O Preço da Volta - 2ª Fase

52 Capítulo 52 - Sobre fazer a coisa certa...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quando Quinn ouviu vozes exaltadas ela saiu do quarto das gêmeas no exato momento em que Zoe estava pronta para empurrar Lindsay.

Foi fácil segurar o corpo da Corcoran. A parte difícil foi controlar Rachel, que levou as três garotas para o quarto de Kate e iniciou um sermão desenfreado sobre violência e atitudes erradas.

Ela sabia que a esposa adorava falar, e mais do que isso, talvez criar solilóquios fosse um dom que Rachel Berry tinha desenvolvido desde que nasceu. Uma característica inerente que jamais sairia da baixinha. E Quinn também contou os vinte minutos de um monólogo sem fim que saía por entre os lábios cheios.

As três garotas estavam sentadas sobre o carpete do quarto. Uma ao lado da outra. Kate e Zoe mantinham uma expressão impassível no rosto e vez ou outra a Corcoran lançava olhares cortantes na direção de Lindsay, que era a única presente que estampava uma expressão de surpresa na face. Talvez pelo fato de nunca ter ouvido tantas palavras vindas de uma só pessoa e de forma tão rápida.

Quinn também estava sentada no chão, todavia, um pouco mais afastada e com as filhas entre suas pernas. Audrey não quis mais dormir e Aurora havia acordado da soneca, se agitando rapidamente depois de ser alimentada com frutas e suco natural. A loira sorria enquanto colocava-as de pé, incentivando ambas a darem passos mais longos. A gêmea mais nova era a primeira a cair, mas apenas soltava um risinho animado e tentava levantar novamente. A mais velha, no entanto, quando caía soltava um choramingo e estendia os bracinhos para a mãe, como aconteceu há poucos segundos. Quinn rapidamente a pegou e a acalentou por um tempo até que ela estivesse pronta para caminhar outra vez.

A única pessoa em pé no quarto era Rachel, que ainda não havia finalizado seu monólogo.

— Vocês precisam entender que violência não resolve absolutamente nada. O diálogo é essencial para uma situação que precisa ser resolvida. — Disse.

Quinn não evitou a risada que escapou acidentalmente. Nunca tinha esquecido o episódio com a tal da Janna na empresa há quatro anos e muito menos o celular que a esposa jogou, quase acertando sua cabeça durante o período de gestação quando Brooke a enviou aquela mensagem.

E de fato, a última coisa que a morena fez foi dialogar.

As três garotas viraram simultaneamente e encararam a empresária, que engoliu a seco, não diante do olhar delas e sim do de Rachel.

— Eu falei alguma coisa engraçada, Lucy Quinn? — A estilista arqueou as sobrancelhas.

— Não, nada. — Respondeu rapidamente. — Eu estava rindo de algo que lembrei. Só isso. — Sorriu, claramente constrangida.

A judia semicerrou os olhos e assentiu, antes de fitar as garotas e voltar a falar novamente.

— Ela fala rápido assim o tempo todo? — Lindsay sussurrou para Kate.

— Só quanto está brava, chateada ou animada. — Respondeu no mesmo tom. — Você se acostuma uma hora ou outra. — Deu de ombros.

A loirinha não estava tão zangada como Zoe, mas estava triste e não encarou Lindsay por nenhum momento sequer, o que a incomodou profundamente.

— Vocês entenderam o ponto principal dessa conversa? — Rachel inquiriu.

Quinn comprimiu os lábios para evitar outra risada. Ela não queria rir, mas a esposa chamar de conversa um monólogo que durou quase trinta minutos era típico de Rachel. Decidiu então fitar as filhas.

As três garotas assentiram.

— Entendemos. — Zoe respondeu. — Violência não é certo e o que eu iria fazer com a Lindsay não era nem um pouco certo. Você vai contar pra mamãe? — Indagou receosa.

Rachel suspirou e balançou a cabeça em negação.

— Eu não vou contar, mas eu quero que me prometa que não vai agir assim outra vez. Eu sei como é viver em um orfanato. Eu vivi no Strawberry Field e sei que tivemos de bater em alguma outra criança para nos defender mas você não está mais lá e tem uma mãe, uma irmã e várias tias e tios para cuidar de você e protegê-la, tudo bem? — Se pôs de joelhos, ficando na altura das garotas.

— Tudo bem. — Assentiu. — Obrigada, Rach. — Sorriu para a mais velha, que retribuiu.

— Então você é Lindsay Walker, certo? — A baixinha fitou a morena mais nova, ganhando um aceno tímido de cabeça. — Eu já ouvi falar de você.

— Acho que não ouviu coisas boas, então. — Murmurou envergonhada.

— Ninguém aqui falou mal de você e sim das suas atitudes. Você sabe que o que disse para Kate foi feio, não sabe? — Questionou calmamente.

Lindsay aquiesceu outra vez mas não disse nada. Kate abaixou a cabeça, lembrando novamente das palavras da outra garota.

— Você se arrepende, Lindsay?

— Eu...eu não quis magoar a Kate. Eu só queria chamar a atenção do meu pai. Ele nunca fica em casa. — Encolheu os ombros. — Mas eu não quero mais vê-lo.

— Por que não? — Foi Kate quem indagou.

— Ele bateu na mamãe. — A resposta não saiu alta, mas foi o suficiente para todas ouvirem e Rachel resfolegar.

— O quê? — Zoe aumentou o tom de voz. — Isso não deveria acontecer! — Se irritou. — Nós devíamos ensinar uma lição pra ele. — Sugeriu.

— Zoe! — Dessa vez Quinn repreendeu a garota, se aproximando com as filhas. — O que Rachel disse sobre violência não foi o suficiente? Ela precisa contar para Shelby? — Arqueou a sobrancelha direita.

— Não. — A Corcoran suspirou resignada. — Desculpe. É só que...isso é errado.

— É muito errado. Quem mais sabe disso? — Rachel fitou a garota Walker.

— A mãe da Kate. Cassandra. Ele me encontrou no parque e me trouxe até aqui. Eu não quero voltar pra casa agora. Eu não quero ver o meu pai. — Abaixou a cabeça, brincando com seus próprios dedos.

Uma mão repousou sobre a sua, e quando ergueu a cabeça fitou Kate olhando para si. As orbes azuis estavam brilhando em complacência.

— Você pode ficar aqui. Pode ficar no meu quarto conosco. Zoe e eu não vamos deixar que seu pai entre aqui. Vamos te proteger. — Abriu um sorriso pequeno.

— Nós vamos?

— Sim, nós vamos! — Cutucou a amiga com a outra mão. — Vamos garantir que o pai da Lindsay não faça mal à ela.

A garota morena sorriu. Era um sorriso sincero e feliz. Daqueles que saem de forma espontânea quando o coração incha de alegria. Nunca teve alguém que fizesse isso por ela. Hannah e Faith eram melhores amigas e só passaram a conversar consigo porque os pais eram todos amigos, mas Lindsay sabia. Sabia que aquela amizade de duas nunca se transformaria em três.

— Me desculpe, Kate. — Pediu. — Me desculpe por ter dito aquilo pra você. O meu pai sempre disse que gays e lésbicas eram pessoas ruins e que faziam mal para todos então se ele visse que eu repeti as palavras dele talvez isso o deixasse orgulhoso de mim, por isso eu disse tudo aquilo. Mas a sua mãe não é ruim. A... — Fitou a morena mais velha.

— Rachel. Mas você me chamar de Rach. — Sorriu.

A garota assentiu e continuou.

— A Rach não é ruim. E ela é casada com a sua tia, não é?

— É sim. Tia Lucy é casada com a tia Rach. E ainda tem a tia Britt e a tia Sant, que também são casadas. — A loirinha respondeu.

— E o tio Kurt e o tio Blaine. — Zoe complementou. — E também os senhores Berry. Os pais da Rach também são casados. E todos eles são bons e gentis.

Lindsay aquiesceu lentamente e voltou a encarar Kate.

— Eu só espero que você me desculpe algum dia por tudo o que eu falei. Eu não sou uma pessoa ruim. Eu só...agi para deixar ele orgulhoso.

Kate sorriu. Ela não entendia como alguém podia deixar o pai orgulhoso agindo daquela maneira, mas ela entendia sobre o ato de perdoar o próximo. Frannie já havia dito incontáveis vezes que perdoar aqueles que nos fizeram mal era a melhor maneira de seguir em frente e tirar um peso das costas e a loirinha poderia fazer isso. Ela poderia perdoar Lindsay porque ela via o quanto a garota parecia constrangida consigo mesma, e acima de tudo, arrependida por tudo o que fez.

— Eu desculpo você. — Disse. — Eu fiquei triste por tudo o que você disse mas eu sei que está arrependida e nós devemos sempre perdoar. Só não faça mais isso. Não seja má com as pessoas. — Pediu.

— Eu não vou ser. — Garantiu. — Eu...eu vou ser melhor do que isso. — Sorriu.

A loirinha assentiu e envolveu a morena em um abraço, sendo correspondida. Lindsay apoiou a cabeça no ombro de Kate. Sentia a leveza sobre si. A leveza de ter sido perdoada e a leveza de estar em um ambiente com pessoas amáveis e receptivas.

Enquanto Rachel se desmanchava em lágrimas pela doçura do momento, Zoe encarava o afeto de longe com uma expressão dura e de braços cruzados.

Quinn sorriu e passou o braço pelos ombros da garota.

— Está com ciúme? — Sussurrou.

— O que é ciúme? — Indagou no mesmo tom.

— É uma sensação ruim de ver sua melhor amiga abraçando outra pessoa que não seja você. — Respondeu. — Ou então alguém que você gosta, sabe...aquele gostar. — Enfatizou o verbo.

— Eca! Eu não tenho isso. — Maneou a cabeça rapidamente. — Kate pode abraçar quem ela quiser. Eu só não confio na Lindsay.

— Dê uma chance à ela. — Pediu. — Ela errou mas pediu perdão e todos têm o direito de se redimir.

— Eu sei, mas não consigo confiar nela. Se ela quiser minha confiança vai ter de mostrar que mudou mesmo. — Foi firme.

Quinn sorriu e beijou a cabeça da mais nova. Ela sabia o quão difícil era confiar em alguém depois de passar anos em um orfanato com crianças que podiam fazer algum mal contra as outras ali. Zoe era um espelho de Quinn quando vivia no Strawberry Field, mas ao contrário de si a Corcoran não tinha amigos quando Shelby a adotou. Ela não tinha melhores amigos como Rachel, Santana, Brittany e Puck, e tampouco uma paixão por alguém.

Talvez a parte da paixão estivesse se desenvolvendo agora, mas o fato é que Zoe sempre foi uma garota sozinha e confiar é algo extremamente difícil quando uma criança cresce reclusa em um orfanato.

Entretanto, a confiança vinha com o tempo, e se Lindsay realmente mudasse, elas poderiam ser boas amigas.

Quinn esperava que sim.

...

No andar inferior, Frannie caminhava de um lado para o outro na sala de estar sob os olhares de Cassandra e David.

— Então tecnicamente não podemos fazer nada? Ele bateu na esposa, Dave! — Disse irritadiça. — E a filha viu tudo. Uma criança.

— Nós não fomos testemunhas do ato, Frannie. Mesmo que Lindsay se disponha a falar sobre o ocorrido, ainda sim precisaríamos de Stacy para o exame de corpo de delito sendo ela a principal vítima. — O policial elucidou calmamente.

— Eu não acho que Lindsay deva passar por mais essa. Ela tem nove anos e presenciou uma violência doméstica. Sua cabeça não está totalmente bem agora. Eu falo por experiência própria. — Cassandra disse.

— E o que nós devemos fazer? Deixar que Stacy chegue aqui e leve Lindsay com ela para um lar onde um homem agride a sua esposa? Já pensou nas sequelas maiores que isso vai trazer pra ela? Na vida dela? — A empresária gesticulou nervosamente.

— Nós não somos os responsáveis legais por ela, meu amor. — A esposa replicou. — Nós não temos nenhum direito sobre Lindsay. Impedir que a mãe leve-a de volta seria contra a lei.

Frannie estava pronta para argumentar quando Olívia adentrou o local avisando que Stacy Walker havia chegado, e quando a entrada da mulher foi permitida e esta passou pela porta do cômodo, Cassandra detectou quase imediatamente o local que era coberto pela base no seu rosto.

A pele clara não aparentava hematomas, mas o inchaço estava lá. A elevação que não havia no lado direito da face estava presente no esquerdo.

Qualquer um poderia perceber.

A professora de dança levantou ao lado de David e todos trocaram cumprimentos ali. Stacy não mantinha a postura superior que mostrou na reunião pela manhã. Os ombros estavam caídos e a voz baixa, quase como um filhote indefeso.

— Eu vim o mais rápido que pude. Richard tentou me impedir de sair até que eu dissesse para onde estava indo mas consegui correr até o carro sem dar nenhuma explicação. — Disse. — Passei horas desesperada achando que algo de ruim havia acontecido com ela e me surpreendi quando recebi a ligação de vocês. Lindsay nunca fugiu de casa.

— E você sabe por que ela fugiu, não sabe? — Cassandra indagou calmamente.

— Eu suspeitei assim que não a encontrei em casa e as câmeras de segurança mostraram a sua fuga. — Respondeu. — Eu não...não queria que ela tivesse visto aquilo.

— Aquilo se chama violência doméstica. Um crime horrendo. Você não pode levá-la para sua casa. Richard não pode machucá-la. — Frannie disse.

— Ele não faria isso com ela. Richard a ama. Do jeito dele mas ama. — Retrucou.

A empresária tomou fôlego e se aproximou da mulher, segurando ambas as mãos. Stacy não protestou. Ele encarou os olhos azuis da mais alta sem nem um tipo de defesa própria. Estava vulnerável.

— Eu acho que você deve ter ouvido, visto ou até lido as notícias sobre Judith Fabray há quatro anos. A esposa perfeita de Russel Fabray e mãe de aparentemente uma garota. — Começou. — Eu sempre amei a minha mãe. Ela passava horas fora de casa gastando milhares de dólares enquanto eu era mantida sob os cuidados de Olívia e várias babás até ter idade para estudar em tempo integral. Ela parou de ir até o meu quarto me desejar boa noite e só me abraçava nos meus aniversários mas eu a amava. Ela era a minha mãe. Meu pai sempre me dizia que ela me amava. Do jeito dela mas amava. E eu acreditei nisso até descobrir que o bebê que eu havia visto quando tinha nove anos e que morreu na verdade havia sido deixada em um orfanato só pelo fato de ter uma diferença genética. Uma diferença que a fez ter duas filhas lindas com a mulher que ela ama. O meu pai a deixou lá porque Judith tentou fazer mal à ela quando era apenas um bebê, e então se já não bastasse isso ela ainda sequestrou a própria filha para fazê-la passar toda a sua herança para o nome dela. — Suspirou. — No final você sabe o que aconteceu com Judith, mas o que eu quero dizer com tudo isso é que eu nunca achei que a minha mãe fosse ser capaz de tudo isso. Eu sempre achei que apesar dos pesares ela me amava de um jeito diferente, mas na verdade ela nunca me amou. Judith nunca amou ninguém além dela mesma e ainda que Richard não tenha feito nem metade do que a minha mãe fez, ele cometeu um crime contra a mulher que ele jurou amar a respeitar pelo resto da vida. Richard desonrou isso quando bateu em você. Então, Stacy, se você ama a si própria e ama a sua filha mais do que qualquer coisa, você tem de zelar pela sua segurança e pela dela, porque isso é o mais importante acima de qualquer coisa. Isso é o que uma mãe deve fazer por si mesma e pela sua filha. — Finalizou com um sorriso.

Quando Stacy separou ambas as mãos, a empresária achou que ela havia repelido tudo aquilo que dissera, mas a mulher a abraçou. Abraçou com força. Frannie retribuiu o gesto e deixou que o afeto durasse. O corpo da mais baixa tremeu quando o choro rasgou sua garganta e a loira deslizou as mãos calmamente pelas suas costas, tentando acalmá-la.

Cassandra enxugou as lágrimas delicadamente com a ponta dos dedos. Ela lembrava perfeitamente de tudo que Judith tinha cometido, e antes disso, da repulsa que a mulher tinha por si, principalmente pela sua origem. De como não havia ido ao casamento da filha e de como despejava ofensas quando Frannie não estava em casa. Cassandra sabia que a esposa havia sofrido. A indiferença dói, e a indiferença de mãe é como uma ferida que nunca cicatriza.

— Obrigada. — A voz da mulher saiu rouca, mas foi possível compreender. — Obrigada por tudo isso. — Quebrou o abraço gradativamente. — Vocês tinham todo o direito de me odiar agora mas estão aqui dando todo o apoio que possuem.

— Eu sei que há muitas pessoas preconceituosas e que elas nunca vão parar, mas eu não podia fechar os meus olhos diante disso.

— Eu não sou preconceituosa. — Enxugou as lágrimas com o lenço que Frannie a ofereceu após agradecer. — Richard é. Eu só...eu sempre o apoiei em tudo porque mesmo com seu jeito difícil ainda havia amabilidade no seu coração e eu não podia ficar contra ele na reunião ainda que eu soubesse que o ato de Lindsay foi feio. Mas hoje foi o estopim para mim. — Respirou fundo. — Me perdoem por tudo. Pelas palavras da minha filha e pela minha atitude hoje mais cedo. — Pediu sincera.

Frannie sorriu levemente e apoiou a mão no ombro da mulher. Stacy tinha a sua idade. Era nova e parecia sempre tão amarga quando a via nas reuniões. Esperava que isso mudasse com o tempo.

— Nós perdoamos você. Há sempre um lugar para o perdão.

A mulher suspirou aliviada e espelhou o seu sorriso.

— Então quer dizer que você vai fazer a coisa certa, não é? — Cassandra inquiriu.

Stacy assentiu convicta.

— Eu vou fazer a coisa certa. Por mim e pela minha filha.

Notas finais
Os capítulos estão um pouco maiores porque OPDV está entrando na sua reta final. Não haverá a fase 3. Eu até queria mas não há mais plots suficientes e a história focaria apenas no desenvolvimento das crianças, consequentemente deixando Faberry de lado e eu não quero isso. Então me digam se gostaram do desfecho desse plot. Tudo se encaminha para dar certo. Stacy não é má como o marido e Lindsay se arrependeu. Comentem, favoritem e exponham suas opiniões. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron