O Preço do Pecado

9 Luzes, Sombras e Rendição



​As semanas que se seguiram ao encontro no estacionamento foram um teste de resistência para Maite. O cartão preto de Heitor continuava intocado no fundo de sua bolsa, como uma promessa perigosa que ela se recusava a cumprir. Ela descontou toda a sua frustração no trabalho, organizando a maior exposição de arte contemporânea da galeria principal de Chicago.

​Na noite da inauguração, a galeria estava lotada. O tilintar de taças de champanhe e o murmúrio da alta sociedade preenchiam o espaço ricamente iluminado. Maite, vestindo um longo de seda verde-esmeralda que contrastava perfeitamente com seus cabelos castanhos, afastou-se um pouco da multidão. Ela parou diante de uma das obras principais: uma pintura abstrata imensa que retratava um buraco negro, cujas bordas pareciam sugar toda a luz ao redor.

​Ela observava a profundidade da obra quando uma risada grave e familiar ecoou às suas costas, fazendo os pelos de seus braços se arrepiarem.

​Maite virou-se lentamente. Heitor Laurentis cruzava o salão principal. Ele vestia um terno sob medida cinza-escuro, sem gravata, exalando aquela arrogância nata. Ao lado dele, conversando com sorrisos de cumplicidade e diversão, estava um homem muito parecido com ele, embora com feições ligeiramente mais suaves, e uma mulher elegante de vestido longo pérola.

​Aquele era Romeu Laurentis, o irmão mais novo de Heitor, acompanhado de sua esposa, Vanessa. Ao contrário de Heitor, que carregava o peso bruto da liderança, Romeu cuidava de uma parte mais legítima dos negócios da família, mantendo um charme diplomático. Vanessa logo entrelaçou seu braço ao do marido, rindo de algo que ele dissera.

​O olhar de Heitor varreu o salão até travar em Maite. O sorriso de escárnio dele aumentou. Ele murmurou algo para o irmão e caminhou na direção dela, sendo seguido pelo casal.

​— Natasha — Heitor parou a poucos centímetros dela, as mãos nos bolsos da calça, avaliando o decote do vestido verde com uma audácia que a fez morder o interior da bochecha. — Eu não sabia que você tinha bom gosto para buracos negros. Achei que preferisse coisas... mais antigas.

​— Laurentis — ela respondeu, a voz gélida, mantendo o queixo erguido. — O que você está fazendo aqui? Achei que arte fosse refinada demais para os seus capangas.

​Romeu soltou uma risada genuína, aproximando-se.

— Ela tem espinha dorsal, Heitor. Gostei dela.

​Heitor pigarreou, o olhar brilhando com um divertimento sombrio.

— Natasha, estes são meu irmão, Romeu, e a esposa dele, Vanessa. Família, esta é a restauradora de quem falei. A mulher que acha que pode me ditar regras.

​Vanessa sorriu de forma acolhedora, embora curiosa com a tensão palpável entre os dois.

— É um prazer, Natasha. O Heitor raramente elogia a inteligência de alguém, então você deve ser realmente brilhante no que faz.

​— O prazer é meu, Vanessa, Romeu — Maite respondeu, suavizando o tom para os convidados, mas lançando um olhar mortal para Heitor. — E não se enganem, seu irmão não elogia ninguém. Ele apenas tenta subjugar o que não consegue comprar.

​— Toque de mestre — Romeu sussurrou para o irmão, divertindo-se com a audácia da jovem.

​Heitor deu um passo à frente, estreitando o espaço entre ele e Maite. O cheiro de tabaco e do perfume caro dele substituiu o aroma das flores da galeria.

​— Faz quinze dias, boneca — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz caindo para aquele tom rouco e ignorante que a perturbava. — Quinze dias que eu deixei meu cartão na sua bolsa. Por que você não ligou? Ficou com medo de pedir mais?

​A audácia dele diante do irmão e da cunhada fez o sangue de Maite ferver de raiva e humilhação.

— Você é um cinico, Laurentis. Me deixa em paz.

​Sem esperar uma resposta, ela deu as costas e caminhou apressada em direção às grandes portas de vidro que davam para a sacada externa da galeria, buscando o ar frio da noite para acalmar o peito arfante.

​Heitor olhou para Romeu e Vanessa, dando de ombros com total indiferença.

— Com licença. Preciso domar uma fera.

​Ele caminhou até a sacada, deixando o irmão e a cunhada para trás com sorrisos cúmplices.

​Na Sacada

​O vento frio da noite de Chicago bateu no rosto de Maite, mas não foi suficiente para apagar o fogo da raiva em seu peito. Ela segurava o parapeito de pedra com força quando a porta de vidro se abriu e fechou atrás dela.

​— Sai daqui, Heitor — ela exigiu, sem se virar.

​— Você fica linda quando está com essa fúria nos olhos, sabia? — ele debochou, caminhando até ela com passos calmos. Ele parou logo atrás dela, prensando o corpo dela contra o parapeito, cercando-a com os braços. — Quinze dias, Natasha. Eu não sou um homem de esperar.

​— Eu disse que ligaria se eu quisesse! E eu não quero! — ela sibilou, virando-se de frente para ele, batendo as mãos contra o peito engomado do terno dele. — Você é um cafajeste vulgar. Acha que toda mulher vai cair aos seus pés só porque você estala os dedos?

​Heitor deu um sorriso perverso.

— Você caiu no meu carro, boneca. E garanto que o seu corpo sente falta do meu peso em cima do seu.

​Antes que ela pudesse desferir um tapa na cara dele, Heitor segurou seus dois pulsos com uma das mãos, imobilizando-a contra o seu corpo. Com a outra mão, ele espalmou a nuca de Maite, puxando-a para um beijo extremamente sensual, ardente e possessivo. A língua dele invadiu a boca dela com uma urgência que fez as pernas de Maite fraquejarem. Ela tentou lutar nos primeiros segundos, mas o gosto de uísque e poder dele a dominou. Ela soltou um gemido abafado, correspondendo ao beijo com a mesma intensidade selvagem que tentava esconder.

​Ele a soltou devagar, mordendo o lábio inferior dela antes de se afastar milimetricamente, o hálito quente batendo no rosto corado de Maite.

​— Estou te esperando na mansão hoje à noite — ele ordenou, o tom de mafioso retornando de forma implacável. — Não se atrase.

​Maite respirou fundo, tentando recuperar a dignidade enquanto ajeitava o vestido amassado pelas mãos dele.

— Eu não vou, Laurentis. Esquece. Vá procurar uma das suas vadias.

​Heitor bufou, a mandíbula travando de raiva com a rejeição. Ele a soltou com um empurrão leve, os olhos castanhos faiscando de puro ódio e frustração.

— Ótimo. Fique com o seu orgulho de merda. Mas não cruze o meu caminho de novo.

​Ele deu as costas e saiu da sacada com passos duros, batendo a porta de vidro.

​À Meia-Noite, na Mansão Laurentis

​O relógio da sala principal marcou exatamente meia-noite quando a grande porta da frente se abriu.

​Heitor estava sentado na imensa poltrona de couro, vestindo apenas uma calça escura e uma camisa preta entreaberta até o meio do peito. Ele girava um copo de uísque com gelo na mão direita, observando a entrada com um olhar que misturava tédio e antecipação. Ele sabia que ela viria. O corpo dela pertencia ao dele, e o orgulho de Maite não era forte o suficiente para vencer o desejo.

​Maite entrou na sala. O vestido esmeralda ainda estava perfeito, mas seus cabelos estavam levemente desalinhados pelo vento da rua. Ela cruzou os braços, parando no centro do tapete persa.

​— Você é um desgraçado — ela disse, a voz trêmula, mas firme.

​Heitor deu um gole no uísque, um sorriso lento e vitorioso surgindo em seus lábios cafajestes.

— Você demorou, Natasha. Achei que tivesse dito que não vinha.

​— Eu vim te dizer na sua cara que você não me controla — ela deu três passos à frente, parando diante dele. — Eu vim porque o meu corpo quis, não porque você mandou.

​— Continue contando essa mentira para si mesma se isso te faz se sentir melhor, boneca — Heitor levantou-se lentamente, colocando o copo na mesa lateral. Ele caminhou até ela, a ignorância habitual ditando seus movimentos brutais. Ele segurou o tecido fino do vestido esmeralda no decote e, com um puxão violento, rasgou a seda até o quadril, deixando-a praticamente nua no meio da sala.

​Maite soltou um arquejo, mas antes que pudesse falar algo, Heitor a pegou no colo e a jogou no sofá de couro.

​Desta vez, a urgência era maior do que qualquer outra noite. Não houve tempo para conversas ou provocações lentas. Heitor despiu-se com pressa e a tomou ali mesmo, no sofá da sala, de forma violenta, profunda e desesperada. Maite enterrou as unhas nos ombros dele, soltando gemidos altos que ecoavam pelo teto alto da mansão, entregando-se por completo àquela necessidade carnal que a consumia há semanas. O ritmo frenético e selvagem arrastou os dois para um clímax explosivo e ruidoso no meio da escuridão da sala.

​Exaustos, Heitor a carregou escada acima até a suíte principal, onde voltaram a se possuir na cama de casal com uma intensidade sôfrega, até que o cansaço extremo finalmente os fizesse adormecer, os corpos suados e entrelaçados sob os lençóis de seda.

​Na Manhã Seguinte

​Os primeiros raios de sol de uma manhã quente de Chicago cortaram o quarto. Heitor abriu os olhos por volta das sete da manhã, sentindo um peso macio sobre o seu peito.

​Desta vez, Maite não havia fugido.

​Ela continuava dormindo profundamente ao lado dele, com a cabeça apoiada em seu ombro tatuado e uma das pernas jogada por cima das dele. A camisola que ela vestia estava desalinhada, expondo a pele clara e as marcas vermelhas que as mãos possessivas de Heitor haviam deixado em seus quadris e coxas.

​Heitor ficou imóvel por alguns minutos, observando o rosto sereno de Maite enquanto ela respirava devagar. O semblante de fúria e orgulho que ela exibia durante o dia havia dado lugar a uma vulnerabilidade pacífica. Pela primeira vez em anos, Heitor sentiu uma sensação estranha de calma invadir seu peito. Ele estendeu a mão e, com uma delicadeza rara para um mafioso rústico, afastou uma mecha de cabelo castanho que cobria o rosto dela.

​Maite murmurou algo incompreensível, aninhando-se ainda mais perto do corpo quente dele, o calor de sua pele colando na dele.

​Heitor deu um sorriso de canto, um sorriso sem o deboche habitual, mas cheio de uma posse implacável. Ele se inclinou e depositou um beijo suave no topo da cabeça dela, aspirando o cheiro de xampu e sexo que emanava dela.

​— Você pode lutar o quanto quiser, Natasha... — ele sussurrou bem baixo, para não acordá-la, enquanto sua mão descia para apertar a coxa dela por baixo do lençol com uma firmeza possessiva. — Mas você já está presa no meu buraco negro. E daqui de dentro você não sai mais.