O Preço da Volta - 2ª Fase
31 Capítulo 31 - Culpa...
Notas iniciais
Quinn estava inerte.
Ela não sentia nada ao seu redor. Suas pernas se moviam com velocidade tentando acompanhar a maca que levava Rachel para a emergência e seus olhos focavam apenas no rosto molhado pelas lágrimas da esposa. O semblante desesperado, amedrontado. Totalmente em semelhança com o seu.
A sua mão não soltava a da morena um segundo sequer, e ainda que Rachel segurasse com força o local machucado que havia se chocado no rosto de Jesse incontáveis vezes, Quinn não sentia dor. Todo seu corpo estava em um estado catatônico.
O vestido foi cortado ao meio, liberando a barriga saliente para que a ecografia fosse feita. A obstetra plantonista naquela noite foi ágil no processo e em poucos segundos o monitor já estava ligado, pronto para mostrar os sinais vitais dos bebês.
E eles estavam lá.
Quinn não sabia o que estava sentindo no momento. Ela queria sorrir, mas o choro rasgou com força sua garganta. Os sons dos batimentos cardíacos ecoavam pela sala da emergência de modo sincronizado. Seus bebês estavam bem.
Rachel fechou os olhos com força enquanto soluçava. Elas não pensavam em como dariam continuidade às suas vidas se algo acontecesse com seus filhos. A dor de perdê-los seria agonizante. Algo quebrado que jamais seria consertado. Uma lacuna que não poderia ser preenchida.
A barriga da judia foi limpa e a bata hospitalar devidamente vestida no corpo pequeno. A pressão alta mostrou que ela deveria descansar e o soro entrando no seu organismo juntamente com o medicamento para relaxá-la deixaram-na com sono.
Tudo foi feito rápido demais e nenhuma palavra foi trocada entre o casal. Depois do pânico ter passado, Quinn sentia culpa e arrependimento. A obstetra explicou que o sangramento foi ocasionado pelo estresse e pela pressão alta mas que não tinha ocasionado em lesões internas. Rachel passaria a noite em observação para o caso de surgirem outros sintomas.
A loira sabia que havia causado aquilo. Não deveria iniciado a violência. Havia duas grávidas no local e agora a esposa estava sendo encaminhada para um quarto do hospital por sua culpa. Seus bebês passaram por uma situação de risco por sua culpa. Tudo apontava para si, e se sentia constrangida até mesmo de encarar a morena, que a fitava na cama.
A mão pequena buscou os dedos pálidos lentamente. Os efeitos do medicamento entrando em sua corrente sanguínea.
— Você está machucada. — O tom de voz saiu lento e preocupado.
Quinn não retirou os olhos do ventre da esposa.
— Eu estou bem. — Ergueu o rosto e se inclinou, plantando um beijo na testa da judia.
Não. Ela não estava bem. Eram dez anos de cumplicidade para Rachel saber que a esposa estava mentindo, mas seus pensamentos estavam demorando para serem processados e o sono chegando rapidamente a fazia fechar os olhos por longos segundos.
— Eu te amo. — Murmurou.
— E eu amo vocês, Rach. — Quinn beijou-lhe a mão.
Rachel ainda abriu um sorriso pequeno antes de sentir as pálpebras pesarem consideravelmente e sua respiração se tornou contínua. Estava ressonando.
A empresária beijou delicadamente o ventre da mais baixa e engoliu o nó na garganta. Desejava chorar, mas olhando em volta, viu que não estava sozinha. As enfermeiras tinham chegado para levar Rachel até o quarto.
Quinn deixou que a levassem. Ela seguiu a maca até que esta estivesse dentro do quarto amplo, e acompanhou com atenção o corpo da morena ser depositado na cama macia e espaçosa.
Quando o soro e o monitor cardíaco foram ligados à ela, a loira saiu do quarto, caminhando lentamente até estar no corredor.
E então desabou.
O primeiro soluço ecoou, e depois o outro. O pranto era intenso e sofrido. Suas pernas tremeram e se deixou escorregar até o chão, sentando no piso frio. O ar já fazia falta nos pulmões. Era difícil respirar enquanto o choro não cessava.
Dois braços rodearam-lhe com força e os olhos verdes encontraram os azuis serenos da sua irmã. Frannie havia recebido a notícia por meio da obstetra que atendera Rachel. Os bebês estavam bem mas ela sabia que a caçula não estaria. E bastou um olhar de Quinn para saber que a irmã se sentia culpada. Culpa e remorso transbordavam em cada pontinha dourada das suas orbes.
— Eles estão bem. Seus filhos estão bem, Lucy. — Disse suavemente, acalentando o corpo da mais nova.
— Foi minha culpa. — A voz saiu rouca e entrecortada. — Minha culpa. — Voltou a chorar.
— Não foi sua culpa. — Segurou com força o rosto avermelhado. — A culpa é unicamente do Jesse. Você apenas quis defender a sua esposa.
— E agora ela está em um quarto de hospital por minha causa. — Retrucou em um tom apático. — E se alguma coisa acontecesse com eles, ou até mesmo com Cassandra...
— Não aconteceu nada com ninguém. — Frannie cortou a irmã. — Cassie já está em casa com Sugar e eu já as avisei que Rachel está bem.
— Ela não está bem. — Negou a cabeça rapidamente. — Ela vai me odiar quando acordar. Ela vai...
— Não. Ela não vai. — Respondeu rapidamente. — Rachel é louca por você e ela vai entender que não foi sua culpa. — Abraçou a caçula outra vez.
Quinn deixou ser abraçada. Ela precisava disso. Precisava de um ombro para apoiar. Frannie sempre seria a pilastra que a sustentaria quando errasse de alguma forma. A irmã sempre estaria lá por ela e para ela. Incondicionalmente.
— Agora vamos cuidar desses machucados. — Demandou como uma mãe cuidadosa.
...
A loira sentou na poltrona ao lado da cama. Seus amigos e sua irmã tinham ido embora. Não havia motivo para permanecerem no hospital. Rachel estava bem. Seus bebês estavam bem.
Mas Quinn não estava.
Talvez a culpa fosse o pior sentimento a ser sentido, pois ela não vem sozinha. O remorso e o arrependimento vêm de brinde. É como uma maré turbulenta em no meio de uma tempestade. Você vai tentar nadar, mas não irá conseguir sair daquela situação desesperadora.
Quinn sempre se orgulhava de si mesma pela sua paciência nas horas de tensão, mas havia seguido seus instintos há algumas horas sem pensar nas consequências. Sem pensar nos seus filhos. Deveria ter simplesmente aguardado para acertar as contas com Jesse a sós, mas quem disse que o ódio faz par com a razão? Provavelmente ninguém.
— Você é amor da minha vida, sabe disso, não sabe? — Segurou a mão morena delicadamente. — É claro que sabe. — Soltou uma risadinha nasal. — Você está comigo há dez anos. Sempre me ajudou nas minhas crises de insegurança, cuidando e me amando incondicionalmente todos os dias. E esse amor recíproco resultou nos nossos filhos. — Pôs a mão coberta pelo curativo sobre o ventre da judia de forma amorosa. — Eu não sei como eles vão ser, e nós nem paramos para pensar nisso, mas eu quero que sejam como você, porque quando eu olho pra você eu sinto meu coração bater mais rápido e o frio na barriga ainda está lá. Intacto e intenso. E ver nossos bebês com seus traços seriam mais dois motivos para o meu coração inchar de amor. Eu teria mais de você. Materializado como os frutos do nosso relacionamento. Do nosso sentimento compartilhado. De algo somente nosso, e quanto mais eu tiver de você, mais feliz eu vou ser, porque você é o meu final feliz, Rachel Berry. Você é a minha felicidade. Até que não haja mais vida para se viver. — Fungou. — Eu faria qualquer coisa por vocês e jamais vou deixá-los. Vocês são tudo o que eu tenho e não posso nem cogitar a hipótese de perdê-los. — Fechou os olhos com força, sentindo-os queimarem pelas lágrimas acumuladas. — Perdoem a mamãe por ter posto suas vidas em risco. — Aproximou o rosto da barriga que afagava suavemente. — Eu jamais vou fazer isso novamente e vou sempre protegê-los de tudo e todos. — Deitou a cabeça nas coxas da mais baixa, observando a saliência através do lençol do hospital. — Eu amo vocês, meus bebês. Para sempre.
Seus olhos se fecharam depois de alguns minutos, e sem perceber, dormiu naquela posição.
...
Quando Rachel acordou, já era inicio da manhã. Se sentia bem, exceto pelo cansaço devido ao medicamento aplicado no dia anterior. Os olhos castanhos foram diretamente para a figura deitada com a cabeça sobre si e com a mão em sua barriga.
A morena não evitou se sentir preocupada quando reparou na bandagem enrolada na pele pálida e no grande hematoma na sua bochecha.
Tocou gentilmente a face delicada, tomando cuidado com a mancha arroxeada e seus dedos afastaram os poucos fios dourados para trás da orelha da esposa, que despertou com isso.
Quinn ergueu a cabeça rapidamente, ainda atordoada pelo sono cortado.
— Ei! Sou eu. — Rachel tentou acalmá-la.
A loira piscou lentamente até encarar a judia. O acontecimento de horas atrás sendo passado na sua cabeça como um filme, lembrando-a de tudo.
E novamente a culpa voltou.
— Você está bem? Está sentindo alguma coisa? — Levantou. — Eu vou chamar a obstetra que cuidou de você ontem e...eu já volto. — Se moveu para sair, mas a mão de Rachel a segurou.
— Eu quero que você fique aqui comigo. — Pediu. — Eu estou bem. Não sinto nada. — Garantiu.
Quinn fitou o rosto da mais baixa, mas logo desviou os olhos para as mãos juntas, beijando a pele morena antes de separá-las.
— É para o seu bem, Rach. Logo estarei de volta. — Se retirou.
Rachel suspirou e afundou o rosto no travesseiro. Era nítido o desconforto da esposa. Era nítido as íris opacas. E era nítido que estava se sentindo culpada. Entretanto, a morena não a culpava. Seus bebês estavam bem e isso era o que importava.
Mas para Quinn não era tão simples assim.
A loira voltou tão rápido quanto se foi, e logo a doutora mediu novamente a pressão de Rachel, constatando que estava normal. O soro foi retirado juntamente com a medicação intravenosa e o repouso por alguns dias foi demandado pela mulher trajando o jaleco. Quinn a seguiu logo depois para providenciar os papeis da alta.
Rachel sorriu com alívio. Detestava hospitais. O cheiro de éter do local a deixava nauseada. Desejava apenas se acomodar na sua cama com Quinn.
A esposa retornou quase vinte minutos depois com uma pequena bolsa de mão.
— Brittany e Santana estão lá fora. Elas trouxeram roupas confortáveis para você. — Colocou o objeto sobre a cama e abriu o zíper. — Eu te ajudo. — Auxiliou Rachel a sentar e na retirada da bata hospitalar do seu corpo.
A morena apenas permitiu que Quinn a vestisse com uma calça moletom e uma blusa azul. A judia agradeceu por isso. Agradeceu pelo fato das peças serem folgadas e extremamente confortáveis.
— Olha pra mim. — Pediu.
A empresária apenas encarava a barriga da morena constantemente. Seus olhos raramente encontravam os de Rachel e ela estava incomodada quanto a isso. O contato visual entre elas era algo que acontecia a cada segundo. Era algo unicamente delas.
— Quinn, olha pra mim. — A voz saiu mais firme.
— Você precisa calçar os sapatos, Rach. — A mais alta se curvou, passando a calçar-lhe o par de tênis.
— Eu quero que você olhe pra mim! — Ordenou.
Quinn ergueu os olhos e fitou as esferas escuras. Os verdes estavam marejados. Feridos pela culpa que os assolavam. Rachel sentiu o coração se quebrar e se pôs de pé, puxando a loira para que espelhasse seu gesto e não perdeu tempo em abraçar a sua cintura, tomando cuidado com a barriga.
A mais alta enlaçou os braços nos ombros da esposa e aspirou o cheiro doce do cabelo escuro.
— Não foi sua culpa. Não foi e nunca será. — Fitou os olhos de Quinn. — Nossos bebês estão bem. Nós estamos bem. Vamos apenas guardar esse momento como mais uma história para lembrarmos no futuro. — Alisou o rosto alvo levemente. — Eu te amo tanto.
A loira não respondeu. Ela apenas voltou a abraçá-la, sentindo o seu mundo nos braços. Sentindo o quanto o amor de Rachel emanava através de cada célula do seu corpo. Quinn a amava. A amava em proporções inimagináveis.
Mas a culpa ainda estava potencializada dentro de si.
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