O Preço da liberdade livro 2
1 Sangue Rebelde
O Grande Salão de Aethelgard resplandecia. Milhares de velas em candelabros de cristal iluminavam a nata da nobreza, que aguardava ansiosamente pela Apresentação Decenal dos Herdeiros. Era o momento em que os gêmeos seriam formalmente reconhecidos como sucessores aptos perante os olhos de Deus e do Estado.
Alexander, o jovem príncipe, estava parado ao lado do trono da mãe. Aos dez anos, ele já possuía a postura régia do avô e a frieza analítica de Mellyssa. Seu gibão de veludo azul-marinho não tinha uma única dobra fora do lugar.
Mellyssa, deslumbrante em um vestido de seda prata, inclinou-se para o filho, mantendo o sorriso diplomático para os condes que passavam.
— Alexander, onde está sua irmã? — ela sussurrou, a voz carregada de uma tensão que só o filho entendia.
— A última vez que a vi, mamãe, ela estava discutindo com o mestre de armas sobre o peso de uma adaga de treino — Alexander respondeu, sem mover um músculo do rosto. — Suspeito que o protocolo de etiqueta não estava nos planos dela para esta noite.
Mellyssa sentiu uma pontada na têmpora. Ela olhou para o trono vazio ao seu lado. Adrian também sumira.
Nos Estábulos Reais
Longe do brilho dos diamantes, o cheiro de feno e couro dominava o ambiente. Adrian, que abandonara sua capa real em uma pilha de palha, caminhava silenciosamente pelas sombras das baias. Seus olhos, treinados por anos de caça e guerra, fixaram-se em um pequeno pajem que tentava, com dificuldade, selar um dos garanhões mais rápidos do reino.
O pajem vestia calças largas de linho sujo e uma túnica que ocultava os cabelos longos sob um gorro de lã.
— A sela de salto exige que você aperte o cilhão um pouco mais à esquerda, pequeno rapaz — a voz de Adrian ecoou, profunda e carregada de um divertimento perigoso.
O vulto estacou. Diana virou-se lentamente, os grandes olhos escuros — idênticos aos de Mellyssa, mas com o brilho selvagem de Adrian — encontrando os do pai.
— Papai! — ela exclamou, tentando fingir indignação. — Você deveria estar lá dentro ouvindo o Duque de Verrier reclamar das colheitas pela décima vez.
— E você deveria estar em um vestido de seda que custou o preço de dez desses cavalos, sendo apresentada como a luz de Aethelgard — Adrian caminhou até ela, cruzando os braços. — Fugindo para a cidade de novo, Diana?
A menina suspirou, jogando o gorro no chão e liberando uma cascata de cabelos escuros.
— Eu não suporto o cheiro de perfume e as mentiras daquelas pessoas, pai. Eu quero ver as corridas de barco no porto. Quero ser livre, como você era.
Adrian sentiu um aperto no peito. Ele via a si mesmo naquelas roupas de pajem. Via a rebeldia que quase o destruíra, mas que também o levara até Mellyssa.
— O preço da liberdade que eu tive, Diana, foi quase perder o direito de ter você — ele disse, a voz suavizando enquanto ele se aproximava e limpava uma mancha de fuligem da bochecha da filha. — Você é uma Kane. E ser um Kane significa que suas fugas têm consequências. Se você não aparecer naquele salão em dez minutos, sua mãe vai pessoalmente cancelar seus treinos de esgrima por um mês.
Diana arregalou os olhos. — Ela não faria isso.
— Ela é Mellyssa Solomon. Ela controla o tesouro e a paciência deste reino. Você quer mesmo arriscar?
A pequena princesa bufou, chutando um monte de palha. — Você é um traidor, Majestade. Ficou civilizado demais para o meu gosto.
— Eu fiquei esperto demais, isso sim — Adrian riu, pegando a filha e sentando-a em cima de um caixote. — Agora, ouça-me bem. Se você entrar lá, fizer as reverências e não morder ninguém, eu prometo que amanhã, ao amanhecer, sairemos nós dois para o porto. Disfarçados. Sem guardas. Apenas o Rei e a Rebelde. Negócio fechado?
Diana semicerrou os olhos, avaliando o pai como uma negociante nata. — E eu quero usar a sua adaga de prata. Aquela com o pomo de lobo.
Adrian soltou uma gargalhada curta e balançou a cabeça. — Você é terrível. Negócio fechado. Agora corra para o quarto da Sarah, ela tem um vestido reserva e sabe como esconder esse cheiro de estábulo.
O Retorno ao Salão
Minutos depois, Adrian retornou ao salão, recomposto e imponente. Mellyssa o encontrou com o olhar, uma sobrancelha erguida.
— Encontrou a nossa herdeira fugitiva?
— Ela estava apenas... conferindo a prontidão da cavalaria — Adrian sussurrou, beijando a mão da esposa com a mesma paixão de anos atrás.
— Ela cheira a cavalo, Adrian?
— Um pouco de lavanda vai resolver.
Nesse momento, as trombetas soaram. Diana entrou, caminhando com uma graça relutante, o vestido pérola brilhando sob as luzes. Ela trocou um olhar cúmplice com o pai e um olhar desafiador com Alexander.
A família Kane estava completa diante do reino. Mas, nos fundos do salão, um mensageiro com as cores de uma casa nobre há muito esquecida entregava uma carta lacrada a um dos conselheiros dissidentes. A mensagem continha apenas um selo: uma orquídea de ouro.
A sombra de Giulia Lâfrer acabara de tocar o solo de Aethelgard novamente, e desta vez, ela não viria com vinho, mas com veneno.
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