O Preço da Magia

27 Episódio 27: Ont-ils Donc Un Cœur ?


Notas iniciais
*Eles têm coração?

Segurava o fio encantado de palha com muito mais força do que o necessário, sem sequer se dar conta das articulações esbranquiçadas pelo esforço.

Chegou a inspecionar aquele inusitado objeto várias vezes à medida que retornava ao Mundo Inferior, temendo que sua mente propensa à insanidade o tivesse ludibriado com os últimos acontecimentos...

Mas cada vez que dedicava sua atenção ao produto daquela incrível magia, exasperava-se com o mesmo espanto que experimentara da primeira vez que pousou os olhos no fio de palha semi transfigurado.

Era real. Tão real quanto cada peculiaridade exótica de sua nova realidade. Quanto cada batida errática de seu coração tão pouco habituado ao deslumbre.

— Eu o achei! — Frollo anunciou assim que avistou Hades, erguendo sua prova mágica à medida que caminhava afoito até o deus da morte, ansioso por resolver o assunto pendente e finalmente ter a recompensa que aquele trato hediondo havia lhe prometido. Para que, então, pudesse novamente ter Esmeralda desejosa em seus braços. — Encontrei o feiticeiro que procura!

— Não me diga... — Hades, sentado em seu trono negro, cruzou as mãos acima de seu colo e sorriu sem qualquer indício de satisfação no olhar, em nada convencido pelas palavras do arquidiácono. — Que grande prodígio temos aqui! — Comentou, trocista, analisando cada pequena expressão do mortal, disposto a desvendar qualquer engodo naquela feição confiante — Muito bem então, rapaz... Mostre-me o que trouxe...

— Isto! — Ofereceu ao deus o fio que era metade palha, metade ouro, sem vacilar em momento algum em sua certeza e já se sentindo um tanto quanto impaciente. — Uma amostra da habilidade do exímio feiticeiro que encontrei, capaz de transformar um objeto tão simplório quanto a palha em ouro.

O deus do submundo bufou, revirando os olhos ante aquela descrição.

— Não me faça arrepender-me do nosso contrato, padre. Isso qualquer mago mediano faria, sem grandes esforços. A transformação molecular é o tipo de magia mais básica naqueles que são letrados em sua arte... — apesar da irritação, Hades aceitou o objeto num gesto mecânico e sem qualquer expectativa, parecendo quase entediado e ao mesmo tempo enfurecido. Não suportava mais sentir-se estagnado naquela busca. Seu humor intratável estava por um fio, ainda mais fino do que aquele que Frollo trouxera para seu exame, e previa o momento em que explodiria contra todos.

Apenas para embasar sua fúria, dedicou um fiapo de atenção ao objeto que Claude lhe dera, e no segundo seguinte foi como se seu coração simplesmente parasse de bater, para em seguida retumbar com violência, incoerente à antiga apatia.

— Onde conseguiu isso? — A voz de Hades saiu fraca pela incredulidade. Contemplou com fascinação o ponto exato em que a palha cedia seu lugar ao ouro, sem que se confundissem por um milímetro sequer. Sem nenhuma espécie de contaminação em sua transição brusca.

— Encontrei um feiticeiro que se denomina Senhor das Trevas. Ele confeccionou a parcela de ouro a partir do fio de palha em não mais do que um minuto.

Hades fixou seu olhar em Frollo, e no brilho duvidoso daqueles orbes banhados em intensidade, o padre percebeu uma mescla entre desconfiança e expectativa, mistura essa quase tão perfeita quanto o objeto que o deus agora segurava possessivamente, agarrando-se a ele como se fosse um náufrago em pleno alto mar, completamente dependente de seu salva vidas.

Senhor das Trevas? Um tanto prepotente, não acha? — Rebateu, esforçando-se para não criar grandes expectativas acerca daquela nova possibilidade. Afinal, já havia se frustrado mais do que seria capaz de recordar-se ao longo de todos os séculos em que tentara em vão recuperar seus poderes. — Qual o nome do dono dessa alcunha tão audaciosa?

— É um nome um tanto atípico... — Claude principiou, tentando sem sucesso relembrar o estranho nome pronunciado por aquela figura igualmente excêntrica.

— Rumpelstiltskin — Foi Pânico quem respondeu, até mesmo a pronúncia do nome o fazendo estremecer.

Hades apenas percebeu a presença dos dois asseclas naquele momento, destinando sua atenção ao demônio azul que lhe dera a informação.

— Você o viu fazer isso? — Questionou num tom urgente, mostrando o objeto em referência.

— Não exatamente... — Pânico baixou o olhar, parecendo humilhado — Ele estava usando meu rosto de assento no momento em que fiou a palha em ouro... foi difícil manter os olhos abertos...

Hades cerrou suas pálpebras num semblante dúbio, indisposto a dar asas aos devaneios do serviçal. Em vez disso fitou Agonia, repetindo o questionamento com impaciência.

— Você?

— Até mantive os olhos abertos, mas não consegui ver porque estava rodopiando... mas fui peça essencial no momento de fiar o ouro, mestre — o demônio completou num tom alegre, estufando o peito com certo orgulho ao perceber que aquela era uma façanha capaz de deslumbrar seu mestre, disposto a ganhar créditos com o deus.

— Do que esses imbecis estão falando? — Hades recorreu novamente a Frollo, sem nada entender.

— Para realizar esse feito, o feiticeiro transformou o azul num banco, a fim de sentar-se, e o rosa numa roca de tear — explicou, referindo-se aos demônios através de suas cores. — Foi dessa forma que ele transformou parte da palha em ouro. Contudo, não entendo o repentino interesse... — replicou, quase como se o julgasse pela mudança de comportamento, porém verdadeiramente confuso. — Há pouco disse que não era um feitiço digno de um grande mago.

— Transformar matérias não diz absolutamente nada a respeito do talento de um mago, mas isto... — quebrou o fio no exato local em que ele se transformava em ouro, dividindo com perfeição o produto dourado brilhante e o bege claro, evidenciando ainda mais a divisão perfeita entre o material enfeitiçado e sua matéria-prima. — Isso demonstra um controle excepcional do próprio poder. — Inclinou-se sobre o próprio trono, instigado, analisando a metade palha em busca de qualquer indício de contaminação do ouro. Sorriu ao não encontrar nada. — Muito bem, padre... em seu primeiro dia de trabalho, conseguiu superar todos os séculos de fracasso desses dois boçais — alfinetou, os olhos crepitando em fúria quando os encarou. Pânico e Agonia engoliram em seco, dando pequenos passos para trás.

— Mas fomos nós que encontramos o humano, mestre... — Pânico tentou defender a si e ao comparsa, os grandes olhos arregalados de medo pelos castigos que poderiam sofrer.

— Fomos uma parte essencial da busca... — emendou Agonia, sem muita esperança de escapar do ódio que exalava no brilho periculoso do olhar do deus — Desvendamos que a alma atormentada e o mago da profecia não se referiam à mesma pessoa, lembra? O humano está aqui por nossa causa!

— Se alguém deve ser punido, são as Moiras, que se preocuparam mais com as rimas da profecia do que com a clareza do recado... — o demônio azul desesperou-se à medida que o deus da morte se aproximava, caindo de joelhos num implorar imperativo. — Piedade, Vossa Malvadeza...

Hades grunhiu, massageando o vinco entre as sobrancelhas num movimento circular de quem tenta conter o ódio. O tipo de esforço que jamais obtinha êxito.

— Sumam daqui, os dois. Antes que eu use meu último recurso divino para punir vocês. No momento, essa me parece a escolha mais acertada para finalizar o pouco que sobrou do poder de Perséfone.

Sem pestanejar, os demônios se puseram em retirada, sumindo de vista quase no mesmo segundo que Hades os dispensou. Retomando sua atenção ao arquidiácono, o deus da morte portava um semblante que beirava o contentamento, porém ainda periculoso a qualquer deslize.

— Onde está o escolhido? Por que não o trouxe? — O fogo em seu couro cabeludo crepitou com força, como se desse voz à ansiedade abrasiva que se percebia facilmente na voz. Os dentes pontudos ficaram à mostra em mais um de seus sorrisos desconcertantes.

— Antes de trazê-lo, achei prudente me certificar se realmente se tratava do mago que buscava, assim como ele também quis assegurar-se da verdade de minhas palavras. Se for de seu agrado, nos encontraremos no próximo pôr do sol e eu o trarei aqui para que possa firmar seu acordo, ou testá-lo de outras formas.

— Nada disso... — os lábios cianóticos de Hades se içaram num sorriso amplo, e Frollo pensou ter visto a sombra de todo o potencial divino que aquela criatura devia possuir em domínio de seus poderes — Me levará até ele agora mesmo! — Decretou, sem perceber brincando com o anel em seu mindinho, a pedra entalhada emitindo um brilho cerúleo fraco, quase imperceptível. — Preciso apenas resolver um contratempo rápido, e partiremos em seguida... — Anunciou, pensativo, antes de apressar-se naquele novo desígnio.

— Sabe por que vim! — Hades encarou a detenta à frente com asco, oferecendo o anel de gema azul à deusa das flores numa demanda silenciosa.

Perséfone o encarou com olhos cansados, quase incapaz de manter-se em pé. Amparava-se nas barras de sua clausura, o tronco levemente projetado à frente de seus pés a fim de sustentar seu peso naquele gesto, e quem sabe conseguir manter-se minimamente ereta. Sabia que demonstrar tamanha fraqueza traduzia-se numa enorme fonte de prazer ao deus da morte, mas simplesmente não podia evitar.

Estava no fim de suas forças.

Sua mão pequena tremulou até o anel, sem ousar discutir e se humilhar ainda mais ao seu carcereiro. Evitando pensar no que fazia, depositou na gema azul aquilo que julgou ser o último resquício de sua deidade, percebendo em seu âmago uma espécie de corrente elétrica sendo expulsa de si assim que a pedra ganhou uma tonalidade consideravelmente mais vívida. Assim que percebeu o último resquício de sua centelha divina deixando seu corpo, foi como se Perséfone não pudesse mais compreender a própria essência, como se sua alma fosse prisioneira de uma casca irreconhecível.

Soube de imediato o que tal percepção significava.

Uma lágrima furiosa e derrotada atravessou a maçã suja de seu rosto, limpando-o apenas naquele trajeto.

— Conseguiu o que queria, Hades — quis incutir fúria ao próprio timbre, porém tudo o que conseguiu com o esforço foi se ajoelhar de exaustão, sentindo-se ainda mais patética. — Agora não passo de uma mortal.

Hades riu, em nada impactado ou comovido com aquele desabafo.

— Ah, minha querida... em algum momento de nossa interação, dei a entender que me importo? Cometi mesmo esse erro? — Balançou a cabeça em negação, como se reprovasse a própria atitude — Se passei essa impressão, falhei miseravelmente — troçou, ajoelhando-se também para que pudesse olhar diretamente nos olhos da deusa, que odiava quase tanto quanto o próprio Zeus — Vamos esclarecer as coisas então, minha cara. Não significa absolutamente nada para mim. Sua angústia é meu deleite, e só descansarei quando destruir tudo aquilo que você e Zeus mais amam — abriu um sorriso cruel diante do sofrimento aberto da antiga deusa, posicionando o anel com o resto de sua divindade no mindinho. — Meu único desgosto, querida, é que não poderei mais usá-la como um meio de burlar a maldição de meu irmão. Mas, ainda assim, há algo que me conforta nesse fim... — Ergueu-se, abrindo a cela daquela que agora não passava de uma mulher ordinária, oferecendo uma mão para ajudá-la a se levantar — Agora sua presença não possui mais qualquer serventia a mim ou meus planos, e não serei mais obrigado a conviver com sua desagradável presença.

— O que pretende fazer comigo? — Inquiriu, encolhendo-se sobre o próprio corpo numa postura assustada, fugindo do contato que o deus oferecia.

— Não é mortal nem há cinco minutos e já aprendeu a portar-se da mesma forma patética...? — o deus da morte riu, agradado — Levante-se, humana, não ponha à prova minha paciência. Vivia implorando para que eu a libertasse, já esqueceu? Pois o momento que tanto esperava chegou — segurou-a com rudeza pela nuca quando Perséfone se pôs de pé, conduzindo-a até o rio das almas a passos apressados e sem nenhuma gentileza.

Ignorou os momentos em que a mulher tropeçava nos próprios pés ao longo do caminho, fazendo questão de aumentar o ritmo de seus passos nesses momentos, apenas pelo prazer de vê-la ainda mais debilitada sob seu comando.

O jogo estava virando a seu favor. Finalmente.

Quando Frollo percebeu a mulher fraca caminhando ao lado de Hades, por um instante seu coração gelou. Temeu que aquela silhueta pertencesse a Esmeralda, porém logo percebeu não se tratar de sua menina, e o alívio o dominou de imediato.

Apesar do incômodo de ver a mulher indefesa sendo tratada daquela forma, Frollo manteve-se em silêncio, indisposto a contestar o deus e banhando-se de indiferença. Apenas Esmeralda era um assunto que lhe dizia respeito, e não seria ele a se indispor com Hades por qualquer outro contexto que não fosse sua menina pagã e os termos do acordo que firmaram.

Sem qualquer palavra trocada, entraram os três no barco que os levaria até a outra margem, sendo possível ler as expressões de cada um apesar do silêncio sepulcral. Frollo, consternado, sem querer tomar qualquer partido diante do que acontecia entre os dois. Hades esbanjando um atípico bom humor, o que o padre já compreendera que poderia ser um sinal ainda mais perigoso do que seus berros mais exaltados. E por fim, a mulher, mal conseguindo respirar de tão assustada com seu destino.

Em alguns minutos o barco foi enviesando seu trajeto para os domínios de Cérbero, e apenas naquele momento Perséfone pareceu intuir o destino que a esperava, porém impotente demais para lutar.

— Terminamos aqui, minha querida! — Hades anunciou num tom quase doce. Assim que a barcaça parou no território do cão de três cabeças, o senhor do submundo empurrou Perséfone no sentido da besta faminta, ao som desesperado dos gritos da antiga deusa.

Gritos esses que não tardariam a desfalecer, com a mesma rapidez do fio de sua vida se rompendo.

O cão não tardou a avançar acima de sua presa, cada uma das três cabeças ansiosas por mostrar soberania diante da outra. Os dentes de Cérbero rasgaram a carne mortal de Perséfone como se seus ossos não passassem de gravetos secos, dividindo a mulher em porções desiguais e rosnados violentos. Por mais que o tamanho de Perséfone fosse irrisório diante das dimensões de Cérbero, os três focinhos adquiriram um tom rubro quando o corpo da mulher se desfez dentro de suas bocarras, e a besta avançou as cabeças em direção ao barco, farejando por mais.

— Já chega, seu mimado... — Hades empurrou para longe o focinho que avançava com mais atrevimento para dentro do barco, sem qualquer temor com o contato brusco, limpando em seguida os respingos de sangue de sua túnica. Cérbero se limitou a afastar-se com obediência, bufando. — Aproveite o petisco ao invés de reclamar. — Ralhou, passando a encarar Frollo com intensidade, embora seu discurso ainda se direcionasse a Cérbero — A depender do desenrolar dos acontecimentos, não tardará a degustar um pouco mais de carne humana.

Frollo apenas sustentou o olhar jocoso de Hades sem nada responder, ciente de que estava diante de um ser capaz de descartá-lo com ainda mais facilidade do que fizera com a mulher com quem parecia ter algum tipo de vínculo. Novamente se pegou refletindo se ainda se arrependeria do acordo que fizera com o deus dos mortos, acordo este que até o momento não lhe trouxera nada além de ameaças veladas, e temeu verdadeiramente pela segurança da cigana.

“Onde eu estava com a cabeça? Podia ter consertado tudo com Esmeralda sem a intervenção desse demônio que agora nos tem nas mãos...” — Conjecturou com culpa, porém no segundo seguinte sua memória contestou aquele pensamento ingênuo. Lembrou-se dos últimos olhares que Esmeralda lançara para si. Nos olhos verdes que tanto desejava, estava evidente que qualquer sentimento bom a seu respeito se quebrara, sem nenhuma possibilidade de reparo, e aquela incômoda memória serviu de combustível para que o padre não sucumbisse à sua nova condição desfavorável.

Havia tomado as precauções necessárias para manter Esmeralda ao seu lado, e se a oportunidade de mudar aquela decisão fosse oferecida a ele, Frollo trilharia exatamente o mesmo caminho quantas vezes se mostrasse necessário. Não se importava com nada do que Hades pudesse fazer contra si, ou o quanto estava disposto a tornar sua vida um inferno, desde que cumprisse a promessa de lhe devolver o amor da cigana.

Estando ao lado daquela menina que tanto o enlouquecia, qualquer inferno facilmente se tornaria seu mais doce paraíso.

Ainda em silêncio, deixaram o Rio das Almas para trás e Frollo guiou Hades pelo mesmo trajeto que travara há poucas horas, aflito por acabar com aquela pendência o mais rápido possível.

— Foi aqui — Frollo anunciou quando se viram diante do mesmo campo verdejante de seu primeiro encontro com o mago, e apesar do negrume da noite escurecendo a paisagem, não teve a menor dificuldade em reconhecê-la.

— Como encontrou esse tal Senhor das Trevas? — Questionou, ainda trocista ao utilizar aquela alcunha.

— Na verdade, quem me encontrou foi ele. Acho que foi atraído por alguma espécie de pacto que queria fazer comigo, e surgiu bem ali, onde se encontra aquela árvore — Comentou, recordando momentos antes, quando o feiticeiro tentara enforcá-lo naquele exato local. — Mas ele temeu quando eu disse seu nome, então talvez não venha mais por vontade própria...

— Muito se engana, dearie... — Frollo ouviu a típica risada do homem atrás de si, reconhecendo-a de imediato. Hades o fitou com profundo interesse, caminhando na direção de Rumpelstiltskin, que por sua vez também o mirava com uma intensidade ímpar — Assim como seu mestre, tenho muito interesse nesse acordo... — sorriu, agora em nada intimidado pela figura mitológica extremamente imponente. A partir de sua visão, testemunhara de forma privilegiada o quanto o deus da morte estava preso a grilhões que o impediam de usufruir de sua condição divina. Segundo o seu entendimento, aliás, o deus nem deveria poder deixar o submundo sem consequências. Quase no mesmo átimo de segundo que teve aquele raciocínio, seus orbes reptilianos pousaram com astúcia na gema azul brilhante que adornava o mindinho de Hades, e de imediato compreendeu. Aproximou-se ainda mais do deus, entoando uma de suas risadas musicais antes de apontar com sagacidade para o anel — Ótima forma de driblar a maldição... Mas pouco duradoura... A julgar pela intensidade do brilho, ouso arriscar que foi o último sopro divino de sua fonte...

— Então é a você que chamam de Senhor das Trevas... — Hades principiou, agradado com o que via. O feiticeiro à sua frente fez uma mesura repleta de trejeitos, como se ele mesmo quisesse contribuir para a própria apresentação. — Posso entender o motivo... Assim como acabou de me mostrar que entende por que tenho pressa. De fato, essa foi a última centelha divina a qual tive acesso.

— E posso supor que, se veio pessoalmente até aqui, mesmo com seus recursos limitados, está interessado no acordo?

— Vamos aos negócios! — Hades arreganhou os lábios num sorriso amplo, ao passo que Rumpelstiltskin entoou uma risada instigada em anuência, tão impelido quanto o próprio deus da morte. — Como já sabe, preciso de um feitiço forte o bastante para restituir meu poder e blindá-lo de possíveis novas investidas que possam ser cometidas por meu adorável irmão. Consegue dar conta desta encomenda, Senhor das Trevas?

— Com os ingredientes certos, tudo é possível, Senhor dos Mortos... — rodeou o deus num contemplar analítico, como se percebesse no ser divino cada possibilidade de ganho — Contudo... Toda magia vem com um preço! — Alertou, fitando-o com profundidade no fundo de seus olhos.

— O que quer em troca, mago?

— Não me referia apenas ao preço que terá de pagar a mim, mas também ao preço pessoal que um feitiço desse porte vai cobrar. E não será uma conta barata! — Preveniu, porém o sorriso indolente em seu rosto deixava claro que ele sabia não haver preço alto o suficiente se tratando daquele ente divino.

Hades envergou a coluna na direção do Senhor das Trevas, fitando-o de forma tão intensa que o próprio feiticeiro sentiu sua espinha enregelar. Ainda que por ora o tivesse nas mãos, teria que ser cauteloso nas negociações com aquele ser milenar. Mesmo sem seus poderes, sabia não ser capaz de competir com a bagagem de crueldade daquela criatura.

Poderia estar diante do negócio mais lucrativo de sua vida, ou daquele que ceifaria sua existência de vez ao esquecimento, se não tomasse cuidado.

Ao se aproximar o suficiente, o deus da morte falou num timbre ferino, evidentemente esforçando-se para não extravasar toda sua cólera.

— Não há absolutamente nada que valha mais para mim do que recuperar o que é meu por direito. Faça o que for preciso, mago, sem se importar com consequências que concernem apenas a mim — retomou a postura natural, sorrindo nos mesmos termos vis que o constituíam. — Ao invés disso, fale-me sobre o seu preço, que é algo que está em nosso poder negociar.

O semblante de Rumpelstiltskin de pronto se endureceu, seus lábios se entreabrindo na intenção de responder, porém som algum se reproduzindo daquele gesto.

“Baelfire, meu filho. Diga! Meu preço é ter Baelfire ao meu lado novamente” — o Senhor das Trevas definiu em pensamento, porém as palavras que disse em seguida não poderiam ter sido mais distantes daquelas que seu pensamento ditava.

— Meu preço é a imortalidade — anunciou, sua voz sequer falhando na demanda exposta.

Hades o fitou com real surpresa antes de se pronunciar.

— Interessante... Ao que eu saiba, já é imortal... Não? — Arqueou uma sobrancelha, sorrindo com certo fascínio diante daquela escolha ambígua.

— Apenas na teoria... Apenas enquanto isto estiver em meu poder, seguro — expôs a adaga que tinha seu nome gravado na lâmina, fitando o deus com intensidade. — Quero ser livre desses grilhões. Saber que meus poderes, arbítrio e imortalidade não dependem deste objeto, e sim que sejam características intrínsecas que não me possam ser tiradas — explicou, guardando a adaga, não suportando deixá-la exposta e vulnerável por muito tempo. Era um escravo daquele artefato, e apesar de ter sido aquele mesmo objeto a causa de tudo que Rumpelstiltskin se tornara, sua mera existência também poderia ser a causa de sua ruína.

Lembrava-se, com uma nitidez desconcertante, do imenso pavor experimentado no seu último encontro com Frollo. Ao crer que os assuntos que Hades queria tratar consigo eram referentes à revogação de sua imortalidade. Que poderia tornar-se tão medíocre quanto já fora antes de assumir o posto de Senhor das Trevas.

Ainda fitando Hades, Rumpelstiltskin o questionou:

— Temos um acordo?

— Devolva meus poderes, mago, e jamais terá que se preocupar novamente com nenhum desses temores — disse, selando aquele contrato verbal com um sorriso ávido, irrequieto por novamente experimentar a centelha divina que Zeus tirou de si.