O Preço da Volta - 2ª Fase
34 Capítulo 34 - Quarto dos sonhos...
Notas iniciais
[21ª Semana — Início do 6º mês de gestação]
Rachel se sentia cada vez mais pesada. A barriga crescia consideravelmente e era difícil se manter disposta até mesmo para caminhar com frequência. Sem falar na dificuldade em dormir. As gêmeas tinham começado a chutar há alguns dias e pareciam empenhadas em competir quem seria a mais agitada, impedindo a mãe de ressonar tranquilamente e consequentemente afetando o sono de Quinn, que não conseguia fechar os olhos enquanto Rachel não estivesse totalmente relaxada.
A ansiedade estava em alta. A doutora White tinha avisado na última consulta que gêmeos normalmente não completam o nono mês de gestação e que nascem no oitavo, ou seja, apenas mais dois meses e Rachel enfim conheceria suas filhas.
Mas sua ansiedade ainda não se comparava com a de Frannie e Cassandra. A amiga já estava na metade do oitavo mês. Quase pronta para dar à luz. Tudo já estava pronto. O quarto do bebê em cinza e branco era simplesmente lindo, e ela não podia esperar a hora de ver o cômodo onde suas gêmeas dormiriam também.
Tinham optado por deixá-las dividindo o mesmo quarto, pelo menos até completarem os quatro anos de idade. Seria mais fácil e ambas estariam sempre juntas, criando a cumplicidade essencial entre irmãs. Quando desenvolvessem características próprias, os quartos seriam separados. Cada qual com seus gostos. E também devido à condição de uma delas, daria mais privacidade.
Todo o enxoval já havia sido comprado quando Rachel chegou aos cinco meses e estava devidamente organizado no closet. Os móveis e acessórios foram enfim decididos há algumas semanas. Estavam todos esperando para serem montados no aposento das garotinhas juntamente com todas as tintas e papéis de parede.
Quinn recusou a ideia de chamar um pintor e ajudantes profissionais. De acordo com ela, queria ter a experiência de arrumar tudo. Não deveria ser difícil, e todo o seu auxílio já estava ali.
— Tudo bem. — A loira bateu as mãos em animação. — Quem está pronto para pintar?
Apenas Kate, Zoe e Blaine ergueram a mão. As duas garotinhas insistiram em ajudar, alegando que seria divertido, e Blaine era louco por tudo o que envolvesse decorações e bebês.
— Eu poderia estar com a minha esposa aproveitando esse sábado ensolarado, e aqui estou, fazendo algo que outras pessoas poderiam ser pagas para fazer. — Santana murmurou enquanto prendia os cabelos em um rabo de cavalo. — Você é rica. Tão rica que não precisaria mais andar se quisesse. Poderia ser carregada para todos os lugares e quer mesmo fazer isso?
— Vai ser divertido. — A empresária rebateu. — Somos de East End. Devemos fazer as coisas por conta própria.
— Nós só pintamos paredes uma vez e o resultado foi pior do que pensávamos. — Puck se pronunciou.
— Tínhamos quinze anos e as paredes daquele cubículo não eram boas como essas. — A loira novamente argumentou.
— Ei, pessoal! — Frannie adentrou o quarto sorrindo. — Vamos começar?
— Você não deveria estar com Cassandra? — Santana indagou.
— Ela está com Rach, Britt e Kurt. Praticamente me empurrou até aqui. — Respondeu. — E eu não perderia isso por nada.
— Certo. — Quinn assentiu. — Vamos começar pintando os rodapés. É toda essa parte aqui. — Apontou. — Vocês conseguem fazer isso conosco? — Fitou as duas garotinhas.
Ambas aquiesceram freneticamente e Quinn sorriu.
— Ótimo. Puck e Blaine podem ir montando os berços.
— Como se monta um berço? — O moreno com os cabelos banhados em gel perguntou.
— Você nunca pegou em uma ferramenta, não é? — Puck soltou uma risada.
— Ele deve entender muito bem de martelos. — Santana disse, arrancado risada dos demais.
— Pare com isso! Há crianças aqui! — Bronqueou. O rosto completamente corado.
— Elas não estão entendendo. — A advogada tentou parar de rir. — E tudo bem. É só ler o manual. — Disse.
— Podemos nos concentrar aqui? Temos trabalho a fazer. — Quinn chamou a atenção de todos.
— Tudo bem, capitã. Quanto mais rápido começarmos mais rápido eu saio daqui.
Quinn revirou os olhos e passou a abrir as latas de tinta. Havia muita coisa a ser feita.
...
Quando ela decidiu arrumar tudo por si só não sabia que ficaria tão exausta. E agora, deitada no assoalho de madeira ao lado dos demais, sentia os músculos pesarem. Estava suada e coberta de tinta branca em razão da brincadeira de Kate em pincelar os cabelos de Santana. Tudo virou uma guerra em minutos.
— Não está tão ruim assim. — Blaine comentou, olhando a parede. — Parece uma pintura abstrata.
— Você está brincando? — Santana disse. — Está horrível. Há linhas de tinta em vertical e horizontal.
— O primeiro berço está pronto. — Puck anunciou.
— Você demorou duas horas para montar um berço. — Frannie riu.
— São muitas peças e Blaine não fez nada a não ser contar os parafusos. — O moreno se defendeu.
— Tudo bem. — Quinn levantou. — Acho que vou contratar ajuda profissional. Morar em East End não me deu toda essa experiência. — Suspirou. — Obrigada pela ajuda.
— Pode chamar a gente quando quiser, tia Lucy. — Kate sentou no colo da mais velha.
Quinn sorriu e beijou a testa da sobrinha coberta de tinta.
— Vocês foram as melhores de todos eles. — Murmurou para as duas.
— Nós ouvimos isso. — Blaine disse. — E você merece um novo banho de tinta por ter dito tal coisa.
— O que... — A empresária mal teve tempo de discernir quando o rolo molhado pelo líquido passou por suas pernas.
Ela abriu a boca incrédula e fitou o amigo, que prendia o riso.
— Você me paga. — Mergulhou a mão em uma das latas e passou nos cabelos do moreno.
Kate riu eufórica e segurou o pincel em mãos, atingindo em cheio o rosto da mãe, que logo se empenhou em revidar. Em questão de segundos uma nova guerra se formou ali.
De repente, a porta do quarto foi aberta e Rachel juntamente com as amigas e Kurt se assustaram quando observaram o caos dentro do lugar. A morena agradeceu mentalmente pelo plástico que cobria alguns móveis e os carrinhos, ou então estariam todos sujos.
— O que aconteceu aqui? — Indagou em choque.
Kate mantinha o corpinho sobre o de Frannie, enquanto Zoe tentava sujar Quinn. Santana lutava contra Blaine e Puck.
— Oi, Rach. — A loira sorriu enquanto segurava a garotinha de cabelos castanhos. — Acho que vamos precisar chamar alguns profissionais.
Rachel negou com a cabeça enquanto suspirava. Ela havia insistindo para contratá-los e Quinn não lhe deu ouvidos.
...
No outro dia, a loira acordou cedo para esperar as equipes contratadas. Estava cansada, e a cama aconchegante abrigando o corpo quente da sua esposa parecia chamá-la para deitar novamente, mas o quarto das suas filhas tinha de ser prioridade.
Tomou apenas uma xícara de café e em pouco tempo o interfone foi tocado, anunciando a chegada dos profissionais. Quinn iria garantir que tudo fosse concluído naquele dia. A pintura, a decoração e a limpeza do chão e objetos que estivessem empoeirados após a montagem dos móveis.
Cumprimentou todos e logo subiram para o quarto das gêmeas. A bagunça ainda estava ali como foi deixada ontem. O chão sujo e as paredes de forma errônea. Talvez a única coisa certa ali era o berço que Puck havia montado.
As equipes não perderam tempo em iniciar o trabalho, e Quinn ficava cada vez mais impressionada em como eles eram ágeis. Ela apenas os guiava para onde os móveis e acessórios iriam ficar, conversando sempre com a decoradora.
No quarto do casal, Rachel acordou perto do início da tarde. Havia demorado para dormir na noite anterior e seu corpo sempre pedia por mais horas de sono. A primeira coisa que ouviu foi o barulho de marteladas ecoando de longe, e ela automaticamente se deu conta de que deveria ser as equipes que Quinn contratou.
Ela então levantou, tomando banho demoradamente e se vestindo em seguida. Trajava um vestido longo com estampas florais. A morena adorava-os e fez questão de comprar vários de tamanho para gestantes quando fora às compras com Kurt.
Quando saiu do próprio quarto e girou a maçaneta do aposento das suas filhas, o corpo de Quinn bloqueou a sua visão.
A loira fechou a porta atrás de ambas e não deixou que Rachel entrasse.
— Você só pode entrar quando estiver tudo pronto.
— Mas... — O lábio inferior projetou para frente, formando um bico contrariado.
Quinn se aproximou e a beijou delicadamente.
— Nada de mas. Eu quero que veja quando estiver finalizado. — Sorriu.
— Você sabe que eu sou curiosa. — Retrucou.
— São só mais algumas horas, Rach. Você pode esperar. — Alisou o rosto moreno.
E Rachel esperou. Esperou praticamente metade da tarde. Almoçou com todos na mesa, exceto Quinn, que apenas comeu um sanduíche e retornou rapidamente para o quarto das gêmeas. A judia achava adorável a pressa da esposa, mas não escondeu a preocupação por ela não ter participado do almoço.
Quando o final da tarde se fez presente, Rachel ouviu as movimentações no hall e quando levantou do sofá para ir até lá, observou todos indo embora.
— Eu posso ver agora? — Não perdeu tempo em perguntar.
— Claro que pode. — Quinn sorriu, se pondo a subir a escada com a baixinha, ajudando-a em todo o processo.
Ambas pararam em frente à porta e Rachel sorriu pelas pequenas estrelas que enfeitavam a madeira branca. A loira girou a maçaneta e a mais baixa pôs a mão sobre a boca quando observou toco o cômodo.
Lindo era puro eufemismo para o lugar. Ela sabia que os móveis que escolheram na loja eram bonitos, mas não sabia que ficariam ainda mais lindos quando fossem montados juntamente com a decoração.
A pintura totalmente errada não existia mais. As paredes estavam bem pintadas de bege com os rodapés brancos e a parede atrás dos berços era composta por um papel de parede neutro com estampa floral.
Todo o aposento seguia aquela mesma tonalidade. Os berços brancos estavam lado a lado e no flanco havia cômodas espaçosas e armários igualmente grandes. Luminárias eram espalhadas de modo milimétrico nas paredes, mantendo uma distância calculada das prateleiras repletas com ursos de pelúcia e livros infantis. Os carrinhos estavam perto do sofá de dois lugares de tecido branco. Era confortável e ideal para quando o casal tivesse de passar a noite ali quando uma das bebês ou até mesmo as duas acordassem chorando. Era um fato futuro. A poltrona de amamentação com balanço estava inclinada para que Rachel tivesse uma boa vista da janela do quarto quando estivesse alimentando uma das gêmeas.
Havia também uma televisão grande, firmemente acoplada na parede em frente ao sofá. Serviria para distrair quem quer que estivesse ali cuidando das gêmeas por um período de tempo considerável.
O assoalho de madeira envernizado estava coberto por um tapete macio e abrigava mais animais de pelúcia. Seria um lugar maravilhoso para as gêmeas brincarem.
Rachel caminhou pelo quarto com a expressão de adoração estampada em seu rosto. Quando seus olhos migraram para uma das prateleiras, ela sentiu os olhos marejarem. Havia um porta-retratos com a foto da ecografia que fizeram na semana passada e que mostrava os fetos bem desenvolvidos.
Ela se virou para Quinn com lágrimas escorrendo pela face.
— Isso é perfeito. — Disse emocionada. — É tudo o que eu sempre sonhei para as nossas filhas. Tudo o que eu fantasiei quando ainda morávamos em Londres. — Explodiu em um choro. Estava ainda mais sensível do que sempre foi.
A loira se apressou em envolvê-la com os braços, tomando cuidado com a barriga, e beijou-lhe o topo da cabeça demoradamente.
— Nosso sonho se tornou realidade, Rach. — Segurou o rosto moreno com as duas mãos, utilizando os polegares para enxugar as lágrimas da esposa. — Nossas filhas vão ter o que nós não tivemos, principalmente o amor de duas mães.
— Eu amo você.
— Eu te amo mais, e eu tenho algo para você. Espere aqui. — Se afastou com um sorriso e saiu do quarto.
Rachel se manteve curiosa mas esperou a esposa. Aproveitou para observar cada detalhe do cômodo novamente e sorriu quando viu os elefantes de pelúcia no chão. Quinn adorava elefantes. Era o seu animal favorito.
A loira voltou minutos depois segurando uma caixa retangular de veludo em cor naval nas mãos. Sorria abertamente e logo a entregou para Rachel.
A baixinha também sorriu e abriu o objeto lentamente, sentindo novamente os olhos aguarem com o conteúdo.
— Eu mesma desenhei e mandei fazê-lo. É algo único. Único como nossas filhas. — Retirou o colar de ouro branco delicadamente da caixa.
O pingente era o detalhe mais encantador da joia. Duas garotinhas de mãos dadas. As suas garotinhas.
Rachel girou nos seus calcanhares e levantou as madeixas escuras, deixando que a esposa o colocasse em seu pescoço. As lágrimas desciam silenciosamente.
Quando Quinn prendeu o fecho do colar e a morena voltou para a posição anterior, o sorriso da mais alta se expandiu.
— Ficou lindo. Você é linda.
— E você é a melhor esposa do mundo. — A judia abraçou o corpo páido. — Obrigada. Obrigada por tudo.
— Eu quem agradeço Rach. — Respondeu amorosamente. — Eu agradeço por você existir.
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