O Preço da Volta - 2ª Fase
54 Capítulo 54 - Dilacerante...
Notas iniciais
Rachel não esperou. Ela não esperou um comando e não se pronunciou. Apenas se aproximou rapidamente da esposa e pegou uma das filhas nos braços, apertando-a contra o peito. O que quer que fosse acontecer ali não poderia afetar as gêmeas. A judia não deixaria.
Jesse sorriu com o gesto protetor da baixinha. Os olhos claros brilhavam.
— Você está linda, Rach. O tempo favorece a sua beleza. — Disse.
Quinn trincou a mandíbula, e tentou ir até a morena, mas o aperto de Brooke em seu braço a impediu.
— Não faça nada que vá se arrepender. — A ruiva sussurrou no seu ouvido.
Dessa vez foi Rachel quem sentiu o sangue subir à cabeça. Por que Quinn não desviava do toque daquela mulher? Por que parecia tão resignada com o cenário atual?
Ainda ajoelhada de frente para os três, fitou Brooke com ira nos olhos.
— Solte o braço dela. Agora. — Ordenou pausadamente.
A atriz não contestou, embora pudesse, em razão das condições que a favoreciam, e afastou a mão da pele macia de Quinn, se frustrando por não senti-la outra vez.
— Eu não sei porque estão aqui e não me interessa. Eu não quero ver vocês. — Cuspiu as palavras. — Vamos embora, Quinn. — Levantou.
Rachel ainda ajeitou a filha nos braços antes de perceber que a esposa não havia movido nem um músculo sequer. Continuava parada, no mesmo lugar, enquanto acalentava Aurora e passava a mão direita suavemente nas suas costas.
— Quinn?
— Rach, eu preciso que você fique calma, tudo bem? — Fitou os olhos castanhos.
A morena percebeu as íris brilhando com as lágrimas acumuladas, e fechou os próprios olhos com força, tentando engolir o nó na garganta. A realização caindo com força sobre a sua cabeça.
— Não vamos poder sair daqui, não é?
Quinn maneou a cabeça em negação enquanto respirava fundo. Estava com medo. Não por si mas pelas filhas e por Rachel.
Jesse parecia se divertir com tudo aquilo. O sorriso nunca largava seu rosto, e direcionava sua atenção de Quinn para Rachel em segundos, como se estivesse assistindo uma partida de tênis.
— Você quer ver algo legal, Rach? — O ator inquiriu com a voz efusiva.
A morena não respondeu, mas o fitou com uma expressão cortante, e o ator aproveitou para erguer o braço direito levemente, expondo a arma prateada que brilhava.
Rachel resfolegou. O ar pareceu se tornar escasso e a dor no baixo ventre era semelhante a um soco no estômago. Ela enfim sentou, não porque queria, mas sim porque as pernas fraquejaram. Audrey se remexeu nos seus braços, e a mãe procurou a chupeta na bolsa que descansava sobre a grama, colocando-a na boca rosada e beijando-lhe a testa várias vezes. Estava entrando em pânico e sabia disso. O mesmo pânico que a assolou quando Quinn foi esfaqueada por Finn anos atrás, no entanto, agora tudo ganhava uma proporção gigantesca. Suas filhas estavam ali. Expostas ao perigo que Jesse e Brooke poderiam proporcionar.
O moreno não desfez o sorriso, e voltou para a posição anterior, encostando novamente o cano contra a lombar da loira.
Rachel não desviou a atenção da arma apontada contra a esposa, e dessa vez as lágrimas foram inevitáveis, escorrendo pelo rosto rapidamente, mas foram secadas com a mesma velocidade pelas costas da mão. Não iria chorar ali. Não na frente daquelas duas pessoas repulsivas.
— O que...o que vocês querem? — Tentou manter a voz firme.
— Nada demais. Estávamos até falando para Quinn antes de você chegar que não vamos machucá-las. Iria assustar todas essas pessoas mais afastadas daqui. — O ator respondeu calmamente.
— Deixem Rachel ir embora. Há dois bebês aqui. Nós podemos conversar sozinhos. — A empresária propôs.
Jesse soltou uma risada, e Brooke revirou os olhos com a atitude do marido enquanto checava as horas no celular. Estavam demorando demais.
— Eu até gostaria de deixar, mas não podemos correr riscos. Você entende, não é, Quinn? — O rapaz apertou a arma contra a pele da mais baixa.
— Nós podemos agilizar isso? Temos de ir logo, Jesse. — Brooke disse.
— Certo, certo. Então vamos levar algo conosco, para que vocês possam lembrar que se não cumprirem nossas exigências nunca mais terão de volta. Já escolheu, Bro? — Fitou a esposa.
— Não me chame assim. — Disse, e então virou, encarando diretamente as gêmeas uma de cada vez.
Rachel seguiu o olhar da ruiva, e sentiu toda a sua corrente sanguínea correr depressa. Eles não...não! De jeito nenhum! Os lábios fartos estavam secos e a respiração engatada. Ela só queria poder sair correndo daquele lugar com a esposa e as filhas. Novamente segurou as lágrimas com força.
— Não! Vocês não vão levá-las. — Apertou Audrey contra seu corpo.
— Veja bem, Rachel. — Brooke começou. — Levar uma de vocês seria bem enfadonho. Adultos são enfadonhos. Mas esses bebês pequenos e adoráveis... — Tentou segurar a mão de Aurora, mas Quinn a afastou do toque. — Enfim, é muito mais divertido ter um bebê conosco.
— Eu juro por Deus que se você encostar a mão nelas...
— Você não pode fazer nada, Quinn. — Interrompeu a loira. — Nós estamos em vantagem aqui. — Voltou a encarar as gêmeas. — Então me respondam logo. Qual delas é a gêmea intersexual? Audrey ou Aurora? É essa, não é? — Apontou para a garotinha nos braços de Rachel.
— Como você...
— Nós observamos vocês desde que chegaram aqui e quando trocaram as gêmeas, vimos que as roupas íntimas são completamente diferentes. — Sorriu. — Isso é tão adorável, Quinn! Uma das suas filhas é como você.
O sorriso de Brooke era largo e a empresária a fitou sem pestanejar. Havia um encantamento nas feições delicadas quando mencionava as gêmeas. Um brilho amoroso que as mães carregavam, mas não era só isso. Havia também uma sombra de insanidade. O modo como os olhos azuis estavam extremamente dilatados e como falava. A ruiva não parecia perceber que estava prestes a sequestrar um bebê. Não naquele momento. Era como se tudo aquilo fosse perfeitamente normal para ela. A calma e a leveza que carregava no modo como se portava era algo assombroso. E isso causava uma sensação agonizante emQuinn.
— Brooke. — Chamou, tentando manter a voz suave. — Elas são bebês. Completaram um ano de vida ontem. São frágeis e não podem ficar longe das mães. Não as leve, por favor. — Pediu. — Me leve no lugar delas.
A atriz não desviou o contato visual que estabelecia com Quinn, e o tempo em que ela permaneceu em silêncio fez o seu coração bater com mais força. A loira tinha certeza de que podia ouvir o zumbido que as batidas frenéticas faziam.
Por fim, a ruiva segurou na mão da mais alta.
— Eu prometo que vou cuidar bem dela. — Sorriu outra vez. — Agora eu realmente preciso saber qual é a bebê intersexual.
Rachel já chorava em silêncio, e aconchegou ainda mais a filha nos braços.
Essa foi a resposta que Brooke precisava.
Quando a ruiva se aproximou da baixinha e estendeu os braços, Quinn sentiu o mundo desabar aos poucos. Tudo parecia em câmera lenta. Ela olhou para os lados, tentando procurar alguém que talvez houvesse percebido a movimentação e estivesse lobrigando, mas não havia ninguém. As crianças corriam do outro lado do lago, e a maioria estavam no playground, sendo observadas pelos pais, que conversavam entre si distraídos demais para notar alguma coisa a vários metros de distância.
Por que foi escolher justamente aquele lugar mais afastado? Por que não ficaram com os outros adultos? Quinn não queria conversar com outras pessoas e sim usar aquele sábado para permanecer em uma redoma imaginária com Rachel e as filhas, por isso deu a ideia de ficarem isoladas. Se arrependia amargamente agora.
— Não! — A voz de Rachel despertou-a dos pensamentos culposos. — Brooke, não faça isso! Eu imploro! Nós daremos o que vocês quiserem!
— Mas Rachel, no momento o que queremos é esse bebê. — Elucidou calmamente.
Jesse apenas se mantinha parado, em silêncio. A arma firmemente segura na mão direita. Se pudesse acertá-lo, Quinn pensou. No entanto, não podia. Não com a esposa e as filhas ali. Qualquer descuido poderia machucá-las, e então a loira jamais se perdoaria por isso.
Aurora grunhiu de repente, e uma expressão contrariada se formou aos poucos simultaneamente quando Audrey começou a choramingar nos braços de Rachel. A cena era, sem dúvidas, a mais dolorosa que Quinn já viu em toda a sua vida. A morena segurava a filha como se pudesse desfalecer a qualquer momento, e era assim que se sentia. O rosto moreno estava vermelho, com lágrimas escorrendo até chegarem no queixo e pingar na blusa do bebê. Quinn sentiu as próprias lágrimas escaparem aos poucos. Aquilo doía de uma forma dilacerante, e ela podia jurar que a dor estava se tornando física.
Brooke respirou fundo, e segurou nas laterais de Audrey, puxando-a delicadamente dos braços de Rachel, que tentou reagir.
— Não esqueça que um movimento de Jesse pode ferir Quinn gravemente. — Alertou.
A baixinha não parou de chorar, mas suavizou o aperto, deixando que a ruiva embalasse Audrey contra o seu peito.
— Pelo menos levem a bolsa dela. É a da direita. — A voz da loira saiu mais rouca que o normal, e Brooke segurou a alça do objeto, pondo-a sobre o ombro.
— Audrey. — Sussurrou, e então a beijou no topo da cabeça.
Rachel sentiu outra fisgada no ventre. Aquela mulher segurava sua filha como se fosse dela, e isso a fez segurar uma nova onda de choro. Sentia um misto de sensações. Ódio, nojo, e principalmente, a tristeza latente. Tudo isso formando um conjunto que causava-lhe náuseas.
— Eu não preciso dizer para não chamarem a polícia, certo? Seria clichê. Sejam inteligentes e não façam isso. — Jesse deu três tapinhas no ombro de Quinn. — Você tem sorte por não termos conseguido essa proeza em um ambiente fechado, ou então pagaria pelos hematomas que me causou, mas quem sabe ainda não tenhamos oportunidade.
— Eu espero que tenhamos. Dessa vez eu não vou parar de socar você até garantir que esteja morto. — Quinn respondeu de forma gélida.
Jesse sorriu de lado.
— Só não esqueça que a sua preciosa filha anormal está comigo. Não esqueça, Quinn. — Levantou.
A loira conteve a vontade de pular sobre ele e o observou levantar e estender a mão para Brooke, que recusou a ajuda mas saiu ao seu lado. A arma foi ocultada no cós da calça. Pareciam uma família. Pai, mãe e filha. Exceto a parte em que o bebê que levavam era seu. Sua garotinha. Sua Audrey.
Rachel enfim explodiu em um pranto copioso. A sensação de impotência percorrendo todo o seu corpo. Haviam levado sua filha. Seu coração doía. Sua cabeça doía.
Quinn se arrastou sobre a grama até chegar perto da esposa, envolvendo-a com os braços. A morena se deixou ser abraçada, e se apoiou na mais alta.
— Vai ficar tudo bem. — Sussurrou.
Quinn não sabia se ficaria tudo bem. Ela não estava bem. Nada estava bem. Tudo estava desmoronando outra vez como há quatro anos, mas agora não a feriram fisicamente. Agora tinham levado um dos seus bens mais preciosos. A parte que completava seu coração juntamente com Aurora e Rachel. Sem Audrey tudo ficava incompleto, e a empresária já podia sentir o vazio doloroso que a filha deixou.
— Eles...eles a levaram. Levaram. — Rachel murmurou enquanto soluçava e apertava com força o tecido da blusa de Quinn.
Aurora se mantinha acordada, e não demorou para o choro agudo se fazer presente. A mãe morena a pegou imediatamente dos braços da esposa, envolvendo-a no calor do seu corpo.
A empresária não sabia dizer se a garotinha estava chorando pela tensão no ar ou pela falta que Audrey já fazia, mas arriscava dizer que se tratava de ambos. Ela acreditava veemente na ligação emocional de gêmeos. De qualquer forma, o bebê parecia sofrer enquanto era consolada por Rachel, que também chorava.
Quinn também queria deixar o pranto sair, porém, mais do que tudo, ela queria ser forte. Forte por Rachel e pelas filhas. Sabia o quanto a esposa havia sido forte na tragédia que Judith causou e agora era a sua vez. Era a sua vez de ser uma muralha para o sofrimento que assolaria todos.
E principalmente, Quinn iria ultrapassar todos os limites para encontrar Jesse e Brooke antes mesmo que eles entrassem em contato.
Ambos pagariam caro por isso.
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