O Preço da Volta - 2ª Fase
1 Capítulo 1 - Um novo começo...
Notas iniciais
Quinn lembrava bem de certa vez ter ouvido no orfanato que a felicidade era um estado de espírito e não um destino a se alcançar.
Lembrava também de não ter dado a mínima importância, porque na sua cabeça a felicidade era sim um destino. Quinn acreditava veemente que quando possuísse dinheiro e uma vida confortável ela alcançaria a verdadeira felicidade.
Estava errada.
Ela soube que estava errada quando conheceu a pequena Rachel. Soube que estava errada quando sentiu as primeiras sensações de amor. Soube que estava redondamente enganada quando viu que não possuía dinheiro, todavia, desfrutava de algo com muito mais valor. Uma namorada e amigos que fariam de tudo por ela.
E então veio o advogado de Russel Fabray informá-la que, juntamente com Rachel, eram duas herdeiras de uma fortuna descomunal e que deveriam retornar para Lima. O lugar onde suas famílias estavam e a cidade natal de ambas.
Contudo, o preço dessa volta acarretou mais do que uma simples briga de família por dinheiro. Acarretou uma maldade inenarrável e Quinn sentiu de perto o que um ser humano é capaz de fazer por ganância e ambição.
No fim das contas, o dinheiro que achava ser sua felicidade quando ainda era uma criança sem esperanças se tornou seu pesadelo por meses.
E o amor que sentia e recebia da namorada, dos amigos e da família formava a verdadeira felicidade.
A felicidade era sim um estado de espírito. Quinn sentia isso dia após dia.
Seus olhos vagavam por cada detalhe da mansão Fabray. O lugar havia mudado algumas coisas em sua decoração durante os quatro anos que passaram.
Os porta-retratos da família Fabray, compostos por Frannie, Russel e Judy haviam sido retirados e no seu lugar havia a imagem de uma verdadeira família. Sem sorrisos forçados ou poses calculadas.
Fotos de todos os casais, assim como de Puck, Shelby e Kate se mostravam perfeitamente posicionadas na sala de estar. Havia também fotos de todos individualmente em momentos descontraídos. A mansão, que por anos era um local frio e apático, agora tinha vida e aspecto de um verdadeiro lar.
Quinn sorriu depois de olhá-las mais uma vez e caminhou até os seus aposentos, fechando a porta em silêncio quando entrou e observando a namorada secando os cabelos com o secador. Os fios continuavam longos e escuros mas agora sem as mechas claras, e uma franja moldava-lhe o rosto.
Ela se perdeu por alguns segundos analisando o corpo da namorada na camisola de seda preta que praticamente esculpia suas curvas, principalmente a saliência do traseiro levemente empinado e dos seios que ganharam mais forma durante o fim da adolescência e o começo da vida adulta.
— Quinn?
A loira fora puxada de seu estado de torpor pela voz da namorada, que a encarava com um sorriso sapeca.
— Sim? — Indagou, levemente atordoada.
— Estava no mundo da lua? — A morena arqueou as sobrancelhas sem tirar o sorriso do rosto.
— Eu...não...sim, eu estava.
— Eu percebi. — Soltou uma risadinha. — No que tanto estava pensando? — Aproximou-se suavemente.
— Eu ainda não acredito que você agora tem vinte anos. — Suspirou.
— Eu também me sinto assim. — Abraçou a cintura da loira, enterrando a cabeça no pescoço pálido. — Estamos ficando velhas.
Quinn riu pelo drama da mais baixa.
— Você realmente está e...oh, meu Deus! Tem um fio de cabelo branco na sua cabeça. Meu Deus, Rach! — Segurou uma mecha no topo da cabeça da namorada.
— O quê? Não! Não! Não! — Correu até o espelho do quarto. — Onde está? Eu não estou vendo! — Estava agoniada enquanto analisava seu couro cabeludo.
O único som que pôde ser ouvido fora a gargalhada da loira. Quinn curvou-se enquanto mantinha os braços ao redor da própria barriga e possuía o rosto avermelhado.
Quando Rachel enfim caiu em si e viu que tudo não passava de uma brincadeira, seu rosto se contorceu em raiva.
— Eu vou matar você! Sua idiota! — Correu na direção da mais alta.
Ela ainda ria enquanto fugia da baixinha, correndo pelo quarto até subir na cama de casal. Rachel espelhou a ação e passou a desferir tapas nos seus braços. As mãos pálidas seguraram os pulsos da namorada e Quinn caiu por cima da mesma sobre o colchão fofo.
— Você me assustou! — Ralhou, tentando se soltar do aperto da loira. — Eu achei que fosse verdade.
— E se fosse? Você ficaria linda mesmo com cabelos brancos. — Sorriu, mordendo o queixo da menor e soltando seus pulsos.
— Eu queria ter os seu cabelos. — Passou as mãos pelos fios curtos. — Eles vão esconder bem os fios brancos.
— Já basta quatro mulheres loiras nesta casa, contando com Kate. — Fez uma careta. — Nossa filha ou filho precisa ter os seus cabelos. — Beijou seus lábios.
Filho.
Esse pensamento vinha ocupando a sua cabeça há alguns meses. Desde que Quinn fizera vinte anos em abril e a morena caiu em si que logo dezembro chegaria e seria sua vez de fazer aniversário ela pensava seriamente em ter um bebê.
Isso também era consequência de suas conversas com Cassandra sobre gravidez. A amiga contou sobre todos os períodos da gestação. Desde os enjoos até o apetite sexual aflorado e a dor do parto.
Mesmo tendo partes desagradáveis entre os sintomas, Rachel apenas sentiu mais desejo de também sentir aquilo. Ter uma vida crescendo dentro de si. Um bebê dela. Um bebê de Quinn.
Ela analisou minuciosamente o rosto da namorada sobre si. Os traços tinham amadurecido com os anos e estavam mais fortes e adultos, o que era de se esperar, todavia, as partes delicadas ainda residiam ali, assim como o olhar de menina e o sorriso largo e abobalhado que apenas Quinn sabia dar e ainda continuar linda.
— Agora é você quem está perdida no mundo da lua.
A voz divertida da namorada trouxe-a de volta à realidade.
— O que você disse? — Rachel indagou confusa.
— Eu disse que iria buscar nossos casacos para irmos em um lugar. — Sorriu, dando-lhe um selinho e levantando em seguida.
— E qual lugar seria esse? — Questionou. — A festa já acabou.
— Não pergunte. E não há nada relacionado com sua festa de aniversário. — Andou apressada até o closet, voltando segundos depois com dois casacos em mãos, entregando um para a morena. — Vamos, Rach. — Apressou a namorada.
Rachel apenas levantou e vestiu o sobretudo escuro resignada. Quinn nunca falaria. Ela conhecia a namorada.
Ambas calçaram o par de chinelos e saíram do quarto. Quando pararam no hall de entrada, Quinn retirou uma venda de seu bolso e sem pedir permissão, parou atrás da namorada, pondo-a no rosto da baixinha.
De repente Rachel se sentiu com doze anos novamente.
O clima estava frio quando chegaram ao jardim. A grama coberta de neve. O clima típico de dezembro e do Natal que logo viria. Era visível o vapor que saía da boca delas quando respiravam.
— Estamos quase chegando. — Anunciou, guiando a namorada por mais alguns passos.
Segundos passaram e o nervosismo de Rachel deu lugar para a surpresa quando a venda fora tirada de seus olhos. A morena piscou algumas vezes para tornar a visão nítida e abriu a boca incrédula quando viu o banco, as velas e as flores.
Rachel definitivamente se sentia com doze anos de novo. A mesma sensação de ansiedade e os olhos marejando. O coração batia desenfreado dentro do peito.
Novamente Quinn teve de guiar Rachel até o banco, sentando-a vagarosamente. Os olhos castanhos analisaram a pintura. Era gasta e a tinta anterior era visível nas partes descascadas. Sua atenção fora direcionada para as velas dentro dos copos e as flores. Os mesmos tipos de flores contrastando com a tonalidade da neve.
Tudo tão igual.
Quando a morena fitou uma cena semelhante a alguns metros de distância, sua boca novamente abriu em surpresa. Eram as mesmas coisas, contudo, quem estava sentada no banco era Brittany e Santana estava na sua frente.
Quinn sorriu.
— Santana e eu iríamos fazer como há oito anos, porém achamos que precisávamos de um momento só nosso com vocês, então fizemos a mesma coisa para ambas. Afinal de contas, o pedido que vamos fazer é diferente. — O sorriso alegre foi substituído por um nervoso.
Rachel sentia o peito aquecer em amor e as lágrimas já escorriam pelo rosto moreno. A baixinha ansiava pelo que estava por vir.
Quinn respirou profundamente e ajoelhou-se na frente da namorada, sentindo a temperatura da neve em seus joelhos.
— Deus! Eu queria muito ter um texto pronto para falar agora. — Soltou um riso fraco, segurando as mãos levemente trêmulas de Rachel. As suas não estavam diferentes. — Eu também queria poder expressar o que eu sinto por você, mas eu não consigo. Eu te amo, Rachel. Nossa! Como eu amo você! O mundo para quando você sorri. O brilho dos seus olhos é o suficiente para fazer os meus brilharem também. Cada mínima partícula do meu corpo reage a você. Somente a você. Por incrível que pareça eu agradeço todos os dias por ter crescido naquele orfanato. Foi lá onde eu te conheci. Onde eu conheci o amor da minha vida. A pessoa que me aceitou do jeito que eu era. Uma garota intersexual.
— Você era linda, Q. — A voz saiu rouca pelo choro, mas ainda assim convicta. — Você é linda.
— Você é muito mais, Rach. — A loira apertou as mãos da namorada. — Você é a mulher mais linda que eu já vi na minha vida. Eu amo você desde os doze anos e vou amar até os vinte e dois e noventa e dois. Ou melhor, até a eternidade. Essa vida não vai ser o suficiente para nós duas. Em qualquer lugar em que esteja, eu sempre vou estar, Rach. Não existe duas pessoas aqui. São apenas dois corpos e um coração. Eu não vivo sem você.
Rachel chorava como uma criança. A felicidade misturada com nervosismo fazia-se presente. Seu peito subia e descia com intensidade. O frio não importava. Seu corpo estava quente e o coração tentava escapar pela boca. Quinn olhava-a com um misto de adoração e amor e Rachel sentia as pernas moles.
— Então... — A loira continuou, soltando as mãos da mais baixa e retirando do bolso do sobretudo uma caixinha preta, abrindo-a em seguida. — Rachel Berry, você quer casar comigo? Quer passar cada segundo de cada minuto de cada hora da sua vida ao meu lado? — A voz de Quinn saiu firme e a loira agradeceu por isso.
O ouro branco do anel de noivado proporcionava um ar mais discreto, todavia, o diamante médio e solitário brilhando com intensidade no centro deixava claro o seu esplendor. Diferente deste, o outro anel que também residia na caixinha era mais modesto, porém as pedrinhas minúsculas de diamante o rodeando enchia-o de elegância.
Rachel viu-se encantada diante deles. Eram maravilhosos. Suas mãos foram até a própria boca enquanto mais lágrimas desciam sem controle.
A morena assentiu freneticamente, antes de sorrir, iluminando o coração de Quinn.
— É claro que eu aceito! — Declarou efusiva, levantando-se e puxando a loira pelo braço.
Quinn sorriu e levantou, rapidamente retirando as alianças antigas de namoro dos dedos de ambas e pondo o anel de noivado delicadamente no dedo anelar de Rachel. A morena repetiu o gesto, antes de se jogar contra o corpo da mais alta, rodeando os braços em volta do seu pescoço e a beijando com fervor.
Nenhuma delas percebeu quando começou a nevar. Os flocos caíam sobre suas cabeças, mas isso não interrompia o beijo cheio de amor e intensidade. O coração de ambas batiam quase em sincronia. Uma mistura de amor e a sensação de um passo a mais no relacionamento era indescritível. Era a mais pura felicidade.
Quando ambas se separaram com sorrisos enormes no rosto, seus olhos observaram a cena de Brittany se jogando sobre Santana e beijando-a em seguida.
Quinn e Rachel se olharam e riram.
Algumas coisas nunca mudariam.
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