O Preço da Volta - 2ª Fase

57 Capítulo 57 - Quanto vale uma vida?


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quinn saltou do táxi após pagar a corrida, e olhou o relógio de pulso.

Seis e meia da manhã.

Havia saído da mansão às quatro horas e a viagem foi extremamente longa. O motorista do veículo amarelo se mostrou surpreso quando recebeu uma passageira do bairro mais abastado de Lima, no entanto, o seu destino era justamente um local marcado pela violência demasiada, mas não disse nada. Apenas seguiu o trajeto e partiu rapidamente quando recebeu o pagamento.

Cleveland era uma cidade extremamente cultural, porém, havia bairros com altos índices de pobreza. Era como East End nos Estados Unidos, e Quinn não se surpreendeu enquanto observava aquele lugar.

A mochila nas costas pesava. Se alguém ali soubesse que carregava dois milhões de dólares provavelmente teria problemas. Tinha recebido outra mensagem minutos após a primeira com algumas ordens, e entre elas a de levar aquele valor quando estivesse indo até o endereço. O nome de Jesse no final do texto lhe deu a certeza de que era ele, e mesmo garantindo à Rachel que só iria até lá no dia seguinte quando um plano houvesse sido feito, não conseguiu cumprir o que disse. Saiu sorrateiramente momentos depois de verificar que a esposa finalmente tinha dormido, e pegou o táxi quando já estava longe da mansão. Não arriscaria acordar alguém com o barulho do motor do próprio carro.

Rachel já deveria ter acordado e procurado por si, e provavelmente todos estavam aflitos porque deixara o celular na mesinha de cabeceira ao lado da cama. E Quinn sabia que talvez nada daquilo desse certo. Talvez fosse uma armadilha de Jesse, não havia como saber. A única coisa que se passava pela sua cabeça era sua filha, sua garotinha, e o desejo de tê-la de volta. Ela faria qualquer coisa que estivesse ao seu alcance para resgatá-la. Qualquer preço pela vida de Audrey seria pago.

O edifício era velho e a pintura cinza estava descascada, evidenciando o estado deplorável do lugar. Não havia elevador, e os sete lances de escada fizeram uma fina camada de suor nascer na testa de Quinn, mas ela não parou de correr, e quando chegou ao topo, não perdeu tempo em ir até a porta com o número indicado na mensagem.

Respirou uma, duas, três vezes afim de regular a respiração e dissipar parte do nervosismo latente. Audrey poderia estar lá dentro. Estava tão perto.

Bateu com força na porta para que o barulho pudesse sobressair as discussões que ecoavam dos demais apartamentos e dos choros infantis, e quando esta se abriu, Quinn sentiu um misto de emoções ao ver Jesse na sua frente. O ódio cresceu rapidamente, mas estava acompanhado do alívio. Entregaria o dinheiro para ele e levaria sua filha consigo.

A loira abaixou o capuz do casaco que vestia, e o rapaz sorriu. Um sorriso cordial.

— Estávamos esperando você. — O ator deu um passo para trás. — Pode entrar, Quinn.

A empresária adentrou o local. Era pequeno, mas não havia bagunça. Brooke não estava na sala, e a Fabray controlou a vontade de correr até o corredor e entrar nos quartos para procurar a sua filha.

— Eu fiquei muito surpreso quando liguei a televisão durante a tarde e me deparei com todos os canais anunciando o sequestro da sua filhinha. — Jesse começou. — Eu não sei se você é idiota ou se realmente não teve medo de nunca mais ver a sua preciosa Audrey. — O sorriso se desmanchou. — Você acha que pode comprar todo mundo com o seu dinheiro, não acha? Inclusive manipular as pessoas para que procurassem aquela anormalzinha?

Quinn apertou as mãos em punhos e sentiu a respiração engatar. Como queria avançar sobre Jesse e fazê-lo pagar por aquelas palavras. Qualquer pessoa poderia xingá-la se desejasse, mas nunca a sua filha. Nunca a sua Audrey.

— Mas há algo bom nisso tudo. — Ele continuou. — Quando meu rosto aparecer em todos os meios de comunicação como o salvador da sua filha, todos vão saber quem eu sou e meu lugar na Broadway vai ser o maior e melhor. Todos aqueles idiotas vão se arrepender do que fizeram! — Cuspiu as palavras.

A loira franziu o cenho. Do que Jesse estava falando? Não era o ator mais renomado da Broadway? Mal teve tempo de processar tudo quando sentiu seu corpo ser empurrado contra a parede pelo mais alto.

— Não vai se importar se eu revistá-la, não é? Temos de ter certeza de que não veio com alguma surpresinha desagradável. Embora a surpresa que você carregue seja a que tem entre as pernas. — Sorriu ironicamente.

— Talvez não seja mais uma surpresa, já que você faz questão de lembrar sempre disso. Talvez seja atraído por mim? — Provocou.

Jesse riu, e acertou em cheio o rosto da loira com seu punho, arrancando um pequeno corte no canto da boca. Quinn cuspiu o sangue no chão e fitou o moreno com a expressão indiferente.

— A única vantagem de ter o que tem entre as pernas é que eu posso bater em você, porque afinal de contas seu gênero é meio indefinido, não é? Você é homem ou mulher? Rach a chama de quê? — O tom saiu extremamente venenoso.

— Ela me chama de várias coisas, inclusive esposa e mãe das filhas dela, porque é isso o que eu sou. Eu sou a sua esposa, e sou a pessoa que a faz feliz com as nossas duas garotinhas, coisa que você sempre quis desde o orfanato, não é? Você sempre quis a Rachel com aquelas conversas patéticas que tentava iniciar, mas ela sempre gostou de mim, assim como eu sempre gostei dela. E sabe o que é mais legal, Jesse? O fato de que ela sempre amou meu corpo. De todas as formas. — Esboçou um sorriso malicioso.

Quinn observou como as pupilas do ator dilataram gradativamente e as narinas inflaram pela ira que o acometeu. Diferente da primeira vez, o outro soco já era esperado, e a loira desviou rapidamente, fazendo com que a mão de Jesse se chocasse contra o concreto da parede.

Ele sequer sentiu a dor pela forte pancada e empurrou a mais baixa com força, fazendo-a cair sobre a mesa de centro, mas esta não ficou parada e levantou no mesmo instante, jogando a mochila sobre o sofá. Estava pronta para atacá-lo. Pronta para extravasar todo o seu ódio. Estava preparada para fazê-lo sentir dor quando Brooke adentrou a sala carregando Audrey nos braços.

Tudo pareceu congelar naquele momento. Estava vendo sua garotinha depois de quase quatro dias. Sentia saudade. Muita saudade. Embora Audrey fosse idêntica à Aurora, ainda havia diferenças entre elas. Diferenças que só uma mãe poderia reconhecer, e eram essas diferenças quase imperceptíveis que a fazia trocar as roupas delas sem embaraços, porque Quinn sabia. Sabia qual era qual sem precisar olhar para dentro da fralda de ambas.

Audrey ergueu os bracinhos assim que pousou os olhos na mãe e começou a se remexer. Estava com outras roupas. Uma das que tinha na bolsa que Brooke levou no dia do sequestro.

— Ma! — A voz saiu alta e alterada. A garotinha estava prestes a chorar.

Quinn ignorou tudo e deu o primeiro passo. Queria segurá-la. Queria sentir o seu cheiro novamente e acalentá-la para passar toda a segurança possível. Todavia, o aperto de Jesse a impediu.

O moreno puxou-a com força, e fechou o braço ao redor do seu pescoço, mantendo-a no lugar.

— Volte para o quarto, Brooke! — Ordenou alterado.

— Não! Brooke, não volte pra lá! — Quinn pediu.

A ruiva ainda passou alguns segundos ali. Parada e inerte. Fitava a loira quase sem pestanejar enquanto embalava Audrey calmamente, que por sua vez estava começando a deixar o pranto sair.

Por fim, a atriz deu meia-volta e adentrou o corredor, sumindo da vista de Quinn.

— Eu trouxe os dois milhões, como você pediu. — A loira disse. — O jatinho está esperando vocês no Lima Allen County e os outros quinhentos milhões irão ser depositados na sua conta. É só me passar o celular e eu ligo para o banco. Todos vão saber que você foi o grande salvador da minha filha. Seu nome vai estampar todos os jornais, do jeito que você quer. Mas faça a coisa certa e devolva Audrey. Ela precisa das mães, Jesse. — Segurava o antebraço do ator firmemente, tentando se soltar.

A única coisa que Quinn almejava no momento era virar e acertar o ator com toda a sua força, mas não havia essa opção. A sua vontade não podia prevalecer ali. Eles estavam com a sua filha, e agir com violência só iria despertar ainda mais a ira de Jesse. Já tinha errado o suficiente ao provocá-lo minutos mais cedo.

— Ela não precisa das duas mães. — O moreno aumentou o aperto do seu braço. — Apenas de uma.

Quinn não entendeu. Ela tentou, mas não conseguiu compreender o que o ator quis dizer. No entanto, Jesse a virou rápido demais e a socou rápido demais.

A empresária cambaleou para trás, mas não caiu, e aproveitou o momento livre para revidar a agressão sofrida. Já havia batido em Finn anos atrás e em Jesse na noite daquele jantar. Bateria outra vez. Bateria dessa vez com todo o ódio que sentia. Ódio esse que causava uma barreira indolor no seu corpo.

Não demorou muito para que ambos caíssem no chão. Socos eram trocados, mas Quinn se afastou bruscamente quando sentiu a visão turva depois de um golpe na sua têmpora, repousando a mão sobre a trilha de sangue que saía do seu supercílio. Seus olhos não desviavam de Jesse um momento sequer, observando-o apertar o nariz, que vertia o líquido escarlate descontroladamente. Contudo, quando ouviu o choro estridente ecoar pelo apartamento sua cabeça moveu automaticamente, fitando o corredor.

Jesse viu aquilo como uma oportunidade. Uma oportunidade de fazer o que queria, e ele o fez. Quinn voltou sua atenção para o maior quando percebeu o seu corpo indo até a arma que havia caído no chão quando iniciaram a luta corporal.

Tudo aconteceu em breves segundos. A loira tentou ir atrás dele, mas o ator já havia recuperado o revólver. A única coisa que sentiu depois disso foi a queimação na coxa direita. Não havia barulho devido ao silenciador do objeto. Ninguém ouviria o tiro. Ninguém iria procurar ajuda.

Quinn caiu dessa vez. As mãos apertavam o local ensanguentado com força. O tecido da calça jeans estava ensopado. Jesse se ergueu.

— Eu iria matar você de qualquer forma. — Afirmou, diminuindo o tom de voz. — Quando a polícia chegar aqui vão encontrá-la morta ao lado de Brooke e sabe em quem a culpa vai cair? A arma vai estar exatamente na mão dela. E eu? Eu vou levar a pequena Audrey comigo. A Rach não vai ter outra alternativa a não ser me encontrar e levar a outra gêmea e então iremos embora no jatinho. Quando ela tentar alguma coisa já estaremos longe demais para que ela consiga. — Sorriu largamente.

Quinn sentiu o estômago embrulhar e se contrair. Era isso, então. Jesse conseguiria destruir toda a sua vida. Sabia que a esposa faria qualquer coisa pelas filhas e acataria todas as ordens do ator. E se ele tentasse algo com ela contra a sua vontade. A loira fechou os olhos com força. Não queria imaginar o que Jesse obrigaria Rachel a fazer. Era doloroso demais.

A empresária abriu os olhos para fitá-lo, e levantou cautelosamente sob a mira da arma. Se iria morrer, faria isso encarando-o sem pestanejar.

O moreno se aproximou.

— Acho que a sua cabeça vai ganhar uma ótima decoração depois desse tiro.

Embora estivesse com medo e se sentindo tonta pelo sangue que perdia, ela respirou fundo e se manteve na mesma posição enquanto aguardava o seu fim. Se sentia impotente. Se sentia inútil. Todo o seu plano tinha sido um fiasco. Havia chegado tão perto. Audrey estava a poucos metros de distância. Tudo o que as separava era Jesse e aquela arma.

O cano prateado foi mirado bem no centro da sua testa, e o estampido aconteceu.

Quinn não sentiu a morte. Ela não sentiu nada. Tudo o que doía era somente sua coxa. Estava viva. O revólver de Jesse não tinha produzido aquele barulho. Ele havia sido provocado por outra arma, e ela teve a confirmação quando observou o sangue cair em quantidades excessivas do crânio do ator.

O corpo caiu no chão, provocando um baque surdo, e a empresária pôde enfim fitar Brooke com as duas mãos empunhando o objeto idêntico ao que Jesse carregava. A única diferença era a falta do silenciador.

A poça escarlate se formou em segundos, adornando o ator sem vida. A ruiva deixou a arma cair no chão. Estava em choque. Ela mal se mexia. Quinn, no entanto, estava surpresa. Surpresa pela atitude de Brooke. Toda aquela situação havia saído do controle.

— Você precisa cuidar desse machucado.

A atriz saiu do seu transe tão rápido quanto entrou, e em passos apressados caminhou até Quinn, rasgando um pedaço do tecido do seu vestido e amarrando com força na coxa da mais alta logo acima do ferimento.

— Isso vai parar o sangramento. Não deve ter pego nenhuma artéria caso contrário você morreria em segundos. — Sorriu, e então se jogou nos braços da loira.

Quinn abriu a boca atônita. Brooke a abraçava com força. Abraçava como se quisesse transmitir palavras que jamais foram ditas. Não parecia em nada com uma pessoa que tinha acabado de matar o seu marido.

A empresária retribuiu o afeto um pouco hesitante, batendo de leve nas costas da ruiva na tentativa de passar algum conforto. Seus olhos pesavam gradativamente.

— Jesse merecia morrer, tudo bem? — Fitou a mais alta. — Ele não podia mais ficar vivo.

— Você ouviu tudo o que ele disse?

A atriz aquiesceu.

— Eu nunca o amei, Quinn. E ter matado ele está me causando um alívio imenso.

— Você sabe que precisa de ajuda, não sabe? — Forçou a fala. Sentia o corpo quente, mas estava com frio. — Eu prometo que não vou deixar você ser presa. Todos saberão que você salvou a minha vida e eu posso pagar um tratamento para você. — Segurou as mãos da ruiva.

Brooke fitou as mãos unidas e sorriu.

— Eu não preciso de ajuda. — Voltou a encarar a empresária. — Eu só preciso de você e da nossa Audrey.

— Brooke... — Chamou cautelosamente. A voz saiu mais baixa do que o normal. — Eu sou casada e Audrey é minha filha e da Rachel. Eu a amo.

— É pra isso que existe o divórcio, Quinn. — Respondeu como se fosse óbvio. — Eu sei que a Rachel vai sofrer mas ela vai superar logo. Nós não vamos ter nenhum tipo de relacionamento até que vocês estejam legalmente separadas. E o amor que você sente por ela pode desaparecer aos poucos. — Falava tudo rapidamente.

Quinn queria contestar. Queria dizer que não aconteceria nada daquilo, mas não teve forças. Os machucados em seu rosto latejavam e a sua coxa agora ardia profundamente.

— Brooke...eu...

— Não fale. Você está com febre, Quinn. E eu vou cuidar de você. — Pôs um dos braços da loira sobre os seus ombros, a guiando lentamente até um dos quartos.

Quinn piscava os olhos com força. Desejava mantê-los abertos, mas ambos não a obedeciam.

Sua visão escureceu depressa.

Havia desmaiado.

— Eu amo você. — A atriz sussurrou. — Amo você e a nossa Audrey. — A beijou na testa gentilmente.

Notas finais
Jesse se foi e agora sobrou apenas Brooke e uma história conturbada que saberemos no próximo capítulo, que é o último. Mas teremos o epílogo. Fiquem tranquilos. Me digam o que acharam. A ruiva é realmente má? Qual a opinião de vocês sobre ela? Me deem os feedbacks. É muito importante nessa reta final. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron