O Preço da Volta - 2ª Fase
30 Capítulo 30 - O choque de uma descoberta...
Notas iniciais
— Será que não existe uma única base nesse banheiro?
Quinn mexia incessantemente nas gavetas logo abaixo da pia.
— Normalmente a base fica com as outras maquiagens, que devem estar no closet do quarto deles. — Rachel explicou enquanto ajustava alguns fios bagunçados no seu cabelo.
— Então eu vou lá. — Deu meia-volta, pronta para sair do local.
— Não vai não. — A morena segurou-lhe o braço. — Já demoramos o bastante aqui. Precisamos voltar.
— Eu estou com uma mancha do tamanho de um planeta no meu pescoço, Rach. — Apontou para o local avermelhado. — E não há como esconder a não ser com a maldita base. Eu só preciso achar.
— Então eu vou com você.
— Não. — Balançou a cabeça em negação. — A sua é perto da orelha e pode esconder com o cabelo. Desça e diga que eu já estou indo. Crie alguma desculpa. Você é boa nisso. — Deu-lhe um selinho.
Rachel abriu a boca para protestar, mas a esposa já havia saído do banheiro.
Com um grunhido raivoso a morena pôs algumas madeixas para o lado direito, ocultando o chupão e saiu do cômodo, passando a descer a escada lentamente.
— Rachel? — A voz de Brooke adentrou os seus ouvidos. — A Quinn está bem? — Inquiriu.
— Ela acabou reagindo mal à comida. — Fez uma falsa expressão preocupada. — Você pode, por gentileza, providenciar algum medicamento para mal-estar?
— Claro! — Respondeu rapidamente e se virou. — Mary! — Chamou a governanta.
A mulher de meia-idade apareceu segundos depois e indagou o que a ruiva desejava.
— Traga aquele remédio que eu sempre tomava quando... — A voz da atriz morreu e os olhos azuis se perderam momentaneamente.
A governanta pareceu entender no mesmo instante.
— Eu já entendi. Vou trazê-lo em instantes. Com licença. — Se retirou tão rápido quanto apareceu.
Rachel franziu o cenho pela cena há poucos segundos. Os demais que permaneciam mais atrás não estavam diferentes. A ruiva continuava petrificada. Como se sua mente estivesse em qualquer lugar, exceto naquele apartamento.
Jesse resolveu se pronunciar.
— Querida. — Se aproximou de Brooke, apoiando a mão na base das suas costas.
A mulher pareceu voltar ao mundo real quando piscou diversas vezes e encarou o marido com confusão, logo se adaptando ao momento.
— Desculpe. — Pediu. Um tom leve de constrangimento. — Eu só me perdi um pouco em lembranças. — Abriu um sorriso.
Mary chegou rapidamente com uma bandeja em mãos. O copo com água e o recipiente pequeno de plástico que abrigava o comprimido foram logo pegos por Rachel.
A morena agradeceu e sorriu.
— Eu vou lá em cima entregar isso à ela.
— Não precisa de ajuda? — Brittany questionou.
— Não. Ela deve melhorar com o medicamento. Logo desceremos. — Passou a subir os degraus.
Quando chegou ao topo, sentiu algo queimando em suas costas, e quando virou para fitar o andar de baixo, todos já estavam sentados no sofá conversando entre si, exceto por Jesse, que a encarava sem pestanejar.
O homem ergueu a mão vagarosamente e apontou para seu próprio pescoço, mais precisamente em seu ponto de pulso. Rachel sentiu o corpo tensionar na mesma hora. Ele tinha percebido.
O ator mantinha um sorriso no rosto, pensando o quanto a morena seria uma ótima atriz se quisesse tentar uma carreira na Broadway. A expressão de falsa preocupação, a mentira contada com facilidade. Rachel possuía um talento nato para fingir, e isso o encantou ainda mais.
A judia apenas deu um sorriso pequeno na sua direção e desapareceu no corredor rapidamente.
No quarto do casal, Quinn já passava a base encontrada no seu pescoço enquanto agradecia ao fato da pele de Brooke ser da mesma tonalidade que a sua. O chupão logo fora ocultado com perfeição, e ela sorriu com isso.
Deixou a maquiagem no lugar onde a encontrou e saiu do closet. Estava pronta para deixar o quarto quando passos foram ouvidos e não teve outra opção a não ser se curvar e arrastar o corpo para debaixo da cama.
É claro que poderia ser apenas Rachel, mas ela não arriscaria ser flagrada ali dentro por outra pessoa. E comprovou não ser a esposa quando fitou pés cobertos por sapatos fechados sem salto. Era a governanta.
A mulher adentrou o closet rapidamente e saiu momentos depois, logo abandonando o recinto.
Quinn permaneceu alguns segundos na mesma posição até garantir que ela não voltaria, mas ficou confusa quando observou uma caixa retangular ao seu lado no chão, se movendo então para sair dali, puxando o objeto consigo.
Era do tamanho de um álbum de fotos, e a loira ainda hesitou em abrir aquilo. Significava invadir a privacidade de alguém, e ela não gostava disso. Entretanto, o nome de Jesse talhado na madeira escura fez sua curiosidade aumentar significativamente. O que um homem como ele escondia em uma caixa embaixo da cama?
Por fim, decidiu erguer a tampa e qual sua surpresa ao notar que, de fato, se tratava de um álbum de fotos? Preto, sem título e discreto. Quinn o pegou em mãos e o abriu.
Sua expressão confusa foi rapidamente transformada em choque quando observou a primeira página. Havia uma foto desgastada do Strawberry Field, mas não foi isso que chamou sua atenção e sim a outra imagem onde vários órfãos estavam posicionados para a foto anual de Natal que o orfanato sempre fazia.
Quinn a reconheceu ali. Estava entre Rachel e Santana. Brittany se encontrava na fileira de trás por ser um pouco mais alta que as demais crianças. Puck também estava ali ao lado de outro garoto, e até mesmo Brooke, mas não era o rosto dela que estava contornado com tinta vermelha e sim o de Rachel.
A legenda embaixo da foto se tratava apenas dela.
Rachel — 2005 — Strawberry Field
— Você só pode estar brincando comigo. — Murmurou atordoada.
A próxima página também era composta por fotos da morena. Manchetes de revistas recortadas e jornais onde apareciam o seu rosto. A descoberta da herdeira Berry, o aniversário de dezoito anos, a inauguração da grife Berry&Pierce, o casamento. Até mesmo a matéria de semanas atrás quando a barriga de Rachel se tornou mais saliente e todos perceberam a gravidez. Estava tudo colado nas páginas, sempre destacando a face da esposa e as legendas com toda as datas.
Quinn fechou o álbum após olhar a última página e passou as mãos no rosto, só agora notando o quanto elas tremiam de ódio. Ódio de Jesse. Ódio de um homem que mantinha um álbum com fotografias de Rachel do jeito mais doentio possível. Brooke sabia disso? Era evidente que não.
Sua respiração estava engatada. Custava inspirar normalmente. Uma paixão de criança se tornou uma obsessão depois de anos. Talvez o sentimento nunca correspondido de Rachel na infância ocasionou isso. Muitos dizem que o amor pode ferir de várias maneiras possíveis. Mas até que ponto Jesse sentiu amor? E até que ponto se sentiu machucado?
Mas Quinn não queria pensar nisso. Ela só almejava no momento descer até a sala de estar e quebrar Jesse ao meio.
E era isso que estava determinada a fazer até Rachel adentrar o quarto.
— Q? — A morena chamou quando passou pela porta. — Eu tive de ficar trancada no banheiro porque a Mary não parava de caminhar pelo corredor e só agora ela saiu. — Explicou. — O que está fazendo? — Se aproximou ao notar a esposa sentada na cama do casal e com o álbum sobre o colo.
Quinn ergueu o rosto e Rachel se assustou pela vermelhidão na pele e a respiração errática. Como se estivesse prestes a explodir.
— Quinnie? — Tocou a face pálida. — O que houve?
A loira não respondeu. Apenas entregou o objeto que segurava para a baixinha e esperou que ela visse tudo.
E Rachel viu. Viu cada foto e cada legenda.
Sua expressão era uma linha tênue entre o horror e a raiva iminente. A morena teve que sentar ao lado de Quinn para não cair. Suas pernas de repente se tornaram fracas. O que aquele homem pretendia tendo tantas fotos suas em um álbum como aquele? Era claramente uma pessoa perturbada.
Ninguém em sã consciência mantinha algo assim para si.
— Eu vou matá-lo. — Foi a única coisa que a empresária disse antes de levantar e sair como um furacão pela porta.
O corpo de Rachel entrou em alerta e ela saiu em disparada atrás da esposa, levando o álbum consigo. Não deixaria aquilo naquele lugar nem mais um segundo.
— Quinn! — Brooke chamou quando a viu descer a escada rapidamente.
Todos viraram para vê-la, mas ela não retribuiu os olhares. Suas orbes focaram apenas Jesse, que estava ao lado da ruiva. Antes que ele pudesse falar alguma coisa seu rosto foi acertado em cheio.
Brooke se assustou no mesmo instante. Os demais estavam em total semelhança.
O canto da boca de Jesse sangrava devido à força utilizada no ato, e o homem levou a mão ao local.
— Eu quero você longe da minha esposa! — Gritou em plenos pulmões. O corpo tremendo pela adrenalina e pelo ódio.
— Do que você está falando?! Ficou louca? — Jesse pôs de pé, e logo seus olhos fitaram Rachel descendo o último degrau segurando o objeto conhecido. Seu corpo gelou. — O que vocês estavam fazendo no meu quarto? — Inquiriu raivoso.
— Isso não interessa! — Quinn segurou a camisa do homem com as duas mãos. — Você é doente!
— Eu não sou doente! — Esbravejou irado. Seus olhos dilatando em fúria.
A loira se assustou momentaneamente em como o homem explodiu em raiva subitamente, mas não saiu do lugar. Suas mãos apertaram o tecido com mais força.
— Você é a porra de um doente obcecado! — Cuspiu as palavras com asco. — Você vai manter distância da Rachel ou eu vou acabar com você!
Jesse pareceu ganhar uma onda de ira ainda maior e empurrou Quinn com força em direção ao chão, caindo sobre o corpo pálido. O punho atingiu em cheio sua bochecha esquerda, mas ela não pareceu sentir dor e girou os corpos, iniciando uma sessão de socos contra o ator.
— Fique longe dela! — Demandou enquanto acertava-lhe o maxilar e o nariz.
Sua mão latejava, mas a cólera era como morfina, impedindo que Quinn sentisse a dor em demasiado. Ela só queria acabar com Jesse, acabar com aquele sorriso imundo. Acabar com ele por inteiro.
Rachel apenas observava tudo ao lado das amigas, que estavam vendo o álbum com expressões incrédulas. Seu sangue corria com velocidade. O nervosismo ganhando mais intensidade. Nunca foi segredo para ninguém que ela odiava brigas, mas a gravidez parecia triplicar o sentimento ruim de ver tal violência.
E a pontada forte que sentiu no ventre foi a consequência de toda essa tensão.
As mãos do moreno fecharam no pescoço alvo, mas ele já não possuía força suficiente para machucá-la de verdade. Quinn não ligava para isso. Ela só desejava continuar batendo nele, mas o puxão que recebeu pela cintura fez com que se afastasse.
— Você é um nojento! Um nojento de merda! Me solta, Puckerman! — Ordenou irada.
Puck a segurava firmemente enquanto Quinn ainda se debatia, tentando se soltar para voltar a bater em Jesse.
Ela só foi se acalmar quando ouviu o chamado sôfrego de Rachel.
Seu rosto virou com velocidade e seus olhos fitaram a esposa chorando e a mão suja de sangue. O sangue que escorria por suas pernas.
Todo o seu corpo enrijeceu, e foi solto por Puck.
Ela correu até a judia de forma desesperada. Não sabia o que fazer. Por Deus! Seus bebês!
— Vamos para o hospital. — Frannie pôs a mão no ombro da irmã. — Precisamos ser rápidos.
Quinn se limitou a assentir freneticamente, logo passando o braço por trás das pernas da morena e o outro na base das costas, pegando-a em seu colo.
Rachel se encolheu contra o corpo da esposa enquanto mantinha a mão sobre a barriga de modo possessivo. O pranto silencioso rasgando sua garganta.
Todos saíram do apartamento dos St. James deixando uma Brooke ao lado de Jesse, que ainda estava deitado com o rosto repleto de hematomas.
O ator realmente iria ter de tirar algumas férias até que todos sumissem de vez. A Fabray havia se empenhado em socá-lo, mas ela não estava pensando nele agora. Sua mente só pensava na judia e nos seus bebês.
Enquanto entrava no banco de trás do carro com a esposa em seu colo, Quinn só conseguia pensar que se algo acontecesse com seus filhos ou com Rachel ela nunca se perdoaria.
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