O Preço da Volta - 2ª Fase
39 Capítulo 39 - A mais pura felicidade...
Notas iniciais
Rachel acordou naquela madrugada sentindo o colchão sob si totalmente encharcado.
— Oh, Deus. — Resfolegou quando sentiu uma pontada forte no seu ventre.
Havia sentindo essa mesma dor no jantar horas atrás, mas em proporções menores. Achou que não era nada demais e evitou comentar para não alarmar todos em vão. Agora ela sabia o que significava aquilo. E se arrependia de não ter contado. Tinha chegado nas trinta e quatro semanas e a doutora White a avisou que poderia entrar em trabalho de parto a qualquer momento.
Aquele era o momento.
— Quinn... — Chamou, recebendo apenas um resmungo por parte da esposa.
Reprimiu um gemido de dor quando sentiu novamente a mesma pontada.
— Quinn! — Ergueu o tom de voz, cutucando a costela da mais alta com força.
A loira apenas se remexeu, mas voltou a dormir. Rachel revirou os olhos impaciente e arrastou seu corpo para sentar na cama com as costas na cabeceira.
— Quinn! — Gritou quando a dor veio com ainda mais força.
A esposa sobressaltou com o susto, e sentou na cama segundos depois ainda atordoada, fitando a baixinha com a mão sobre a barriga e uma poça de água formada no colchão.
— Elas...elas vão nascer.
— E vão nascer aqui se você não me levar logo para o hospital! — Trincou a mandíbula quando uma nova dor se aproximou.
Quinn sentiu o peito apertar quando ouviu o grunhido esganiçado de dor da esposa quando mais uma contração chegou e não perdeu tempo em dar a volta na cama e ajudá-la a se erguer lentamente.
A porta do quarto foi aberta bruscamente e Santana adentrou o local com as madeixas bagunçadas e trajando camisola.
— O que acontec... — A latina estancou no lugar e se virou. — As gêmeas! Eu vou avisar a todos. — Se retirou
Quinn apenas continuou sustentando a esposa com seu corpo enquanto tinha o braço desta sobre seu ombro. Brittany passou como um raio pela porta e se pôs ao lado da amiga segundos depois, ajudando a segurar Rachel com mais apoio.
As três saíram do quarto segundos depois e puderam ver Frannie e Cassandra já despertas no corredor.
— Vão logo antes que ela os tenha aqui. Nós levamos as bolsas das gêmeas e algumas peças de roupas para vocês.
Quinn apenas assentiu, ainda um pouco desnorteada e se sentindo mal a cada vez que Rachel soltava grunhidos pela dor constante no ventre.
...
Chegar ao hospital foi relativamente fácil. A madrugada de Lima nunca é movimentada. Toda a rodovia estava vazia. Quinn tinha certeza de que Santana não saiu dos oitenta quilômetros por hora enquanto dirigia.
Quando o carro parou no estacionamento, enfermeiros já esperavam com uma cadeira de rodas prontos para levarem Rachel.
— Não me deixe sozinha. — A morena pediu com medo.
— Eu não vou deixar. — Segurou na mão da mais baixa. — Eu estou aqui.
Quinn teve de correr ao lado da cadeira de rodas até a sala do parto, mas não saiu do lado da esposa. E quando Rachel foi deitada cuidadosamente na cama após vestir a bata do hospital, a doutora White adentrou o local.
— Vamos saber como essas princesinhas estão. — Sorriu e se pôs a fazer todos os exames necessários.
A pressão arterial foi medida, os batimentos cardíacos foram analisados, a passagem do colo uterino também. A dilatação, no entanto...
— Nove centímetros. — A doutora disse. — Precisamos de dez. Vamos esperar pelo menos trinta minutos até que dilate mais um centímetro.
— O quê?! — Rachel praticamente gritou. — Eu não posso tê-las agora? — Apertou os dentes quando sentiu a contração. — Droga! Isso dói muito. — Choramingou.
— Não há outro jeito? — Quinn inquiriu nervosa.
— Vocês preferem a cesariana?
— Não. — Rachel respondeu rapidamente.
— Mas Rach...
— Eu quero tê-las normal, Quinn. Eu... — Respirou fundo. — Eu aguento.
— Tudo bem. Vamos esperar um pouco.
Todos esperaram. A doutora White teve de sair para avaliar outro paciente quando dez minutos passaram e Quinn se virou para Rachel.
— Você está bem?
A morena mantinha uma respiração levemente desregular e uma fina camada de suor brilhava em sua testa pelas dores sentidas.
— Como você me pergunta isso?! — Ralhou entredentes, sentindo as contrações cada vez mais ininterruptas. — Eu estou prestes a sentir a pior dor da minha vida e você me pergunta se estou bem? Sua idiota! — Abafou um grito quando a pontada veio com mais força.
Quinn lembrou das aulas que teve todos os sábados desde a primeira há quase dois meses e as palavras de Holly acertaram sua mente com força.
''Nunca perguntem se elas estão bem. É claro que não estarão enquanto sentirem aquela dor insuportável.''
Ela xingou a si mesma mentalmente por ter perguntado isso. Tudo culpa do nervosismo.
— Me desculpe. — Se apressou em dizer. — Eu sei que não está totalmente bem, mas eu estou aqui e não vou sair do seu lado.
— É claro que não vai! — Respondeu exaltada. — São suas filhas. Você as fez e não pode nem cogitar a ideia de sair daqui ou eu levanto apenas para chutar sua bunda.
A enfermeira que olhava atenta o monitor com os batimentos dos bebês sorriu e fitou a loira com os ombros encolhidos.
— Não se preocupe. Isso é normal. — Tentou confortar.
Quinn lançou um sorriso agradecido na direção da jovem e decidiu ficar calada apenas fazendo companhia ao lado da esposa. Não engatariam em uma conversa enquanto a dor se mantivesse presente. Os vinte minutos restantes passaram vagarosamente. Rachel não aguentava mais sentir tantas contrações, e quando a doutora adentrou o quarto, ela soube que havia chegado a hora.
A obstetra separou as pernas da judia e analisou novamente a dilatação.
— Vamos começar.
O coração de Quinn quase saiu pela boca quando Rachel segurou sua mão com força. As enfermeiras se mantinham analisando cada monitor que mostrava as informações sobre a judia juntamente com o sinal do monitoramento dos bebês.
— Tudo bem, Rachel. Quando a contração vier, você vai empurrar. Use toda a sua força e pare quando eu mandar.
A baixinha maneou a cabeça em concordância e a doutora sentou em um banco giratório na altura que pudesse ver os bebês saindo. Quinn sentiu curiosidade em observar, mas não sairia do seu lugar, e não queria correr o risco de vomitar como quase havia feito quando viu as fotos nas aulas de Holly.
A contração veio, e Rachel não fez mais esforço em segurar o grito. A morena empurrou com força, mas sentia como se nada estivesse saindo. A sensação era horrível e ela desejava apenas que aquilo acabasse logo e pudesse finalmente ver suas filhas.
Quinn trincou os dentes quando sentiu o aperto descomunal da baixinha na sua mão. Ela parecia ter ganho uma força que a loira desconhecia, e parte dela era aplicada nos seus ossos.
A morena deitou a cabeça na cama cansada pela primeira tentativa. Respirava com dificuldade e o suor escorria pela lateral do seu rosto, grudando fios de cabelos na sua face.
— Você fez isso comigo! — Esbravejou na direção da esposa. — Eu achei que não ia doer tanto e isso dói. Você é uma idiota! Uma idiota!
Tudo saía de modo incoerente da boca de Rachel. Os xingamentos não faziam sentido, mas Quinn tampouco ligou. Ela deixaria a esposa falar tudo o que quisesse. Não sabia o tamanho da dor, mas deveria ser horrível.
— Eu amo você. — Foi tudo o que disse.
— Se me amasse, não teria feito isso! Eu odeio você! Odeio! Odeio! Odeio! — Gritou enquanto mais uma contração vinha.
A voz da morena ecoava em todo o quarto. Ela realmente possuía um alcance vocal invejável. Poderia ser facilmente estrela da Broadway, Quinn pensou em meio a devaneios.
— E eu amo você. — Tornou a repetir.
— Pare de falar isso! Eu não vou conseguir!
— Vai sim. Eu confio em você. — Quinn encorajou.
Rachel tentou novamente. Uma. Duas. Três. Quatro.
Estava exausta. Sentia todos os seus músculos doerem e seu coração descompassado.
— Vamos lá, Rachel! Eu posso ver a cabeça da sua filha. — A doutora disse.
A morena tomou fôlego e iniciou a quinta tentativa. E dessa vez o choro fino cortou toda a sala.
A doutora White ergueu o bebê nos braços. Chorava intensamente e era possível ver os fios escuros na cabeça minúscula. Era menor do que a maioria devido ao nascimento com trinta e quatro semanas. A enfermeira logo a pegou e passou a retirar as secreções do nariz e boca, envolvendo-a em uma manta branca logo depois.
Quinn mal teve tempo de manter os olhos grudados na sua filha quando o grito de Rachel puxou sua atenção. As contrações voltando com uma força descomunal.
O mesmo processo se repetiu. A morena sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. Não tinha forças nem mesmo para gritar com Quinn. Quando uma nova onda de dor chegou, ela usou todo o esforço que conseguiu para empurrar, e um novo choro foi ouvido.
A empresária sorriu aliviada quando o segundo bebê apareceu em seu campo de visão. Também foi limpa em segundos pela enfermeira ágil. A loira mirou seus olhos em Rachel, beijando-lhe a testa com amor.
— Você conseguiu, Rach. Eu amo você.
A estilista sorriu enquanto tentava normalizar a respiração. Seus olhos pesando consideravelmente. Ainda pôde ver os dois pacotinhos na manta da mesma tonalidade em uma maca mais à frente quando sua visão escureceu.
...
Rachel acordou assustada. Sobressaltou levemente mas uma mão em seu ombro a acalmou. Olhou para cima apenas para encarar os olhos maternos de Shelby fitando-a com amor.
— A Bela Adormecida acordou. — A voz de Santana adentrou seus ouvidos.
— Quanto tempo eu fiquei desacordada? — Indagou com um tom rouco.
— Apenas uma hora. Você desmaiou pela exaustão. — A Corcoran respondeu sorrindo.
— Oh, meu Deus, estrelinha! — Hiram se aproximou da cama. — Elas são lindas. Se parecem tanto com você.
— Onde elas estão? — Quis saber. O tom saindo apressado.
— Estão aqui. — Quinn adentrou o quarto enquanto empurrava uma maca pequena que acomodava as filhas. — Elas estavam fazendo alguns exames. Estão saudáveis. Como nasceram com trinta e quatro semanas, não precisam ficar na UTI. — Sorriu.
A mãe loira pegou cada bebê de forma desajeitada e logo ambas estavam deitadas no peito de Rachel. Uma em cada braço.
A morena sentiu os olhos marejarem consideravelmente. As gêmeas dormiam serenamente. A pele alva claramente era de Quinn, mas o cabelo escuro era seu. Uma mistura de ambas. Rachel sempre se perguntou como era um amor materno. Se era forte e incondicional como dizem. E agora ela sentia. Sentia tudo dentro de si como uma ebulição de sentimentos e isso a assustava levemente. Felicidade, amor, serenidade. Sentia como se pudesse fazer qualquer coisa pelas suas filhas. O amor chegava a apertar seu peito de tão forte. Era o amor de mãe. Rachel era mãe.
Quinn não estava diferente. A loira sentou delicadamente na beirada da cama enquanto fitava as gêmeas. Faria qualquer coisa por elas. Protegeria e cuidaria até que não habitasse mais a Terra. Era indescritível e surreal todo aquele amor que fazia seu coração inchar. A garota diferente do orfanato agora era mamãe de gêmeas.
Um barulho foi ouvido e ambas ergueram suas cabeças para fitar Brittany olhando o visor da câmera enquanto enxugava as lágrimas ao lado de Frannie e dos homens Berry, que não estavam diferentes. Até mesmo Santana tinha lágrimas no rosto.
— Vocês precisam de fotos para marcar esse dia. — Explicou em meio ao pranto. — Elas são tão lindas.
Rachel sorriu com as lágrimas escorrendo pela face e beijou cada testinha delicadamente.
— Olha... — Quinn suavemente abriu a manta que envolvia o bebê dormindo no braço direito da esposa, expondo o corpinho desnudo.
A morena sorriu ainda mais emocionada quando observou a diferença nos órgãos genitais. Ali estava sua garotinha parecida com Quinn.
— É a Audrey. — A loira sorriu após fechar a manta.
— Audrey? — Frannie indagou.
— Audrey significa força e nobreza. Eu sei que a nossa filha vai ser forte para enfrentar o mundo e nobre para ser bondosa como todos nós. — Quinn explicou suavemente.
— Eu estou tão orgulhoso de vocês. — Leroy disse retirando os óculos para enxugar o rosto com o lenço dado por Shelby.
— E a outra bebê? — Santana questionou.
— Aurora. — Rachel disse com a voz embargada, fitando os amigos diretamente.
Puck, que até então estava quieto e com os olhos molhados, sentiu as lágrimas descerem com força.
— Aurora significa o nascer do sol. Aquilo que brilha. — A morena continuou. — Nossa garotinha vai brilhar tanto quanto a Madre Aurora brilhou em ajudar os outros. Eu sei que ela será especial como Audrey.
Puck foi abraçado por Brittany e Santana. A Madre Aurora foi uma pessoa de uma importância imensurável na vida deles. Uma pessoa iluminada que sempre os protegia apesar de qualquer coisa. Era um anjo para todos e uma alma bondosa que merecia aquela homenagem.
Quinn fitou Rachel e sorriu com amor. O amor ainda mais potencializado por agora ser mãe. Beijou calmamente os lábios cheios e fitou suas garotinhas logo depois.
— Aurora e Audrey Berry-Fabray.
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