Notas iniciais
Essa fic é só uma experiência; não sei ao certo se darei continuação a ela, depende muito de vários fatores.

Espero que agrade a ao menos uma pessoa ;)

Boa leitura.


"Ó doçura da vida: Agonizar a toda a hora sob a pena da morte, em vez de morrer de um só golpe."

– William Shakespeare.



O hospital estava especialmente lotado aquele dia. Talvez por ser feriado, e os acidentes teimavam em acontecer. Já na porta era possível notar a correria dos médicos, ambulâncias, e enfermeiros, que iam de um lado ao outro como se fosse possível realizar várias ações simultaneamente. Em meio àquele caos, uma nova ambulância chegou. Dela, retiraram três pessoas, em macas distintas. Faltavam enfermeiros, de modo que precisaram levar as macas, passando por todos.

Finalmente, conseguiram alguém que os atendesse.

– O que houve com elas? – Perguntou o médico, um homem grisalho de meia idade, com mãos rápidas que já prestavam os primeiros socorros, em busca de algum problema pior.

O socorrista que trouxera as macas olhou outra vez para as garotas. Eram três, uma que aparentava passar dos vinte, uma garotinha, com no máximo doze anos, e a outra, uma adolescente. Eram todas irmãs.

– Motorista bêbado – Ele disse, como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo.

O médico suspirou, enquanto chamava “reforços”. Precisava de enfermeiros que o ajudassem a tratar das três.

– E os pais?

– Não sei, o motorista está morto, mas não havia mais ninguém. – O socorrista respondeu, já afastando-se para continuar o serviço.

Logo as enfermeiras chegaram, com pranchetas. Já haviam conseguido grande parte das informações sobre as garotas.

– Parece que elas têm uma avó – A enfermeira respondeu, analisando as anotações que fizera – A mãe morreu já faz alguns anos, e o pai tem uma grande ficha, parece que já passou por aqui no hospital antes. Metia-se constantemente em brigas, em bares.

O médico assentiu, pedindo que contatassem a avó.

Não havia muito que fazer pelas garotas. Aparentemente, usavam o cinto, e estavam bem, exceto por uma delas, que poderia ter problemas piores. Mas, por enquanto, não poderia ter certeza de nada. Pediu uma radiografia, saindo da sala para atender a outros pacientes.



Três dias depois...



A mulher passou o braço ao redor da garotinha, tentando despreocupá-la.

– Não se preocupe, Lucy. Ela vai acordar, como nós acordamos, você verá. – Pronunciou, olhando o corpo adormecido da irmã. Estava pálida, os cabelos escuros emoldurando-lhe o rosto. Mesmo assim, parecia estar dormindo, em paz. E ela dificilmente estava em paz.

– Promete, Meg? Promete que ela ficará bem? – A garotinha insistiu, arregalando os olhos marejados. Era muito próxima da irmã, desde que a mais velha havia saído de casa. Era duro demais para ela pensar que ela poderia nunca mais se levantar dali.

A irmã mais velha não soube responder. Por sorte, o médico entrou naquele momento.

– Srta. Sutton, poderíamos conversar a sós? – Perguntou, olhando para a garotinha debruçada sobre o leito.

– Claro – Respondeu, preocupada com as notícias que ele poderia dar. Virou-se para a irmã menor – Lucy, poderia ir ver a vovó?

A garota assentiu, e saiu pela porta, fechando-a atrás de si.



___X___



– Ela parece estar em um estado profundo de coma. Pode acordar a qualquer momento, ou nunca mais acordar. Não sabemos ao certo o motivo... Talvez a pancada na cabeça.

Do outro lado da sala, observando tudo, estava Susan. Seu olhar passava do próprio corpo, deitado ali, adormecido, para a irmã mais velha que conversava com o médico. Caminhou até eles, tentando, em vão, chamar a atenção. Não adiantava... Estivera tentando se comunicar há quase três dias, e nada. Estava morta?

Com um suspiro frustrado, caminhou até a porta. Não tentara sair de lá nenhuma vez, e achou que agora era a hora. Quem sabe não encontrava a tal luz de que todos falavam? Isso acabaria de vez com tudo. Seria melhor para todos. A irmã não sofreria mais, ela seria apenas uma lembrança nostálgica, de um passado ruim. Tentou pegar a maçaneta, mas sua mão atravessou-a. Ótimo! Agora era um fantasma.

Fechou os olhos, e apenas o que via era o dia do acidente. Fora sua culpa. Ela merecia morrer.


“Estava chovendo muito. O carro era dirigido por um homem bêbado, e no banco da frente estava à filha mais velha. Na parte de trás, Susan e Lucy dividiam o acento.

– Pai... – Hesitante, Megan tentou falar – Você poderia me deixar dirigir.

O homem grunhiu, e sua mão apertou com mais força o volante. Decerto se segurava para não agredir ninguém ali. A estrada estava quase invisível, ele precisava ter cuidado.

– Você ‘tá bêbado! – Exclamou Susan do banco de trás – Deixa ela dirigir, antes que mate a todos nós!

– Cala a boca, vadiazinha, eu vou dirigir essa merda! – O homem alterou-se, os olhos injetados de fúria.

– Pai, fica calmo... – A mais velha tentou apaziguar, o que pareceu deixá-lo mais nervoso ainda. Sempre que bebia, ficava agressivo daquele modo. Soltou uma das mãos do volante, estapeando o rosto da garota ao seu lado. Meg apenas colocou a mão sobre a face, encolhendo-se no canto. Mas Sue não deixaria o maldito velho bêbado feri-las assim.

Antes que o homem pudesse atacar a filha outra vez, já perdendo o controle do carro, a do meio pegou um canivete que guardava no bolso e posicionou sobre a jugular do homem, soltando-se do cinto para fazer isso.

– Para a merda do carro, agora. – Sussurrou, em tom ameaçador.

Uma veia pulsou na testa do homem. Com um movimento, agarrou a ponta do canivete, cortando a mão. Foi questão de segundos até o carro deslizar pela pista, e cair em direção ao barranco, capotando. O homem morreu na hora, pois nunca usava o cinto. A filha mais nova e a mais velha apenas bateram a cabeça no vidro, mas a do meio caiu em direção ao para-brisa do carro.

Depois disso, não se lembrava de nada mais.”


Sue colocou outra vez a mão na maçaneta, e ela novamente a atravessou. Oras, então poderia atravessar a parede. Respirou fundo, fechando os olhos. Estava morta, nada de mal poderia acontecer a ela... A menos era o que Susan pensava.

Apenas caminhou para frente, e quando abriu novamente os olhos, estava no corredor. Tudo era muito estranho quando se estava morta, pois além de ninguém te ver, o ambiente ao seu redor possuía um “ar” diferente, como se você estivesse em outro lugar, bem longe daquelas pessoas, mesmo que pudesse vê-las.

Sue passou pelas pessoas, tentando evitá-las. Talvez pudesse simplesmente atravessar todo mundo, mas não queria arriscar. No fim do corredor, avistou a avó, junto com a irmã mais nova. Correu até elas, sorrindo, até se lembrar de que não poderiam vê-la.

Suspirou, olhando para a garotinha chorosa, e a avó, que praticamente criara elas, já que o pai vivia bêbado. Elas pareciam estar sofrendo muito. Se ao menos ela pudesse encontrar a luz logo! Olhou ao redor, não vendo nada de diferente ou extraordinário.

Se ao menos pudesse dizer adeus...