O Preço da Volta - 2ª Fase
56 Capítulo 56 - Sentimentos expostos...
Notas iniciais
Rachel acordou durante a tarde se sentindo nauseada e com a cabeça latejando dolorosamente, como se recebesse uma forte pancada a cada segundo. Piscou lentamente e não se importou em estar parcialmente desorientada. Ela só queria sair da cama, e tentou fazer isso mas dois braços a mantiveram no lugar.
— Rach, amor. — Quinn chamou suavemente, ganhando a atenção da esposa.
— Quinn... — Disse, e só então reparou no quanto sua boca estava seca. — Onde estão as gêmeas? Eu quero vê-las. Você pode buscá-las? — Pediu.
Quinn soltou um suspiro triste, fitando por poucos segundos suas mãos unidas com as da esposa, e quando tornou a encará-la, a realidade caiu sobre Rachel outra vez.
Os olhos marejaram no mesmo momento em que a dor excruciante voltou com força, a obrigando a encarar aquela situação temerosa.
— Não foi um sonho. — Não foi uma pergunta e sim uma afirmação. A baixinha olhou para a janela do quarto, onde era possível ver as nuvens cinzas carregadas de água não derramada. — Sempre que eu acordo a minha consciência me convence por um momento que tudo o que passamos foi um sonho...mas não foi. — Sussurrou a última parte.
A voz saiu tão quebrada que Quinn sentiu o nó na garganta apertar. Rachel nada mais era naquele momento do que um vidro, exatamente como o da janela em que ela olhava, mas ao contrário deste, a judia estava despedaçada. Fragmentada em milhões de pedaços. A loira puxou-a contra seu corpo, a embalando em um abraço apertado.
— Eu a quero de volta. Eu quero a minha Audrey de volta. Eu quero, Quinn. — Rachel tremia pelo choro forte, e as mãos pequenas apertavam a blusa da esposa a ponto de quase rasgar o tecido.
— Nós vamos tê-la de volta. Confie em mim. — A empresária apertou os olhos, impedindo que as lágrimas caíssem. Ela não poderia chorar. Precisava ser forte. — Mas antes... — Se separou do afeto gradativamente, enxugando o rosto úmido da mais baixa. — Você precisa comer alguma coisa.
— Eu não quero comer. — Disse. — Eu só quero ficar aqui e chorar. Chorar é a única coisa que eu posso fazer. As pessoas dizem que chorar extermina a dor mas a minha dor não vai cessar nunca. Dói tanto. — Pôs a mão sobre o peito.
Quinn comprimiu os lábios. O bolo na sua garganta estava aumentando a cada segundo. A mão pálida alisou cada traço do rosto moreno delicadamente.
— Você precisa comer. É importante, Rach. — Disse de forma doce. — Não por mim, mas pelas gêmeas. Aurora está no quarto ao lado e precisa da sua força. Ela precisa de você.
A morena retrucou uma, duas e até três vezes, mas Quinn estava empenhada em fazê-la se alimentar, e vendo que não teria como fugir da situação, acabou comendo um pouco das frutas e do sanduíche vegano.
— Eu preciso que você me ouça com atenção, tudo bem? — Questionou assim que a esposa limpou a boca com o guardanapo.
Rachel ainda fungava levemente, e assentiu sem dizer uma palavra, o que não era nada característico dela.
— Brittany e eu estávamos conversando hoje pela manhã e acabamos lembrando daquele cachorro que resgatamos quando tínhamos quinze anos, você lembra disso? — Ganhou mais um aceno de cabeça. — Nós recebemos uma boa recompensa por ele e se não fosse pelo anúncio talvez os donos nunca o encontrassem.
— O que você quer dizer com tudo isso? — Questionou com a voz baixa e rouca pelo choro.
Quinn tomou uma longa respiração e não respondeu. Ao invés disso ela levantou, sendo seguida pelo olhar de Rachel, e fisgou o controle da televisão que estava sobre a poltrona do quarto.
Quando o aparelho eletrônico ligou, a morena o encarou com a expressão confusa, mas que se transformou aos poucos quando sua mente, ainda um pouco lenta, processou tudo o que estava sendo transmitido.
O canal infantil, que era o favorito das gêmeas, não exibia uma animação e sim uma reportagem. Uma reportagem onde a foto de Audrey estampava todo o lado direito da tela enquanto o esquerdo era ocupado por uma jornalista, que comunicava o sequestro da gêmea mais nova.
A empresária intercalava o olhar entre a televisão e a esposa nervosamente. Rachel ainda não havia dito nada. Ela sequer pestanejava. Isso estava deixando Quinn preocupada.
— Rach? — Chamou.
— Quantos canais estão transmitindo isso? — Indagou, dessa vez com um tom firme.
— Todos. Todos os canais que você possa imaginar. — Respondeu.
— Qual o valor da recompensa?
O silêncio de Quinn a deixou mais raivosa. Sim, estava irada, transtornada com aquela atitude da esposa. Uma atitude que tomou sem comunicá-la antes. Dessa vez saiu da cama. A dor de cabeça pareceu sumir por um momento, assim como as náuseas que sentia.
— Qual foi o valor, Lucy Quinn? — Perguntou entredentes.
— Meio bilhão. — Foi tudo o que disse.
Rachel abriu a boca em descrença. Estava um misto de sensações, e agora o choque estava estampado na sua face.
— Eu...eu não acredito nisso. — Passou as mãos pelo rosto. — Você achou brilhante a ideia de oferecer quinhentos milhões de dólares para quem achar a nossa filha? Como um cachorro?! — Elevou o tom de voz, a calma se esvaindo do seu corpo.
— Não é como um cachorro. Já aconteceu casos onde os familiares fizeram exatamente isso. Todos vão procurá-la, Rach. Em todos os bairros de todas as cidades do país. — Tentou argumentar.
— E você sequer pensou que talvez Jesse e Brooke não gostem disso?! — Continuava a falar alto. — Eles estão com a Audrey! Eles podem fazer qualquer coisa com ela, e se alguma coisa acontecer por causa dessa sua ideia idiota e inconsequente, eu nunca, escute bem isso, eu nunca vou perdoar você. — Apontou o dedo para a esposa.
Rachel ofegava, e logo passou a andar pelo quarto de forma impaciente. Estava dominada pela cólera. Sabia que Jesse iria odiar aquilo, e só de pensar que ele poderia machucar sua garotinha. Só em cogitar aquilo a morena sentia suas pernas fraquejarem e seu estômago embrulhar.
Quinn se aproximou, e tentou tocá-la, mas Rachel a repeliu, caminhando para longe.
— Não encosta em mim! — Ordenou. — Você estragou tudo, Quinn! — Virou as costas.
A loira abriu a boca para falar algo, mas nada saiu. Ela não sabia o que dizer para apaziguar as coisas. Rachel provavelmente a odiava agora e talvez estivesse com razão. Poderia ter estragado tudo, mas estava tão desesperada para ter sua filha de volta que a única coisa que fez foi comunicar sua ideia aos amigos e juntos ligaram para todas as emissoras, que não hesitaram em aceitar transmitir sobre o sequestro da gêmea mais nova e uma das herdeiras Berry-Fabray. É é claro que o valor oferecido também pesou na hora da decisão.
O que importava, de fato, era que Jesse e Brooke vissem aqueles noticiários e decidissem ligar, mas quatro horas já tinham passado desde que o comunicado foi ao ar e nenhum tipo de comunicação foi feito. A culpa começava a assolar Quinn de uma forma devastadora.
No final, decidiu sair do quarto e dar algum tipo de espaço para Rachel. Esta que virou quando ouviu a voz da repórter anunciando sem parar o sequestro, e rapidamente pegou o controle, zapeando por todos os canais. Era incrível o que o dinheiro podia fazer. Todas as programações tinham sido interrompidas.
Movida pela raiva, a baixinha jogou com força o controle na televisão, causando um estrondo quando o objeto rachou a tela, que apagou rapidamente.
Respirando fundo, se arrastou até a cama, sentando na borda e apoiando os braços nos cotovelos enquanto apertava suas madeixas.
A ira pareceu desaparecer aos poucos, trazendo de volta a sensação exaustiva e a dor lancinante.
Rachel chorou outra vez.
...
Quinn sentia a cabeça girar enquanto pensava em nada e em tudo ao mesmo tempo. Como sua vida poderia se transformar da água para o vinho daquela forma? Soltou uma risada amarga. Primeiro foi Judith e Finn, agora Jesse e Brooke. Sempre teriam pessoas dispostas a fazê-la sofrer. Mas agora era tudo diferente, porque não estava em uma cama de hospital, sentindo seu torso doer enquanto conversava com seu eu de dez anos. Agora a dor era pior. Era uma dor que vinha de dentro. Uma dor que nenhuma cirurgia ou antibióticos podiam curar. Se sentia tão inútil ali, deitada no sofá do escritório sem saber o que fazer. Bastava um telefonema de Jesse e Quinn iria até o inferno para trazer Audrey de volta.
A porta do cômodo se abriu, e a loira fixou sua atenção na figura pequena que adentrou o local timidamente, caminhando até parar ao seu lado.
— Tia Lucy. — Kate chamou. — Eu posso ficar aqui com você?
— É claro que pode. — Respondeu. — Eu adoro a sua companhia, Kate.
A garotinha sorriu, e sem aviso prévio deitou sobre a tia, abraçando-a com força. Quinn retribuiu o afeto instantaneamente.
— Mamãe disse que você queria ficar sozinha e pediu para que ninguém entrasse aqui, mas quando eu quero ficar sozinha é porque me sinto triste, e eu não quero que você fique triste, tia Lucy. — Falou tudo rapidamente.
— Eu vou ficar feliz quando sua prima estiver aqui conosco novamente. — Alisou as costas da loirinha calmamente.
— Ela vai voltar. Eu sei que você vai pegar a Aud de volta como uma super-heroína. — A mais nova afirmou convicta.
Quinn beijou-lhe a testa com amor.
— Até as super-heroínas falham, meu bem. E eu acho que falhei dessa vez nas minhas decisões. — Sorriu tristemente. — Mas eu espero que as minhas filhas sejam tão dóceis como você é. — Disse.
Kate beijou a bochecha da tia.
— Eu acho que as super-heroínas só falham porque não podem ser perfeitas. É como um disfarce. Mas você é perfeita, tia Lucy. A tia Rach sempre fala isso. — Sorriu. — E eu confio em você. Os vilões não merecem ter um final feliz.
— Não, Key. Eles realmente não merecem. — Suspirou.
A garotinha apoiou a cabeça no ombro da empresária e iniciou outra conversa, enquanto Quinn aproveitava todo aquele carinho, agradecendo internamente pela loirinha ter entrado no escritório mesmo Frannie avisando-a que precisava ficar sozinha. Talvez não quisesse ficar sozinha. Talvez quisesse um abraço, só não sabia como pedir.
E Kate, mesmo com sua inocência invejável, tinha a plena convicção de que a tia precisava de afeto.
...
A porta do quarto se abriu, e Rachel não fez menção de virar.
— Eu não quero falar com ninguém. — Disse.
— Mas comigo você vai falar. Eu sou a sua mãe. — Shelby respondeu séria.
Rachel girou os calcanhares, fitando a morena mais velha. Ainda trajava o roupão do recente banho e o cabelo estava molhado.
— Como você pôde permitir a ideia irresponsável da Quinn? Ninguém pensou nas consequências?
— Nós pensamos, Rachel. Todos nós pensamos. Mas também pensamos que se não fizéssemos algo eles não ligariam. Três dias. Já se passaram três dias que Audrey foi levada e nenhum contato. E o motivo disso? Não sabemos. — A mãe respondeu calmamente.
— Mesmo com tudo isso, eles ainda não ligaram. Ou seja, foi tudo em vão.
— A Quinn tentou, Rachel. — Shelby se aproximou da filha. — Tentou muito. Ela passou noites no escritório e não comeu até Brittany praticamente ameaçá-la. Você já viu as olheiras dela? A aparência dela? Por Deus, Rachel. Você a está crucificando quando o que mais precisam agora é do amor que uma pode dar para a outra.
A mais nova não soube o que responder. Talvez, com exceção de Quinn, Shelby fosse a única pessoa que conseguia emudecê-la através de palavras, e agora não foi diferente. Sua mente estava tão perdida no sequestro e agora nas reportagens que não reparou minuciosamente na esposa, mas aquele momento tudo voltou como um filme. As noites em que acordou aos prantos e aos gritos. O modo como Quinn a acalentou para que voltasse a dormir. Rachel não se recordava de tê-la visto ressonar, e as olheiras fundas, as madeixas bagunçadas e as roupas amassadas denunciavam que realmente não havia descansado.
Culpa era o mínimo que sentia agora.
— Eu sou tão idiota, não sou? Agi com estupidez contra a pessoa que eu amo. Eu sempre faço tudo errado. — Bateu as mãos nas coxas.
— Você está sofrendo, meu amor. Todos nós estamos, por isso não vou julgá-la, mas a Quinn também é a mãe delas. Eu posso afirmar com todas as palavras que ela está sofrendo de uma maneira descomunal. — Disse tudo com a voz repleta de doçura.
— Eu sei, eu sei. Eu prometi que jamais agiria como uma idiota desde a minha fixação para engravidar e agora fiz tudo outra vez. — Grunhiu em frustração.
— Você não tem culpa. Está abatida e transtornada. Apenas vá conversar com ela. Vocês merecem o colo uma da outra.
Rachel assentiu, e abraçou a mãe com força antes de vê-la sair do quarto, logo se trocando rapidamente. Não era difícil deduzir onde a esposa estaria, e quando adentrou o escritório, estancou bruscamente.
Quinn dormia no sofá do cômodo com Kate sobre si. Os braços pálidos abraçavam a garotinha de forma protetora, enquanto esta também ressonava tranquilamente.
— É uma imagem linda. — A voz de Frannie a fez virar para encará-la sentada em uma das poltronas do lugar. — Lucy não dorme há dias.
— Eu me sinto culpada por isso. Deveria ter dito que não queria mais tomar o calmante. — Disse.
— Você sabia? — A mais velha indagou surpresa.
— É claro que sim. Ninguém que está sofrendo tanto quanto eu estou pode dormir tanto. — Suspirou. — É só que...a dor era tão grande e parecia tomar conta de cada parte do meu corpo. Eu desejava que ela parasse. Eu desejava que ela se acalmasse um pouco. Meus pensamentos estavam tão turvos e o calmante me levou para um outro mundo. Um mundo entorpecido. Um mundo sem dor. — Fez uma pausa, tentando evitar que os olhos marejassem. — Mas esse é o mundo real. Essa é uma situação dilacerante totalmente real, e fugir disso não vai diminuir meu sofrimento, só vai adiá-lo. E eu me culpo tanto por ter pensado somente em mim e na minha dor. Eu praticamente ignorei a dor da minha esposa. — Choramingou.
— Não se culpe, tudo bem? — Frannie levantou rapidamente, parando na frente da cunhada. — As pessoas têm diferentes modos de lidar com a dor e a sua foi ter aceitado um caminho onde ela pudesse ser ocultada um pouco. Você é humana, Rachel, e humanos fazem escolhas ruins. — Pôs a mão no ombro da mais baixa.
Rachel sorriu minimamente, enquanto os olhos já eram novamente inundados por lágrimas.
Kate se remexeu nos braços da tia, e Frannie beijou a testa da morena carinhosamente antes de ir até a filha e levá-la até o seu quarto, onde poderia dormir à vontade.
Rachel não perdeu tempo em ocupar o lugar da garotinha, e isso fez Quinn abrir os olhos.
A loira achou que fosse ilusão da sua cabeça. Algo onírico devido ao cansaço acumulado. No entanto, essa suposição foi embora quando a judia lhe deu um selinho demorado. Era o primeiro desde o sequestro de Audrey.
— Me desculpe pelo modo como falei e agi com você. Eu te amo e quero ficar aqui, sentindo a sua proteção e protegendo você. É onde eu sempre devo estar.
Quinn a encarou fixamente, e Rachel se assustou quando a esposa começou a chorar compulsivamente. A morena teve de sentar no sofá, trazendo a loira consigo, que tinha o rosto vermelho pelo esforço com qual as lágrimas saíam.
Não era um choro sem motivo. Era um choro antigo. Um choro guardado que não conseguia mais se manter nas sombras e agora deveria ser posto para fora. E estava sendo. Quinn chorava de modo doloroso. Chorava pela imagem de Audrey, que se passava pela sua cabeça, chorava pelo sofrimento de Rachel, chorava pelo seu próprio sofrimento. Chorava pela dor que não parava.
Rachel deixou que ela chorasse. Deixou porque sabia que era mais do que necessário. A esposa não era uma muralha, não era feita de aço e nem de concreto. Era um ser humano. Era uma mãe. Uma mãe que estava sofrendo pela sua filha.
A morena afagava o cabelo curto enquanto sussurrava palavras amorosas. Era só isso o que podia fazer no momento, e o pranto de Quinn durou por quase vinte minutos, até que estivesse extenuada o suficiente para expulsar mais lágrimas.
Rachel a puxou para deitar a cabeça nas suas coxas, atacando o rosto rubro com beijos. A loira ainda não tinha falado nada, mas a judia sabia que ela precisava desse carinho. Precisava porque dentro daquela postura decidida que mantinha, havia o desejo de ser confortada, e Rachel a confortaria.
— Eu amo você, Rach. Eu amo você e as gêmeas. Eu vou fazer qualquer coisa para trazer Audrey de volta.
A morena assentiu.
— Eu sei que vai. Eu confio em você, meu amor.
Ambas não trocaram mais nenhuma palavra por um longo período de tempo. Havia apenas o som das suas respirações, até que um barulho ecoou pelo cômodo. Era um som contínuo, e Quinn conhecia aquele som. Vinha do seu celular.
Ela sentou no sofá e retirou o aparelho do bolso. Tinha certeza de que seu coração sairia do seu corpo caso não estivesse de boca fechada. O número era privado e havia enviado para si apenas uma única mensagem, que logo tratou de abrir.
— O que diz aí? — Rachel indagou. A voz carregada de aflição.
— Só há um endereço. — Fitou a esposa. — E o pedido para que eu vá até lá sozinha.
Rachel afundou a cabeça nas mãos. Estava tudo se repetindo. Quinn iria para as mãos de pessoas perigosas outra vez. Entretanto, a vida de Audrey também estava em risco.
A loira voltou a encarar a mensagem. Ela iria até lá.
E só voltaria com Audrey nos braços.
Fale com o autor