O Preço da Magia
26 Episódio 26: Là-bas Au Milieu De La Plaine
Notas iniciais
Os três enviados de Hades vagavam pelo amplo espaço de uma floresta verdejante, sem pretensões imediatas em seus passos. Apenas se permitindo observar a grandeza daqueles campos idílicos, o encanto pueril do ambiente ainda mais ressaltado perante o contraste com o submundo, este último decrépito em todas as menores minúcias. O arquidiácono não sabia dizer se já havia visto tamanha beleza num único local, e o aperto em seu peito tornou-se inevitável ao perceber que sua Esmeralda jamais pousaria os olhos em lugar algum que não fosse o negror daquela estranha clausura.
Uma lufada de ar veio de encontro ao seu rosto, trazendo o frescor do orvalho como um lembrete infeliz de sua nova prisão. Desde que se rendera à paixão pela cigana, almejara mostrar-lhe todas as belezas do mundo, porém o acaso era propenso às próprias fatalidades...
O destino, mestre implacável de todos os miseráveis viventes, parecia ter uma propensão natural a fazer chacotas com os planos de seus subordinados.
Ainda em silêncio, mantinham um ritmo constante e distraído, quando uma breve risada melódica os sobressaltou.
— Ora, ora... — a figura do estranho homem, todo coberto por escamas verdes e olhar reptiliano, veio caminhando até eles. — Não é comum recebermos visitantes na Floresta... Ainda mais se tratando de um trio tão... Único... — os lábios se enviesaram num sorriso ganancioso, de quem sabe que o lucro é certo. Sua atenção vagou rapidamente por Agonia e Pânico, não parecendo propriamente surpreso pela aparência dos demônios. Quase de imediato seus olhos se fixaram em Frollo, parecendo extremamente instigado por aquela presença — Por que estava à minha procura, dearie? Quer reconquistá-la, estou certo?
Os demônios se encolheram, visivelmente amedrontados ante aquela presença da qual apenas haviam ouvido falar. Frollo, no entanto, aproximou-se alguns passos, em nada impactado com a fisionomia desconcertante da figura que parecia mais bestial do que humana, mas sim impactado por suas palavras. Palavras que foram lançadas a ele como flechas cortantes, já encontrando abrigo em seu peito machucado.
— Como sabe o que eu quero, se nem ao menos já nos vimos?
A risada aguda soou novamente, um som que o arquidiácono não soube indicar se se tratava de escárnio ou divertimento genuíno.
— De fato nunca ouviu falar de mim, então? — Ele se inclinou numa mesura cheia de trejeitos, o tom de voz dominado por uma musicalidade única retornando logo em seguida — Rumpelstiltskin, Senhor das Trevas, a seu dispor!
— Senhor das Trevas? O que isso significa exatamente?
— Significa exatamente que não há nenhuma cobiça que eu não seja capaz de concretizar — ele elevou a mão direita à altura do peito num rodopio elaborado, projetando imagens de tudo que listava. — Riquezas, prestígio, poder... O anseio de um amor correspondido... — deu maior ênfase ao último tópico, e acima de sua palma a imagem quase perfeita de Esmeralda foi projetada, fazendo o coração de Frollo disparar. No átimo de segundo seguinte, Rumpelstiltskin fechou os dedos com força, desfazendo a imagem quase exata da cigana que sequer conhecia, mas que sabia existir graças ao desejo do coração atormentado que batia no homem à sua frente — Eu faço acordos. Levo crianças, realizo desejos, faço os sonhos mais ousados se tornarem realidade, tudo a apenas uma assinatura de distância!
— E o que pede em troca? — O padre adotou uma postura cética ante tudo que foi dito, porém claramente seduzido pela ideia. Até o momento, Hades não lhe dera nada de concreto, e não importava por quais meios, iria até onde fosse necessário para ter de volta o apreço de sua menina pagã.
O homem de pele escamosa novamente riu, percebendo o desespero naquela alma atormentada. Certamente, a alma mais torturada de todas que já ludibriara em sua longa estrada como Senhor das Trevas.
— Toda magia vem com um preço, é verdade, mas sejamos francos, dearie... — Lambeu os lábios devagar, elevando-os num sorriso fácil, quase indecente, lançando o questionamento seguinte como mais um golpe em seu peito — O preço importa?
Frollo o encarou cheio de derrota no olhar escuro, denunciando sua postura cansada. Sentiu os ombros caírem de leve ante aquele questionamento, extravasando por um segundo toda a profundidade de seu desespero.
— Não... — Admitiu, incapaz de dissimular aquela verdade. — Se conseguir me devolver o que perdi, nenhum preço será alto o bastante.
— Foi o que pensei — anuiu, fitando aquele alvo fácil quase como se reconhecesse a si mesmo no olhar perdido do homem. Quando falou novamente, seu próprio timbre parecia um desabafo sussurrado — O amor é a maior de todas as fraquezas... — pigarreou, retomando instantaneamente a postura bem-humorada. — E então... Temos um acordo?
— Preciso de uma prova do seu poder — decretou com certo desafio, irredutível.
— Já matei homens por muito menos, meu caro... — fez a ameaça, porém seu tom era puro divertimento, realmente vendo aquela situação como algo um tanto quanto inusitado. Quando foi a última vez que Rumpelstiltskin fora desafiado? Que a grandeza de seu nome experimentara o dessabor do anonimato? — Contudo... Vejo que são assuntos ainda desconhecidos a você, portanto irei poupá-lo do mesmo destino doloroso daqueles que já me desafiaram com tamanho desrespeito.
Rumpelstiltskin ergueu as mangas de suas vestes alguns centímetros, apenas naquele instante dedicando alguma atenção à dupla de demônios que acompanhava o arquidiácono, ambos parecendo esforçar-se para se manterem incógnitos durante a interação com o poderoso mago.
— Venha cá! — Apontou para Agonia, ordenando. O demônio lamentou antes de caminhar com exagerada lentidão até o Senhor das Trevas, seu corpo parecendo tremer conforme se movimentava. Ao chegar próximo o bastante, o feiticeiro girou o punho num movimento rápido, e no mesmo instante um círculo de fumaça negra rodeou Agonia na altura de seus pés, delineando um movimento espiral ascendente até o topo de sua cabeça. Quando a fumaça finalmente se dissipou, o demônio havia sido substituído por uma roca de tear robusta, levemente rosada e com entalhes sinuosos ao longo do material que lembrava madeira. — Sua vez! — Encarou Pânico com maldade, reconhecendo o terror no olhar da criatura e se deleitando com cada nuance daquele genuíno pavor.
Pânico caminhou ainda mais vagarosamente do que o companheiro havia feito, gemendo e praguejando baixo conforme avançava. Seus olhos até então baixos se ergueram aflitos na direção do Senhor das Trevas, antes que o feiticeiro novamente invocasse a fumaça negra e densa, e o demônio fosse transfigurado numa pequena banqueta, esta de tonalidade ligeiramente azulada, destoando do outro objeto rosado.
Rumpelstiltskin tirou um punhado de fios de palha do bolso interno das vestes, enrolando-a em movimentos ágeis no objeto que há poucos segundos era um dos demônios do submundo, e por fim sentando-se no banco que também provinha do Mundo Inferior. Encaixou o pé no pedal e começou a fiar a palha com destreza.
Claude fitou a cena em completo silêncio. Sua postura rígida não demonstrou nenhuma emoção quando o feiticeiro transformou os demônios em objetos, o que em certo nível intrigou Rumpelstiltskin. Pânico e Agonia já haviam mudado de forma diante do arquidiácono, e não seria aquele truque repetido que o convenceria da grandiosidade de seu poder.
Apenas quando já estava decidido a dispensar o charlatão e continuar sua busca, seu corpo estancou em verdadeiro espanto.
— Isso é...? — Principiou, aproximando-se boquiaberto, sem conseguir concluir sua fala. Os pensamentos entraram num turbilhão à medida que o homem fiava com extrema desenvoltura, os trejeitos de suas mãos ágeis dando vida à transformação que Claude buscara a vida inteira nos seus estudos sobre a alquimia.
— Ouro — o Senhor das Trevas completou, finalmente vislumbrando o espanto naquele homem tão incomum dentro de suas próprias mediocridades. Rumpelstiltskin pegou o fio que fiara propositalmente apenas pela metade, entregando-o a Frollo.
Ele aceitou de imediato, passando o dedo fascinado pela extensão áspera da palha até o momento em que ela se tornava tão lisa e cintilante quanto dourada.
“Não pode ser...” — Conjecturou, procurando alguma falha ou indício que revelasse o truque, sem chegar nem perto de obter sucesso. Frollo dedicou longos anos infrutíferos de sua vida tentando desvendar os tantos mistérios da alquimia, e em poucos segundos aquele homem dera vida à maior pretensão daquele estudo. Se existia um feiticeiro capaz de manipular o cerne de uma matéria e transformá-la em outra completamente distinta, com tamanha facilidade, realmente se perguntava se haveria algo que a criatura não conseguisse fazer.
— E então, dearie... Meus poderes estão à altura dos seus anseios juvenis? — Deu um pequeno saltito empolgado junto a mais um riso repleto de deboche, toda a composição de seus movimentos em conformidade com os trejeitos de suas mãos.
Frollo encarou o feiticeiro ainda com espanto, contemplativo. Fechou com força aquele inusitado híbrido de palha e ouro entre os dedos, e tomou sua decisão.
— Poderá ter seu acordo comigo, mas hoje não vim aqui a meu próprio serviço. Fui incumbido por Hades para encontrá-lo. No momento, é com ele que você deve falar.
— Hades... — à menção daquele nome, o olhar de Rumpelstiltskin imediatamente cerrou-se num brilho ameaçador. Jogou-se com rapidez contra Frollo, prensando-o no tronco de uma árvore larga à medida que apertava o pescoço do mortal com força, sussurrando entredentes — Não me tome por um tolo, humano! Com quem pensa que está brincando? — Constringiu ainda mais o pescoço do padre, disposto a matá-lo com suas próprias mãos, arreganhando os dentes em fúria pelo tempo perdido e por ser alvo da troça daquele ser tão insignificante.
— Eu... posso... provar... — Claude anunciou com dificuldade, retirando do bolso interno o amuleto que o deus da morte fizera para si com uma chama da própria cabeça. A criatura de pele reptiliana vacilou brevemente na compressão que fazia ao pescoço do padre, encarando o objeto com dúvida. Por fim devotou sua total atenção à labareda azul dentro do pingente, agora ele embasbacado com o que via. Soltou Frollo e pegou o invólucro para si, inspecionando cuidadosamente o objeto — Tenho meu próprio acordo com Hades, e ele consiste em encontrar você para obter o que quero — contou numa voz perigosamente rouca, massageando o pescoço machucado.
“É a segunda vez no dia que esse objeto salva a minha vida...” — Pensou, estarrecido.
— Como você fez isso? — Rumpelstiltskin o questionou com urgência, balançando o pêndulo a centímetro de seu rosto, agora sem nenhum traço da antiga expressão jocosa — Como? — Rugiu, exasperado.
— Já disse. Me foi dado por Hades. Os dois demônios que você transfigurou podem confirmar o que digo, se não está convencido.
— O que o deus da morte quer comigo? Não temos nada a tratar! — O Senhor das Trevas apertou o cabo de sua adaga como um amuleto protetor, capaz de recordá-lo de sua imortalidade — Eu não morro, rapaz! — Asseverou, quase incapaz de esconder o temor permeando cada sílaba. Naquele momento, sentiu-se o mesmo Rumpelstiltskin covarde de outrora, quando ainda não possuía nenhum poder além do amor de seu filho.
— Ele não quer discutir sua longevidade nem nada do tipo — garantiu, conseguindo perceber o que afligia o feiticeiro. — Hades quer fazer um acordo — tentou ser o mais sucinto possível, explicando a situação na linguagem que aquele homem parecia entender.
— O deus da morte? Quer fazer um acordo? — Repetiu, incrédulo, porém mais controlado. — O que ele poderia querer barganhar comigo, se dispõe de poderes divinos para atingir seus próprios desígnios?
— Não exatamente. Não consegui compreender tudo, mas Hades está amaldiçoado, ou algo do tipo. Não possui mais seus poderes, ou ao menos não os possui na mesma complexidade de antes.
— Não me diga... — Encarou a faísca azul novamente, agora seu olhar faminto. Percebia que dali emanava uma aura mágica que ele jamais viu igual, algo que ele poderia classificar como etéreo. Se o homem à sua frente dissesse a verdade, o preço de tal acordo seria imensurável. Pousou sua atenção novamente nos objetos que antes davam forma a Pânico e Agonia, sedento por respostas — Essas criaturas são do submundo?
Frollo assentiu, e Hades imediatamente devolveu suas formas de origem aos dois. Agonia rodopiou um pouco, como um resquício do movimento circular que a roca fazia ao ser ativada, e Pânico, por sua vez, estralou as costas, como se sentisse dor por ter amparado o peso do Senhor das Trevas enquanto serviu de banco a ele.
— Valha-me Zeus, não se tem um minuto de dignidade nesse emprego... — Pânico asseverou, ainda alongando a coluna.
— Hades nos garantiu que ele seria o único a nos torturar, mas nem essa decência teve... — Agonia contribuiu com o clamor revoltado, ainda encontrando dificuldade em achar o próprio equilíbrio. — Mas veja pelo lado bom, Pânico... pelo menos você não está girando...
— Ele se sentou na minha cara, você quer mesmo competir, Agonia? — Revoltou-se, passando as mãos compulsivamente no rosto como se tentasse se livrar do cheiro residual.
Agonia estava prestes a retrucar, porém foi surpreendido pelo Senhor das Trevas, que sem sequer anunciar sua aproximação, prostrou-se atrás do demônio e retirou um fio de seu cabelo, guardando-o dentro de suas vestes.
— Ai! — O ser do submundo massageou a cabeça, inconformado.
— Vou analisar isto! Se essa história for um engodo, irei descobrir e tomar minhas próprias providências — Rumpelstiltskin anunciou em tom de ameaça.
— Me parece justo — Frollo concordou, vendo vantagem naquele tempo em que ambos poderiam analisar melhor suas opções. Recuperou o pingente que Hades lhe dera, ainda pigarreando com um incômodo forte no local em que seu pescoço fora comprimido — Quanto tempo precisa para se convencer do que eu disse?
— Não mais que algumas horas, dearie. É tudo o que preciso para desmascarar até o maior dos mentirosos — Advertiu, num tom de voz programado para intimidar.
— Também darei essa amostra a Hades, para que analise se suas capacidades são compatíveis ao que ele busca — rebateu num tom similar ao timbre passivo-agressivo do Senhor das Trevas, referindo-se ao fio de palha transfigurado pela metade em ouro. — Se Hades estiver propenso a fazer o acordo com você, estarei aqui ao final do próximo pôr do sol. Havendo interesse de sua parte, venha me encontrar e selaremos o pacto.
— Me parece que temos um acordo. Mas, antes de partirem... Preciso de uma gota do seu sangue para realizar o feitiço — deu um sorriso maldoso, oferecendo a Frollo o cabo de uma pequena lâmina afiada, percebendo-o hesitar por um instante. — Se preferir, eu mesmo posso coletar. — Seus olhares se demoraram quase em desafio, até que o padre por fim se rendeu e aceitou o objeto, perfurando a palma da mão até o líquido viscoso e rubro tingir a lâmina.
O Senhor das Trevas recuperou o artefato com rapidez, coletando o sangue numa ampola transparente e o guardando junto ao fio de cabelo do demônio, como se fossem tesouros. Sua voz musical novamente se fez ouvir em meio a uma breve risada satisfeita.
— E como prova de minha boa vontade... — Principiou, girando o punho naquele mesmo gesto veloz que prenunciava uma de suas feitiçarias. No segundo seguinte, Frollo sentiu o corte formigar intensamente até a completa cicatrização, como se nunca houvesse existido qualquer ferimento ali. O arquidiácono encarou o feiticeiro com um misto de admiração e receio, massageando a mão como se a pele recém-curada estivesse amaldiçoada. — Não espere mais nenhuma caridade de minha parte, dearie — asseverou, o olhar intenso de brilho vil em completa disparidade com o sorriso estampado na face. — Nada mais virá de graça.
Apenas anuindo, Claude lhe deu as costas, sendo seguido pelos dois demônios que o acompanhavam. Rumpelstiltskin dedicou um tempo maior ali, vislumbrando num silêncio contemplativo os três seres se afastarem pelo mesmo caminho que vieram.
O sorriso trocista desfaleceu nos lábios do temido Senhor das Trevas, a expressão agora endurecida pelo significado daquele encontro um tanto quanto inusitado. Lançou um último olhar perigoso na direção do trio que sumia pelo horizonte, só então se permitindo também retirar-se.
Uma fumaça tão negra quanto densa o rodeou em espiral ascendente, transportando-o para sua mansão a quilômetros dali. Caminhou num ar contemplativo até seu laboratório, ansioso como há muito não se sentia.
Detestara, mais do que tudo, reviver a covardia que era sua contumaz companheira séculos atrás, quando não passava de um aldeão, famoso apenas por quebrar a própria perna para fugir da guerra. As sequelas daquela decisão não se limitaram à esfera física, mas moldaram tudo o que ele viria a se tornar dali em diante, além de impactar no próprio relacionamento já abalado com a esposa e com o filho.
Baelfire. O doce garoto que se tornara a maior vítima de suas tantas covardias, mas que, agora, poderia ser recuperado diante dos fatos que se desenrolaram.
“Hades... Se tudo realmente for verdade, será o acordo mais caro da história...” — Conjecturou, tentando afastar a lembrança do desespero que sentiu quando julgou que o senhor do submundo queria revogar sua imortalidade. Tentando, a todo custo, focar o pensamento na importância de encontrar seu filho. Era ele que importava, e apenas ele.
Tentando esvaziar a mente, começou a trabalhar na poção que lhe revelaria a verdade sobre aquela estranha tríade que encontrara. Com um simples gesto, fez uma bacia com água aparecer acima de labaredas intensas, atiçando o ardor do fogo com seu próprio poder, sem paciência para esperar o tempo natural de fervura.
Assim que o líquido entrou em ebulição, Rumpelstiltskin acrescentou pó de lua, percebendo com impaciência a água adquirir um brilho prateado sutil. Sentiu, no mesmo instante, o odor leve de ferrugem chegar às suas narinas através da fumaça produzida. Percebendo o coração ribombar com força em seu peito, adicionou a gota de sangue do mortal, percebendo o líquido vermelho avolumar-se e se espalhar pela mistura, como pequenas vênulas tortuosas que se iniciavam no centro da poção e se direcionavam à periferia, até que ocupasse toda a extensão visível da mistura num borbulhar frenético.
Conforme a reação entre as substâncias se concretizava, sua urgência por respostas crescia num nível irreversível. Assim que a tonalidade da poção atingiu o ponto adequado, o mago pegou o fio de cabelo que roubara da criatura rosácea, sem perceber prendendo a respiração por conta da ansiedade.
“Vamos dar uma olhada nos elementos da história que você convenientemente omitiu, dearie...” — elucubrou, instigado a entender todo o contexto verdadeiro do que lhe fora contado.
Jogou o último ingrediente à mistura, sem se dar conta debruçando-se sobre o recipiente com afã.
O efeito foi imediato.
Num estrondo que Rumpelstiltskin não esperava, a poção borbulhou intensamente, tornando-se tão negra quanto o coração mais injetado de trevas. A textura lodosa do líquido aos poucos foi se fluidificando à medida que sua coloração se tornava paulatinamente límpida, até que o Senhor das Trevas começou a vislumbrar imagens de um passado que não conhecia, mas que muito o interessava.
Conforme as cenas se desenrolavam diante de seu olhar atento, um sorriso carregado de cobiça crescia em seus lábios finos.
Agindo como um espelho cristalino de momentos que não conhecia, a poção revelou todas as imagens relevantes para sanar suas maiores preocupações e dúvidas. Desde o momento em que Zeus rompera com Hades no Olimpo e o enclausurara a viver uma existência medíocre no Mundo Inferior. Vislumbrou com interesse redobrado o agouro profetizado pelas deusas do destino. Passou pelas tentativas improdutivas dos demônios no intuito de encontrar o feiticeiro dos versos que as Moiras anunciaram, chegando até o momento em que ele, o próprio Rumpelstiltskin, aparecia em cena como uma alternativa.
E sabia, no mais íntimo do seu ser, que o feiticeiro referido na profecia se tratava dele mesmo. Sem se conter, ergueu a adaga de lâmina tortuosa que tinha seu nome gravado, pousando-a na altura de seus olhos para admirar cada detalhe, cada arabesco que fazia daquela uma arma única. Certamente a mais perigosa de todas.
Em sua mente, pôde idealizar uma adaga idêntica àquela que segurava, com uma única diferença crucial em seu cerne, na inscrição da lâmina. Uma diferença capaz de mudar absolutamente tudo. Ao invés de seu nome, era o de Hades que estava gravado.
Fora imediatamente atraído para aquela porção da Floresta assim que sentiu a presença da alma mais atormentada que já pisara nos domínios daquela terra, imaginando que arranjaria apenas um acordo ordinário com alguém sem importância, mas, contrariando todas suas melhores expectativas...
“Quem diria... Terei o próprio deus da morte em minhas mãos...” — Um riso satisfeito escapou de sua garganta, incapaz de acreditar na própria sorte.
Mal podia esperar pelo crepúsculo do dia seguinte, quando firmaria o maior de todos os acordos que já fizera.
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