O Preço da Volta - 2ª Fase
14 Capítulo 14 - Uma irmã?
Notas iniciais
O clima em Londres era apático.
Não devido ao clima, mas o céu possuía uma áurea cinza de tristeza que cobria todo aquele território.
O vento da manhã batia contra as árvores, fazendo-as balançarem e espalharem as folhas sobre a camada fina de neve que cobria a grama do Cemitério Manor Park. Havia no mínimo uma dúzia de cemitérios em Londres, mas aquele pareceu o melhor. O vasto espaço ao ar livre fazia-o mais belo, se não fosse pelo clima fúnebre que preenchia cada centímetro de terra.
Não demorou mais que dois dias para que todo o velório e enterro fossem providenciados. Quinn preparou o melhor caixão e o melhor lugar naquele lugar. Madre Aurora merecia isso.
Ela sentia a brisa fria contra seu rosto, e afundou as mãos dentro dos bolsos do sobretudo preto enquanto observava o amigo chorando em frente ao caixão da Madre. Ela e os demais optaram por darem-no um momento sozinho com a idosa falecida.
O rapaz passou vários minutos observando a face serena da senhora sobre o caixão. As mãos delicadas sobre o peito com o terço em seu pulso e o vestido branco, combinando com os fios de seus cabelos. Enxugou as lágrimas e beijou-lhe a testa demoradamente.
— Eu amo a senhora. Não esqueça disso nunca. Onde quer que esteja. — Sussurrou.
Puck não havia tido uma mãe e jamais experimentou a sensação de ter uma, mas aquela idosa havia dado-lhe um amor materno que aquecia seu coração nos piores dias. Ela não o olhava torto por suas atitudes rebeldes e sim o acalentava e conversava consigo sobre seus atos. Como uma verdadeira mãe. Ele não tinha tido a chance de vê-la outra vez em vida. Isso o despedaçava.
As despedidas foram longas. O padre terminou o seu discurso há algum tempo e então deu a oportunidade para todos terem seus momentos.
As crianças do Strawberry Field seguravam uma rosa branca em mãos, e uma por uma iam se aproximando com as noviças ao seu lado. Não passava de vinte crianças. O número havia caído com o tempo. E quando terminaram, fora a vez da Madre Helena de se despedir da velha amiga.
Quinn passou o braço ao redor dos ombros de Rachel, puxando-a para si. A baixinha chorava em silêncio e Brittany não estava diferente ao lado de Santana. Puck ainda permanecia ao lado do caixão e as amigas se aproximaram lentamente quando a Madre Helena se afastou. A loira apertou o ombro do amigo com a mão livre e observou a latina plantar um beijo demorado na testa da idosa. O gesto fora repetido por todas ali e outra vez por Puck.
Quinn não segurou mais as lágrimas quando viu o caixão ser tampado e descido lentamente. E quando os coveiros iniciaram o processo de cobri-lo com a terra, todos foram retirando do cemitério aos poucos, exceto os cinco amigos e as duas mulheres que observavam tudo um pouco distantes.
Quando enfim a terra cobriu todo o espaço que faltava, todos observaram a lápide nova e reluzente em tons de preto e as letras em uma cor chumbo.
Aurora Ashworth
1950 — 2015
A eternidade a espera para que possa agraciá-la com a sua infinita bondade. Única e insubstituível em nossos corações.
— Isso é lindo. — Rachel murmurou com a voz embargada.
— Não é nada comparado à ela, mas definiu seu espírito. — Quinn respondeu, curvando os lábios em um sorriso triste.
Rachel abraçou-lhe a cintura, enquanto sentia os braços da esposa nos seus ombros e a bochecha no topo da sua cabeça, observando Brittany ainda em prantos. Foram raras as vezes em que a loirinha parou de chorar durante esses dois dias. Ela era frágil. Alguém que se abala facilmente. Mesmo com a infância dura, seu espírito era como o de uma flor. Que precisa ser cuidado. E não há pessoa melhor do que Santana para isso. A latina passou esse tempo consolando-a. Ela era uma rocha por quem quer que fosse. Especialmente por Brittany. Mas naquele momento, a loirinha sabia que a esposa também precisava de cuidados, por isso abraçava-a com todas as suas forças, sendo retribuída na mesma intensidade.
Puck observou as amigas abraçadas e seu olhar cruzou com a mulher ainda distante, e esse foi o estopim para que a ruiva se aproximasse lentamente de si e o abraçasse com força. Ele não queria ser forte. E não iria. Nem mesmo sabia o tipo de relação que possuía com Sugar, mas sabia que o abraço da menor o aquecia daquele frio interior e exterior. Ela havia se oferecido para acompanhá-lo quando viu seu estado perturbado ao receber a notícia, recebendo uma concordância em resposta e ficando mais aliviada. Sugar estaria ali pra ele sempre que precisasse.
A outra mulher caminhou hesitante até Rachel, e afagou os cabelos da filha com ternura. A menor fitou Shelby e sorriu entre as lágrimas. No fim, os cinco depositaram as rosas brancas sobre a cova da Madre Aurora e observaram mais alguns minutos antes de se retirarem do extenso cemitério.
...
Rachel se remexeu e virou com a intenção de sentir o corpo da esposa, mas tudo o que sentiu foi o vazio da cama. Abriu os olhos ainda sonolenta e fitou o quarto tácito e depois o relógio na mesa de cabeceira. Eram oito da manhã. Seria impossível saber sem o objeto devido à cortina escura impedindo qualquer luz de adentrar o cômodo.
Levantou após alguns segundos e ainda descalça, migrou para a sala, tendo a visão da loira de costas para si, olhando a paisagem pela parede de vidro e falando ao telefone. A menor não perdeu tempo e a abraçou por trás, grudando no corpo coberto pelo pijama como um coala.
A empresário se assustou momentaneamente com a aproximação sorrateira da judia, mas passou a fazer afagos nos braços morenos enquanto ouvia o advogado do outro lado da linha.
— Tudo bem, Will. Eu estou indo. — Respondeu. — Até breve. — Desligou o aparelho.
— O que aconteceu? — Rachel indagou quando a esposa virou para si e abraçou-lhe a cintura.
— Preciso ir para o Strawberry Field. O general Isaac Baldwin quer conhecer a pessoa que deseja comprar o orfanato. — Respondeu amorosa, beijando os lábios fartos lentamente.
— Tudo bem. Nós vamos. — Decretou quando finalizou o beijo.
— Amor, não precisa ir. — Alisou as bochechas da morena. — Você não vai gostar. Aproveite e durma até mais tarde. Vai ser uma conversa chata e repleta de burocracias. — Beijou-lhe o topo da cabeça.
— Mas eu quero ir com você. — Retrucou manhosa. — Não quero te deixar sozinha.
A verdade é que Rachel estava daquele modo desde o enterro da Madre Aurora, há duas semanas. Ainda estava abalada emocionalmente, e isso era claro devido ao fato de não deixar que Quinn andasse um metro sem ela ao lado e de terem feito amor quase todas as noites durante essa semana.
Estava com medo. Medo de perder a esposa. Esse medo já era presente antes, mas agora ele intensificou. Quando a morena viu a idosa naquele caixão, por um momento imaginou como seria se perdesse Quinn e suas pernas pareceram perder a força. Ela sabia que não aguentaria.
Contudo, não tinha falado para a esposa, mas esta a conhecia bem demais para desconhecer suas emoções.
— Rach. — Segurou o rosto da menor em mãos, fitando os olhos castanhos brilhosos. — Eu sei que a morte da Madre Aurora abalou você, assim como me abalou também, mas nada de ruim vai acontecer comigo.
— Eu tenho medo, Quinnie. — Finalmente disse. — Eu não quero e não posso perder você. Você é o que eu tenho de mais precioso... — Os olhos marejavam. — Eu não vivo sem você. — Explodiu em um choro.
— Ei, Ei... — A apertou contra seu peito enquanto acolhia-a como um bebê. — Você nunca vai me perder, meu amor. Eu vou ficar sempre firme e forte por você, por nós. Vamos morrer juntas e quando estivermos bem velhinhas. Eu prometo. — Beijou-lhe a cabeça incontáveis vezes.
— Eu te amo tanto, tanto... — Segurava a blusa da maior com força.
— Você é amor da minha vida, Rach. — Apertou-a mais fortemente. — Eu te amo. Para sempre.
Quinn ainda passou alguns minutos apenas abraçando-a. Nada mais foi dito. Não precisava. O amor transmitido naquele afago era tudo o que precisavam. Era tudo o que Rachel precisava para acalmar.
— Eu ainda quero ir com você. — Foi a única coisa que disse quando normalizou a respiração.
...
— Então está tudo certo. — O homem de meia-idade sorriu gentil. — O orfanato estará em boas mãos. Me dê os papéis. — Pediu.
William retirou-os de sua pasta e os depositou calmamente sobre a mesa, observando-os serem assinados.
Quinn sorriu para Rachel. O general Baldwin era um bom homem. Responsável por todo o batalhão do Exército da Salvação e pelo Strawberry Field. Este ficou imensamente feliz em saber que aquelas mulheres eram ex-moradoras daquele lugar e desejavam comprá-lo apenas para reformá-lo e continuar abrigando crianças necessitadas.
A loira assinou logo depois e William recolheu a papelada, guardando-a novamente. Todos levantaram e trocaram cumprimentos amistosos.
— Então oficialmente o Strawberry Field pertence a você. — O homem sorriu quando parou em frente ao seu carro, onde o motorista aguardava. — Eu sei que ambas cuidarão bem dele. Foi um prazer imensurável conhecê-las. — Fitou as duas mulheres.
— O prazer foi nosso. — Quinn apertou a mão do general firmemente e Rachel espelhou seu gesto com um sorriso doce.
Quando ele adentrou o carro e partiu, ambas se viraram para irem embora, mas se surpreenderam ao verem Shelby adentrando os portões com a pequena Zoe ao seu lado.
Ambas riam e a pequenina segurava um urso de pelúcia contra o peito enquanto a outra mãozinha estava segurando firmemente a da mais velha.
— Meninas! — A Corcoran saudou animada. — Como foi? Deu tudo certo?
— Sim. — Rachel respondeu. — A Q é oficialmente a nova dona do orfanato. — Sorriu.
— Então ele não vai mais fechar? — A garotinha entrou na conversa.
— Não vai. — Quinn respondeu, sorrindo para a menor. — Isso é ótimo, não é?
Zoe assentiu com um sorriso no rosto e Shelby a ergueu em seus braços, sentindo a cabeça da mais nova em seu ombro quando sentiu o afago nas costas.
— Isso é maravilhoso! — Shelby comemorou. — Mas de qualquer forma, Zoe não vai ficar aqui por muito tempo. — Alargou o sorriso.
— Do que está falando? — Rachel franziu o cenho.
— Eu estou falando que há duas semanas eu conheci essa garotinha acidentalmente enquanto andava por aqui e ela me conquistou com esse jeito fofo e carismático. — Começou. — Nós saímos para passear algumas vezes e hoje eu perguntei se ela não gostaria de ser adotada por mim e ela adorou a ideia. — Beijou a cabeça da pequenina. — Eu aluguei um apartamento em Lima e lá será ótimo para nós duas morarmos.
— Oh, meu Deus! — Rachel abriu a boca surpresa. — Quer dizer que eu vou ganhar uma irmã?
— Eu já conversei com William e a papelada deve sair essa semana. Em breve sim, você terá uma irmãzinha.
A judia deu pulinhos no seu lugar e abraçou a mãe com força, deixando a pequena Zoe no meio de ambas. Mesmo tendo oito anos, ela não era muito alta.
Rachel a pegou nos braços.
— Parabéns, Shelby. — Quinn abraçou a sogra afetuosamente.
Zoe sentia as bochechas coradas enquanto sentia beijos por todo o seu rosto. A loira riu para o quanto a garotinha era adorável.
— Você está deixando ela com vergonha, Rach. — Advertiu.
— Desculpe, mas ela é tão fofa. — Sorriu enquanto apertava-a.
Quinn apenas sorriu e imaginou como Rachel trataria o filho ou filha de ambas. Com certeza seria uma criança repleta de afetos, principalmente se dependesse da morena. Os olhos verdes observaram o orfanato e um suspiro escapou dos seus lábios.
O próximo passo seria uma boa mudança no Strawberry Field.
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