O Preço da Magia
28 Episódio 28: Meu Coração Não Se Emenda
A brisa navegava suave pelo alto do Monte Olimpo, como há muito tempo não se percebia.
Desde que Zeus fora destituído de seu trono, o ambiente divino tornou-se envolto por uma calmaria um tanto atípica à rotina normalmente tempestuosa do alto de seu elevado cume. Tudo se mantinha numa quietude nada habitual, tão estranha àquele cenário que parecia capaz de ruir ao menor movimento.
Hércules encarou o semblante plácido de Hera com crescente afeição. A cada dia que passava, reconhecia-a um pouco mais como sua mãe, na mesma medida em que rejeitava a paternidade de Zeus.
E a cada dia entendia menos o que a deusa gentil vira naquele opressor que governara o Olimpo por incontáveis eras.
Caminhou até sua progenitora, ela agora ocupando o trono do consorte e dona de uma tranquilidade ímpar. O novo cenário soava quase incoerente se comparado ao antigo ser instável que costumava sentar-se ali, trovejando impropérios. O peito de Hércules se aqueceu de imediato com o enorme sorriso que a mãe lhe direcionou ao vê-lo, e ousou tentar retribuir o gesto, porém soube que seu sorriso apenas espelhava a melancolia que inundava seu coração.
— Ainda pensando nela, meu amor? — Hera segurou carinhosamente a mão do filho, percebendo de imediato seus olhos aflitos e intuindo sabiamente o motivo. Aquela pergunta era meramente retórica. Sabia, sem qualquer sombra de dúvida, que a humana era a causa de todo o sofrimento concentrado em seu olhar.
— Não consigo parar de imaginar o que pode ter acontecido com Mégara... Preciso descobrir se ela corre perigo... Preciso dela ao meu lado... — confidenciou, os orbes atormentados parecendo à beira do desespero.
Hera o fitou com consternação, sem saber como amenizar a dor de seu menino.
— Se ao menos Cronos ainda estivesse vivo, poderíamos descobrir para que época ele a transportou, e procurá-la a partir dessa informação.
— Acha que Zeus pode saber?
— Ainda que soubesse, duvido que lhe diria, meu querido... — Hera brindou-o com um sorriso cansado, abatida por apenas ser detentora de más notícias. — Por pior que seja a situação de seu pai, o orgulho dele jamais o permitiria lhe ajudar. E ainda que Zeus confidenciasse essa informação, muito provavelmente não conseguiríamos segui-la sem o auxílio de Cronos.
Hércules deixou-se desabar no trono menor, que antes pertencia à sua mãe. As feições normalmente tão belas agora agravadas pelo martírio da ignorância. Não saber pelo que Mégara poderia ter passado, ou poderia estar passando naquele exato momento, era ainda mais angustiante do que o sentimento de perdê-la de vez. A dúvida de sua integridade era assustadora.
A mãe acariciou seu rosto, tentando incutir algum consolo naquele gesto mudo, simplesmente por não saber como realizar o mesmo efeito com palavras.
— Acho que eu devia ao menos tentar... — o jovem deus elucubrou, pedinte por qualquer mísera esperança que fosse.
— Talvez acalme seu coração... — Hera anuiu, ainda que imaginá-lo perto de Zeus lhe causasse náuseas. — Mas antes que vá, precisa ter em mente que seu pai não mentiu quando avisou que uma mortal não pode viver no Olimpo. Assim como um deus não pode viver entre os mortais. Entende as consequências? Está certo mesmo de que é esse caminho que quer para você? — Perguntou, esforçando-se ao máximo para disfarçar a tristeza, porém falhando espetacularmente.
— Mãe... — Hércules principiou, apertando as mãos da deusa com carinho entre as suas. — Eu adoraria que esse impasse pudesse ser resolvido de outra forma, mas se essas são as condições, espero que entenda minha decisão... É ao lado de Mégara que encontrarei minha felicidade. Espero que ainda possa visitá-la quando me tornar novamente mortal, mas não posso viver uma eternidade vazia sem a pessoa que amo.
— Eu entendo mais do que imagina, meu filho — assentiu, mal conseguindo conter o soluço que atravessou sua alma junto às lágrimas. Enxugou-as, não se permitindo ser invadida pelo vazio de sua ausência enquanto ele ainda estivesse ao alcance de seu abraço. — E claro que poderá me visitar sempre que quiser... — “...e enquanto puder”, completou sombriamente em pensamento, ciente de que o filho teria uma expectativa de vida baixíssima assim que renegasse sua imortalidade. A Hera, os anos de vida de Hércules passariam com a rapidez inconveniente de um piscar de olhos. — Tente ir atrás de sua garota, então. Mas tome muito cuidado quando estiver na presença de Zeus. Mesmo encarcerado, seu pai ainda consegue ser extremamente perigoso.
— Não se preocupe. Não deixarei que ele me manipule — decidiu, erguendo-se de um salto. Beijou carinhosamente a mão da mãe antes de se colocar a caminho da clausura do pai, com determinação renovada, sentindo o olhar triste da deusa acompanhando aquele trajeto.
Sabia que suas chances de conseguir tirar qualquer informação do progenitor seria muito provavelmente nula, ainda mais depois de todas as desavenças que tiveram desde que reconquistara sua divindade, mas ao menos sabia que precisava tentar. Devia isso não só à Mégara, como também a si mesmo.
Apressou o passo, buscando coragem dentro de si à medida que vencia distância até o ser que odiava. Que arrancara de sua vida a pessoa mais preciosa, pelos motivos mais torpes.
Viu-se diante da prisão daquele que o gerara, e permitiu-se uma respiração mais longa antes de prosseguir. A entrada estava sob cuidado de Atena e Artemis, as duas deusas designadas àquele turno de vigilância que logo seria substituído. Mesmo sem sentir-se propriamente pronto para rever seu pai, aproximou-se sob o olhar implacável das duas deusas, ambas responsáveis diretas pelo motim.
— Vim vê-lo... — Anunciou simplesmente, o timbre dominado pela derrota que já o inundava.
— Ninguém tem permissão de entrar na clausura de Zeus desacompanhado, Hércules. Nem mesmo você — Atena citou a regra que ele já conhecia, erguendo ligeiramente a lança num gesto inconsciente, como se estivesse sempre pronta para o embate. As narinas inflaram de leve, como se ela mesma quisesse preparar-se psicologicamente ao que diria a seguir. — Incomoda-se se uma de nós o acompanhar?
— Nem um pouco. Só quero acabar logo com isso... — Permitiu-se o breve desabafo, ao passo que Atena apenas assentiu, consentindo a passagem do deus e se colocando imediatamente atrás dele para segui-lo.
Entraram, ambos detestando a companhia do antigo monarca.
Zeus tornara-se apenas uma sombra de sua lendária altivez. Foi quase agradável presenciar sua decadência, se a distância não fosse ainda mais tentadora. O deus jazia sentado no chão, apoiando os antebraços nos joelhos e a cabeça levemente curvada para frente, escondendo o rosto. Os pulsos, calcanhares e pescoço estavam rodeados por grilhões grosseiros, tão reforçados quanto aparentavam. A barba, antes sempre brilhante, tornara-se apenas um tufo embaraçado e opaco.
Assim que Zeus percebeu que tinha companhia, o olhar se ergueu em direção à entrada, um sorriso maldoso se espalhando nos lábios e fazendo conjunto ao fulgor periculoso do olhar, a infinitude daqueles orbes parecendo trovejar toda a fúria contida pelas correntes.
— A que devo tão honrosa visita? — Sua voz saiu rouca pelo longo tempo em desuso. Ajeitou a postura com interesse, ainda sentado, nem por um minuto desviando a atenção de Hércules. — Finalmente veio pedir as desculpas que me deve?
— Vim saber o que foi feito de Mégara. É o único assunto pendente que ainda temos a tratar — ignorou o comentário jocoso, ciente de que o deus se esforçaria para irritá-lo, e temendo, acima de tudo, sua propensão ao descontrole diante daquela presença tão insuportável.
— Tsc, tsc, tsc... — Negou com a cabeça, como um pai profundamente decepcionado com as atitudes de um filho peralta. — São palavras muito duras para quem se encontra na posição de pedir favores, não acha? — Ralhou, ainda o observando com interesse.
— Para onde a levou? — Repetiu a pergunta com irritação crescente, sentindo sua paciência se esvair mais rápido a cada segundo.
— Todo esse estardalhaço por causa de uma meretriz da terra que não vale mais do que um inseto asqueroso? Tornou-se mesmo uma decepção, Hércules... Não merece nada do que o Olimpo tem a oferecer...
Diante do desrespeito direcionado à sua amada, Hércules sentiu o corpo inflamar de fúria. Estava cansado da tirania e de todas as interações dúbias com aquele deus que a si não passava da criatura mais detestável que já conhecera. Deixou-se levar pela emoção, intuindo que aquele encontro tinha sido tão inútil quanto já esperava.
— É uma honra não ser aceito por alguém que não passa de um déspota megalomaníaco. Por alguém que inspira nojo até mesmo entre os seus. Está sozinho, Zeus, e vai passar o resto de seus dias assim.
— Me respeite, rapaz — as íris milenares cintilaram, ameaçadoras. — Do mesmo jeito que lhe dei a vida, posso tirar. — Ameaçou, pondo-se de pé e ensaiando se aproximar do filho desleal, que também almejava um embate.
No mesmo instante Atena pôs-se à frente, apontando a lança no tórax daquele que um dia a governou.
— Nem mais um passo. — Ela alertou, quase ansiando que o prisioneiro a desobedecesse e ela tivesse um pretexto para dar cabo daquela existência vil. Contudo, Zeus freou seu avanço, o sorriso agora atingindo o ápice de toda sua perversidade.
— Acha que eu me importei em saber para onde sua humana iria? E, se soubesse, acha mesmo que lhe daria uma pista sequer? Apenas a despachei para longe, ela e a aberração que carregava no ventre! — Gargalhou, satisfeito por reconhecer o desespero se formar no semblante de Hércules. — Ah, perdão, que descuido o meu! Esqueci de avisar que seria papai de um humano imundo...? Que terrível lapso de memória! — Zeus cuspiu em afronta, apreciando cada gota de sofrimento que era capaz de extrair daquele traidor. — Se eu vou acabar sozinho, você também vai, fedelho! Não renegará à própria estirpe! E quanto à concubina que gerou a aberração do seu filho... Espero que ela esteja nos domínios de Hades, único local de direito dos mortais!
— Chega! — Atena o afastou com a ponta afiada de sua lança, enojada por cada palavra de seu antigo soberano. — Vamos, Hércules. Tudo o que Zeus merece de nós é o ostracismo — conduziu o jovem abalado para fora, trancafiando Zeus novamente em sua solidão.
— Mégara estava... grávida...? — Repetiu, atônito, ainda mais despedaçado do que antes. — Como Zeus foi capaz disso? — Lançou um olhar perdido à deusa da guerra, implorando por qualquer conselho que sua afamada sabedoria pudesse ser capaz de lhe doar.
— De todos os deuses que habitam o Monte, Zeus é o mais impulsivo e cruel de todos, meu rapaz — suspirou, sentindo enorme compaixão pelo olhar perdido naquele que, até pouco tempo atrás, sequer conhecia as tramas atrozes de seu pai. — Sei que para você é muito para assimilar, e talvez não devesse ser eu a dizer isso, mas o melhor que tem a fazer é manter distância de Zeus. Tudo o que ele pode oferecer a você é mais sofrimento.
— Mas eu preciso saber como encontrá-la... Ela deve estar em apuros...
— Ele não lhe dirá, não se engane. Mesmo que saiba, guardará essa informação consigo por quantos milênios ainda durar sua imortalidade. Zeus tem uma propensão cruel a torturar todos aqueles que de alguma forma o contrariam. Se eu bem o conheço... — Atena hesitou, de súbito parecendo arrepender-se.
— Diga... nada pode aumentar minha aflição... — Hércules pediu, percebendo o olhar condescendente da deusa sobre si, o pequeno sorriso triste em seus lábios deixando claro que aquele era um pensamento um tanto quanto ingênuo. E as palavras que disse a seguir foram uma confirmação de que seu tormento poderia se intensificar ainda mais, até níveis jamais alcançados.
— Se eu bem o conheço, é muito provável que Zeus tenha banido a humana para algum tempo e espaço extremamente hostil. Talvez... — vacilou novamente, mas dessa vez não esperou que Hércules lhe encorajasse a concluir o raciocínio. O pobre rapaz merecia ter uma noção do que estava prestes a enfrentar. — É bem possível que sua humana já não esteja mais entre os vivos... — Disse da forma mais direta que pôde, não querendo prolongar sua agonia. — Talvez ele de fato tenha lhe dito a localização da humana, quando sugeriu que ela estivesse nos domínios de Hades...

Quando Hércules desceu ao submundo, Hades verdadeiramente se surpreendeu.
Jamais imaginaria ver o sobrinho novamente, não após ele ter sido o grande responsável pelos infortúnios na vida da criança desde que roubara sua imortalidade, e o fez percorrer todo um caminho de heroísmo desgastante para recuperá-la. Sentiu certo prazer em vê-lo, ainda que fosse um sentimento incoerente. Foi por causa daquele menino que todos os seus poderes foram arrancados de si e hoje o deus da morte se encontrava naquela situação completamente desfavorável, mas ainda assim...
Tinha plena consciência de que seria capaz de fazer tudo de novo. Sabia o quanto aquele ato de rebeldia atingira seu irmão, e esse simples fato, por si só, já era argumento o suficiente para impedir qualquer tipo de arrependimento.
Tentando camuflar a onda complexa de sentimentos que o invadiam, o deus da morte ergueu-se do trono e abriu os braços, simulando um gesto de boas-vindas.
— Meu querido sobrinho! A que devo a honra da visita? — Alastrou os lábios num sorriso que deixaram os dentes pontiagudos à mostra. — Vejo que recuperou sua condição de deus. Impressionante! Sempre torci por você... — provocou, alargando ainda mais o sorriso trocista.
— O que sabe sobre Mégara e meu filho? — Expulsou a pergunta com o peito em chamas, indisposto a entrar no jogo de provocações de Hades e ao mesmo tempo temendo mais do que tudo sua honestidade.
— Ora... Não ficou sabendo, meu rapaz? Muito me admira, achei que a tinha dispensado...
— Diga logo! — Rugiu, irritado.
— As coisas não funcionam assim, meu caro. Talvez, entre os humanos, suas demandas imediatistas surtissem efeito, mas entre deuses os acordos são um pouco mais... sutis. Conhecimento é uma forma de poder e tem seu preço. O que você deve se perguntar nesse momento é: o que eu poderia dar em troca ao meu estimado tio pela ajuda que vim tão educadamente solicitar?
— O que você quer? — Inquiriu, impaciente e indisposto a estender aquela conversa para além do necessário. A urgência por notícias urgia em seu peito, e nem mesmo o medo do que poderia descobrir era capaz de nublá-la.
— Seus modos são um pouco decepcionantes, confesso... Não foi tão afável quanto na minha imitação, mas ainda assim serve... — Hades deu de ombros de forma jocosa, divertindo-se com a angústia do jovem deus. — Te darei a informação que quer. Mas antes, preciso de um pouco dessa sua vitalidade divina. Vejo que a tem de sobra... — sorriu, faminto por um pouco que fosse daquela força. — Como sabe, seu querido pai arrancou meus poderes, e desde então tenho que me humilhar por algumas esmolas, tal qual um pedinte... — dramatizou, porém logo a expressão ferina retornou aos seus traços acinzentados. — Poderia esquecer meu passado de travessuras e ajudar seu velho tio? — Ofereceu ao sobrinho um anel de gema azul bruxuleante, o olhar vil desmentindo todo o teatro de contrição que suas palavras evocavam.
— O que me garante que não irá me enganar? — Franziu as sobrancelhas com desconfiança quando pegou o anel, em momento algum disposto a confiar apenas na palavra do deus da morte.
— Que péssimo juízo faz de mim! Eu não o trairia nem que quisesse, rapaz. Não passo de uma sombra do que já fui. Não tenho poderes e nem maneiras de me defender de sua fúria caso cometesse a insanidade de enganá-lo.
Hércules ponderou em silêncio, porém ciente de que aceitaria os termos de Hades. Aquela era, afinal, sua melhor e provavelmente única chance de descobrir a respeito de Mégara e seu filho.
— Como faço isso? — Olhou em dúvida para o anel.
— Ótima escolha! — O deus da morte bramiu, circundando um braço pelos ombros musculosos de Hércules em aprovação. — Precisa apenas concentrar-se em passar um pouco do seu poder para cá. Mentalize sua essência, concentre-se nela, e então basta visualizá-la sendo transferida para a pedra do anel. Simples assim! Mais fácil do que tirar os poderes de um bebê!
Hércules ignorou a afronta, seguindo as instruções recebidas sem se importar com consequências.
Diferente do que esperava, não foi difícil para si acessar seu cerne divino, como Hades descrevera. Ele pulsava dinâmico junto às batidas de seu coração, como se também usasse suas artérias e veias para se deslocar através de seu corpo e nutri-lo.
Abasteceu o anel com um pouco daquele poder, desprezando a angustiante sensação que o procedimento causou. Não tinha dúvidas de que seu corpo se recuperaria, e chegou a se indagar se realmente se importaria caso ele não se regenerasse.
O olhar de Hades faiscou cobiçoso ante o brilho tão intenso que a joia adquiriu. Alocou novamente o anel em seu mindinho, fitando o sobrinho com interesse ao perceber que ele dispensara uma enorme quantidade de magia divina, e sequer parecia abalado. Perséfone chegara a desmaiar por muito menos.
— Sua vez! — Hércules o intimou, sem perceber cerrando os punhos, tamanha a ansiedade que se apoderou de si pela resposta.
— Muito bem. O que quer saber?
— Onde eles estão?
— Depende. Quer que eu fale primeiro a respeito de Mégara ou de seu filho?
— Mégara! — Anunciou, impaciente.
— Mégara está aqui mesmo, vagando pelo rio das almas.
— Ela está... morta...? — Hércules sentiu-se dominar por um vazio muito maior do que o experimentado há alguns segundos, quando se desfez de parte de sua divindade. O que acabara de perder jamais poderia ser recuperado, jamais seria passível de conserto, ainda que tivesse a seu favor toda a imortalidade para tentar esquecer. Encarou Hades com olhar de súplica, sem perceber aproximando-se alguns passos. — E meu filho?
— Também! — Respondeu num tom irritantemente bem-humorado, arrancando uma expressão confusa do sobrinho.
— Como?
— Também está aqui, no rio das almas. Um mais morto do que o outro — anunciou num tom alegre, prevendo a fúria do deus à sua frente, que não tardou a avançar até Hades, segurando-o pela gola da túnica num gesto perigoso e inconformado.
— E por que não disse de uma vez? — Berrou, a dor que agora o preenchia se perdendo em descontrole. — Por que me deixar acreditar num desfecho diferente?
— Gosto da potência de uma esperança despedaçada, meu caro. É uma mania antiga — respondeu, brindando-o com um sorriso maldoso e desvencilhando-se calmamente do aperto de seu sobrinho. — Foi mesmo muito triste. Mégara desfaleceu no parto, e o menino acabou morrendo em seguida, sem recursos — mentiu, não expondo que fora ele a encomendar a morte de Quasímodo anos depois da morte da humana. — Quer vê-los? — Perguntou alegremente, parecendo de fato se entusiasmar com a possibilidade. — Vamos, o rio fica logo ali! — Pôs-se à frente, caminhando com um ímpeto facínora, ansioso por machucar Hércules ainda mais.
O jovem deus o seguiu, seu semblante pálido parecendo totalmente alheio. Pararam à margem do rio enegrecido, e o deus da morte apontou com empolgação para a silhueta bela que Hércules reconheceria em qualquer lugar. Que amaria em qualquer circunstância. Lágrimas escorreram de seus olhos quando percebeu o ventre da mulher ainda inchado pela gravidez. O olhar de Mégara, agora apático, passou por ele sem emitir qualquer sinal de reconhecimento.
— Seu filho é um desses bebês do rio, confesso que não sei qual — novamente mentiu, percebendo o local onde a alma ambulante de Quasímodo vagava. — Recém-nascidos mortos são todos iguais, não é mesmo? — Comentou num tom neutro, como se conversassem sobre banalidades. — Posso ajudar em algo mais, sobrinho?
— Existe alguma forma de reverter isso? — Inquiriu, ainda que soubesse a resposta.
— A morte? De forma alguma. Um fio da vida cortado não pode ser remendado nunca — ao ouvir o que já sabia, Hércules se limitou a assentir, dando as costas ao deus da morte e refazendo o caminho que usara para chegar ao submundo. Hades elevou a voz, satisfeito. — Já vai? Cedo assim? Bom, foi um prazer fazer negócio com você! — Despediu-se zombeteiramente, encarando com cobiça a joia azul que agora cintilava de tanto poder.

Hércules manteve o trajeto até o Olimpo em movimentos mecânicos, sentindo-se despedaçado.
Enquanto fazia seu caminho de volta, sua mente vagou traiçoeira por toda sua história. Passara tanto tempo desejando reconquistar a condição de deus, tornar-se merecedor do Olimpo... sequer poderia imaginar que aquela construção idílica se tornaria uma clausura da pior espécie. Que o destruiria até não sobrar mais nada de sua essência.
Não podia acreditar no quanto sua vida tinha desandado. Era feliz dentro das limitações humanas que o afastavam do Monte Olimpo, e desde o momento em que recuperara sua condição divina, apenas angariou sofrimentos de intensidades devastadoras. Odiou, mais do que tudo, a última visão que guardaria de sua amada, sem o brilho vívido e inteligente que seus olhos sempre luziram.
Sequer poderia imaginar todas as dificuldades que Mégara teria enfrentado após o deus dos trovões bani-la de sua convivência, e doía, mais do que tudo, não ter tido a oportunidade de conhecer o filho que ela gerara. De criá-lo e amá-lo, como ele sabia que fariam juntos.
Como deveriam ter feito juntos.
Zeus destruíra cada detalhe daquilo que Hércules mais prezava em sua vida.
Pensou também em Hades e em como ele demonstrou divertir-se abertamente com todas as camadas mais profundas de seu sofrimento. Incrível como os deuses possuíam o mesmo grau de crueldade dos humanos, porém com um potencial destrutivo infinitamente maior. Arrependia-se a cada dia mais por ter lutado com tanto afinco pelo seu lugar entre esses seres abomináveis. Estava claro para si que a aura divina que hoje ostentava lhe cobrou absolutamente todos os atributos que davam alma à sua existência.
Agora, contudo, sentia-se apenas uma casca vazia, e passou a temer a imortalidade mais do que tudo.
Hércules foi surpreendido pela voz da mãe, a deusa caminhando aflita em sua direção.
— Soube que desceu ao Mundo Inferior em busca de respostas... — Principiou, parecendo extremamente ansiosa — O que descobriu, meu filho?
— Mégara estava grávida quando Zeus a baniu... — contou, derrotado por novas lágrimas que desciam intrusas de seus olhos. Hera levou as mãos aos lábios, surpresa. — Os dois estão mortos — anunciou, sem conseguir encará-la. Sem conseguir nem mesmo formular uma resposta mais completa.
— Meu filho... — a mãe o cingiu num abraço consolador, finalmente uma reação digna à sua angústia. — Eu sinto muito, meu querido!
— Eu queria nunca ter conhecido o Olimpo... — desabafou, sua tristeza tão profunda que nem sequer percebeu o quanto aquelas palavras poderiam machucar a deusa que lhe dera a vida. Quando nos ferem em tamanha profundidade, tornamo-nos também armas nocivas, capazes de esfolar ao menor toque. — Por que se envolveu com ele? — Fez a pergunta que vinha ruminando há tempos, não conseguindo entender como sua mãe se interessaria por alguém tão irascível quanto Zeus.
— É complicado, meu amor... — ela se retesou à pergunta de imediato, não se sentindo preparada para expor aquele passado doloroso. — Seu pai... ele sempre se valeu das formas mais baixas de persuasão, mesmo na juventude.
— Eu mereço saber — insistiu, incapaz de retroceder naquela dúvida. — Perdi tudo, e quero saber por quê. O que uniu essa família disfuncional? Ele a obrigou?
Hera baixou os olhos, sentindo-os arderem.
— Sim. Não por meio de força física, mas por subterfúgios ainda mais cruéis. Me coagindo a escolhê-lo para que ele não matasse o amor da minha vida.
— E quem a senhora amava? — Questionou, notando a imensa tristeza no sorriso que a deusa lhe lançou.
— Hades... — Respondeu, deixando o jovem deus atônito com a revelação inesperada.
— Hades? Aquele Hades lá debaixo? O mesmo que me exilou ao mundo dos humanos quando eu não passava de um bebê indefeso?
— Ele não foi sempre assim, meu querido. Nem em aparência, nem em perversidade. Era gentil, encantador e cheio de sonhos — a deusa sorriu com alguma lembrança distante. Uma lágrima solitária, porém muito significativa, desceu tortuosa por seu belo rosto. Era evidente que rememorar aquele passado ainda a abalava. — Nós estávamos completamente apaixonados, fazendo planos de nos casar. Mas já naquela época seu pai me desejava. Quando percebeu que eu não tinha interesse e que estava envolvida com seu irmão, Zeus me fez um ultimato. Disse-me que, se eu não abandonasse Hades e assumisse o posto de rainha ao seu lado, ele o mataria. Eu não me vi com outra opção, além de aceitar. Mesmo naquela época eu já sabia do que Zeus era capaz, e não podia correr o risco de vê-lo cumprir sua ameaça — Hera recordou-se com perfeição do momento em que devolveu a Hades o anel de pedra azul que marcava o compromisso e amor dos dois. A memória, ainda que distante, doeu como se tivesse acabado de acontecer.
— Hades simplesmente aceitou tudo isso?
— Ele não sabe. Ainda acredita que eu o abandonei por desejar o trono do Olimpo. Nunca contei a verdade porque sabia que se um dia ele compreendesse os reais motivos do meu afastamento, se rebelaria ainda mais abertamente contra Zeus, e sei que o temperamento irascível de seu pai não seria freado nem mesmo pela cobiça que tinha por mim, caso Hades o afrontasse — contou, elevando o canto dos lábios em mais um sorriso infeliz. — Minha esperança era que esse pesadelo acabasse por aí, mas mesmo cumprindo minha parte no acordo e mantendo a chantagem de Zeus em segredo, seu pai temeu que minha palavra não fosse suficiente para me separar de seu irmão, e o exilou a viver no Mundo Inferior, longe do Olimpo. Longe de tudo que ele amava. Uma vez no submundo, até mesmo sua aparência foi se moldando ao ser sombrio que é hoje. Tornou-se um deus completamente diferente de sua antiga essência, tanto em corpo quanto em alma.
— Hades nem desconfia que você foi coagida?
— A julgar pela forma como encomendou o seu sequestro, acredito que não. Hades quis punir tanto a mim quanto a Zeus quando tirou você do Olimpo e roubou sua imortalidade — contou num tom pensativo, ela mesma já tendo se questionado a respeito daquela dúvida.
Hércules ficou um momento em silêncio, parecendo divagar sobre o passado da mãe e digerir cada palavra que ainda reverberava com força em sua mente.
— Talvez o que ele fez a mim tenha sido um ato de amor... — o filho concluiu, mais do que ninguém enxergando sentido no raciocínio que se delineava dentro de seus pensamentos tumultuados.
— Amor? — Hera questionou, genuinamente confusa com a natureza do raciocínio mudando de rumo de forma tão drástica. O filho a encarou com seriedade, e naquele breve instante a deusa percebeu que, mesmo em sua idade tão tenra, seu menino já adquirira mais sabedoria do que muitos deuses sonhariam em contrair ao longo de vários milênios.
As agruras humanas tinham seu valor, afinal.
— E se Hades tentou impedir que Zeus pudesse continuar te manipulando através do amor que sentia por mim? Se Zeus conseguiu destruir seus sonhos apenas se aproveitando do amor que a senhora nutria por um amante, o que poderia fazer com o amor que teria pelo filho? Mantendo-me inalcançável entre os humanos, tirou esse poder dele, e ainda evitou que eu me tornasse um déspota ao não me permitir conviver com suas loucuras durante a infância. Fui encontrado na porta do casal mais gentil e amável de toda a Grécia, e criado com muito carinho e valores, talvez isso não tenha sido uma mera aleatoriedade... — conjecturou, de fato agradecido por não ter crescido ao lado do deus do trovão. — Só posso dizer que a mim ele fez um grande favor. Em pouquíssimo tempo Zeus conseguiu arruinar cada aspecto de minha existência. Eu nem posso imaginar como seria uma vida inteira ao lado dele.
A deusa encarou o filho com espanto. Todos os anos rancorosos longe de seu filho não a permitiram enxergar as coisas por aquela óptica perfeitamente plausível.
No fim das contas, se tratando de um ato de amor ou não, ela mesma se sentia grata a Hades por ter poupado seu filho de crescer sob o comando tirânico de Zeus.
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