O Preço da Volta - 2ª Fase
51 Capítulo 51 - Situação delicada...
Notas iniciais
Kate sorriu quando sentiu duas mãos cobrindo-lhe a visão.
— Adivinha quem é!
— Eu só tenho uma amiga então com certeza é a Zoe. — Respondeu divertida.
A garotinha de cabelos castanhos abriu um sorriso e moveu o corpo para sentar de frente para a loirinha, que piscava lentamente para se acostumar com a claridade.
— Você gostaria de ter mais amigas? — Inquiriu.
— Eu não me importo com isso. — Deu de ombros e fechou o livro que segurava, colocando-o sobre o colchão. — E gosto de sermos nossas únicas e melhores amigas.
A mais baixa alargou o sorriso.
— Que bom, porque eu também gosto. E espero que isso dure por muito tempo.
— Eu sempre ouço a tia Lucy e a tia Rach falando para sempre uma pra outra. Quando perguntei pra mamãe, ela disse que é como uma promessa de que ficarão juntas pra sempre. Então nós podemos falar para sempre também, não podemos?
O tempo que Zoe demorou para responder fez o estômago de Kate revirar em antecipação, e ela definitivamente achou que iria vomitar.
— É claro que podemos! Somos melhores amigas para sempre. — Ergueu o mindinho.
A mais alta soltou o ar que prendia com um suspiro aliviado e entrelaçou seu mindinho no da outra garotinha, selando a promessa.
— Eu fiquei preocupada com você. — A Corcoran disse. — O que a Lindsay disse foi horrível. Eu queria ter batido nela do mesmo jeito que eu batia nos garotos do orfanato quando eles roubavam as minhas bonecas.
— Mama disse que é feio bater. — Replicou.
— Eu não me importo! Ela é uma idiota e se acha melhor do que todo mundo! — Cruzou os braços irritadiça.
— Não precisa ficar desse jeito. Eu estou bem. — Sorriu suavemente.
— Você não entende. — Maneou a cabeça. — Eu odeio esses preconceitos, Kate. Desde que eu vivia no Strawberry Field e íamos visitar algum lugar. Eu sempre notei o olhar das outras pessoas porque éramos órfãos e não é bom porque dói aqui. — Pôs a mão no lado esquerdo do peito. — E eu não quero que doa em você também, por isso eu estou aqui e vou te proteger do mesmo jeito que você me protege quando dormimos juntas e o quarto fica escuro.
— Você promete? — Mordeu o lábio inferior nervosamente.
— Eu prometo, Key. — Beijou-lhe a bochecha demoradamente.
Um sorriso bobo brotou nos lábios rosados que eram mordiscados e os dedos pálidos tocaram a própria face. Era o primeiro beijo na bochecha que recebia de Zoe. Seu estômago se contorceu outra vez. Era algo bom, muito bom. Algo que não sabia descrever.
Sua mente voltou automaticamente na conversa que tivera com Frannie no dia anterior. De como a mãe contara como sempre aguentou qualquer coisa ao lado de Cassandra.
E olhando para Zoe, sua melhor amiga, Kate sabia que poderia aguentar qualquer coisa se ela permanecesse consigo.
...
Já era início de tarde quando Cassandra saiu do shopping carregando algumas sacolas em uma mão e o filho no outro braço. Russel olhava tudo com curiosidade. O gorro na cabeça e o suéter impedia que a brisa fria o atingisse, e a chupeta era só uma distração para que o garotinho não colocasse qualquer objeto na boca, o que vinha acontecendo frequentemente.
Havia passado no estúdio de dança para olhar o movimento e os custos e gastos do lugar. Era algo que fazia desde que o inaugurara e não pretendia perder o hábito. Frannie tinha ficado na mansão conversando com Santana sobre o processo e Kate estava bem na companhia de Zoe. A mãe definitivamente não atrapalharia a conversa efusiva das duas e também não apreciava o fato de passar horas ouvindo questões jurídicas. No fim, saberia tudo de modo conciso, por isso decidiu passar o tempo levando o filho até o estúdio e depois ao shopping para comprar algumas roupas para ele. Era impressionante o quanto o bebê crescia rápido e necessitava de mais e mais vestimentas.
Quando as sacolas foram deixadas no porta-malas e Russel devidamente acomodado na cadeirinha do carro, Cassandra abriu a porta do lado do motorista, mas estancou no lugar ao ver a figura pequena que corria na rodovia até o outro lado da rua. A loira ainda passou alguns segundos tentando processar o que tinha acabado de ver, e quando voltou a si, entrou no carro e deu partida.
Não foi difícil seguir a garotinha. Havia um parque no próximo quarteirão e Cassandra tinha certeza de que ela estaria lá.
Bingo!
As madeixas escuras estavam ocultando a sua face, mas era impossível não reconhecê-la sentada sobre a grama verde e recostada em uma árvore robusta no centro da área livre. Russel foi retirado da cadeirinha e não demorou mais do que um minuto até que estivesse na frente da morena, que abraçava o próprio corpo.
— Lindsay? — Chamou suavemente.
O rosto foi erguido rapidamente, e Cassandra não esperava ter os braços da garotinha enlaçados na sua cintura enquanto era abraçada por ela. Russel brincava com a ponta dos seus cabelos, alheio a tudo. Só foi possível retribuir o gesto com um braço, e ainda assim a loira percebeu o quanto Lindsay tremia.
— Lindsay? O que aconteceu? Onde estão os seus pais? — Indagou preocupada.
A garotinha se apertou ainda mais contra o corpo da mais velha e não respondeu. Os soluços saíam sem parar, e a aflição de Cassandra aumentou de proporção.
Com cuidado, agachou, ficando na altura da morena. O rosto alvo estava vermelho e molhado pelas lágrimas.
— Você quer me contar o que aconteceu? — O tom de voz saiu doce e atencioso.
Lindsay não respondeu. Apenas abaixou a cabeça enquanto as mãos tentavam limpar os vestígios do choro.
— Tudo bem, então eu preciso levar você até a sua casa. — Disse.
— Não! — A mais nova respondeu rapidamente. — Não me leve pra casa, por favor. — Suplicou nervosa.
A professora franziu o cenho. Estava tudo confuso demais, estranho demais.
— Você quer ir até a minha casa? Pode beber um chá para tentar se acalmar. — Sugeriu.
A morena assentiu enquanto fungava, e segurou na mão de Cassandra enquanto era guiada até o carro estacionado na entrada do parque.
O caminho não foi longo. Lindsay não disse nada e seus olhos estavam em Russel, que assistia um desenho na tela embutida no encosto de cabeça do banco da frente. O garotinho não falava nada, como se pudesse sentir a tensão ali.
...
Cassandra a observava tomando o chá calmamente. As duas mãos estavam envoltas na xícara e o olhar perdido no chão.
— Lindsay. — Chamou após alguns segundos. — Você quer me contar o que houve agora?
A morena encarou a mais velha e assentiu lentamente.
— Papai e mamãe chegaram em casa discutindo. Eles sempre fazem isso mas hoje foi pior. Eu saí do quarto e fiquei sentada nos degraus da escada e eles não paravam de gritar. — Fez uma pausa. — Então papai bateu na mamãe. Eu...eu não sabia o que fazer e voltei para o meu quarto, saí pela janela quando o papai bateu na porta. Eu não quero ver ele. — Apertou a xícara entre as mãos, abaixando a cabeça com os olhos marejados.
A loira emudeceu. Era como se houvesse voltado no tempo. Não era comum falar dos seus pais para as pessoas, e só a sua família sabia disso. De repente, viu a si mesma na garotinha assustada na sua frente. O medo que sentia de um homem que achava ser um herói para si. O terror de ver a mãe sendo agredida diante dos seus olhos sem que pudesse fazer absolutamente nada.
Não era por acaso que Kate havia recebido esse nome. Sua mãe, Katherine, era a pessoa mais especial da sua vida. A mulher que trabalhava como camareira em um hotel três estrelas exalava sua força para que a filha estudasse cada vez mais para garantir um bom futuro. Seu pai, Michael, era garçom nesse mesmo hotel. Moravam em Connecticut, no subúrbio de Southbury, em uma casa pequena e isolada cercada por área verde.
Michael sempre foi o melhor pai do mundo, até as dificuldades começarem a intensificar e ele descontar o estresse na esposa. Katherine o perdoava. Perdoava porque sem ele e sem o salário dele tudo iria desmoronar, então sorria e fingia que nada havia acontecido.
E a jovem Cassandra via. Via as agressões e ouvia o pranto sofrido da mãe.
Katherine morreu antes de ver a filha concluir o ensino médio. O câncer de mama só foi diagnosticado quando já era tarde demais e não havia condições de tratamento naquele subúrbio.
Seus dias se resumiam em chorar, trabalhar como garçonete em um restaurante, se trancar no quarto para evitar o seu pai agressivo e estudar o máximo que conseguia para sair dali, e no fim conseguiu. Conseguiu se formar e conseguiu uma bolsa em Yale. Michael tentou impedi-la de ir, mas não obteve sucesso. Cassandra fugiu durante a madrugada e pegou o primeiro trem para New Haven, deixando seu pai, sua casa, e principalmente, aquela vida para trás.
Quando a primeira lágrima molhou a sua saia, ela percebeu que tinha começado a chorar. As lembranças ainda doíam como facadas profundas, e ver aquela criança repleta de medo a levava de volta para todas aquelas memórias. Lindsay era uma garota abastada mas de nada valia o dinheiro quando não se recebe o amor necessário, principalmente quando se presencia um ato de violência doméstica.
E diante da situação, Cassandra não a culpava mais. Não a culpava por ter dito tudo aquilo para Kate. No começo havia sentido raiva da garotinha, mas percebeu que não havia a mínima coerência naquilo. Porque no final de tudo a culpa era inteiramente dos seus pais. A morena era apenas um espelho refletindo o ódio de Richard e Stacy, e a professora a ajudaria como pudesse.
— Eu... — Respirou fundo enquanto enxugava o rastro de lágrimas do seu rosto. — Eu preciso que você seja forte agora, tudo bem? Eu sei perfeitamente o que está sentindo. O medo desenfreado do seu pai e a cena está se passando na sua cabeça sem parar, mas você precisa aguentar firme e saber que eu não vou deixá-la sozinha agora. Pode confiar em mim como sua amiga, haja o que houver.
A mais nova aquiesceu e deixou a xícara sobre a mesinha de centro, logo depois abraçando Cassandra com força. A loira retribuiu o afeto. Lindsay precisava de um abraço. Precisava de alguém por ela naquele momento, e mesmo não a conhecendo totalmente, Cassandra seria seu apoio.
Quando ouviu passos se aproximando, sua atenção foi desviada até Frannie, que se mantinha estática na entrada do cômodo. E mesmo com expressão contorcida em total confusão, a empresária apenas pegou Russel nos braços, que brincava no carpete da sala, e lançou um olhar para a esposa, que foi prontamente entendido. Elas conversariam depois.
Lindsay permaneceu vários minutos naquele abraço. O rosto apoiado entre os seios de Cassandra enquanto era engolfada pelos braços da mulher. Os olhos pesavam consideravelmente, tanto pelo efeito do chá e tanto pelo desgaste emocional. A loira só foi notar que a garotinha ressonava quando a respiração tranquilizou, e lentamente a ergueu do sofá, subindo a escada até o seu quarto e a deixando na cama de casal.
— O que aconteceu? Por que Lindsay Walker estava sendo abraçada por você? E principalmente, por que você está com os olhos vermelhos?
As perguntas saíram rapidamente por entre os lábios de Frannie quando adentrou o escritório. Cassandra respirou fundo e contou tudo. Desde a saída do shopping até as lembranças e dores que a situação causava em si.
A empresária suavizou a expressão quando a explicação acabou e abraçou a esposa com força.
— Eu sinto muito. Eu sempre vou sentir muito por tudo o que você aconteceu. Ninguém merece passar por isso. — Disse amorosamente.
— Está tudo bem. — Apoiou a cabeça no ombro da mais baixa. — É só que... é impossível não lembrar de tudo. Se mamãe estivesse viva com certeza estaria feliz em me ver aqui, feliz, casada e com dois filhos. Ela era a melhor mãe do mundo.
— Eu queria muito conhecê-la. — Se afastou para segurar o rosto da mais alta. — E agradecê-la sempre por ter sido uma mãe e pessoa maravilhosa para o amor da minha vida. — Sorriu.
Cassandra sorriu com os olhos marejados e beijou a esposa delicadamente. As bocas encaixando em um movimento suave e sem língua. Eram apenas os lábios transmitindo amor e carinho um para o outro.
— Eu te amo tanto. — Frannie sussurrou.
— Eu te amo mais. — Trocaram um selinho rápido. — O que nós vamos fazer agora?
— Primeiro nós vamos ligar para Dave. Tê-lo como amigo, principalmente agora que ele abandonou a profissão de segurança e entrou para a polícia é ótimo e nos ajudará a decidir o que fazer. Lindsay não pode ficar aqui para sempre. Os pais dela devem estar loucos agora.
— Mas ela não vai querer voltar para casa. — Cassandra retorquiu.
— Eu sei que não, mas os pais precisam saber onde ela está.
A mais alta suspirou e assentiu enquanto observava a esposa pegar o celular. Estava cansada. Fisicamente e emocionalmente.
No quarto do casal, Lindsay acordou assustada. O corpo ainda estava fatigado, mas o pesadelo que tivera a fez acordar. Varreu o cômodo com os olhos, e quando se viu sozinha, saiu do local em segundos, mas caiu no chão ao bater de frente com outra pessoa. Assim que levantou a cabeça, arregalou os olhos.
— Kate? — Levantou.
Lindsay sabia que Cassandra era mãe de algum aluno da sua escola. Já havia visto-a em uma das reuniões, por isso a reconheceu e a abraçou no parque. Entretanto, não sabia que ela era mãe de Kate.
A loirinha estava ainda mais surpresa, e não se moveu para levantar. Lindsay estava na sua casa. A garota que havia sido maldosa consigo na escola estava em pé na sua frente.
— O que está fazendo aqui? — Inquiriu raivosa. — Quem deixou você entrar? — Se ergueu rapidamente, adotando uma postura defensiva.
— Você é filha daquela mulher loira? — Ignorou as perguntas da mais baixa.
— Eu sou filha de duas mulheres loiras. Tenho duas mães, lembra? — Cruzou os braços. — E não vou para o inferno por isso como você disse, porque elas me amam e o amor não é errado.
— Isso está errado. — Murmurou transtornada. — Papai disse que gays e lésbicas são malvados. Por que sua mãe é doce e gentil? Por que ela é boa?
— Gays e lésbicas não são malvados. Qualquer pessoa pode ser malvada, do mesmo jeito que você foi comigo. Minha mãe Cassandra e minha mãe Frannie são legais, gentis e me amam. Agora sai daqui! Eu não quero ver você nunca mais! — Se virou para sair, mas uma mão segurou seu ombro.
— Kate... eu... — Começou, mas foi interrompida.
— O que você está fazendo aqui? — Zoe questionou quando saiu do quarto da amiga, fuzilando Lindsay com o olhar. — Falar tudo aquilo pra Kate não foi o suficiente? — Avançou alguns passos com pressa. — Você vai se ver comigo!
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