O Preço da Volta - 2ª Fase
46 Capítulo 46 - Um mistério chamado Brooke...
Notas iniciais
O restaurante pouco formal ao ar livre que abrigava mesas e cadeiras de madeira com árvores adornando o espaço era perfeito para um carrinho de bebê duplo. O ambiente aberto mantinha um ar puro e leve, e a sombra ocupava quase todo o lugar, tornando o clima ainda mais agradável naquele início de tarde. Quinn até poderia passar alguns minutos observando a simplicidade e a elegância do restaurante, mas sua atenção estava totalmente voltada para as duas mulheres que conversavam na sua frente.
A salada no seu prato estava praticamente intocada. Os olhos verdes mal piscavam enquanto encaravam Rachel e Brooke em um diálogo efusivo. Ainda estariam fingindo sorrisos e animações? Rachel definitivamente estava. O sorriso e as risadas ainda eram forçadas, diferente das que a morena dava quando estava consigo ou com os amigos. Era uma sonoridade vazia e sem emoção, assim como toda a sua expressão facial. É claro que Quinn percebia isso devido aos anos em que convivia com ela. Qualquer pessoa de fora poderia afirmar cem por cento que a baixinha estava se divertindo ao lado da ruiva. Um terrível engano. Rachel era, de fato, uma boa atriz quando desejava ser.
E Brooke sempre seria um enigma. Uma mistura de emoções que mudavam rapidamente sempre que os grandes olhos azuis piscavam lentamente. Quinn podia jurar que algumas risadas da ruiva eram sinceras, mas então outras saíam de maneira forçada e esse mesmo processo se repetia mais algumas vezes como um pequeno looping. Observá-la era como andar em uma floresta de árvores enormes e plantas altas sem nem um tipo de meio para guiar. Andaria por horas e ainda assim pararia no mesmo lugar. Brooke era um verdadeiro mistério.
A conversa de ambas tomava um novo rumo a cada minuto. Ora falavam sobre o trabalho e ora sobre conquistas pessoais. Quinn mudou seu foco para as filhas quando uma delas soltou um resmungo. A bolinha macia que Aurora apertava havia caído perto de Audrey, e agora a gêmea mais nova brincava com duas bolinhas coloridas.
A mãe sorriu e segurou um dos objetos, devolvendo para a gêmea mais velha em seguida. Audrey grunhiu quando se viu sem a segunda bolinha.
— Você tem a sua. Pare de querer as duas. — Sussurrou com o rosto próximo ao carrinho e beijou a testa da filha.
Brooke sorriu com os olhos fixos na cena e Rachel percebeu imediatamente. Respirou fundo contendo a vontade de ir embora daquele lugar.
— Elas são lindas, não são? — Indagou após recuperar o controle.
— Elas são perfeitas, Rachel. — A St. James respondeu. — Acha que elas terão os olhos de Quinn?
Oh, Deus! Rachel contou lentamente até dez antes de abrir mais um sorriso superficial. Talvez devesse apenas ir direto ao ponto e indagar o motivo dela visitar Quinn e apenas Quinn em seu horário de trabalho, mas sabia que os falsos argumentos seriam inúmeros e não estava com vontade de ouvi-los, então o que sobrava era apenas fingir e tentar descobrir nas melhores intenções o que a ruiva sentia a respeito de Quinn, e estava quase conseguindo esse feito.
Os olhares brilhantes na direção da loira entregavam Brooke, mesmo ela tentando omitir sempre que encarava a empresária por mais tempo que o necessário. Era como uma adolescente observando sua primeira paixão de escola e Rachel não gostava nada disso.
Talvez devesse provocá-la como podia. Seria uma boa ideia.
— Você tinha de ver o dia do parto, então. — Começou. — Eu praticamente ameacei a vida da Q.
— Ela me xingou várias vezes e gritou comigo. Eu quase fiquei sem a minha mão pelo aperto que levei durante as contrações. — Quinn comentou, alheia sobre as intenções de Rachel e bebericando seu suco de laranja.
Brooke riu. Uma das risadas que a loira considerou sendo sincera.
— Mas há recompensas depois. Os filhos são presentes valiosos.
— Eles realmente são. — Rachel disse. — Exceto pelos choros durante a madrugada. Só agora aos dois meses elas estão conseguindo passar mais tempo sem acordar a cada hora. Eu agradeço por isso ou então não conseguiríamos comemorar completamente o nosso primeiro aniversário de casamento.
A ruiva assentiu enquanto limpava a boca com o guardanapo, e logo fitou a morena.
— Eu não sabia que vocês já tinham feito um ano de casadas. Aposto que se divertiram. Meus parabéns. — Abriu um sorriso pequeno.
Quinn sorriu agradecida e tornou a degustar do suco. Rachel continuou.
— Nós não pudemos sair para comemorar, mas a surpresa que a Quinn preparou foi inesquecível, principalmente o que veio depois. — Sorriu. — Eu afirmo completamente que fazer sexo depois de ter os bebês incomoda, mas o prazer recompensa qualquer coisa, por isso passamos o domingo inteiro transando para recuperar o tempo perdido.
A loira quase se afogou com o líquido que ingeria. O susto pelas palavras da morena fazendo o suco querer tomar outro rumo em direção à laringe ao invés do esôfago. Tossiu suavemente algumas vezes antes de secar a boca com o guardanapo e fitar a baixinha, que mantinha uma expressão sagaz.
Brooke engoliu com força o pedaço de bife, como se ele houvesse dobrado de tamanho ou sua garganta se tornado menor.
Rachel não deu chance para que ela dissesse algo.
— Mas e você, Brooke, pretende ter filhos? — Indagou curiosa.
A judia percebeu instantaneamente como a respiração da mulher engatou e se tornou mais pesada. O sorriso sumiu em segundos. Nem uma emoção sequer se fez presente no rosto marmóreo.
Estava fleuma.
— Eu preciso ir ao toalete. Com licença. — Pôs o guardanapo sobre a mesa e levantou, caminhando apressadamente para a parte interna do restaurante.
Quinn permaneceu estática no lugar. O que diabos havia acontecido ali?
— Ela está escondendo alguma coisa. — Rachel disse. — Você viu como ela ficou?
A loira não teve como negar. A cor praticamente havia sumido do rosto de Brooke quando a judia fez aquela pergunta. Havia algo errado.
— Ela está apaixonada por você. — A morena afirmou.
— O quê?! Rach...não. Ela não está...
— É claro que está! Não seja ingênua, Quinn. — Retrucou. — Eu percebi os olhares dela na sua direção, e o pior de tudo é que ela esconde. Não é alguém que vai chegar de repente e falar tudo. Ela vai andar pelas beiradas primeiro. Esse é o pior tipo de pessoa.
Quinn suspirou. Conhecia a intuição de Rachel e na maioria das vezes ela estava certa. No entanto, infelizmente demorava um pouco mais para compreender quando alguém estava interessada em si.
Mas naquele momento, não tinha como negar que Brooke era uma pessoa com atos estranhos.
— E o que você quer fazer quanto a isso? — Arqueou as sobrancelhas.
— Eu não sei. Mas por enquanto mantê-la por perto é a melhor alternativa.
Brooke retornou para a mesa minutos depois, mas não sentou em seu lugar. Precisava ir, mas não inventou alguma desculpa como a maioria das pessoas. Parecia mais agitada e o olhar vazio era nítido enquanto pegava sua bolsa.
O abraço que trocou com Rachel foi rápido. Apenas um beijo no topo da cabeça das gêmeas foi dado e Quinn ficou por último. A judia se remexeu inquieta quando a ruiva envolveu a loira em um abraço, e a Fabray percebeu a inspiração discreta e mais longa que Brooke deu com o nariz próximo ao seu pescoço, mas não demonstrou qualquer reação.
Quando a ruiva saiu de suas vistas, Rachel fitou a esposa.
— Eu não gosto dela. — Disse. — É como se houvesse alguma energia ruim que a cerca sempre que aparece e me faz ficar incomodada com a sua presença.
Quinn assentiu compreensiva. Não iria discordar. Até mesmo Cassandra não havia gostado de Brooke e a cunhada era alguém que se afeiçoava rapidamente às pessoas, então não havia motivos para alegar que a morena estava exagerando.
Ela puxou a mais baixa até que estivessem sentadas lado a lado com o carrinho duplo na lateral da mesa de frente para elas. As gêmeas continuavam concentradas em suas bolinhas macias e que pareciam ser os objetos mais interessantes do mundo.
— Vamos esquecer a Brooke por enquanto. Vamos terminar o nosso almoço nesse restaurante agradável com as nossas filhas, o que acha? — Sorriu.
Rachel espelhou seu sorriso e deu-lhe um selinho demorado.
— Eu acho uma ótima ideia.
...
Quinn não conseguia esquecer o ocorrido de horas atrás. Havia dito para Rachel tentar esquecer mas ela mesma não conseguia esse feito. Brooke a intrigava. Seu olhar a intrigava. Era como se houvesse algo a ser revelado, porém, não sabia do que se tratava.
Suspirou enquanto massageava as têmporas. Queria muito que a ruiva voltasse para Nova York com Jesse. Seria melhor para todos.
Um resmungo fez com que os pensamentos evaporassem parcialmente, e quando seus olhos focaram as gêmeas deitadas ao seu lado na cama, foi impossível não sorrir. Ambas adoravam soltar esses barulhinhos com a boca como se tentassem chamar a atenção de alguém, e funcionava.
Quinn passou a mão suavemente pelos fios escuros e extremamente lisos que aos poucos iam ocupando totalmente as cabecinhas das filhas, e em seguida aspirou o cheiro inebriante de bebê.
— Eu amo vocês e nunca vou cansar de repetir isso. — Sussurrou.
A primeira a sorrir foi Audrey, sendo seguida por Aurora. O sorriso seguido de mais resmungos e as pequenas mãos mexendo fazia a loira suspirar em amor e adoração. Qualquer pensamento negativo ou qualquer angústia sumia quando observava os olhos das duas.
— Acho que essas duas garotinhas precisam dormir.
A voz de Rachel ecoou no quarto, e Quinn virou o rosto para encará-la sair do banheiro ainda passando as mãos pelos braços onde tinha acabado de passar o hidratante.
— Eu também acho. Elas estão muito agitadas hoje. — Respondeu.
— O normal é que elas fiquem ainda mais agitadas, então é melhor ir se preparando. — A morena sorriu e caminhou até a cama. — Vamos lá. Precisam mamar primeiro.
Quinn ajudou a esposa como em todas as outras noites. Primeiro foram devidamente alimentadas e depois de arrotar foram postas nos berços. Os móbiles foram ligados e a melodia suave que ecoava em companhia com as borboletas girando fizeram as gêmeas piscarem lentamente, denunciando o sono que estava chegando.
Apenas uma luminária na lateral do quarto ficou ligada, e após garantir que tudo estava certo, as mães saíram silenciosamente do cômodo.
Quando ambas retornaram ao próprio quarto, Quinn caminhou até sua pasta para terminar alguns desenhos, e percebeu quando um pequeno papel pequeno caiu no chão.
Ela franziu o cenho, e após se curvar para pegá-lo, notou que aquilo não estava ali quando olhou no dia anterior. Era um post-it azul, e se não fosse pela assinatura no final, ela não reconheceria aquelas letras.
Não era um bilhete. Era apenas uma frase. Uma frase de Brooke pedindo para encontrá-la em um café no dia seguinte às dez da manhã, mas a palavra ''importante'' grafada com mais ênfase a fez sentir o corpo em alerta. Como a ruiva tinha conseguido colocar aquele papel na sua pasta? Provavelmente quando entrou na sua sala sem que estivesse lá.
— Amor? — Ouviu Rachel chamá-la. A judia estava acomodada sob as cobertas. — Está tudo bem? Você ficou estática de repente.
Quinn suspirou ainda fitando o papel. Mostraria para Rachel, que com certeza iria ter uma síncope? Ou omitiria e iria até lá em segredo para tentar descobrir o que estava acontecendo com Brooke?
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