O Preço da Volta - 2ª Fase
6 Capítulo 6 - Reconciliação...
Notas iniciais
Frannie não dormiu naquela noite. Sua cabeça latejava constantemente e sua mente trazia de volta todos os eventos que aconteceram no dia anterior.
Como as coisas puderam ter desandado em poucos minutos?
Errara. E errara feio em despejar tais coisas contra a esposa, e ainda mais por ter mentido e ido na despedida de solteira, porém, a desconfiança de Cassandra a tirou do sério. Frannie nunca saiu para algum lugar despojado sem a esposa do lado ou ficara embriagada. Quase poderia ser chamada de puritana. Daquelas que nunca faz nada considerado errado. Procurava sempre ser um modelo a se seguir. E então Cassandra proferir em sua face que poderia ter sido traída despertou em si uma raiva que a deixou cega.
Isso não justificava a frase horrível que jogou contra a esposa, mas ela era humana, afinal de contas. O defeito do ser humano é achar que o próximo não pode errar mas ele pode. Viver é sempre errar e procurar conserto nos atos que fazemos. O arrependimento é o primeiro passo e depois dele tudo tende a caminhar para o lado certo.
A conversa que tivera com Quinn passava como um filme. A irmã passara horas consolando-a e apenas foi dormir quando Frannie quase chutou o seu traseiro, alegando que a caçula precisava descansar. Todavia, antes desta ir ressonar em seu quarto, a frase que soltou ainda era vívida na sua memória.
''Vocês duas estão erradas. Ela é sua esposa e o casamento é uma luta constante todos os dias para que tudo dê certo. Lute por ela. Vale a pena.''
Frannie lutaria. Lutaria pelo seu casamento. Uma briga não faria ambas se divorciarem, certo?
Ela esperava que sim.
Seus olhos miraram o relógio elegante pendurado na parede. Os ponteiros prateados marcavam o início do domingo. Não havia trabalho, compromissos ou qualquer outros planos na sua agenda. Apenas um dia onde geralmente ela e Cassandra aproveitavam para passear com Kate.
A Fabray projetou seus pés no chão, se erguendo do sofá preto do escritório e sentindo seus ossos estalarem. Esse com certeza não era o melhor lugar para passar a noite. O pijama que Santana a emprestou caiu bem em si. A barra da calça tocava o chão e Frannie saiu do escritório. Os pés descalços e os passos lentos. O corpo pesava consideravelmente. Tanto pelo desgaste emocional quanto pela bebida ingerida no dia anterior.
A segunda porta à direita era o seu objetivo, mas seu corpo agiu no automático e ela adentrou a da esquerda, observando o interior do quarto da filha.
Nada havia mudado naquele cômodo desde os quatro anos de Kate. As paredes ainda eram de um tom rosa com detalhes em branco e os mesmos animais de pelúcia enfeitavam as prateleiras e o chão coberto pelo carpete felpudo. As bonecas eram incontáveis e preenchiam quase todo o quarto. A única coisa a mais ali era a televisão na parede que a filha havia pedido para que pudesse assistir seus filmes e programas favoritos.
O coração de Frannie apertou dentro do peito. Kate já possuía oito anos. A loira se recordava nitidamente a alegria que sentiu quando a inseminação havia dado certo. Russel cuidou sozinho da empresa enquanto a filha passava todos os meses da gestação sem sair do lado da esposa. Enchendo-a de mimos e amor. O dia do parto fora o momento mais emocionante da sua vida. Quando o bebezinho chorão fora erguido pela doutora, Frannie chorou por quase uma hora. Aquele era o fruto do seu amor por Cassandra.
E ali estava Kate, dormindo tranquilamente enquanto apertava contra si uma tartaruga de pelúcia. Os cabelos dourados espalhados pelo travesseiro, a coberta quase saindo de seu corpo e o pijama lilás estampado. Sua garotinha estava crescendo.
Frannie caminhou lentamente até parar ao lado da cama da filha, sentando na beirada lentamente. Deus! Sua Kate era a garotinha mais linda do mundo. O nariz arrebitado, o queixo fino e a pele alva.
Seus dedos passearam pelos cabelos sedosos, afastando os poucos fios que cobriam-lhe o rosto. Kate remexeu levemente e abriu os olhos azuis idênticos aos da mãe, encarando-a.
— Mamãe? — Chamou baixinho.
— Oh, meu amor. Me desculpe. — Falou no mesmo tom. — Eu não quis acordá-la. — Continuou as carícias no couro cabeludo da menor.
Kate bocejou lentamente, antes de erguer os bracinhos na direção da mãe.
— Deita aqui comigo, mamãe. — Pediu.
Frannie sorriu pelo gesto doce da filha. Kate sempre fora carinhosa. Esse era uma qualidade que sua garotinha jamais perderia. A mais velha ergueu a coberta da menor, se pondo sob ela e deitando de costas na cama de casal, logo tendo Kate sobre si.
A garotinha abraçou o corpo da mãe e pôs a cabeça na curva do seu pescoço, enquanto a mais velha não perdeu tempo em aspirar o cheiro dos cabelos claros da filha. O aroma doce do shampoo de criança adentrou suas narinas e a fez sentir o peito aquecer em amor. O amor mais puro que já sentiu.
— Eu adoro domingos, mamãe. — Murmurou baixinho.
— E por que você os adora, minha gatinha? — Acariciava levemente as costas da mais nova.
— Porque eu posso ter as minhas duas mamães só pra mim o dia todo. — Respondeu com a voz sonolenta. — E porque... — Bocejou novamente. — Eu não preciso ir para a escola.
Frannie não pôde deixar de rir. Sua filha era a criança mais adorável do mundo.
— Eu amo você, minha Kate. — Sorriu.
A filha nada respondeu. O sono havia vencido a pequenina. Afinal de contas, ainda início de manhã. Frannie também permitiu ser levada para os braços de Morfeu. A cama da filha era irrevogavelmente melhor do que o sofá do escritório.
...
Cassandra finalizou a sua higiene matinal e se olhou no espelho. Os olhos inchados e levemente vermelhos. Suspirou pesadamente. Se sentia idiota e magoada.
Sua conversa com Rachel e Brittany durou boas horas na noite anterior e depois de ambas realmente afirmarem que Frannie apenas bebeu e chorou quando uma dançarina tentou tentou dançar para ela, a loira se sentiu profundamente arrependida de tudo. Foi exagerada na sua reação. Não havia um porquê plausível para ter duvidado tanto. A esposa nunca deu motivos para que não recebesse confiança.
Mas a mágoa também gritava dentro de si. O que Frannie lhe dissera atingiu-a em cheio e ela sabia que talvez aquilo era sua culpa.
Quando ambas se conheceram por serem colegas de quarto na faculdade, Frannie a ajudou a se adaptar com tudo, e a protegeu também dos olhares que as pessoas mais afortunadas davam-lhe por ser uma garota de origem humilde. Ela fora seu porto seguro naquele lugar. Ambas passaram meses praticamente grudadas na faculdade. Mas Cassandra não soube reconhecer os atos da amiga, e quando aumentou seu ciclo de amizade, passou a ir em todas as festas da faculdade e flertar com alguns garotos.
Talvez isso fosse resultado do seu coração bater mais rápido sempre que Frannie sorria para si. Ou seu corpo tremer sempre que a mesma a abraçava. Isso não importava. Tudo só piorou quando Frannie assumiu que era apaixonada por si, e ao invés de corresponder, Cassandra dormiu com vários de seus amigos para tentar provar para si que não sentia algo pela amiga.
Mas isso não funcionou.
A dor que viu nos olhos de Frannie a cortou no meio, e doeu mais ainda quando viu a amiga tentando apagá-la da memória com sua colega de turma, a tal da Megan Benson. Doeu ver Frannie mudando de dormitório quando esta não suportou mais cuidar de si sempre que chegava bêbada com cheiro de sexo, e por Deus! Doeu como nunca havia doído perdê-la para o medo de amá-la. Mas Cassandra sabia que sua dor de nada se comparava com a de Frannie.
E depois de vê-la beijando Megan, Cassandra soube, enfim, que estava apaixonada por ela.
Foram meses de tentativas. Cassandra parou de ir em festas, também cortou seu ciclo social com os garotos que apenas queriam dormir consigo e passou a tentar reconstruir sua amizade com Frannie. Suas notas aumentaram novamente e quando estava cansada de receber respostas negativas, sua paciência chegou ao fim. Ela fez então o que tinha de fazer. Beijou Frannie no meio do campus para quem quisesse ver. Ela nunca havia sentido aquilo antes. Tudo dentro de si começou a entrar em ebulição. Seu coração quase saiu pela boca e seu corpo formigou por completo.
E Cassandra soube, de fato, que seu coração pertencia àquela garota doce e tímida.
Ela apenas sentia medo. Medo de perdê-la novamente. Medo de Frannie deixá-la por outra mulher. De chegar em um momento do casamento onde não fosse mais suficiente. O medo que a fez desconfiar tanto da palavra da esposa no dia anterior. E o estúpido medo que acarretou em sua mão batendo na face marmórea.
Não. Ela não perderia Frannie outra vez.
Ela iria até o escritório e falaria com sua esposa.
Seus pensamentos foram cortados quando ouviu a porta do quarto abrir timidamente, e saindo do banheiro ainda de camisola, ela pôde observar a esposa de pijama e com a expressão constrangida. Lembrou novamente da Frannie de anos atrás.
Ela não pôde evitar sentir o coração bater mais rápido quando encarou os olhos azuis. Ou impedir que seus próprios olhos marejassem. Cassandra apenas ignorou tudo o que havia acontecido e seu corpo moveu como se estivesse sendo atraído por uma corrente elétrica, correu até a esposa e se jogando nos seus braços.
Frannie permaneceu surpresa por alguns segundos, antes de rapidamente envolver a cintura da mais alta com os braços, apertando-a contra seu corpo.
Seu nariz inalou o perfume de Cassandra e um suspiro escapou de sua boca.
— Me desculpe, Cassie. — Pediu. A voz saindo abafada pelo abraço intenso. — Me desculpe por ter agido como uma idiota. Me desculpe por ter mentido. — Suplicou.
Cassandra ainda abraçava os ombros da esposa com força, separando segundos depois e encarando as orbes marejadas de Frannie. Seus olhos fitaram a bochecha esquerda da esposa e ergueu mão, acariciando o local com amor.
— Me desculpe por isso. — Pediu. — Eu não queria bater em você. Eu me arrependo tanto. — O choro rasgou sua garganta.
— Isso quer dizer que você não vai pedir o divórcio? — Pôs a sua mão sobre a da mais alta.
— Eu jamais pediria o divórcio. Somos casadas há quase dez anos, Fran. Nosso casamento é forte o suficiente para aguentar isso. — Respondeu. — Eu só fiquei com raiva e...eu não sabia sabia que você pensava daquela forma sobre mim.
— E eu não penso. — Disse rapidamente. — Deus! Eu só falei aquilo porque eu fiquei com raiva também. Eu não achei que você desconfiasse de mim. Eu menti e fui imbecil mas eu jamais tocaria em outra mulher. — Enxugou as lágrimas da esposa gentilmente. — Eu nunca mais vou mentir ou esconder qualquer coisa de você.
— Me desculpe. — Baixou o olhar. — Eu fiquei com tanto ciúme em imaginar você lá. Eu achei que havia te perdido. Como na faculdade. Eu confio em você. Eu sempre confiei em você. Eu só...sinto tanto amor e tanto medo de perdê-la. — O choro intensificou novamente.
Frannie puxou-a para seus braços rapidamente, envolvendo-a num abraço cheio de amor. Cassandra encostou a testa na da esposa, sentindo o calor que emanava de ambos os corpos.
— Você nunca vai me perder, Cassie. Eu não consigo viver sem você. Sem nós. Você lembra dos nossos votos de casamento, não lembra? — Indagou, beijando a ponta do seu nariz. — Sempre amar, cuidar, respeitar...
— Confiar, partilhar e perdoar. — Cassandra completou com a voz rouca.
— Então eu peço que me perdoe. Me perdoe por ter sido uma estúpida que mentiu para você. Eu fiquei envergonhada em ser a única que nunca ficou bêbada na vida e fiz aquilo. Foi uma atitude muito idiota. Mas eu me arrependo tanto.
— Eu só perdoo você se eu também for perdoada. — Apertou mais os ombros da esposa.
— Então eu acho temos um acordo. — Deu-lhe o selinho demorado, sentindo o gosto salgado das lágrimas das duas. — Eu amo você com todas as minhas forças. Você é o amor da minha vida. E vamos sempre passar por tudo juntas.
— Eu também te amo, amo, amo, amo... — Repetiu, enquanto distribuía beijinhos pelo rosto de Frannie, em especial na sua bochecha.
A mais baixa soltou uma risada e andou com Cassandra até a cama, deitando-a e se pondo sobre o corpo da mesma. Seus lábios se moveram até o pescoço dela, beijando lentamente.
— Sexo de reconciliação? — Indagou, gemendo baixinho quando a esposa sugou-lhe o lóbulo da orelha.
— Sexo de reconciliação. — Afirmou, beijando a mandíbula da mais alta até sugar-lhe os lábios e mover as mãos, subindo a camisola desta até apertar as coxas grossas.
— Mama... — A voz de Kate adentrou seus ouvidos.
Frannie mal teve tempo de discernir nada quando sentiu seu corpo ser empurrado contra o colchão. Cassandra abaixou a camisola, encarando a pequenina parada na entrada do quarto com a sua tartaruga de pelúcia em mãos.
— Bom dia, meu amor. — Sorriu para Kate.
A filha correu até a cama e pulou no espaço entre as duas.
— Por que a mamãe 'tava' em cima da senhora daquele jeito? — Os olhos azuis curiosos encararam Cassandra.
— Nós estávamos brincando, meu amor. — A mãe respondeu rapidamente.
— Eu vou poder brincar assim também? — Questionou, ainda interessada.
— Não! — Frannie quase gritou, limpando a garganta logo em seguida. — Só quando nós deixarmos. — Se recompôs. — Depois dos trinta anos ou mais. Sua mãe e eu decidimos. — Sorriu para a filha.
— Mas vai demorar. — Fez um biquinho nos lábios.
— É essa a intenção. — Puxou a filha para os seus braços. — Mas enquanto isso, vamos nos contentar apenas em brincar de fazer cócegas na sua mãe? — Arqueou as sobrancelhas.
A filha abriu um sorriso largo e literalmente pulou sobre Cassandra, fazendo-a soltar um gritinho em surpresa, seguida de gargalhadas quando as mãos pequenas e ágeis da filha trabalharam em fazer-lhe cócegas juntamente com Frannie.
A loira de olhos azuis observava a esposa rindo como uma criança acompanhada da filha e seu peito se encheu com aquele sentimento que ela sempre iria querer sentir pelo resto da vida.
O amor.
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