Seria engraçado para mim, talvez um pouco normal demais adentrar por estes escombros de um hospital abandonado apenas por terem me dito que aquilo estava aqui. Com uma metralhadora na mão e um medalhão em meu peito eu carregava o sangue dos magos. Assim como peças raras e muito uteis, em meu tempo, pessoas que continham essa magia eram obrigadas de formas pouco ortodoxas a despertar e os que sobreviviam e se mantinham estáveis mentalmente eram despachados para essa matança fora dos limites seguros da cidade.

Ainda havia várias pessoas presas fora da barreira, o limite empregado pela fé de uma sociedade que agora quase extinta salvava seus semelhantes do medo obscuro.

Diziam que fora invocado esse poder para salvar ou para uma brincadeira de mau gosto...O porquê disso tudo?! Esses pensamentos constantes vivem perseguindo quem quer que entre nessa zona cinzenta.

Já no meu caso... entro chutando as portas e abrindo caminho entre os cadáveres do chão!

....

Por entre a escuridão da noite ouve-se ao longe o rachar de pedras assoladas pelas rodas de um Jipe, e o som ensurdecedor da parede de uma sala escura e cheia de mesas, que mais se assemelha a um refeitório de uma prisão, sendo despedaçada e por entre a poeira, sombras de pessoas pouco convencionais adentrando de forma pouco cuidadosa.

_Eles estiveram por aqui! – Fear com a voz sufocada pela nuvem cinza abria espaço para outras três pessoas enquanto o silêncio do estabelecimento era mortal.

Iron um homem alto e moreno se camuflava melhor que os demais, apesar de carregar o que aparentava ser uma bazuca nas costas, Flame mascava um chiclete de morango enquanto limpava embaixo das unhas com a ponta de um punhal, em seu rosto uma tatuagem, uma salamandra cuja cauda percorria sua sobrancelha direita enquanto o corpo lhe ocupava a bochecha e Allan seu nome não tinha significado, apenas o fato de ele existir já era um milagre; ele fora o primeiro sobrevivente apesar de ter fortes poderes, os experimentos pelos quais passou distorceram sua personalidade completamente além de mudar fisicamente as cores de seus cabelos e olhos, não tão diferente dos monstros que caçava, ele era visto com medo pelos olhos de companheiros e cidadãos.

_Vamos acabar logo com isso! – falou entre uma bola que acabara de estourar em sua boca, chutando uma lata enferrujada que estava no chão para as sombras do corredor.

_Vai com calma! – falou de trás o mulato que apertava os olhos para ver melhor, ressaltando o verde esmeralda.

_Temos o relato de apenas dois por essa área! – falou Fear com um pouco de receio que essa informação tenha sido equivocada, a presença que ela sentia era muito maior do que a relatada, apesar de inútil com armas, ela poderia ser considerada o melhor radar já criado, seus cabelos pretos lisos escondiam atrás da franja seu rosto frágil.

Allan apenas ergueu a arma e com vários disparos simultâneos da metralhadora, jatos de um liquido vermelho vieram a atingir seu rosto e corpo, enquanto ele se aproximava da sombra que aparentemente diminuía, deixando visível a passagem para o corredor, por entre as mechas brancas salpicadas de sangue ele agarrou o cabelo da criatura negra com a boca escancarada e olhos vazios.

_ Vai pro inferno! – ele fechou os olhos e em duas palavras ateou fogo ao ser que desapareceu em cinzas no chão, finalizando com o sinal da cruz em sua testa.

_AHhhhh...- um grito horrível expressado por Fear fez ele virar e várias criaturas invadiram a sala, tomando de escuridão o lugar, vários disparos e explosões, enfoques de luz repentinos e o estalidos das adagas.

Um cenário de guerra se formou naquele aposento quando todos deixaram a sala pela porta, Allan beijou a lateral do dedo e mandou para dentro da sala uma fagulha e todos caíram ao chão com o estopim de uma bomba, que dilacerou e carbonizou os corpos disformes e o jipe que ficara para trás. Ele caiu no chão rindo, dando por concluída a missão enquanto Fear estava atônita, Iron checava sua audição e Flame segurava os cabelos com raiva.

_Podia ter nos matado!!! – ela tentava acerta-lo inutilmente enquanto ele numa risada cínica ignorou qualquer perigo que eles corressem até uma parte do reboco cair sobre seu rosto e eles levantarem e saírem correndo, dividindo-se entre as entradas e escadas do lugar, tentando sobreviver ao desmoronamento que a explosão provocara no prédio.

Enquanto todos se escondiam dentro de quartos escuros daquele velho hospital, Allan correu escadaria acima, louco por mais ação. A cada vez que usava seus poderes um prazer imenso lhe consumia, mas ele estava limitado a usá-los apenas em algumas situações, fosse para salvar alguém, se esconder ou destruir, ele não poderia usar a esmo e mesmo porque ele descontrolava-se e perdia a consciência se não fosse controlado.

Ele andava rápido pelo corredor enquanto a poeira baixava, seus olhos vermelhos faiscavam enquanto ele corria e abria as portas com chutes violentos. Até que em uma das portas ele viu de relance uma sombra e entrou no quarto com seu sangue fervendo com a expectativa, mas lá estava apenas um menino, parecia uma criança de tão fino os pulsos, o brilho dos olhos do menino também vermelhos o fez paralisar, pois em vida jamais vira alguém com seus olhos antes.

Ele apontou a metralhadora para a cabeça do jovem e encontrou o metal gelado no meio da testa enquanto olhava para aquele vermelho vidrado em seu rosto. O garoto de cabelos negros não reagiu nem respirou enquanto sentia o cano na arma sobre a pele.

_ O que está fazendo? – deu-lhe um tapa pelas costas, quebrando o transe dos dois, Flame entrou no quarto e olhou o garoto de cima a baixo e encarou Allan.

_Você pretendia mata-lo? – falou com fúria, apenas vendo os olhos dele desviarem de seu olhar. Ela abraçou o garoto, cobrindo-o com seu casaco e saiu praticamente carregando-o, deixando Allan olhando para a cama vazia com uma única palavra dita a ele pela garota:

_ MONSTRO!

Notas finais
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