O Preço da Volta - 2ª Fase
40 Capítulo 40 - Medo de ser mãe...
Notas iniciais
Quinn ouviu o primeiro choro ecoar pelo quarto através da babá eletrônica e logo depois o outro. Era sempre assim. Se uma das gêmeas chorar a outra automaticamente vai chorar também, mesmo não precisando ter a fralda trocada ou ser amamentada. Deveria ser a famosa conexão de gêmeos.
Mesmo sem estar acordada totalmente, a loira sentou na cama no mesmo segundo. Os olhos abrindo vagarosamente pelo sono interrompido.
— Você quer que eu vá? — Rachel indagou com a voz fraca.
— Não. — Bocejou. — Volte a dormir. — Inclinou e beijou a cabeça da esposa.
Quinn iria cumprir o desafio perdido, mesmo sentindo o corpo cansado e saindo da cama pela segunda vez naquela madrugada. Havia se passado apenas uma semana desde o nascimento das garotinhas e faltavam três até que acabasse o mês. Ela conseguiria.
Suas pernas se mexiam no automático, e fazia força para não fechar os olhos. Quando adentrou o quarto das gêmeas, tateou a parede em busca do interruptor, clareando o cômodo aos poucos, e se pôs a caminhar até os berços.
A empresária só teve tempo de sentir algo colidindo com seus pés e em seguida seu corpo cair no chão em segundos. Seus olhos miraram o urso de pelúcia perto das suas pernas.
— Eu não acredito que tropecei em um urso.
Talvez precisasse daquilo para despertar totalmente. E ela despertou.
Levantou em segundos e andou até o berço da esquerda. As gêmeas já tinham cessado o choro, e o que sobrou foi apenas o rostinho molhado e cansado pelo pranto.
Audrey foi a primeira a ser pega. Se não fosse pelo nome de ambas escrito em letras discretas no berço, Quinn jamais saberia dizer qual era qual. A mãe a deitou delicadamente sobre o trocador e Aurora foi a próxima.
Os macacões foram desabotoados apenas na parte inferior e as fraldas abertas. O cheiro inconfundível e desagradável de cocô adentrou as narinas da loira quando abriu a da gêmea mais velha, entretanto, a de Audrey estava limpa.
Quinn fitou os grandes olhos sem uma cor definida. Estavam levemente azuis, mas ficariam assim somente até os seis meses, quando a tonalidade final apareceria. Ela não evitou sorrir.
— Eu sei que vocês possuem toda essa conexão de gêmeas, mas não precisavam chorar em sincronia. — Comentou enquanto fechava a fralda seca da filha. — Principalmente você, espertinha.
Audrey soltou um grunhido manhoso quando foi novamente colocada no berço e seu lábio inferior projetou para frente.
— Eu já volto, tudo bem? Vou apenas trocar a sua irmã.
Quinn sabia que ela não entenderia, mas não evitou falar. Ela sentia como se pudesse conversar com as filhas. E quem sabe, elas sentirem o amor e carinho com suas palavras.
A gêmea mais nova não chorou, mas continuou com o bico nos lábios. A loira voltou até Aurora, que mexia as mãozinhas no ar e descartou a fralda suja no banheiro do quarto, limpando-a vagarosamente em seguida e pondo a pomada para assaduras.
— Pronto. Está limpa novamente. — Terminou de fechar a fralda e beijou a barriga da bebê enquanto emitia sons engraçados.
A gargalhada da garotinha aqueceu o coração da mãe. Era uma sonoridade incrível para os seus ouvidos. A boquinha aberta enquanto ria mostrava as gengivas sem dentes e os olhinhos apertados. Linda.
Estava tão imersa nas expressões encantadoras que recebia que não notou a figura morena que adentrou o quarto silenciosamente.
Rachel limpou a garganta e Quinn virou na mesma hora, fitando-a na porta do cômodo com um sorriso no rosto.
— Ei, por que não está dormindo? — A loira indagou enquanto erguia Aurora lentamente.
— Eu não consegui. — A judia caminhou até o berço do outro bebê. — Eu sei que fizemos aquele desafio, mas eu simplesmente não consigo ficar longe delas. — Segurou Audrey delicadamente, embalando-a nos braços e aspirando o cheirinho da filha.
Quinn assentiu. Ela entendia o que Rachel estava falando. Eram mães de primeira viagem e suas filhas tinham nascido há apenas uma semana. A ligação estava muito forte. Ambas não conseguiam ficar muito tempo distantes. Sentiam a necessidade de segurá-las e observá-las a todo momento.
— Eu acabei de ter uma ideia. — A empresária se aproximou da mais baixa.
— Será que é o que eu estou pensando?
— Talvez sim.
As duas sorriram cúmplices.
...
As gêmeas foram deitadas suavemente sobre o colchão macio. Rachel se acomodou no lado esquerdo e Quinn no direito. A manta macia cobriu ambos os corpinhos pequenos enquanto as mães permaneceram sob a grossa coberta da cama.
— Isso é real? — A loira indagou em um sussurro enquanto fitava a esposa. — Essa felicidade, esses sentimentos. Eles são mesmo reais? Eu tenho medo de acordar e descobrir que estou sonhando.
— Então estamos sonhando juntas porque eu me faço a mesma pergunta. — Migrou sua atenção para as filhas. Estavam quase fechando os olhinhos e mantinham as chupetas em ambas as bocas. — Eu estou tão, tão feliz.
— Como nós pudemos fazer essas coisinhas tão perfeitas? — Quinn deslizou o dedo suavemente pela mão da gêmea mais velha, sentindo-o sendo segurado no mesmo segundo. Aquela sensação era indescritível. — Elas são lindas. Eu vou mesmo ter várias síncopes como Frannie.
Rachel abafou uma risada com a mão e beijou a cabeça das filhas.
— Eu amo vocês.
— E nós amamos você.
As quatro dormiram minutos depois.
...
Quinn sorria encantada enquanto balançava o chocalho na frente das gêmeas. Ambas riam em harmonia achando o objeto a coisa mais interessante do mundo. Rachel sorriu e tirou o que seria a décima foto do dia.
— Ficou boa? — A loira virou a cabeça para fitar a esposa, que assentiu. — Deixe-me ver.
Rachel entregou a câmera enquanto pegava o chocalho, entretendo as gêmeas como Quinn havia feito. As duas gargalhavam animadamente.
A loira analisou a fotografia pela tela do objeto e sorriu.
— Precisamos de fotos delas tomando banho. — Disse.
— Por quê? — Rachel parou o que fazia.
— Porque elas vão crescer, se tornar adolescentes e nós precisamos de fotos constrangedoras para mostrarmos aos amigos delas e futuros namorados ou namoradas. Está no manual de mães. — Elucidou.
— Quem disse isso?
— Frannie. — Respondeu. — Ela tem inúmeras fotos da Kate quando era um bebê e algumas vão constrangê-la no futuro.
Rachel apenas revirou os olhos, mas não contestou. Ela sabia que Quinn faria o mesmo que a irmã. Ia balançar o chocalho novamente quando ouviu gritos no andar de cima e em seguida passos pesados na escada.
— Britt! Britt, volte aqui! — A voz de Santana foi ouvida, e em seguida o barulho de porta batendo. A porta da frente.
As gêmeas quase choraram, mas Rachel balançou suavemente os bebês conforto que as acomodavam e ambas se acalmaram aos poucos.
— Vá ver o que houve. Eu fico aqui.
Quinn assentiu e deixou a câmera no sofá, saindo da sala e indo para o hall. Não havia ninguém.
Quando saiu da mansão, se deparou com Santana sentada nos degraus de cimento que levavam à entrada. Os soluços eram audíveis e a loira não hesitou em sentar ao lado da amiga.
Ela não disse nada. Apenas contornou os ombros da latina com seu braço e a puxou para perto. Santana se deixou ser abraçada e afundou o rosto no pescoço de Quinn. Seu corpo tremia pelo pranto. A Fabray sabia que ela só chorava assim por Brittany. Tudo de mais intenso e bonito que havia dentro da advogada era apenas direcionado à loirinha.
Minutos passaram e ambas permaneceram naquela posição. Quando o choro da amiga perdeu a intensidade, Quinn se afastou apenas para enxugar as suas lágrimas e finalmente tentar entender o que houve.
— O que aconteceu entre você e a Britt? — Inquiriu em um tom dócil.
Santana fungou e tomou uma longa respiração. Quando falou, a voz saiu mais rouca que o normal.
— Foi tudo rápido demais. — Começou. — Nós estávamos conversando sobre bebês. De repente ela veio com a ideia de fazer uma inseminação. Eu fui pega de surpresa e não reagi bem. Acabei dizendo que ela só queria isso por estar em êxtase pelo nascimento das gêmeas. Ela afirmou que eu não queria ser mãe e eu não contestei. Foi uma péssima ideia. — Suspirou. — Tudo o que eu ouvi depois foi ela dizendo que se eu não quisesse ter filhos, iríamos nos divorciar, porque ela não abriria mão disso.
Quinn ouviu tudo calmamente e quando a latina finalizou, ela se pôs a perguntar.
— Mas você não quer mesmo ser mãe? Nunca falamos muito sobre isso mas também nunca ouvi você abominar a ideia.
— Não é isso. — Santana desviou o olhar para o chão.
— E o que é? — Insistiu.
— Eu tenho medo. — Confessou. — Na verdade, eu morro de medo. Eu nunca tive contato direto com crianças até virmos para cá e você sabe como Kate e eu sempre ficamos implicando uma com a outra. Eu não tenho maturidade com isso, Q. E se eu for mãe e acabar errando em tudo?
Quinn colocou a mão nas costas da amiga tentando confortá-la. Santana era a madrinha das suas filhas juntamente com Brittany e mesmo as gêmeas estando em casa há uma semana, a latina havia segurado-as apenas duas vezes. Sempre encontrava alguma desculpa para não ficar muito tempo com uma delas nos braços. A loira sempre achou que era apenas por Santana ser Santana, mas o real motivo era bem mais extenso. Agora ela entendia tudo.
— Somos amigas há dez anos. Eu posso dizer todos os seus defeitos em ordem alfabética, mas também posso falar suas qualidades. E a maioria, se não todas, você sempre mostra para Brittany, tentando mostrar todo esse amor que você sente por ela. Se ela está pronta, então você precisa começar a pensar se realmente quer isso. — Sorriu gentilmente. — Eu desmaiei quando soube que seria mãe de gêmeos. Eu tive uma síncope. Eu jamais imaginaria que teria dois bebês para cuidar, mas eu estou aqui, sentindo uma felicidade que eu não saberia descrever nem se tentasse, e você precisa sentir isso. Sentir como se pudesse morrer pelo fruto do seu amor com a sua esposa. Brittany ama você e quer iniciar uma família. Mas e você? Você quer isso também?
Santana passou alguns minutos processando todas as palavras da amiga. Seus olhos marejaram.
— Desde quando você se tornou essa pessoa que fala como se tivesse experiência?
Quinn não evitou uma risada.
— Desde que eu abri meu coração para a minha família. A família que eu construí e que vou amar pelo resto da minha vida.
Santana sorriu pela resposta. Um sorriso agradecido, repleto de amor e orgulho. O amor que sentia por Quinn como se ela fosse sua irmã. E, de fato, ela era, assim como Rachel também. E o orgulho por vê-las tão felizes com as gêmeas era imensurável. A latina desejava o mesmo para si. Apenas tinha medo.
— Obrigada por estar aqui por mim.
— Eu sempre estarei aqui por você. Sempre. — Retribuiu o sorriso. — Agora vá atrás da Britt.
— Mas eu não sei onde ela está.
— Eu sei. — Rachel apareceu na entrada da mansão. — Eu acabei de ligar para ela e estou indo encontrá-la.
— Eu vou com você. — Santana levantou.
— Não. Ela aceitou apenas me ver. Eu vou acalmá-la. Vocês duas podem cuidar das gêmeas. E você... — Apontou para a latina. — Vai ter algumas horas a sós com as suas afilhadas. Espero que goste de trocar fraldas. — Arrumou a bolsa no ombro e parou perto de Quinn. — Eu volto já. — Deu-lhe um selinho.
— Tudo bem. — Sorriu. — Eu amo você.
— E eu amo você.
— Você pode dizer que eu a amo e sinto muito? — Santana perguntou timidamente.
A morena sorriu e assentiu.
— Ela sabe disso e também ama você. Apenas deixe comigo. Vou conversar com ela. — Garantiu, descendo os degraus e entrando no carro.
Quando o automóvel passou pelos portões de ferro e sumiu de vista, Quinn pôs a mão no ombro da amiga.
— Vamos lá. — Sorriu confortante.
Santana assentiu e seguiu a amiga para dentro. Esperava que Brittany a entendesse e pudessem conversar.
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