O Preço da Volta - 2ª Fase
50 Capítulo 50 - Amor e proteção...
Notas iniciais
Das nove pessoas presentes na vasta sala do diretor, Frannie com certeza era a mais impaciente. Mantinha as pernas cruzadas em uma postura firme, mas o gesto de tamborilar os dedos no braço do sofá de três lugares deixava claro seu estado de nervosismo. Os olhos azuis estavam gélidos enquanto fitavam os outros adultos acomodados na sua frente. Tão gélidos que não apresentavam o tom cristalino habitual e sim uma tonalidade ainda mais clara e opaca, semelhante à cor Alice Blue. Estava indestrutível e pronta para combater o preconceito que aqueles outros país possuíam. O preconceito que suas filhas haviam adquirido dentro de casa e agora usavam para atacar Kate, sua garotinha dócil.
Cassandra era a mais calma das duas, mas também mantinha um olhar cortante. A saia justa e a blusa branca deixavam-na imponente, fazendo par com os sapatos de salto alto que aumentavam sua altura. E era assim que queria estar. Imponente como a muralha que deveria ser ali dentro.
Quando a última pessoa chegou no local, todos se levantaram para cumprimentá-la. A professora de Kate era uma mulher alta com longas madeixas castanhas. A pele alva contrastava com os olhos azuis que estavam um pouco ocultos atrás dos óculos de grau, mas ainda exalavam simpatia e gentileza. Frannie e Cassandra já tinham trocado diálogos com ela durante as reuniões de pais. Marley Rose era uma boa pessoa.
— Obrigado por terem vindo. — O diretor se pronunciou quando todos voltaram a se sentar.
O homem tinha a estatura baixa. Não era alguém que seria capaz de pôr medo em outra pessoa, pensou Frannie. Ela sempre pensava isso quando o via esporadicamente nos eventos da escola. De qualquer forma, ela mesma se responsabilizaria em amedrontar qualquer pessoa. Não precisava dele para isso.
— Eu ainda não entendo porque estamos aqui. — O pai de Lindsay, Richard Walker, se pronunciou.
— Você não recebeu a ligação no dia anterior? Eu acho que o diretor foi claro o suficiente. — A empresária respondeu.
Cassandra apertou a coxa da esposa com a mão que repousava sobre a calça do terno feminino. Não para repreendê-la mas para tentar contê-la. Sabia que ela falaria qualquer coisa que passasse rapidamente pela sua cabeça sem nem sequer hesitar. Era uma consequência de quando estava furiosa.
— Eu recebi a ligação, senhora Fabray. — O homem fitou-a com o olhar irritadiço. — Mas não acho que seja motivo para uma reunião na escola. Minha filha não fez nada demais.
— Você só pode estar brincando comigo! — Levantou do sofá. — A sua filha é preconceituosa e eu não estou dizendo que a culpa é totalmente dela. Lindsay tem influência em casa e isso está tornando-a uma garota maldosa.
— Vocês estão fazendo toda essa confusão por um motivo simples. — A mãe de Lindsay, Stacy, levantou. — Todos nós já tivemos a idade delas e já cochichamos ou rimos de alguém ou algo que achamos estranho.
— Não há nada de estranho aqui! — Dessa vez Cassandra tomou a frente, se pondo de pé. — Eu jamais cochichei ou ri de alguém e muito menos a minha esposa. E você sabe por quê? Porque nós temos respeito pelas pessoas e principalmente, temos caráter.
— Como vocês podem dizer que não há nada de errado aqui? — Richard indagou com a expressão surpresa. — Vocês são casadas. Duas mulheres casadas. Isso não é certo e nunca será.
Frannie apertou a mão em punhos. Podia sentir as unhas curtas pressionadas contra sua palma, quase furando-lhe a pele. O sangue fluía com total rapidez, enviando ondas de adrenalina e raiva por todo o seu corpo. A respiração engatou.
— Você pode ser um preconceituoso de merda o quanto quiser. — Cada palavra saía de forma dura. — Você pode viver a sua vida odiando pessoas que nunca fizeram mal a você, mas o seu preconceito chegou até a sua filha e a sua filha atingiu a minha Kate. Atingiu de uma forma que pode marcá-la por muito tempo. Ela está em casa agora porque achamos melhor não trazê-la enquanto isso não se resolve. Enquanto eu não tenha a certeza absoluta de que isso vai acabar. Que a minha filha não vai receber qualquer tipo de provocação ou comentário maldoso no seu ambiente escolar.
— E o que você quer que nós façamos? Que sentemos com nossas filhas e expliquemos que duas mulheres estarem juntas é correto? Que é bonito e que elas devem elogiar quando verem esse tipo de coisa? Isso não vai acontecer, senhora Fabray. Qualquer coisa menos isso. — O homem rebateu veemente.
A empresária deu um passo para frente, mas a mão de Cassandra em seu braço a impediu de ir até o sujeito e acertar-lhe a face com tanta força que demoraria semanas até que a marca do seu punho saísse da pele dele.
— Vamos nos acalmar por aqui. — O diretor finalmente saiu da sua cadeira giratória. — Podemos conversar como pessoas civilizadas. Não há motivo para discussões.
— Nós vamos falar com a nossa filha. — O pai de outra garota disse, se aproximando de Frannie e Cassandra. — Nós nunca encaramos a homossexualidade de perto mas também nunca falamos mal. Hannah deve ter sofrido influência das amigas. Nós sentimos muito por isso. — Sorriu.
Frannie se permitiu respirar fundo várias vezes. O homem era o mais jovem dos pais e sua roupa casual destoava das demais. Ele aparentava ser gentil e sincero.
— Nós ficamos felizes em ouvir isso. Obrigada. — Cassandra disse.
— Nós também vamos falar com a Faith. Nossa filha não foi criada para ser maldosa com qualquer pessoa. Ela pode ser contra casais homoafetivos mas não pode nunca destratar alguém, principalmente sua colega de escola e criança como ela. — A mãe da garota disse com o braço entrelaçado ao do marido.
— Eu não acredito nisso! — Richard voltou a protestar. — Phill, eu achei que éramos amigos.
— E nós somos, Richard, mas eu não apoio o preconceito e muito menos o que Lindsay disse para Kate. Isso não se faz. — Rebateu.
— Será que só você não vê o quanto Lindsay errou em dizer aquelas coisas horríveis? — A esposa do homem jovem entrou na discussão. — Quando recebemos aquela ligação ontem achamos que havia acontecido um equívoco, mas o que houve foi extremamente maldoso.
— Lindsay não errou em nada! — Stacy esbravejou ao lado de Richard. — Ela expressou a sua opinião e Kate pode ter exagerado um pouco.
— Você está chamando a minha filha de mentirosa?! — Cassandra jogou a bolsa no sofá e caminhou até a mulher. — É isso o que está dizendo? Vamos, repita! Eu quero ouvir novamente.
Stacy fitou os olhos escuros da loira. Os verdes estavam totalmente sombrios e brilhavam em puro ódio. Sentiu o corpo tremer levemente mas ergueu o queixo de forma desafiadora. Antes que pudesse fazer alguma coisa, Marley se pronunciou pela primeira vez.
— Ela não exagerou em absolutamente nada. — Disse. — Eu conheço meus alunos um por um de forma minuciosa. Eu os estudo e analiso seus comportamentos. Kate é a garota mais doce que eu já ensinei. Ela é inteligente e não me desobedece. Vive andando na companhia da Zoe, outra garota que é minha aluna e é completamente amável. Não fazem mal a ninguém. Mas Lindsay é totalmente o oposto. — Fez uma pausa. — Ela conversa durante as aulas e quando recebe uma advertência faz pouco caso, talvez por achar que pode se safar por ter pais tão desinteressados no comportamento da filha. Não vamos esquecer de todas as vezes em que eu tentei contatá-los para conversar sobre ela e vocês não compareceram. — Mirou a atenção no casal.
— Nossa filha é bem educada em casa! — O homem vociferou. — Eu não vou admitir que fale dela desse modo. Ela é só uma criança.
— E Kate é só uma criança. Uma criança que não merecia ouvir esse tipo de coisa sendo tão nova e tão despreparada para a vida. — A professora rebateu.
— Por que está defendendo tanto essa gente, senhorita Rose? Também prefere beijar mulheres? — Inquiriu em um tom recheado de veneno.
O rosto alvo da jovem ficou ainda mais branco que o normal, e Cassandra decidiu intervir.
— Por Deus! O que vocês são? Nós só queremos que falem com a Lindsay e que ela pare de destratar os outros, porque vocês sabem que ela vai continuar falando essas coisas e isso vai prejudicá-la. Ela vai se tornar uma mulher amarga assim como vocês. — Disse.
— Nossa filha vai receber a melhor educação na melhor escola e vai ser quem ela quiser porque nós podemos dar isso pra ela. E quando Lindsay quiser expor sua opinião sobre a espécie de vocês, ela pode ficar à vontade. — Replicou impassível.
Cassandra cogitou protestar, embora fosse totalmente em vão, mas no meio-tempo entre o pensar e o agir, um vulto passou na sua frente e o corpo de Richard caiu no chão em um baque surdo.
O nariz do homem vertia sangue de modo desenfreado e o punho de Frannie estava fechado firmemente. Seu peito subia e descia rapidamente e seu rosto estava totalmente sem cor.
— A minha espécie acabou de quebrar o seu nariz, seu monte de merda! — Cuspiu as palavras.
Cassandra puxou a esposa com força para evitar que ela continuasse a agressão enquanto Stacy, ainda estarrecida, ajudava o marido a levantar.
— Você me paga por isso! Ouviu bem, Francine Fabray?! Você vai pagar por ter me batido! — Segurou o nariz com força, soltando resmungos em seguida.
— Você é quem vai pagar por ser um preconceituoso babaca. Você e a sua esposa. Vamos nos encontrar no tribunal. — Se virou para o diretor. — E sabe aqueles cheques maravilhosos que a família Fabray faz todo ano para a escola? Ele acaba aqui e a minha filha vai sair desse lugar. — A voz saía firme e completamente fria.
Estava tremendo. Tremendo pela emoção desenfreada e pelo ódio. Puro ódio eclodia no seu peito, impossibilitando que sentisse até mesmo sua mão doer pelo impacto dos seus ossos na face dura do homem.
Com essa última sentença, ela deixou a sala, sendo acompanhada por Cassandra.
...
— Então quer dizer que você, a pessoa mais calma e mais apaziguadora que já conheci em toda a minha vida, bateu em um homem que era quase o dobro do seu tamanho? Como eu queria ver isso. — Santana riu.
Frannie não evitou um sorriso que se formou nos seus lábios, mas gemeu de dor ao sentir a bolsa de gelo na sua mão.
— Isso foi tão bom quanto bater naquele garoto idiota. O tal do Matt, que vivia fazendo piadas maldosas para nós na faculdade. Lembra disso? — Olhou para a esposa.
— É claro que eu lembro. Você falou disso durante dias como se houvesse ganhado uma competição. — Respondeu. — Mas isso não é motivo para comemoração. Ele vai nos processar por agressão e nós vamos processá-lo por homofobia. — Cassandra disse.
— E como vocês estão com tudo isso? — Shelby perguntou atenciosa.
— Nós estamos bem. Ainda sofrendo com a adrenalina, mas bem. — Frannie respondeu. — Foi horrível ter visto o olhar daquele homem. Ele não nos conhece mas nos odeia por sermos quem somos. Eu me sinto triste por isso mas não vou chorar. Não como eu fazia anos atrás. — Suspirou.
— Eu ainda não acredito nisso. — Rachel se pronunciou. — É claro que já enfrentamos o preconceito, mas vê-lo refletido em garotas de nove anos é muito triste, e depois do que vocês disseram isso não vai parar.
— É por isso que Kate não pisará mais naquela escola. Se for preciso ela pode ser educada em casa.
— Nós não vamos deixar nossa filha ser educada em casa. Ela vai se tornar reclusa e precisa de amigos. — Cassandra rebateu.
— Ela tem uma amiga. Zoe é a sua melhor amiga, mas não sei qual será a reação dela quando descobrir que não estudarão mais na mesma escola.
— Mas elas vão estudar. — Shelby sorriu. — Eu aposto a minha vida que quando ela souber da saída da Kate, vai implorar para que eu a coloque em outra escola também.
— Bom, isso é verdade. — Brittany disse. — Elas são como Sant e eu, e Rach e Q. — Sorriu.
— Exceto pela parte em que namoram. — Frannie retrucou.
— Isso é o que você pensa. — Santana murmurou.
— O que você disse?
— Nada. Eu disse que vou defendê-la no tribunal e que aqueles preconceituosos vão ser destruídos diante do juiz. — Ergueu a mão.
Frannie arqueou as sobrancelhas mas bateu o high five com a latina.
Quinn era a única que se mantinha em silêncio, e quando levantou de repente, Rachel não perdeu tempo em ir atrás dela.
A empresária subiu rapidamente os degraus da escada e se dirigiu até o quarto das gêmeas. Aurora ainda ressonava tranquilamente o sono da tarde, mas Audrey estava de pé no berço e resmungava baixinho. A garotinha ergueu os braços quando avistou a mãe loira, e esta não perdeu tempo em segurá-la e acalentá-la com amor. Sabia que era uma coincidência, mas não evitou pensar que a filha também partilhava da mesma angústia que sentiu ao ouvir todo o ocorrido que a irmã enfrentou.
— Audrey. — Sussurrou. — Eu não vou deixar que nada aconteça com você, entendeu? Nada, meu amor.
— Nós não vamos deixar. — A voz de Rachel atraiu sua atenção e a morena entrou no cômodo. — Estava pensando na Aud, não estava?
— Eu não consegui parar de pensar nela. Ser filha de homossexuais já é difícil então imagine ser filha de homossexuais com uma mãe intersexual cuja a filha também tem essa condição. Eu não quero que ela sofra, Rach. — Choramingou.
— Eu não posso prometer que ela não vai receber o preconceito das pessoas, mas posso prometer que faremos de tudo para protegê-la assim como Frannie e Cassandra fizeram hoje. E se for preciso quebraremos muitos narizes, até mesmo o do diretor.
Quinn soltou uma risada e fitou a filha. As mãos pequenas brincavam com a gola da sua blusa enquanto um pouco de saliva escorria da lateral da sua boca. Sabia que era efeito da pomada que havia passado na gengiva sensível para anestesiar a dor dos dentes nascendo.
Com uma mão segurou a manta de Audrey e enxugou a sua boca delicadamente. No final, plantou um beijo demorado na testa cheirosa.
— Eu amo você. — Murmurou.
Como resposta, recebeu um sorriso largo da garotinha. Era possível ver um pouco dos dentes que já estavam nascendo. Quinn suspirou em amor.
— Vem aqui. — Fitou Rachel com um sorriso calmo.
A morena espelhou seu sorriso e se aproximou quando a mais alta ergueu um braço. Após se aconchegar no corpo esguio, passou a mão nos cabelinhos escuros da filha, sentindo a maciez entre os dedos. Um beijo no topo da cabeça da pequenina foi plantado depois disso.
— Vamos sempre protegê-la. — Disse.
— De tudo e de todos. — Quinn complementou.
— De tudo e de todos. Para sempre.
— Para sempre, Rach. — Deu-lhe um selinho demorado.
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