​O cartão dourado pesava na mão de Suzan como se fosse feito de chumbo. Naquela mesma noite, após deixar a mãe dormindo, ela discou o número gravado no metal. A chamada não completou sequer dois toques.

​— Sabia que ligaria, Suzan — a voz de Ricardo Vance era calma, quase premonitória.

​— Eu aceito. Mas preciso de garantias... e de um plano. Eu não posso chegar lá parecendo quem eu sou agora.

​— A garantia já foi enviada. Verifique seu celular — Ricardo disse, e um "bipe" de notificação cortou a fala dele.

​Suzan afastou o aparelho do rosto e arregalou os olhos. Uma transferência bancária de um valor que ela não conseguiria ganhar em dez anos de faxina acabara de cair em sua conta.

​— Esse dinheiro é para sua "blindagem" — continuou Ricardo. — Compre roupas de grife, um carro que exale sucesso e mude-se para o apartamento que meu secretário agendou para você no Morumbi. Ele já está mobiliado. Para o mundo, você é uma assistente de criação talentosa que eu pessoalmente recrutei. Para o meu filho, você será a sombra que ele não conseguirá ignorar.

​O dia seguinte foi um borrão de etiquetas de preços exorbitantes e chaves de metal frio. Suzan não apenas mudou de endereço; ela mudou de pele. O novo apartamento era um mar de vidro e porcelanato, onde Hellen caminhava com receio, como se o chão fosse quebrar sob seus pés.

​— Suzy... isso tudo parece um sonho, mas sinto que é um pesadelo disfarçado — Hellen comentou na manhã seguinte, enquanto observava a filha se arrumar.

​Suzan estava diante do espelho, ajustando um blazer de corte impecável. O reflexo mostrava uma mulher poderosa, a ruiva de olhos azuis destacados por uma maquiagem leve, mas caríssima.

​— É a nossa chance, mãe. Só precisamos que ele desista desse casamento. Depois, sumimos com o dinheiro e você nunca mais toca em um balde de limpeza — Suzan forçou um sorriso, escondendo o tremor nas mãos.

​— Eu tenho medo, minha filha. Gente rica joga sujo — Hellen segurou as mãos da filha. — Mas, se Deus quiser, tudo dará certo. Vá com cuidado.

​Suzan desceu até a garagem do prédio. Diante dela, brilhava um Audi A3 Sportback cinza fosco. Era um carro de luxo, porém discreto o suficiente para uma assistente de alto nível.

​No caminho para a Vance Holding, o trânsito parecia uma prova de resistência. Ela batia os dedos nervosamente no volante revestido de couro, cantarolando uma música de rádio para abafar o som do próprio coração batendo nos ouvidos. Cada vez que olhava pelo retrovisor e via aquela mulher sofisticada, sentia que estava interpretando um papel em um filme perigoso.

​Ao chegar na imponente torre de vidro da empresa, o estômago dela deu um solavanco. Ela entregou a chave ao manobrista e entrou, sentindo o ar-condicionado gelado cortar sua pele.

​Ricardo a interceptou logo na entrada do elevador privativo. Ele a avaliou com um olhar clínico e deu um nó de aprovação com a cabeça.

​— Impressionante o que o dinheiro e a determinação fazem. Você está perfeita.

​— Estou aterrorizada — ela confessou em voz baixa enquanto o elevador subia rapidamente.

​— Use o terror a seu favor. Finja que é adrenalina — Ricardo falou com firmeza. — Eu vi no seu currículo real que você tem curso de administração e gosta de artes. Vamos usar isso. Você foi contratada como a nova Assistente de Criação da Vance Cosméticos. Você vai ajudar o Leonard a desenvolver as novas campanhas. Ele é viciado em trabalho, então ele vai exigir o seu máximo.

​O elevador parou no trigésimo andar. As portas se abriram para um ambiente minimalista, cheirando a perfume caro e poder. Ricardo caminhou até a última porta e, sem bater, entrou.

​Leonard Vance estava de costas, olhando para a vista da cidade através da parede de vidro. Quando ele se virou, Suzan sentiu o ar escapar de seus pulmões. Ele era ainda mais imponente de perto: ombros largos, um maxilar marcado e olhos tão escuros e frios que pareciam duas pedras de ônix.

​— Leonard, esta é Suzan Styles — Ricardo disse com a voz jovial. — Ela é a nova Assistente de Criação que te falei. Tem um olho clínico para tendências e uma formação sólida em administração.

​Leonard não sorriu. Ele caminhou lentamente até Suzan, parando a poucos centímetros dela. O perfume dele era amadeirado, másculo e sufocante.

​— Meu pai costuma contratar "talentos" sem me consultar — a voz de Leonard era um barítono profundo, carregado de um desdém gelado. — Espero que você seja tão boa com os prazos quanto é em escolher roupas caras, senhorita Styles.

​— Eu garanto que não estou aqui para perder tempo, senhor Vance — Suzan respondeu, sustentando o olhar, apesar do arrepio que subia por sua espinha.

​— Veremos — ele disse, desviando o olhar para o pai. — Obrigado, Ricardo. Eu assumo daqui.

​Ricardo deu um tapinha no ombro do filho e lançou um olhar significativo para Suzan antes de sair, fechando a porta pesada. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

​— Aquela é a sua mesa — Leonard apontou para uma escrivaninha de vidro em um canto estratégico da sala dele. — Quero que revise os relatórios de mercado da nova linha de perfumes "Noir". Quero notas sobre o conceito visual até o fim da tarde.

​Ele voltou para sua cadeira monumental, ignorando-a completamente, como se ela fosse apenas parte da mobília.

​Suzan caminhou até sua mesa e sentou-se. Dali, ela tinha uma visão perfeita do perfil dele. Ele era lindo, de uma forma bruta e inacessível. Será muito mais difícil do que eu pensei, ela pensou, abrindo o primeiro arquivo no computador.

​O leão não parecia interessado em ser domado, mas Suzan Styles já tinha passado fome e limpado o chão de estranhos; ela não se deixaria abater pelo gelo de Leonard Vance. A guerra havia começado.