O Precipício

1 Capítulo Único


Era o fim! Eu não poderia fazer mais nada...Tudo foi simplesmente jogado para o ar, como se o vento fosse levar tudo o que havia acontecido...Eu simplesmente não podia acreditar no que havia acabado de acontecer...Parecia irreal. Era como um pesadelo,quem sabe eu não acorde e tudo volte a ser como era antes...Quem sabe eu esteja morta ou talvez eu não exista mais.

Jogada naquele imenso e calmo parque...Parecia que a grama verde nunca fora o melhor lugar para se ficar, mas para ocasião parecia ser. As folhas, já secas, caíam das árvores, era fim de outono, e a chuva, digo uma tempestade, estava por vir. Mas qual era diferença? De que adiantaria ir para casa?

Eu não me movimentava, nem um osso sequer...eu só queria que a morte viesse logo para acabar com o meu sofrimento. A morte agora me parecia mais convidativa, quem sabe não fosse bom?

Mas nada acontecia...O vento passava por mim, fazendo com que eu me arrepiasse e estremecesse com o frio. Pingos de chuva começaram a cair. Talvez isso seja um bom sinal. Eram um pingos gelados, mas ao tocar em minha pele, faziam com que um fogo passasse pelo meu corpo. Seu gosto era bom...Mas nada se comparava ao gosto dele. Foi então que uma quente e salgada lágrima, inesperadamente, escorregou pela minha face, deixando seu rastro por onde passava, até que muitas outras vieram e eu já estava em prantos.

Eu sinceramente não conseguia entender. Ou eu não queria entender, acho que é a melhor explicação, eu queria me fazer de tola.

“Só mais um pouco...Você já vai acordar...”, eu pensava, mas parecia que quanto mais esse pensamento me entretia, o tempo passava vagarosamente.

Tentei alcaçar alguma força, que ainda existia dentro de mim, para abrir meus olhos, parecia que minhas pálpebras estavam tão pesadas, que estavam cooperando contra mim, mas enfim pude fazer com que meus olhos estivessem abertos, não totalmente, mas, com uma visão um tanto embaçada, devido às lágrimas, eu pude ver que a noite ja caia e um céu banhado de uma coloração azul-marinho, com algumas nuvens, pairava sobre mim.

Foi então que percebi que a chuva havia ido. Agora era somente eu e aquelas solitárias árvores, que aos poucos estariam totalmente nuas e a neve logo chegaria, junto a um rigoroso inverno que estava por vim. Eu me sentia como elas, eu me sentia fria, sem sentimentos, ou melhor dizendo, o único sentimento que me inundava, que me consumia, era a raiva. A raiva de ser rejeitada. Eu simplesmente me sentia um lixo. Até aquelas árvores, aquelas frias e solitárias árvores deveriam se sentir melhor do que eu neste exato momento. Elas eram tão espontâneas. Seus galhos, agora, estavam em sincronia, numa dança que o vento indicava o movimento, eles eram como marionetes, sem sentimentos, sem dor, sem amor, eram ocos, não literalmente, mas eram. Isso fazia com que fossem a melhor compania para mim agora.

A noite estava ficando mais fria do que deveria, talvez o inverno estivesse se pronunciando.Eu queria que a neve viesse logo, para me congelar, quem sabe a dor passaria?

Num lento movimento, pus-me a olhar o céu. Aonde estariam suas estrelas? Só podia se ver uma imensidão sem fim. Foi quando comecei a recordar daqueles dias em que nos deitávamos naquele mesmo parque, naquele mesmo lugar e obvservávamos o céu estrelados, nas nossas noites proibídas, nós éramos proibídos...Ele como sempre era gentil e atencioso.

“- Espere, – proferiu ele, gentilmente, retirando sua jaqueta de couro – uma moça linda assim, como você, não pode sentar-se em lugar como esse. – colocou sua jaqueta sobre a grama, que ainda verde, eram da cor dos seus olhos – Pode sentar-se, agora.

- Obrigada... – pronunciei, com a minha tímida e suave voz.

Sentei-me sobre sua jaqueta, sem retirar meus olhos dele, que atentamente me olhava também.

Estava tudo escuro, mas as brilhantes estrelas, que pareciam mais, diamantes — de tão lindas que eram, que se mostravam – estavam nos iluminando. Iluminando a nossa noite.

Parecia que estava tudo conspirando a nosso favor, estava tudo tão lindo, nada poderia dar errado.

Seu corpo encostado ao meu, me transferia seu calor, me matinha aquecida, me mantinha a salvo. Eu podia sentir, sua respiração já não estava mais calma, com anteriormente, mas sim um pouco mais apressada.

Deitou-se naquela grama, na qual muitas vezes havíamos nos encontrado e apreciado o céu, as pessoas que por lá passavam, suas expressões, suas histórias, porém nunca havíamos falado de nós. Será que havia um nós?

Eu podia sentir que ainda me observava, mas fazia isso para que eu o seguisse, realizando seu mesmo ato. Deitei-me ao seu lado.

Seu braço me servia como um apoio para minha cabeça. Meu corpo estava mole, não queria os meus comandos, queria ser comandado por outro alguém.

Seus olhos agora, estavam voltados para o céu. O céu que nos rodeava todos os dias, mas que não tínhamos tempo o suficiente para vizualizar sua beleza. Os meus olhos faziam o mesmo, apenas o seguiam.

Mas, em apenas um momento tudo mudou.

Eu pude sentir seu braço me pressionar contra seu corpo, me fazendo sentir ainda mais o calor que ele possuía, me fazendo sentir seu coração, que agora já não tinha seus batimentos ritimados, ele estava inquieto em seu peito, estava pegando fogo, assim como o dono. Trouxe seu rosto mais próximo ao seu, fazendo com que eu pudesse sentir seu perfume, o mesmoq ue usava todas as vezes em que estávamos juntos, ele era a sua marca, a nossa marca. Eu não possuía uma saída, ele havia me prendido em seus braços. Como um ato de rendição, abracei-o, enlaçando meus braços ao redor de seu pescoço. O meu corpo não cedia aos meus comandos, ele estava simplesmente rendendo-se, rendendo-se a ele. Eu podia sentir sua respiração em minha indefesa e sensível pele, fazendo com que um campo elétrico percorresse a minha espinha. Pude sentir um tocar de seus lábios em meu pescoço e então um sussurro ao pé do meu ouvido, dizendo “Eu te amo”. Seriam essas as palavras que eu queria ouvir? Seria essa a verdade? Mas, então ele prosseguiu, direcionando-se para seu alvo. Seus lábios estavam em minhas bochechas rosadas, onde depositavam alguns beijos, doces beijos. Mas, enfim, meus lábios foram encontrados e num milésimo de segundo os seus lábios se encaixaram aos meus. Mas ele queria mais, sua língua pedia passagem, fazendo com que eu abrisse minha boca e fosse inundada por ela, que logo se encontrou com a minha. Elas estavam em sincronia e faziam uma doce e sensual dança, que em pouco tempo acabaria...Seu gosto era bom, não havia nada melhor do que aquilo.

Nossos corpos colados, formando um só, nossas línguas fazendo sua dança, parecíamos perfeitos juntos, como naqueles livros de contos de fadas, onde o fim era sempre o mesmo: “E eles viveram felizes para sempre”, era assimq ue eu pensava. Mas eu era uma tola em pensar que a vida poderia ser um conto de fadas. Eu nunca havia acreditado no amor, mas quando ele te encontra, não se tem como fugir. Parece que o conto de fadas aparece, mas é só uma suposição. A vida era injusta, ela nunca seria como essas histórias, que servem somente para nos mostrar o quanto estamo errados, o quão ruim é o nosso mundo, a nossa vida...Elas servem somente para sonhar, para nos fazermos pensar que aquilo poderia existir, para debochar de nós.

Aos poucos ele foi se distanciando, depositando somente um único beijo em minha boca, mas nunca retirando seus olhos dos meus.

Ele havia se tornado uma espécie de droga para mim, uma droga na qual eu era a única que saía ferida. Eu não conseguia parar. Ele era meu vicío, meu pensamento, minhas palavras, meu mundo, minha vida! Era um vício, do qual eu nunca conseguirei esquecer ou me curar, ele apareceu para ficar e comigo iria permanecer para sempre, junto ao meu pobre e fraco coração...Ele morreria junto a mim!”

Fui retirada dos meus pensamentos por uma luz, uma luz que vinha em minha direção. Não aprecia ser algo bom.

- Ei, garota! Você não pode ficar aqui! A neve está por vir! – uma voz de homem dizia, enquanto se aproximava de mim. – Vamos!

- Eu... – foi o máximo que consegui pronunciar, ou melhor, sussurrar. Eu não possuía mais forças. Ou não queria acreditar que possuía? Eu estava começando a congelar alí.

- Você está bem? – a voz perguntou, enquanto tocava meu pulso, para ver se eu estava morta, mas ele viu que eu não estava. – Eu ajudo você, venha. – tentou me levantar, mas eu não conseguia.

- Eu... – pigarro – não...preciso...de ajuda. – proferi, retirando suas mãos de mim. – Já...estou indo... – foi quando um pingo de força, ou vontade, apareceu em mim. De algum modo, eu comecei a correr, correr para onde quer que fosse que meus pés estavam me levando.

Eu estava novamente aos prantos. Para ser mais exata, estava assim desde o último ocorrido, talvez desde quando ele apareceu aqui, no mesmo lugar em que nos encontrávamos, na mesma hora, com o mesmo sorriso, porém hoje ele estivesse sem aquele seu lindo sorriso em seu rosto, ele estava triste, consciente do que tinha de fazer.

A culpa não era totalmente dele, mas eu queria acreditar que era. Eu sabai que nunca poderia dar certo, que eu nunca o teria por completo, mesmo com aquelas importantes palavras sendo proferidas por seus lábios, seus delíciosos lábios, eu nunca havia acreditado totalmente nelas, eu simplesmente pretendia que aquela era a mais pura verdade, mesmo ele a amando. Amando aquela que não o merecia, que o havia feito sofrer, que o havia feito sangrar, como ele está fazendo comigo agora. Agora sei que eles eram mais que um lindo casal, eles eram perfeitos um para o outro, eles eram insensíveis.

“ – Eu preciso ir – pronunciou – ela me quer de volta e eu a amo. Me deslcupe. – coma cabeça baixa ele veio até mim, encostando sua testa na minha, onde posteriormente, depositou um último beijo.

Virou-se para a rua, seguindo em direção a sua casa.

Eu simplesmente agi como uma idiota. Uma idiota apaixonada. Eu não consegui pronunciar uma palavra sequer! Eu me odiava aquele exato momento, eu o odiava. Eu estava angustiada com aquilo.”

E agora, alí eu estava, correndo, morrendo aos poucos, sem sentimento, sem ele. Sem aquele que me vez ver o que era o amor, o que era amar! Sem aquele que mesmo sendo a primeira pessoa, a qual eu amava, seria a primeira a partir meu coração, a me deixar em pedaços, a me humilhar, a me estraçalhar. Às vezes as pessoas são muito diferentes do que nós pensamos ser, às vezes elas nos surpreendem...

Inconscientemente, cheguei em um lugar longe de tudo, eu havia chegado no fim, onde não havia mais terra, era o mar. Pessoas costumavam ir lá para pescar, — naquela velha passarela de cimento — ou algo assim, mas eu não. Não havia ninguém alí. Era somente eu, o vento, o céu e o mar. Eu ia cada vez mais para o fim, para os eu fim. A água possuía uma aparencia congelante. Um ótimo modo para terminar tudo, para cabar com a minha inútil vida.

Eu andava cada vez mais rápido, para que aquilo tudo acabasse logo. Talvez eu não existisse mais e tudo estaria bem, quem sabe seria um favor que eu estivesse fazendo a ele. Avistei uma faca jogada ao chão. “Que desperdício”, pensei. Talvez servisse para alguma coisa. Segurei-a fortemente, talvez eu não me mataria com ela, mas segurei-a mesmo assim.

Arqueei meu corpo para ver melhor a água do mar, que agora movimentava-se muito rapidamente junto com um vento frio que passava por alí.

“É o fim”, pensava comigo mesma, “Vamos acabar logo com isso”. Mentalmente, contei até três e iria pular, mas nesse instante uma voz muito conhecida me impediu.

- Não faça isso! – uma voz clamava.

Lentamente virei meu corpo para vê-lo, surpreendendo-me com o que via. Era ele.

Lágrimas e mais lágrimas começaram a descer, escorregando por minha face. Elas já não faziam diferença, parecia que lá era o lugar delas, eu já não em importava mais com isso, já havia me acostumado com elas.

- Você não pode me deixar! – chegou mais perto de mim – Eu quero você. Por favo, não faça isso, me desculpe pelo que eu fiz com você. Eu sei que a fiz sofrer, mas eu me arrependo...

- Eu...Eu... – guaguejei, não conseguia pronunciar nenhuma palavra.

- Não precisa dizer nada. – aproximou-se um pouco mais. Ele iria me beijar.

Estaria ele dizendo a verdade? Estaria ele somente pronunciando aquelas palavras, mas possuía um outro sentimento? Eu simplesmente não podia acreditar, eu já não confiava mais nele, em nada que saía de sua boca. Eu o odiava, essa era a palavra certa.

Ele foi se aproximando, como se nada houvesse acontecido, como se aquele fosse um de muitos outros dias, onde tudo estava bem, onde passávamos a noite juntos, onde eu o amava.

Mas, inconscientemente, num ato reflexo, minha mão foi até seu peito, ela levava consigo aquela arma, aquela faca. Eu introduzi aquela afiada faca em seu peito, no lado direito, justamente onde um coração batia, mas em questão de segundos, só se podia ouvir os meus batimentos.

As lágrimas ainda continuavam. Ele estava....estava morto! Eu havia o matado, mas eu não me arrpedendia. Ele havia feito a mesma coisa comigo, mas ele havia me matado por dentro durante muito tempo, só que não havia conseguido concluí-lo.

Jogado ao chão, ele já não parecia mais aquela pessoa que era. Parecia diferente.

Ajoelhei-me ao seu lado, retirando a faca – que saía suja de sangue – dele e coloquei-a novamente, tentando abrir caminho até seu mais precioso órgão.

Avistei-o, retirando-o com as mãos. Eu já estava ficando toda suja de sangue e lágrimas que não paravam de descer pelo meu rosto.

Agora, eu segurava o que ele tinha de mais importante, segurava o seu coração.

Voltei para o meu posto, contando novamente até três.

Eu havia deixado seu corpo jogado ao chão, enquanto olháva-o pela última vez, talvez fosse a última vez emq que nos encontraríamos.

Quando terminei a contagem em minha mente, me joguei dentro daquele imenso e gelado mar azul. Estava congelante. Era como se tivessem um milhão de facas entrando em seu corpo, como se você perdesse todos os sentidos e o fim chegasse. Eu havia levado seu coração comigo. Eu havia conseguido-o de algum modo, ele iria comigo até o fim.

Seu coração agora era meu!

Notas finais
Eu sei que ficou meio triste, mas isso foi escrito num momento onde muitas lembranças de coisas ruins, ai resolvi escrever algo e eu estava inspirada! Espero que entendam e tenham gostado!