O Preço da Magia

29 Episódio 29: Au Fond De Tes Grands Yeux


Notas iniciais
*No fundo dos teus grandes olhos

Os pelos de sua nuca se eriçaram sem motivo aparente, colocando-a num estado imediato de alerta.

No segundo seguinte, como uma comprovação cruel de sua premonição, Esmeralda ouviu um som indistinto ao longe, logo percebendo se tratar das passadas de seus algozes. Passos que pareciam se aproximar cada vez mais de onde ela estava.

A cigana prensou o corpo no ponto mais distante da entrada daquela clausura negra, vasculhando o ambiente em busca de qualquer arma que pudesse ajudá-la em sua defesa.

Nada ali parecia servir àquele escopo. A desesperança tomou conta de si à medida que o som da aproximação indesejada se tornava cada vez mais nítido, e nada lhe vinha à mente. Sabia que o momento de um confronto entre eles chegaria, mas nem por isso sentia-se minimamente preparada.

Os orbes retornaram à porta, relampejando em seu brilho verde todo o nervosismo que preenchia cada músculo. Seu coração acelerado fez com que sua respiração se tornasse ofegante, como se tivesse corrido longos quilômetros.

Esmeralda reconheceu a voz etérea da estranha criatura que dominava aquela terra doente. E a cada palavra percebia que a distância entre ele estava cada vez menor.

Está muito sério, meu rapaz! Precisa relaxar um pouco. Ânimo! Terá sua humana! — Ele asseverou, abrindo a passagem e finalmente revelando sua presença e a de Frollo.

À mera visão do padre, Esmeralda sentiu o desespero dominar cada parte de si. Lágrimas raivosas caíram de seus olhos ao se perceber totalmente indefesa e à mercê da loucura daquele assassino. Sua mente reproduziu com exatidão o momento em que ele matara Quasímodo sem sequer pestanejar, com a frieza de um carrasco, e a boêmia constringiu o corpo ainda mais contra a parede, como se quisesse fundir-se a ela e nunca mais ser vista.

E, principalmente, nunca mais ser tocada.

— Esmeralda... — a voz de Frollo ecoou num sussurro melancólico, parecendo implorar algo em cada sílaba pronunciada.

— Me deixe em paz, padre. Já não me destruiu o bastante?

Claude manteve-se estático, encarando-a com tristeza enquanto Hades se aproximava sem qualquer receio, pensativo. Esmeralda encarou o deus com preocupação, porém ao mesmo tempo extremamente aliviada por não ser Frollo a se aproximar de si.

— É... Ela parece irredutível... — Hades comentou de forma desistente, como se nada pudesse ser feito. — É fascinante, na verdade... Consigo perceber que a ela eu sou um ser confuso e tão assustador quanto, mas mesmo com a minha aproximação, ela simplesmente não consegue tirar os olhos de você por mais de dois segundos... Como se visse em você a real ameaça... — constatou, genuinamente surpreso com aquela percepção. — De fato essa humana te odeia... — encarou Frollo com um sorriso debochado, divertindo-se com a inusitada circunstância. — Falando bem honestamente... Acho que seria mais fácil ela cair de amores por mim do que por você...

— Me garantiu que reverteria isso! Fiz tudo o que cabia a mim no acordo, não pense que poderá me passar para trás! — Frollo exaltou-se, pela primeira vez em anos sentindo-se irracional ao ousar medir forças com o ser mitológico, a angústia daquela negativa fazendo-o crer que seria capaz de destruir Hades com as próprias mãos, caso ele se esquivasse de sua única obrigação com Frollo. Não abriria mão do que lhe fora prometido sem lutar, por mais que soubesse que o deus da morte precisaria apenas estalar os dedos para subjugá-lo.

Mas ainda que padecesse por afrontá-lo, simplesmente não se importava. Uma vida sem Esmeralda não valia ser vivida.

— Acalme-se, homem... — Hades gargalhou, de fato admirado pela ousadia do humano, não conseguindo definir se aquele arroubo rebelde havia sido estimulado por coragem ou burrice. Contudo, ele sabia muito bem que não existia nenhuma espécie de amor racional. A insensatez era o principal componente desse sentimento tão controverso. — Eu nunca disse que era impossível, disse? — Tornou a olhar para Esmeralda e suspirou, fingindo desagrado. — Entenda, minha querida, não é nada pessoal...

Esmeralda abriu os lábios para responder, porém foi surpreendida pela mão acinzentada do deus entrando em seu peito como se a matéria de sua carne não fosse impedimento algum. A mulher arfou, experimentando a sensação mais desconcertante de sua vida ao sentir a mão da criatura dentro de si.

Frollo se empertigou, igualmente surpreso, correndo para junto dos dois com expressão transtornada.

— O que está fazendo? Vai matá-la! — Rosnou, planejando atacar o deus antes que fosse tarde, contudo, no segundo seguinte viu a mão de Hades sair de dentro do peito da cigana, trazendo um coração brilhante, de um vermelho tão vívido que sequer parecia natural. Contra todas as suas expectativas, a pele da mulher permanecia intacta. Sem um único arranhão para carimbar a terrível violência que acabara de sofrer.

Vistoriou cada centímetro visível de sua cigana, procurando por qualquer ferimento proveniente da agressão, mas não havia nada, e contra todas as suas expectativas, Esmeralda estava consciente, apesar da expressão abalada. Entendeu, naquele momento, se tratar de mais uma demonstração da magia que aquele ser tanto prezava.

Apesar da lógica impecável de seu raciocínio, seu próprio coração ainda se mantinha acelerado pelo medo de perder a menina que amava, o órgão retumbando com aquela força teimosa provocada por seu maior medo. Soube, naquele instante, que jamais se acostumaria à ideia de perdê-la...

Esmeralda revezou olhares incrédulos entre o coração brilhante na mão de Hades e seu peito intacto, parecendo tão descrente quanto o próprio arquidiácono.

— O que fez comigo? — A boêmia levou as mãos à altura do peito, como se pudesse sentir o vazio deixado dentro dele.

— Muito simples, minha querida. Em termos que você possa compreender, este preciosíssimo coração nada mais é do que seu livre arbítrio. Todas as suas emoções, sentimentos e paixões estão arraigadas aqui. Isso, menina, é nada menos do que sua alma. E ela agora pertence a Frollo — anunciou com simplicidade, sorrindo ante a expressão ferina de Esmeralda. Pôde notar com enorme facilidade quando a humana fez menção de atacá-lo para recuperar o que tinha de mais precioso. A cigana era rápida, porém jamais poderia equiparar-se à percepção aguçada do deus. — Pare! — Hades ordenou no mesmo instante, pressionando o coração entre os dedos num aperto cruel.

Esmeralda freou imediatamente seu avanço, incapaz de fazer com que suas pernas a obedecessem por mais que tentasse, e uma dor lancinante atravessou seu peito à medida que o deus da morte constringia o coração entre seus dedos.

A cigana arfou, caindo de joelhos. O padre avançou sobre ela, tentando acudi-la, porém Esmeralda ainda conseguiu desvencilhar-se de sua proximidade, apesar da dor.

Hades afrouxou o aperto, e na mesma hora o alívio preencheu cada célula do corpo da cigana. Da mesma forma repentina que viera, a dor passara, sem nem mesmo deixar rastros de que em algum momento já fora sentida. Os olhos verdes e marejados da mulher encontraram o sorriso cruel do deus, e um arrepio percorreu todo o seu corpo quando entendeu que nem mesmo seu corpo estaria sob seu próprio comando.

Seria refém de Frollo em cada mínimo aspecto de sua existência.

— Sendo um homem inteligente, imagino que já entendeu como esse poder funciona — o deus da morte ergueu brevemente o coração que segurava, contemplando com interesse o jogo de brilhos e luzes avermelhadas que o compunham. — Enquanto tiver a posse do coração de sua humana, ela fará absolutamente tudo que quiser. Será sua em todos os sentidos, da forma como desejar.

— Não foi isso que pedi... — o padre atestou, contrariado apesar de visivelmente fascinado pelo coração que ainda estava em posse de Hades. — Minha intenção com nosso acordo é que eu fosse capaz de recuperar o amor de Esmeralda, sem precisar transformá-la numa marionete.

— Não me faça duvidar de sua astúcia, padre. Em que realidade a magia seria capaz de alterar algo tão enraizado, senão manipulando o próprio livre arbítrio? O que me pede é um milagre, uma insensatez. Desapegue dessas noções infantis de sua religião e trabalhe com as possibilidades. É isso, ou devolver-lhe o coração e tentar reconquistá-la por seu próprio charme. Acha que consegue? — Questionou, transbordando ironia em cada palavra e expressão. Diante do silêncio reticente de Frollo, ofereceu a ele o coração, um meio sorriso sarcástico ascendendo seus lábios quando o arquidiácono apenas aceitou a oferta, sem novas reivindicações. — Sábia escolha. Sabendo conduzir a situação, não haverá diferença alguma entre a mulher que o amava e a marionete. Aproveite, rapaz. Se continuar mantendo essas convicções puristas, estará sempre frustrado.

Hades retirou-se após o conselho, deixando-os a sós.

Claude ainda encarava fixamente o coração da boêmia, chegando a acariciá-lo com extremo cuidado e disposto a entender toda a textura lisa e brilhante do artefato mágico.

Era deslumbrante. Assim como tudo em sua menina.

— Sinto muito por isso. Não era dessa forma que eu queria que nossos caminhos convergissem — Frollo disse, ainda sem olhar para ela.

— Desista então... — Esmeralda tentou, enxugando às pressas uma lágrima que escapou de seus olhos. — Por favor, Frollo... — sussurrou em súplica, fazendo com que o padre finalmente a mirasse, os olhos negros quase tão atormentados quanto os dela. — Não tire até isso de mim... Por favor, é a única coisa que me resta. Se tirar meu livre arbítrio, eu não terei mais nada...

— Se eu lhe devolver isso... — principiou, também aos sussurros — voltará a ser minha por vontade própria? Não minta! — Ordenou ao coração, e Esmeralda não teve outra opção além de dizer a verdade.

— Nunca... não o suporto...

— Então não me deixa com outra escolha, ma belle. Faço isso por nós dois. Um dia irá entender, sei disso! — Avisou, ignorando o olhar de desespero da mulher e imediatamente levando o coração para mais perto de seus lábios, como se segredasse as palavras seguintes apenas para ele: — Torne a me amar, cigana. Ainda que precise dissimular seus sentimentos, seja minha.

No segundo seguinte, a postura da mulher perdeu a rigidez, e o desespero antes evidente, de súbito suavizou-se em seus traços. Apenas seu íntimo mais aprofundado carregava o horror de se perceber naquela situação, porém por mais que tentasse fazer transparecer sua ojeriza, ela estava completamente camuflada dentro de si, cercada por amarras tão densas que força alguma seria capaz de romper aquela barreira.

Tornou-se o que Frollo queria. Uma mera boneca ao bel prazer de suas vontades.

Guardando com cuidado o coração no bolso interno das vestes, o arquidiácono se aproximou sedento da cigana, ansioso por senti-la responsiva aos seus desejos. Abraçou-a, inspirando profundamente a fragrância de seus cachos e incapaz de entender como conseguira privar-se dela por tanto tempo.

Esmeralda foi dominada pela angustiante sensação de querer opor-se, evitar a todo custo aquela aproximação, porém, ao invés disso, percebeu-se correspondendo ao abraço com a mesma necessidade urgente demonstrada pelo arquidiácono. Para seu completo desespero, que sequer conseguia exteriorizar.

— Senti tanto sua falta, minha menina... Tanto... — Frollo confidenciou, aproximando ainda mais seus corpos. Apertou-a pela cintura, já sentindo o próprio corpo queimar com a proximidade, como se cada célula estivesse em brasas.

A cigana abriu a boca, disposta unicamente a protestar e evidenciar todo o nojo que os toques daquele homem provocavam em si, disposta a retomar o controle de sua própria sorte e dar um basta a tudo aquilo, contudo as palavras que se ouviu dizer foram as mais distantes possíveis daquilo que sentia:

— Eu também, monsieur... Fui tola por nos distanciar... Me perdoe... — sussurrou num tom sedutor ao pé de seu ouvido, em seguida ela mesma tomando a iniciativa de beijá-lo, arfando de prazer à medida que os toques se aprofundavam.

Seu íntimo queria berrar até desestabilizar todas as fundações do submundo. Queria que o grito travado em sua garganta pudesse chegar até a superfície humana e fazer ruir cada alicerce nos quatro cantos do mundo.

Mas apenas manteve-se responsiva às carícias de seu carcereiro, o deleite que demonstrava por cada um de seus toques soando a si como uma perfeita antítese do nojo que a dominava.

Quando o arquidiácono a despiu em movimentos tão rápidos quanto sedentos, a cigana quis agredi-lo de forma tão cruel quanto ele mesmo fazia consigo naquele momento. Queria quebrar seu espírito, peça a peça, até que não restasse mais nenhuma possibilidade de conserto.

Tal qual ele fazia consigo naquele mesmo instante.

Desejou de corpo e alma conseguir a força necessária para empurrá-lo com violência, mas nada a permitia retomar o controle, por mais que lutasse. Ao invés de conseguir dar voz às verdadeiras vontades, viu-se desabotoando a calça de Frollo, ainda em meio aos beijos falsos que lhe dava, encaixando com urgência o membro rijo em seu sexo, sem sequer vacilar naqueles gestos que a machucavam de uma forma intraduzível.

Frollo prensou-a contra a parede, estocando com vontade contra si. O desespero tomou conta da mente de Esmeralda numa intensidade jamais experimentada. Juntou cada fiapo de força para tentar agredi-lo, gritar, chorar, sem saber qual daquelas demandas era mais urgente, mas nenhuma delas teve voz. Tudo o que Esmeralda conseguiu externalizar para além do pânico de sua verdadeira consciência, foi um gemido concentrado de prazer.

Contra tudo o que realmente sentia, a boêmia percebeu o corpo estremecer, puxando o assassino de sua alma para um beijo mais profundo.

Frollo arfava, abraçando-a com cada vez mais força e posse mesmo após o fim do sexo. Ela sentiu a respiração pesada junto ao ouvido, a voz que tanto detestava agora entrecortada pelo deleite, murmurando junto a si:

— Sabia que cedo ou tarde entenderia minhas escolhas, ma belle! Eu mesmo não queria ter chegado a tal ponto, mas não havia outra forma. Precisava mostrá-la que não existe um futuro em que estejamos separados. Sabia que ainda me amava, ainda que estivesse confusa!

Sentindo o ímpeto de responder, Esmeralda tentou silenciar o que quer que diria, já ciente de que não se demonstrava capaz de controlar as próprias palavras. Contra todos seus esforços, mais uma vez sua resistência não trouxe qualquer resultado, e ouviu-se dizer a maior de todas as mentiras, cada palavra em tom apaixonado estalando em si como um chicote que abria feridas profundas em sua carne:

— Fez o que foi necessário, Frollo! — Abraçou-o com força, para seu completo desespero. Tentou afastar-se, mas tudo o que conseguiu com seu impulso foi constringi-lo ainda mais, como se suas tentativas de resistência se virassem com toda força contra ela. Sentiu uma enorme falta de ar, mas seu corpo não demonstrou sequer um indício daquele sintoma. — Desceria a quantos infernos fosse preciso para tê-lo de volta, monsieur.

A boêmia beijou-lhe os lábios demoradamente, entregue ao padre de uma forma que, em sã consciência, jamais gostaria de estar. Não depois de descobrir quem Frollo realmente era e de todas as atrocidades que era capaz. Sem mais forças, desistiu de lutar, entendendo por fim que seu corpo se tornara também seu cárcere. Estava condenada a viver aquela mentira. Fadada a responder às carícias do homem como a mais tola apaixonada, incapaz de demonstrar o asco que florescia a cada toque.

Quando o beijo finalmente acabou, o arquidiácono descansou sua testa na de Esmeralda, acariciando seu pescoço. Sua respiração pesada batia no rosto da cigana, e ela apenas pôde fechar os olhos, ao menos conseguindo aquela pequena vitória para trocar todo o cenário diante de si pela escuridão de pálpebras cerradas, tão mais atrativa do que sua realidade.

— Não sei como aguentei tanto tempo longe de você, menina... — a voz de Frollo veio perturbá-la em sua tentativa patética de negar a realidade, levando-a para ainda mais fundo dentro de seu novo abismo. — Queria poder nunca mais soltá-la, mas alguns deveres me chamam — anunciou, pausando seu discurso para um novo beijo, como se não conseguisse se conter diante daquela presença, porém logo o concluiu. — Mas assim que puder, eu volto.

— Não sairei daqui, monsieur. Cumpra suas obrigações o quanto antes, e volte para mim.

— Sempre, ma belle — anuiu, extasiado, apertando-a com um pouco mais de força antes de soltar. Quando recuperou suas vestes, vislumbrou o brilho escarlate do coração de sua amada, e tal visão o fez recuperar um pouco de sua austeridade, como se apenas naquele momento recordasse do que fora necessário fazer para ter a cigana em seus braços novamente. Para lembrá-lo de que, por mais crível que parecesse, nada daquilo era de fato real.

Despistou o pensamento, guardando o coração bem protegido junto ao próprio peito.

Faria o que fosse preciso para mantê-la ao seu lado, qualquer que fosse o preço. Com o passar do tempo, poderia lapidar melhor sua estratégia de verdadeiramente reconquistá-la, mas não agora. Por ora, aquilo seria suficiente. Em algum momento, a própria Esmeralda cairia em si, e só então poderia possuir de volta seu livre arbítrio.

Mas não ainda.

O arquidiácono vestiu-se e saiu dali às pressas, já ansioso por voltar.

Quando se viu sozinha, Esmeralda finalmente notou o controle do próprio corpo retornar. Percebeu cada milímetro de si tremer, e a falta de ar antes camuflada agora se manifestava com total força, implacável.

Lutou para levar o ar escasso aos pulmões, percebendo a visão se embaçar com a quantidade de lágrimas que se formaram em suas pálpebras, o líquido imediatamente extravasando para seu rosto contorcido de amargura.

Soluçava com violência à medida que usava a própria roupa para tentar limpar-se dos toques indesejados, querendo varrer de sua pele a lembrança sensorial do pior de todos os abusos que já sofrera. Finalmente sua garganta a permitiu exalar um grito grave que exteriorizava toda a violência vivida.

Ajeitou-se em posição fetal, chorando compulsivamente pelo próprio destino. Culpou-se, acima de tudo, quando recordou que Frollo esteve sob julgamento na Kris Romani e ela intercedera por sua vida, mesmo após descobrir todos os crimes genocidas que ele cometera contra seu povo. Não queria carregar o peso de um assassinato a sangue frio em sua consciência, mas a que custo? Poupara a vida do arquidiácono por um pudor ingênuo e, com isso, não só sentenciara Quasímodo à morte, como também condenara sua própria existência a um tormento indescritível.

Fechou os olhos, imaginando estar entre os seus, e o pranto involuntariamente se intensificou. Via-se à beira de uma fogueira crepitante no Pátio dos Milagres, quase capaz de sentir o calor bruxuleante do fogo aquecendo sua pele. Naquela reconfortante visão, dançava com seu povo num dos festejos que tanto tentavam driblar as dificuldades da vida cigana. Que exaltavam a alegria típica de um povo tão sofrido, que vivia agruras diárias. Djali a acompanhava na dança, os pelos sedosos do astuto animal roçando com afeto entre suas pernas nuas. Via com clareza o sorriso paterno e orgulhoso que Clopin direcionava a ela, como se de fato visse em si uma filha amada.

Levava uma vida simples e muitas vezes endurecida pelas dificuldades, mas ainda assim plena.

Como se permitiu perder tanto se já possuía tão pouco?

Manteve-se deitada, agarrada ao próprio corpo, involuntariamente querendo protegê-lo de novos abusos. Abusos esses que, sabia, continuariam acontecendo pelo tempo que Frollo tivesse a posse de seu coração.

Teria que encontrar uma forma de recuperá-lo.

Ainda que reaver o controle de sua alma significasse destruir seu corpo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.