, fria e cortante como o vento das Highlands. — Dois sacos de grãos, uma caixa de carnes salgadas e uma cesta de frutas para cada família cadastrada no vilarejo baixo.
Maria quase derrubou a jarra. Suas mãos tremeram. Dois sacos? Carne? Aquilo era mais do que sua família via em seis meses.
O reboliço no gabinete foi imediato. Parlamentares se levantaram, falando ao mesmo tempo.
— É um absurdo! O senhor vai esvaziar os cofres por causa de plebeus que tentam matá-lo na rua! — gritou outro nobre, lançando um olhar de nojo para Maria, que permanecia estática ao lado de Edmund.
— Aqueles "plebeus" são a base que sustenta este castelo — Edmund rebateu, levantando-se. Ele parecia mais alto agora, a autoridade emanando de cada poro. — Se eles morrerem de fome, quem colherá o pouco que sobrar na próxima primavera? Quem servirá em seus exércitos? Se o Parlamento não concorda, que usem suas próprias reservas pessoais para compensar o déficit.
Houve um silêncio chocado. Propor que os nobres mexessem nos próprios bolsos era quase um sacrilégio.
Edmund sentiu a presença de Maria ao seu lado e, sem olhar diretamente para ela, pegou a taça de vinho que ela acabara de encher.
— O vinho está excelente, Maria. Pode se retirar e aguardar nos meus aposentos para preparar a lareira.
Maria hesitou por um segundo. Ela queria gritar que dois sacos de grãos não apagavam anos de negligência, mas algo na expressão de Edmund a deteve. Ele não parecia o garoto arrogante da procissão; parecia um homem tentando carregar o mundo nas costas e falhando miseravelmente em parecer calmo.
Ela fez uma reverência curta e rígida, o máximo que seu orgulho permitia.
— Como desejar, Majestade — ela disse, a voz carregada de uma ironia que só ele percebeu.
Enquanto saía, ela ouviu o conselheiro Archibald tentar acalmar os ânimos, mas a semente da discórdia fora plantada. Pela primeira vez, Maria não sentiu apenas ódio. Sentiu uma confusão corrosiva. Se Edmund era o monstro que ela acreditava, por que ele estava arriscando o apoio do Parlamento para alimentar o povo que o odiava?
No corredor escuro, ela apertou a bandeja contra o peito. O plano de matá-lo ainda estava lá, guardado em um canto escuro de sua mente, mas agora, o rosto do "inimigo" estava ganhando contornos que ela não sabia como enfrentar.
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