O Preço da Volta - 2ª Fase

58 Capítulo 58 - Exatamente como tinha de ser...


Notas iniciais
Chegamos ao último capítulo. Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Rachel acordou enquanto o sol fraco da manhã aparecia gradativamente.

Primeiro veio a confusão, depois o desespero pela falta da esposa na cama ao seu lado, e por fim, depois de sair correndo pela mansão a procurando, veio o choro latente pela realização do fato. Quinn havia saído. Estava em qualquer lugar de Ohio. Provavelmente na presença de Jesse e Brooke agora. Audrey estaria bem? Ela estaria bem? Por que ainda não tinha voltado?

Eram tantas perguntas sem respostas que a morena apenas voltou para o quarto e se pôs a chorar enquanto abraçava o próprio corpo. Ela não sabia dizer a dimensão da dor. Era imponderável. Rachel só queria que parasse. Estava cansada dela. Cansada de sentir o peito apertar, o ar faltar e a barriga se contrair.

Chorou até que as lágrimas se liquidassem. Por mais que doesse e fizesse força, seus olhos não marejaram mais como antes. Talvez suas glândulas lacrimais estivessem secas, mas isso era impossível.

No entanto, bem no fundo, a baixinha sabia o que aquilo queria dizer.

A dor já havia ultrapassado o limite do choro.

Shelby foi a primeira a entrar no quarto da filha quando ouviu seus passos desesperados pela mansão. Quando entrou no cômodo, a morena estava sentada no centro da cama. Imóvel e com a expressão quebrada.

A Corcoran a envolveu com os braços e a acomodou no seu colo enquanto a mais nova se deixava ser embalada.

— Ela foi até lá?

A voz de Santana adentrou seus ouvidos quando esta entrou no local como um raio.

Rachel se limitou a assentir.

— Hija de puta! Sabía que esa idiota iría allí! No debería haberme ido!

Pouco a pouco todos foram chegando no quarto. Não havia nada que pudessem fazer. A polícia deveria ser contatada, e eles sabiam disso. Mas sabiam, acima de tudo, que poderiam colocar a vida de Quinn e Audrey em perigo, embora já estivessem, de certa, forma, no maior dos perigos enquanto Jesse e Brooke continuassem soltos.

Brittany foi a última a chegar, e passou pela porta segurando Aurora nos braços.

— Todos os outros estão dormindo, exceto essa mocinha aqui. — Sentou na ponta da cama. — Eu já dei a mamadeira, mas ela não dorme de jeito nenhum.

Rachel, que até então estava inerte enquanto recebia os afagos de Shelby, sentou rapidamente, e pegou a filha com cuidado.

As orbes castanhas analisaram cada detalhe do rosto de Aurora minuciosamente. Seria algo que nunca se cansaria de fazer. A morena ainda procurava um adjetivo que se encaixasse perfeitamente para descrever a beleza das filhas. À medida que o tempo passava e os alimentos com as vitaminas necessárias eram ingeridos por elas, ambas se tornavam cada vez maiores e mais encantadoras. Seriam fortes e capazes de hipnotizar qualquer pessoa com aqueles olhos verdes com detalhes em avelã e os lábios grossos.

Rachel encostou o nariz delicadamente na bochecha gordinha e aspirou o cheiro doce e suave. A filha, por sua vez, agarrou sua blusa com força.

— Eu amo você. E estou morrendo de saudades da sua irmã, você também está?

A judia não tinha certeza de que aquilo era uma resposta, mas adorou sentir as duas mãozinhas espalmadas no seu rosto enquanto as belas íris da filha fitavam as suas. Um sorriso se formou aos poucos na boca rosada. Os dentinhos pequenos que já haviam nascido sendo expostos.

— Ma. — Disse baixinho.

Os olhos da mãe ficaram cheios de lágrimas, e ela soube que definitivamente poderia chorar ali novamente, mas engoliu o nó na garganta. Não queria assustar Aurora. Desejava apenas se manter ali, agarrada à filha.

O quarto estava em silêncio, como se não houvesse ninguém ali. Ninguém se atrevia a dizer alguma coisa. Frannie abaixou a cabeça enquanto deixava o choro abafado sair aos poucos, e Cassandra a acalentou, puxando-a para abraçá-la. Também estava desolada, e não sabia ao certo o que dizer, mas estaria sempre pronta para confortar a esposa e a amiga.

Santana não se permitia chorar agora. Sua cabeça trabalhava para encontrar um jeito de ir até a amiga enquanto ainda xingava-a por ter saído sozinha.

— Eu acho melhor nós irmos tomar banho para que possamos tirar as roupas de dormir. O dia está apenas começando. Vamos deixar Rach e Aurora sozinhas. — Brittany disse.

A concordância foi unânime, e antes de sair, Puck se ajoelhou ao lado da amiga.

— Vamos encontrá-las, tudo bem? Não perca as esperanças, baixinha. — Beijou-lhe a testa demoradamente.

Rachel aquiesceu. Ela não perderia as esperanças. Não poderia perder.

Shelby foi a última a sair, e quando a mãe fechou a porta, a judia voltou sua atenção para a gêmea mais velha.

— Você vai ser uma garota linda. — Pôs o bebê em pé no seu colo. — Talvez você seja mais extrovertida como eu, e a sua irmã um pouco tímida e introspectiva, como a sua mãe, ou então o contrário. Eu só sei que todos vão olhar duas vezes quando vocês passarem porque irão querer apreciar mais de uma vez a beleza de ambas. E eu também sei que você vai cuidar da Aud quando estiverem na escola. Você vai ser como uma super-irmã-protetora e não vai deixar ninguém feri-la, e isso não vai ser como uma obrigação porque eu tenho certeza de que vocês vão ser melhores amigas. O amor que as unirá será o primordial para que uma cuide da outra.

A garotinha sorriu novamente.

— Au...Au... — Balbuciou.

Rachel sorriu com isso. Foi um sorriso espontâneo, e por um momento ela esqueceu parcialmente a tormenta em que se encontrava.

— Será que a Aud também sabe falar um pouco o seu nome assim como você sabe o dela? — Indagou para a filha. — Será que ela já disse algo enquanto está lá? Longe de nós? — Deixou a primeira lágrima cair, e apertou o bebê contra o seu corpo de forma amorosa. — Eu estou sentindo tanto a falta dela, e eu sei que você também está. Nós a amamos, e amamos a mamãe Q. Isso parece tão vazio sem elas.

— Ma...ãe... — A pequenina voltou a murmurar.

— Sim, isso mesmo. A mamãe Q. — A voz da mais velha saía rouca. — Ela é incrível, não é? Eu sei que você adora assistir O Senhor dos Anéis com ela e passar horas cutucando a tela do celular enquanto tenta jogar aqueles jogos engraçados. Eu tenho certeza de que ela vai fazer tudo o que vocês quiserem assim que receber esses olhos brilhantes na sua direção.

Aurora ainda fitava a mãe enquanto esta falava, mas desviou o olhar e focou em outro ponto do quarto. A mão pequena se ergueu e a garotinha apontou animada para a mesa de cabeceira.

Rachel não entendeu, mas seguiu na direção em que a filha apontava e sua mente deu um sobressalto. Como não tinha visto aquilo?! Estivera tão imersa na dor desde que acordou e não olhou para o lado, justamente para o lugar onde a esposa deixava o seu celular todos os dias antes de dormir. E o aparelho estava lá!

A morena acomodou a filha delicadamente no colchão e saltou para fora da cama. As mãos trêmulas pegaram o aparelho. A mensagem que Jesse tinha enviado tinha de estar ali. Quinn não podia ter apagado.

Rachel mal podia acreditar quando leu aquele texto novamente. Na primeira vez havia sentido as piores sensações possíveis, mas agora estava aliviada, porque sabia onde a esposa e a filha estavam. A baixinha não sabia o motivo pelo qual Quinn não havia levado o celular. Talvez houvesse deixado-o justamente para que ela o encontrasse e soubesse o endereço, e se sentia uma tola por não ter pensado no objeto assim que notou sua ausência na mansão.

Ainda sentia as pernas fracas, mas isso não a impediu de rodear a filha com alguns travesseiros e sair correndo do quarto. Precisava contar para todos.

Precisava ir atrás de Quinn e Audrey.

...

— Ma...

Quinn abriu os olhos com dificuldade quando ouviu a voz fina ecoar nos seus ouvidos. Parecia vir de longe, ou então era apenas a sua mente tentando despertar totalmente. A primeira coisa que sentiu foi o latejar incessante que vinha da sua coxa.

Um grunhido ecoou. Dessa vez mais alto e mais inquieto, e isso fez a empresária girar a cabeça para o local de onde a voz provinha, o que a fez sentir uma tontura demasiada e uma forte pontada na cabeça.

Audrey.

Sua filha estava ali, de pé sobre o colchão do berço branco. As mãos pequenas seguravam a grade com força e vez ou outra um dos bracinhos escapavam para fora, tentando chamar a atenção da mãe. Quinn tentou sentar rapidamente, ignorando a dor que sentia, e só assim reparou que estava deitada em uma cama de casal. No entanto, não conseguiu sair dali, e olhando para baixo, viu o seu tornozelo preso por uma corda grossa.

— Merda! — Praguejou baixinho, mas não desistiu da ideia de ir até a filha, e esticando o corpo o máximo que conseguia para fora da cama, conseguiu segurar na grade do berço e puxá-lo cuidadosamente até estar perto o suficiente para tê-la nos braços.

Quinn não sabia dizer qual das duas estava mais contente. A mãe tinha um sorriso emocionado enquanto os olhos marejavam, e a filha soltava pequenos gritinhos animados. Aspirar o aroma de Audrey depois de quatro dias sem ela era como estar no paraíso.

Mas ainda havia a situação de Brooke para enfrentar.

— Você acordou! — A voz da atriz soou nos seus ouvidos, e os olhos verdes fitaram-na adentrando o quarto com um sorriso no rosto. As vestimentas diferentes das que usava horas atrás. — Audrey já comeu e está com uma nova fralda. Ela estava tão inquieta esses dias. Eu sei que ela sentiu a sua falta.

— Ela também sente falta da Rach e da Aurora. — Quinn complementou.

— Ela tem a mim. Pode ser difícil no começo, mas todos se acostumam. É fácil lidar com mudanças inesperadas. Todos nós já passamos por isso. — Suspirou exasperada. — E eu cuidei muito bem dela.

— Eu sei, Brooke, eu sei. Você não precisa ficar nervosa. — Disse calmamente, e gemeu de dor quando sentiu uma pontada na coxa.

— Está sentindo alguma dor muito forte? — A ruiva caminhou apressadamente até a cama.

— Não, só um latejar bem incômodo.

— Faz parte da recuperação. Com os antibióticos certos você vai estar bem logo. Eu também dei alguns pontos.

Quinn franziu o cenho, e afastou o lençol da perna direita, fitando a pele desnuda até a coxa, que era envolta por uma bandagem.

— É sempre bom saber alguma coisa especial quando passou anos em um vilarejo. — Soltou de repente, tentando esclarecer quando viu o rosto confuso da outra mulher.

— Você...você foi levada para um vilarejo? Mas havia dito que seus pais adotivos eram de Liverpool. — A loira indagou confusa.

— Isso não é relevante. — Brooke se afastou. A expressão perdida outra vez. — Minha família não é relevante.

— Brooke. — Chamou lentamente. — Eu acho que preciso ir ao hospital. Não acho que apenas pontos e antibióticos possam resolver totalmente.

— Você não confia em mim? Eu cuidei da Audrey todos esses dias, Quinn! — Ergueu o tom de voz. — Ela foi alimentada, vestida, e até um berço eu fiz Jesse conseguir. Você não precisa de um hospital. Precisa apenas dos meus cuidados.

— É claro que eu confio em você. — Respondeu rapidamente, tentando a todo custo acalmar a atriz enquanto balançava a filha nos braços, que já tinha os olhos fechados. — Mas em um hospital há médicos muito bons, você sabe disso.

— Eu não posso deixar que tirem você de mim novamente, entende isso? — Inquiriu enquanto passava as mãos no rosto. — A primeira vez já doeu demais.

— Do que você está falando?

— Estou falando do orfanato. Quando me levaram aos doze anos eu estava pronta para dizer que gostava de você. Era um carinho especial que eu descobri ser uma paixão de infância. Demorei um ano para criar toda a coragem necessária e quando finalmente iria dizer, eu fui levada. Levada para uma cidade de merda com duas pessoas de merda!

O modo como Brooke despejava todas as informações deixaram Quinn sem entender, mas aos poucos, enquanto seu raciocínio parcialmente lento devido a dor latejante ia se esclarecendo, ela pôde compreender tudo.

— Eu já gostava da Rachel nessa época, Brooke. Eu sempre gostei. Não coloque a culpa nos seus pais adotivos. Eles levaram você para um lar. Para uma família. — Tentou ser racional.

A risada da ruiva foi tão amargurada que Quinn sentiu um arrepio forte no seu corpo.

— Quando eles me levaram foi o melhor dia da minha vida, sabia? — Começou. — Eu não me despedi devidamente de você porque estava doendo ter de deixá-la mas depois eu me senti bem em saber que estava sendo levada por duas pessoas boas. E foi realmente perfeito no começo. Eles me levavam ao parque e éramos uma família. Até que a minha ''mamãe''... — Fez aspas com os dedos. — Engravidou quando eu tinha quatorze anos, e então sua filha legítima e preciosa nasceu e eu fui sendo esquecida aos poucos. A adotada foi deixada de lado. Quando eu achava que não poderia doer mais todo aquele desprezo, eu fui notada por alguém, mas não do jeito que eu queria...

Era possível observar as lágrimas que desciam torrencialmente pelo rosto rubro de Brooke enquanto ela falava tudo, e a dor com a qual as palavras saíam fez o coração de Quinn apertar de forma angustiante.

— Brooke, o que...

— Eu tentei, Quinn. Eu tentei ser uma boa filha. Eu queria ter recebido o amor de todos mas eu não consegui conquistar isso. A atenção que eu recebi de Steven aos quinze anos foi aquilo que arrancou tudo o que eu tinha de bom em toda a minha vida. Eu não tive namorados legais e nem amigas legais. Eu tinha o Steven no meu quarto todas as noites enquanto Penny e a pequena Wendy dormiam no cômodo ao lado.

O estômago de Quinn embrulhou assim que a última palavra foi proferida, e se o mesmo não estivesse vazio, com certeza vomitaria ali tamanha ojeriza. Ela ouvia tudo sem interrupções, mas sentia seus olhos encherem de lágrimas.

— O pior de tudo nem foi isso. O estopim veio quando eu engravidei do estupro e ele me levou para abortar e agiu como um pai decepcionado e inconsolável por sua garotinha estar grávida. Todos me olharam como se eu fosse uma péssima filha, acredita nisso? — Limpou as lágrimas que escorriam com força. — Pode parecer loucura mas eu queria aquele bebê. Eu queria algo que fosse meu. Algo que eu pudesse cuidar e que não pudesse ser tirado dos meus braços, mas então ele se foi naquela manhã de sábado no consultório clandestino de aborto do pequeno vilarejo de Hawkshead.

A empresária era um misto de sensações. Complacência, piedade, raiva, asco. Tudo formava um conjunto que estava deixando-a tonta. Eram muitas informações em uma história marcada pelo abuso infantil de uma garota. Brooke não merecia aquilo. Ninguém merecia aquilo.

— E então veio a segunda gravidez um ano depois. Eu já não sentia nada quando Steven entrava em mim. Eu era como um morto-vivo, e ainda assim não conseguia sair dali, daquele lugar. Eu me sentia tão presa. Tão presa e sem rumo. Eu não tinha estudo e Hawkshead era um vilarejo minúsculo. Mas então quando novos moradores chegaram, qual foi a minha surpresa ao conhecer Jesse? O mundo pode ser uma caixa de sapato, não? Qual a probabilidade de um outro órfão do Strawberry Field ir parar em um vilarejo com seiscentos habitantes? Era quase nula, mas aconteceu. Jesse era ambicioso e odiava aquele lugar. Seus pais, ao contrário dos meus, eram adoráveis e gentis. Eram os pais que eu desejava ter, mas Jesse não era grato a eles, e quando nos conhecemos ele planejava fugir para a cidade grande e depois ir para Nova York, a Big Apple, o lugar onde tudo acontece. — Tomou uma longa respiração e sentou na ponta da cama. — Quando ele soube tudo o que eu passava, criou um plano de expor Steven, e funcionou. Não foi fácil conseguir um celular com uma boa câmera naquele lugar, mas finalmente conseguimos, e dois dias depois, quando deixamos o aparelho largado em um local público com o vídeo rodando, todos já sabiam quem ele era. Eu não fiquei ali para ver o que fizeram com ele, porque tínhamos de ir embora, e nós fomos. Dormimos em vagões de trem com animais e ficamos dias na rua mas conseguimos chegar em Nova York. Eu não sabia que tinha talento até cantar alguma música e a off-Broadway foi o primeiro passo.

O olhar da ruiva era totalmente disperso. O mesmo olhar que viu pela primeira vez no jantar àquela noite onde Rachel tinha tido um sangramento na gravidez. Era sem brilho e parecia não ter vida nos azuis cristalinos. Era um olhar capaz de quebrar alguém. Quinn estava quebrada por ela.

Brooke não parou de narrar a história funesta. Tudo parecia sair de modo automático, como se há muito tempo guardasse para si aquele sofrimento latente e agora pudesse finalmente falar.

— Nossa origem era um segredo e construímos uma história totalmente fictícia sobre o nosso passado. Éramos uma mentira. Uma mentira que tentava ocultar as dores, e elas até podem ser esquecidas da memória, mas aqui... — Pôs a mão sobre o peito. — Aqui é o lugar de onde nunca irão sair. Onde a dor permanece até hoje. Eu não sei se um dia amei Jesse, mas éramos uma boa dupla e bons amigos, até que ele começou a ser muito exigente e impor ordens no teatro que não deviam ser impostas. Eu tentei controlá-lo um dia e acabei sendo agredida. Eu estava grávida. Eu iria contar para ele naquela noite. — Sorriu tristemente. Os lábios molhados pelas lágrimas que escorriam. — Eu perdi o bebê e descobri que não podia mais ter filhos. Depois disso eu não senti nada de bom por Jesse. Era apenas um casamento por comodidade onde ambos não eram felizes. Ele sempre amou a Rachel e não foi correspondido. E eu...eu sempre quis você. Esse sequestro era apenas pelo dinheiro. As exigências de Jesse fizeram os produtores expulsarem-no da peça principal e eu já não tinha desejo de atuar há algumas semanas. Não conseguimos bancar todo o luxo e nossa conta bancária se esvaiu em pouco tempo. Mas então eu peguei a Audrey nos braços e me senti bem outra vez. Eu não queria devolvê-la e procurava um jeito de trazer você até aqui e eliminar Jesse. Quando o vi prestes a matá-la horas atrás foi a motivação que eu precisava para sacar a arma que comprei sem que ele visse e o matasse. Eu o matei. — Elucidou tudo. — E agora eu tenho você e um bebê para cuidar.

Quinn respirou profundamente. A dor de Brooke era quase palpável e parecia se espalhar por todo o ambiente, causando um gosto amargo no fundo da garganta de quem a sentisse. A loira não sabia o que dizer. Nada poderia amenizar aquilo. A ferida de uma garota marcada pelo estupro de um pai adotivo e três abortos. A fixação com bebês era justamente pelo desejo interrompido de ter um. O sonho que não foi realizado e frustrado causado por Jesse só piorou toda a sua situação emocional. Tudo pareceu fazer sentido. Os olhos brilhantes quando observaram a barriga de Rachel e meses depois suas filhas, e logo após o brilho vazio e perdido como se estivesse afundada em lembranças.

As lembranças que Quinn agora conhecia.

A empresária acomodou Audrey, que já ressonava, na cama, e arrastou o seu corpo até a ruiva com cuidado.

— Eu estou aqui, Brooke, e não vou deixar você sozinha, mas estou aqui como uma amiga. Uma boa amiga que vai acompanhar seu tratamento até que esteja totalmente recuperada. — Pôs a mão no ombro da mais baixa.

— Eu preciso de você, Quinn. Eu não posso aceitar apenas a sua amizade. — Virou para encará-la. — Eu sempre quis você e não vou abrir mão. Podemos construir algo.

— Você é tão nova, Brooke. Você é nova e uma mulher linda. Eu sei que há milhares de outras pessoas que matariam para tê-la e uma dessas pessoas pode amá-la. Eu não posso dizer que a amo porque não amo. Eu amo a Rachel. Eu sempre amei a Rachel, e sempre vou amá-la.

— Você pode deixar de amá-la. Eu sei que pode. Por favor, Quinn. — Suplicou. — Eu posso ser a melhor pessoa do mundo pra você. Eu só quero reciprocidade em troca.

A loira não respondeu. Ela apenas encarou a atriz. Os olhos verdes inundados em lágrimas. Havia carinho neles, mas também havia palavras não ditas. E foram essas palavras não verbais que fizeram a ruiva explodir em um pranto longo e sôfrego.

Quinn não a repeliu e a abraçou, afagando as suas costas vagarosamente, e se manteve ali, mesmo sem saber ao certo que atitude ter no momento.

— Há muitos bebês que você pode adotar. Muitos precisam de um lar e de uma boa mãe, e eu sei que você será assim que acabar o tratamento. Esses traumas precisam ir embora. Você terá uma casa e não será deixada de lado. — Disse tudo com a voz gentil.

Brooke ainda soluçava, e o corpo tremia levemente. Quinn esperaria ela pôr tudo pra fora, mas isso não chegou a acontecer.

O estrondo que causou um barulho quase ensurdecedor fez Audrey acordar chorando pelo susto e ambas quebraram o abraço assustadas. Havia vozes altas ecoando do andar inferior e superior. E quando o cheiro de fumaça foi sentido e a palavra fogo ecoou de uma distância considerável, Quinn entrou em pânico.

— Nós precisamos sair daqui, Brooke.

Não demorou muito para que o odor desagradável aumentasse e o calor intensificasse gradativamente, tornando o ar abafado.

— Você não vai ficar comigo, não é?

— Brooke, não podemos discutir isso agora. Esse lugar vai ruir em pouco tempo.

A ruiva a encarou, e Quinn sentiu o rosto empalidecer. Ela não estava cogitando deixá-la presa ali enquanto todos morriam queimados, estava?

Por um momento a loira pôde ver uma sombra passar pelos olhos da mais baixa, mas então Brooke levantou da cama e caminhou até o armário, voltando segundos depois com uma tesoura em mãos. A corda foi solta, e depois de embalar Audrey com o lençol e pegá-la nos braços, fitou a ruiva.

— Vamos, Brooke. — Chamou.

A atriz migrou sua atenção para o rosto bem desenhado e sorriu. Um sorriso suave.

— Vá, Quinn. Leve Audrey. Eu acho que posso suportar essa dor. É só mais uma. Não posso permitir que você morra aqui com essa garotinha nos braços.

— O que...não! Brooke, você merece ser feliz.

— Só saia daqui, Quinn. A sua filha não pode respirar esse ar. Vá logo!

A empresária queria contestar, e puxaria a ruiva se não estivesse protegendo Audrey com os dois braços. No fim, não teve outra opção a não ser sair correndo do quarto e atravessar o corpo de Jesse no chão da sala.

E quando saiu do apartamento, pôde ver o caos de verdade.

O ar estava coberto pela fumaça espessa que a impossibilitava de enxergar tudo com mais clareza e as pessoas corriam enquanto tentavam descer os lances de escada. Quinn tentou puxar ar, mas tossiu no processo e em seguida entrou naquele mar de gente.

Seu corpo era esguio, e isso facilitava minimamente na atividade de desviar de troncos mais robustos. Estava perto da porta de entrada do prédio quando seu corpo chocou com outro menor. Ela reconheceria aquela silhueta em qualquer lugar.

— Rachel?

— Quinn! Oh, meu Deus, Quinn. — A morena disse com a voz alta. — Eu cheguei aqui e ouvi a explosão. Santana e Frannie tentaram me segurar mas eu entrei mesmo assim. Eu precisava fazer alguma coisa.

— Você pode fazer, Rach. — Entregou a filha para os braços da esposa. — Leve Audrey. Eu preciso voltar.

— Você o quê?! — Quase gritou. Sua voz sobressaindo as de todas aquelas pessoas que passavam e esbarravam nelas. — Quinn, vamos sair daqui!

— Eu preciso tirar a Brooke daqui. Você precisa confiar em mim, Rach. Ela não pode morrer aqui. Não pode morrer assim. — Beijou a testa da mais baixa rapidamente. — Eu amo você. Amo mas do que tudo nesse mundo. — E virou, correndo na direção contrária e ignorando os gritos da esposa.

Sua coxa doía cada vez mais, e era possível sentir o sangue escorrendo pela sua perna. A blusa cobria-lhe o nariz e o oxigênio se tornava escasso enquanto os segundos passavam, mas Quinn não parou de subir os degraus, e quando chegou no fim, correu até o apartamento onde tinha passado as últimas horas, entrando no quarto.

Brooke estava deitada no centro da cama. Os olhos fechados e o peito subindo e descendo lentamente. A arma estava apontada para a própria cabeça, entretanto, não possuía a coragem que queria para apertar o gatilho.

— Brooke. — Chamou, ganhando a atenção da ruiva. — Vamos embora! — Aproximou e a puxou pelo braço.

— Quinn? O que está fazendo aqui? Cadê a Audrey? — Perguntou confusa.

— Rach está aqui e a levou para fora. Você não vai morrer aqui, Brooke. Você merece ter um final feliz. — Argumentou. — Faça isso por mim. — Estendeu a mão na sua direção.

Brooke a olhou por longos segundos. Não tinham muito tempo e tudo parecia ruir ao redor delas. Quinn achou que fosse receber mais uma resposta negativa, e estava pronta para arrastá-la, mas sua mão foi segurada.

Diferente da primeira vez, o local parecia mais vazio, todavia, a construção já começava a desabar, o que piorou tudo. As madeiras velhas que caíam causavam uma rachadura no chão frágil, e Quinn não perdeu tempo em correr ao lado de Brooke até os lances de escada. Alguns degraus já estavam sendo consumidos pelo fogo, e ter de pulá-los estava causando uma dor descomunal na empresária.

A segunda explosão foi ainda mais alta que a primeira, e Quinn sabia que em poucos minutos aquilo tudo iria ao chão completamente. A terceira e a quarta vieram quase simultaneamente. As chamas com certeza estavam consumindo os botijões de gás dos apartamentos. O trajeto parecia ser mais extenso devido às circunstâncias do momento, e quando enfim chegou ao hall do prédio, sua cabeça foi atingida com força.

Quinn soltou um gemido baixo de dor, e pôs a mão no local. Sua visão turva fitou os dois dedos. Ou eram quatro? Tudo girava rapidamente, mas foi possível perceber a cor vívida na sua mão. Estava sangrando.

Ela conseguiu ouvir a voz de Brooke ecoando ao longe, mas não conseguiu manter os olhos abertos.

A escuridão pegou-a outra vez.

...

O cheiro de éter foi a primeira coisa que denunciou onde estava. Havia sentido muito esse odor quando passou todo aquele tempo no hospital anos atrás. E quando abriu os olhos, o branco do teto apenas confirmou o que já tinha certeza.

Sua cabeça doía, e acostumou a visão aos poucos para encarar a claridade do ambiente.

— Amor!

A voz de Rachel adentrou seus ouvidos, e Quinn sentiu todo seu corpo aquecer com aquele tom melodioso e doce.

As mãos pequenas seguraram cada qual um lado do rosto pálido suavemente e os lábios se tocaram. A explosão na sua barriga foi inevitável. Era como acordar de um furacão. A sensação de ver o sol depois de uma tempestade assustadora.

— Rach. — Ergueu o braço, acariciando o rosto da esposa. — Está tudo bem?

A judia assentiu freneticamente. Os olhos marejados.

— Audrey está conosco outra vez. Você está conosco. A nossa família está bem, meu amor. — Beijou-lhe os lábios várias vezes.

Quinn sorriu. Um sorriso cheio de felicidade, alívio e amor. Isso fez a baixinha ter a mesma reação, espelhando as mesmas sensações. Mas de repente sua mente voltou até os momentos passados anteriormente, e o sorriso sumiu aos poucos.

— Onde Brooke está?

— Ela está presa. David só vai iniciar todo o processo de sequestro quando você sair daqui.

— Não. — Maneou a cabeça em negação. — Rach, Brooke não pode ser presa. Ela precisa de tratamento psiquiátrico.

— Ela sequestrou nossa filha, Quinn. Ela pôs a sua vida e a vida da Audrey em risco.

— O sequestro foi um erro grave, mas ela não fez mal algum para a Audrey. Ela tem problemas que estão todos ligados à crianças. Brooke impediu que Jesse me matasse. Ela é desequilibrada, mas não é má.

— Você pode parar de defendê-la tanto assim? — Inquiriu com a expressão raivosa. — Jesse tentou contra a sua vida em uma situação que ela mesma fez acontecer. Ela é culpada, Quinn.

— Eu não estou defendendo ela porque sinto alguma coisa, Rach. Eu amo você. Você é o amor da minha vida. — Segurou as mãos da judia. — Eu não estou dizendo que Brooke é inocente, mas ela precisa de um tratamento. Eu vou explicar tudo para você e para os outros.

— Eu acho bom, porque Santana deu alguns tapas nela antes que Puck pudesse segurá-la. — Comprimiu os lábios.

— Oh, Deus. — Suspirou.

— Eu senti tanto medo. — Rachel confessou. — Medo de perder você e Audrey. Doeu tanto.

— Eu também senti, Rach. Eu entrei em pânico só de pensar que nunca mais veria vocês. Eu as amo tanto. — Abriu os braços.

A esposa não tardou em se acomodar no corpo pálido. O calor conhecido era o seu lugar favorito no mundo todo. Ambas só queriam ficar ali, desfrutando uma da outra, mas infelizmente não puderam. Rachel, mesmo a contragosto, saiu daquele afeto e foi chamar o médico, que logo entrou no quarto e a comunicou que tinha sofrido uma contusão mas nada grave. O tiro também não tinha atingido um local perigoso. Tudo estava bem.

Gradativamente todos entraram no cômodo, e o misto de sentimentos assolou o lugar. Santana quase bateu na loira, evitando fazer isso em razão dos seus machucados, porém, prometendo que o faria depois pela sua inconsequência de sair durante a madrugada.

Frannie, no entanto, distribuiu beijos carinhosos pelo rosto da irmã, fazendo a rir. A Fabray mais velha sempre teria essas atitudes espontâneas e amorosas, e Quinn adorava isso.

O lugar vasto se tornou pequeno pela quantidade de pessoas. Seus amigos estavam ali. Sua família estava ali. Até mesmo as gêmeas estavam presentes, e seus olhos brilhavam enquanto observava Rachel abraçar Audrey amorosamente, tentando matar toda a saudade que ainda tinha.

Quinn se sentia bem após todos aqueles acontecimentos fatídicos. Se sentia leve novamente, e logo iniciou a narração sobre tudo o que tinha acontecido nas horas em que esteve na companhia de Jesse e Brooke.

Não foi surpresa quando as expressões mudaram um misto de choque e horror. A história de Brooke era, sem dúvidas, triste e revoltante. Era digna de lágrimas e de sentimentos repulsivos para o pai adotivo da atriz e tudo o que ele fez.

No final do dia todos foram embora após prometerem que fariam a ruiva se tratar dos seus traumas e problemas, ficando apenas Rachel e as gêmeas. A baixinha voltou para o aconchego da mais alta, e ambas fitavam as garotinhas dormindo no carrinho duplo.

— Estamos juntas novamente. — Quinn beijou-lhe o topo da cabeça.

— Estamos. — A morena a fitou. — Eu te amo.

— Eu amo você. Para sempre, Rach.

— Para sempre, Quinn.

Elas se beijaram enquanto sorriram, e dormiram uma nos braços da outra.

Exatamente como tinha de ser.

Notas finais
Eu tinha dois finais para esse capítulo, e um deles a Brooke morreria no incêndio. Mas então eu parei para pensar calmamente e não seria justo. Eu realmente acho que ela merece um tratamento para se livrar de tanta dor. Desde o começo ela foi uma incógnita e nunca totalmente uma má pessoa. Acho que seu final feliz pode vir com o tempo, basta ter ajuda de profissionais adequados. Espero que tenham gostado. O epílogo sai na próxima sexta e vai ser nele onde vou me despedir dessa história totalmente. E me deem os feedbacks. O que acharam? Concordaram com a Brooke viver? Exponham suas opiniões. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron