O Preço da Volta - 2ª Fase

49 Capítulo 49 - Triste realidade...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Frannie empertigou o corpo com aquela pergunta. É claro que ela sabia que um dia a filha iria ter interesse no assunto, só não achava que fosse agora. Não se sentia totalmente preparada para isso, e talvez nunca houvesse estado, porque bem no fundo esperava que Kate nunca se sentisse curiosa sobre sua paternidade. Uma ilusão da sua cabeça.

Cassandra se acomodou no outro lado da cama, deixando a filha no meio, e se pronunciou.

— Nós não sabemos quem é o seu pai, meu amor. — Disse docemente.

Kate franziu as sobrancelhas.

— Como não sabem? Eu não tenho pai?

— É claro que você tem um pai. Todos temos um, mas quando sua mãe e eu decidimos ter você, nós pegamos uma sementinha em uma clínica e colocamos aqui na minha barriga. — Pôs a mão sobre o ventre. — E essa sementinha não saiu de nós e sim de um homem muito bom que decidiu doar a sementinha dele para essa clínica justamente para ajudar as mamães que querem ter seus filhos juntas. — Sorriu amorosa, alisando as longas madeixas douradas da filha.

Frannie, que ainda se mantinha em silêncio, sorriu pelas palavras da esposa. Cassandra sempre saberia lidar da maneira certa em qualquer situação sem sofrer uma pequena síncope. Sempre estaria preparada para o que viesse.

— Então um homem deixou essa sementinha na clínica e ninguém sabe quem ele é?

— Alguns funcionários que pegam essa sementinha devem saber, mas nós não sabemos. — Cassandra respondeu. — A clínica não divulga o nome deles nem nada do tipo. É totalmente sigiloso.

— O que é sigiloso?

— Significa que eles deixam tudo em segredo. — Frannie falou pela primeira vez desde que a conversa começou e chegou mais perto da filha.

— O Russ também nasceu de uma sementinha dessa clínica?

— Sim. Ele nasceu. — A empresária respondeu, ganhando a atenção de Kate. — Nós pegamos a sementinha com as mesmas características da sua, então o pai do Russ também é o seu. — Sorriu.

A garotinha assentiu com a expressão pensativa e não voltou a indagar.

— Você tem mais alguma dúvida, meu bem? — Cassandra perguntou docemente.

— Não. — Maneou a cabeça. — Eu só...fiquei curiosa.

— O que as suas amigas estavam dizendo sobre os pais? — Frannie inquiriu.

— Elas não são minhas amigas. — Respondeu. — A Z e eu estávamos andando quando ouvimos elas falando sobre o final de semana divertido que tiveram com seus pais, então a Lindsay virou pra gente e me perguntou se era verdade que eu não tinha um pai. Eu respondi que tenho duas mães e que vocês sempre brincam comigo. E... — Interrompeu a si mesma de repente.

— E...? — A mãe indagou. — Você pode nos contar qualquer coisa, meu amor.

A garotinha suspirou e balançou a cabeça em concordância antes de continuar.

— Elas riram e começaram a me chamar de estranha, então a idiota da Lindsay disse que era errado ter duas mães. Que iríamos para o inferno por isso. — Falou tudo rapidamente.

As duas adultas ainda permaneceram em silêncio por longos segundos quando a filha finalizou a explicação sobre o ocorrido. Frannie trincou o maxilar e fechou os olhos para respirar fundo. Cassandra sabia que ela estava contando mentalmente para não falar algo que não devia. Que a raiva estava queimando-a por dentro, e consigo não estava diferente. Mas para sua sorte sabia muito bem se controlar e manter a calma diante da filha, que a olhava com seus grandes olhos azuis curiosos.

— Elas realmente disseram isso? — Indagou para a garotinha.

Kate aquiesceu lentamente.

— Eu vou para o inferno? Nós vamos?

— É claro que não! — Frannie disse de forma abrupta. — Elas é que vão por serem umas preconceituosas de merda!

— Francine! — Cassandra praticamente gritou. — Não fale isso! Elas também são crianças!

A empresária respirou profundamente e olhou para baixo com os ombros caídos.

— Desculpe. Eu não quis dizer dessa forma. Não repita nada do que eu disse, tudo bem? — Fitou a filha.

— Tudo bem, mamãe.

— Nós não vamos para o inferno. — A professora disse. — Não vamos porque o amor não pode ser julgado e nós não estamos fazendo nada de errado. Somos pessoas boas. — Puxou a filha para o seu colo. — É a primeira vez que elas fazem isso?

Kate negou com a cabeça lentamente. A raiva de Frannie subiu de proporção.

— O que mais elas fizeram?

— Elas ficam cochichando e apontando na minha direção.

— E por que você não contou isso antes?

— Porque eu posso aguentar, mama. — Disse. — Eu só contei isso porque o que elas disseram não saiu da minha cabeça durante a aula.

— Oh, Deus! — Cassandra segurou o rosto da filha. — Você não deve aguentar isso. Sua mãe e eu pagamos um valor alto naquela escola justamente porque ela tem uma política de ser contra qualquer tipo de preconceito e se isso não está obtendo resultados bons então mudanças devem ser feitas. — Disse calmamente. — Agora prometa para nós que nunca mais esconderá algo.

— Eu prometo. — Respondeu baixinho. — Eu gosto de ter duas mães.

— Nós amamos você e o Russ mais do que tudo nesse mundo. Sabe disso, não sabe? — Frannie indagou.

— Eu sei. — Aquiesceu. — Eu também amo vocês, mamães. E o Russ também.

Quando as três trocaram um abraço amoroso e as mães tranquilizaram a filha totalmente, Kate saiu do quarto para tomar banho e se trocar para o almoço. Frannie levantou da cama inquieta e fisgou o celular.

— Pra quem está ligando? — Cassandra indagou enquanto segurava Russel nos braços.

— Para a escola da Kate. Eu quero conversar com os pais dessas garotas o quanto antes. Isso não vai ficar assim. — Respondeu.

A esposa concordou enquanto beijava a cabeça do filho. Não era a primeira vez que via o preconceito de perto, mas saber que ele atingiu até mesmo sua filha de nove anos a deixou triste. Triste por saber que pensamentos arcaicos não mudavam. Que garotas como aquelas que riram de Kate eram garotas que sofriam influência em casa por parte dos pais. E era ainda mais triste saber que o preconceito nunca acabaria completamente. Ele estaria em todos os lugares possíveis. Muitas vezes silenciosos mas também gritando na sua face.

E não havia nada que pudessem fazer para liquidar isso de uma vez por todas.

...

Frannie bateu duas vezes na madeira da porta de forma suave antes de entrar no quarto da filha lentamente. Havia pouca luz no local, mas o que chamou sua atenção foi a iluminação dentro da barraca grande na lateral do cômodo. As lâmpadas foram ligadas, e quando todo o aposento se clareou, Kate abriu a barraca e pôs a cabeça para fora com a expressão confusa, que logo se desfez ao ver a mãe caminhando até sentar no carpete macio.

— Eu achei que ouvi você dizer que estava grande demais para brincar nessa barraca quando completou nove anos. — Arqueou as sobrancelhas.

— Eu não estava brincando aqui. — A loirinha engatinhou até sentar de frente para a mãe na mesma posição. — Eu sempre entrava pra pensar e essa barraca acabou sendo o melhor lugar para fazer isso. — Encolheu os ombros em constrangimento.

Frannie sorriu com a expressão da filha.

— E o que uma garotinha tão nova tem para pensar de tão importante? — Indagou curiosa.

— Bom...antes eu pensava muito sobre a chegada do Russ. Eu não sabia se ia ser bom ou ruim, então eu vinha pra cá. Mas ele nasceu e eu achei muito bom. Ele é um bom irmão. — Fez uma pausa. — Mas hoje eu não parei de pensar no que a Lindsay e as amigas dela falaram e achei que pensar aqui ia resolver. — Mordeu o lábio inferior.

A empresária ouviu tudo, e assentiu lentamente no final antes de abrir os braços em um pedido mudo que foi prontamente acatado. Kate se permitiu suspirar enquanto desfrutava do calor do corpo da mãe. Aquele sempre seria seu lugar favorito no mundo, juntamente com o abraço de Cassandra, independentemente se tivesse nove, dezenove ou até mesmo cinquenta e nove anos.

Frannie levantou do chão, e caminhou com a filha até a cama, logo se acomodando no colchão macio. Os braços alvos continuaram ao redor de Kate em uma forma clara de proteção.

— Sua mãe e eu nos casamos em Amsterdã... — Começou. — E quando voltamos para Lima, a notícia do nosso casamento saiu em inúmeros jornais e revistas. As pessoas olhavam para nós e cochichavam porque a herdeira do império de Russel Fabray era lésbica e havia se casado com uma professora de dança que tinha condições de vida mais desfavorecidas do que a maioria desse bairro.

— Lésbica é quando uma garota gosta de outra garota, não é? — A filha indagou.

— É sim. — Respondeu. — E isso é algo que as pessoas não aceitam até hoje, mas antigamente tudo era pior. Olhavam para nós como se houvéssemos cometido um crime horroroso, e doía. Doía porque éramos duas pessoas que se amavam incondicionalmente mas por sermos duas mulheres recebíamos o ódio gratuito nas nossas cabeças. Eu já chorei por isso. Eu já chorei muito. Eu achei que não aguentaria, mas eu aguentei, e você sabe como?

— Como?

— Me concentrando apenas na sua mãe. Cassandra é a pessoa que eu escolhi dividir a minha vida até que eu não tenha mais uma vida e eu nunca vou me arrepender disso. Eu recebi a proteção do seu avô e quando você nasceu eu parei de me importar completamente porque eu havia descoberto a minha total felicidade. — Sorriu com os olhos marejados. — O que eu quero dizer é que você sempre vai ter a proteção das suas mães. Cassandra e eu sempre faremos qualquer coisa por você e pelo Russ e quando você se sentir triste ou confusa, ou até mesmo quando achar que não vai conseguir, eu quero que venha até nós e nos deixe abraçar você até que tudo se resolva. Porque tudo sempre irá se resolver, tudo bem?

— Tudo bem, mamãe. — A loirinha respondeu. — Eu te amo.

— Eu também amo você, meu amor. — Beijou-lhe o topo da cabeça. — Amo muito. E não esconda nada do que ouvir sobre isso de outras pessoas. No nosso tempo era mais difícil tomar providências mas hoje podemos fazer muitas coisas.

Kate assentiu, e quando um ruído foi ouvido, Frannie mirou sua atenção para a porta apenas para observar Cassandra fungando levemente enquanto o rosto era molhado pelas lágrimas que escorriam livremente.

— Você ouviu tudo? — Indagou.

A professora assentiu enquanto limpava ao redor dos olhos com a manga da blusa. Russel, que estava com a cabeça apoiada no seu ombro, fitou-a com suas orbes verde-escuras e espalmou as mãozinhas no seu rosto de forma carinhosa.

— Ma...ma. — Balbuciou.

A loira sorriu largamente e beijou-lhe a testa antes de caminhar até a cama de Kate. O garotinho engatinhou pelo colchão até parar ao lado da irmã, que soltou dos braços de Frannie e sentou alarmada ao ver a mãe chorar.

— Mama, não chora. — Pediu, se aproximando de Cassandra.

— Eu estou chorando porque fiquei emocionada. Não se preocupe, meu amor. — Respondeu com a voz embargada. — Você sabe que eu choro por qualquer coisa.

— Nós realmente sabemos. — Frannie sorriu enquanto sentava o filho na sua barriga. — Você sempre se derrete facilmente.

— Eu não sou a única aqui. — Replicou enquanto enxugava o restante das lágrimas. Por fim, encarou a filha. — O que a sua mãe disse é verdade. Nós sempre vamos proteger você e o Russ. E não queremos que se sinta triste por causa daquelas garotas. Elas com certeza não têm o mesmo amor que você recebe aqui em casa. — Sorriu.

— Exatamente. — Frannie sentou no centro da cama. — Elas são invejosas porque você é filha de duas mães lindas e extraordinárias, enquanto elas têm um pai chato e ranzinza.

— E eu aposto que eles não deixam elas tomarem sorvete na hora do jantar. — A esposa complementou.

— Mas vocês também não deixam. — Kate retrucou.

— Mas hoje iremos deixar. — Sorriu.

— É sério? — Os olhos da garotinha alargaram em animação.

— É sim. — Assentiu.

— Vocês são as melhores mães do mundo. — Saltou sobre a cama, beijando a bochecha de Frannie e pulando sobre Cassandra. — Eu te amo, mama.

— Eu também te amo, meu amor. — Apertou a filha. — Agora vamos buscar os sorvetes.

— E nós vamos ficar aqui conversando, não é, rapaz? — Fitou o filho, que apenas sorriu mostrando alguns poucos dentinhos. — Acho que isso foi um sim.

— Nós já voltamos. — Cassandra se inclinou e deixou um selinho demorado nos lábios da esposa. — Eu te amo.

— Eu amo você, Cassie. — Sorriu.

Quando mãe e filha saíram do quarto em uma corrida pela mansão, Frannie fitou o garotinho, que mordiscava a orelha do seu boneco emborrachado. Um suspiro saiu dos seus lábios. Sabia que o sorvete era uma forma de distrair Kate e deixá-la animada, todavia, a empresária não conseguia parar de pensar na conversa que tivera com o diretor no celular. A reunião com os pais das garotas havia sido marcada para o dia seguinte.

E se dependesse dela, o preconceito deles não iria se propagar.

Notas finais
Vocês querem que eu escreva a reunião ou que eu passe direto? Me digam. Espero que tenham gostado. Comentem, favoritem e exponham suas opiniões. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron