O Preço da Magia
25 Episódio 25: Nous Sommes À L'aube D'un Monde Qui Se Scinde
Notas iniciais
Frollo vislumbrava minuciosamente o cenário, o desprezo mostrando-se evidente no olhar semicerrado.
Conforme caminhava, o odor fétido de enxofre subia com violência até suas narinas, lembrando-o a cada minuto da situação em que colocara a si e sua Esmeralda.
Moldado num jogo de sombras, penumbras e esparsas luzes, aquele ambiente mortífero parecia a própria síntese do íntimo do arquidiácono. Ressecado, morto, desesperado. Infrutífero, assim como o próprio Frollo se sentia em cada mínimo aspecto depois de perder o amor de sua cigana.
Hades, a estranha criatura divina para quem ele vendeu sua alma sem sequer pestanejar, tagarelava ao seu lado, gesticulando em meio ao timbre gutural que parecia um prelúdio dos incontáveis milênios de sua existência.
— Aqui, como pode ver, não tem grandes mistérios. Enxofre, rio das almas, cachorro de três cabeças assassino e dois demônios imbecis. Estou certo de que daqui a um ou dois séculos, no máximo, já se sentirá em casa — asseverou, passando o braço no ombro rígido do humano de forma cúmplice, sentindo-o se retesar de imediato. — Poderíamos festejar sua chegada antes de dar início aos trabalhos que temos pela frente, mas não costumo me importar com meus lacaios.
— Tudo o que me interessa é que cumpra sua parte no nosso acordo. Pouco me importa o resto.
— Entendi, sem rodeios. Vejo que é um homem de negócios pouco propenso a enrolações. Eu até diria que respeito isso, mas estaria mentindo. Vocês, humanos e suas motivações esdrúxulas, sempre me enojaram. Vamos aos negócios então! — Prostrou-se à frente de Frollo, a expressão vil e o brilho cruel de seu olhar plenamente focados no rosto determinado do humano — Mostre-me do que é capaz, padre, e garanto que posso fazer com que a cigana seja sua num piscar de olhos.
— O que devo fazer? — Questionou de pronto, não conseguindo disfarçar a ansiedade que transbordava de seus movimentos mais sutis — Basta me dizer, e eu farei!
— Sinto que vamos nos dar bem, rapaz! — O sorriso de Hades se ampliou, deixando à mostra os dentes pontiagudos e aumentando a intensidade de seu olhar perigoso. Após a desconcertante pausa, retomou a fala — Tenho alguns assuntos não resolvidos no mundo dos mortais, mas por questões... familiares... me encontro impossibilitado de deixar o submundo até que essas pendências sejam resolvidas.
— Quer que eu faça essa intermediação entre o inferno e o mundo dos homens?
Hades arqueou as sobrancelhas, agradavelmente surpreso com aquele raciocínio lógico tão básico.
— É realmente um alívio lidar com um servo que tenha um mínimo de argúcia. Acostumei-me mal àqueles dois boçais — um brilho irritado relampejou rapidamente por seus olhos ao mencionar Pânico e Agonia. — Sua visão de mundo ainda é bem limitada com essa dualidade entre céu e inferno, mas sim, sua função aqui é basicamente essa... Você há de servir! — Aproximou-se de Frollo com um sorriso intimidante, o hálito quente do deus da morte batendo em lufadas no rosto do arquidiácono, o gesto programado para soar ameaçador tal qual sua postura — Ao menos esperamos que sirva, para o seu próprio bem! Tanto Pânico quanto Agonia testaram minha paciência para além de qualquer limite, e não me sinto nada propenso a continuar relevando erros.
Hades arrumou novamente a postura, de um segundo a outro suavizando seu semblante para traços um pouco mais pacíficos. A mão direita vasculhou brevemente o interior de sua túnica, tão negra quanto as noites mais sombrias, surgindo no segundo seguinte com uma espécie de pingente.
— Nosso maior empecilho aqui é Cérbero. Ele é um doce, pode acreditar em mim — ergueu os lábios num sorriso irônico —, mas não aceita muito bem humanos ultrapassando a passagem do submundo. Fica, digamos... com um péssimo humor — conforme falava, Hades levou o pingente ao topo de sua cabeça, coletando uma pequena labareda para dentro do invólucro, lacrando-o em seguida. — Sendo assim, sua mortalidade é algo extremamente inconveniente, mas que pode ser contornada com facilidade. Use isto — passou o pingente agora com chamas flamejantes e extremamente dinâmicas a Frollo, que por um momento sentiu medo de tocá-lo, hesitando apenas por um átimo de segundo —, e Cérbero não irá incomodá-lo. Eu acho! — Sorriu com mais intensidade, percebendo o humano disfarçar consideravelmente bem o receio que sabia dominá-lo. — E lembre-se: sua humana estará sempre em meus domínios, sempre ao meu alcance. Qualquer traição de sua parte, será ela a pagar o preço.
A postura de Frollo imediatamente se tornou mais austera, e Hades achou graça ao perceber o breve lampejo de desafio passar pelo olhar do arquidiácono.
— Não terá problemas comigo, demônio — segurou o pêndulo com força, torcendo para que aquela espécie de amuleto fosse capaz de protegê-lo da fúria do animal bestial que guardava o estranho inferno.
O deus da morte riu, sempre admirado ante a pequenez dos humanos. Tão tolos e aparentemente tão dependentes de suas próprias crenças limitadoras.
— Isso quem decide sou eu, meu caro — anunciou num tom pouco amigável. — Mas deixando as amabilidades de lado, vamos ao que importa. A essência do que terá que fazer é muito simples... Deve vagar pelos mundos em busca do mago poderoso que me foi profetizado pelas Moiras, as três deusas do destino.
— Mundos? — Inquiriu confuso, imaginando que não ouvira certo. Pouco entendera de tudo que Hades dissera, mas foi aquele detalhe que mais o intrigou.
— Isso mesmo, rapaz. Ao contrário de tudo o que você acredita, nossa existência é rodeada por mais realidades do que sonha tua vã filosofia. O mundo do qual você fazia parte é apenas uma dessas tantas realidades, e uma das mais insípidas, por sinal. Alguns desses mundos são dotados de magia, na sua forma mais pura ou na sua forma mais corrompida. Outros mundos sequer a conhecem. O seu experimentava uma parcela risível dessa magia, e suas tímidas manifestações sempre foram tratadas como algo nocivo, sempre liquidadas por homens medíocres que temem perder o controle. A cada novo século ela foi sendo cada vez mais suprimida, até a quase extinção. A mulher que trouxe consigo é um exemplo raro do fiapo sobrevivente da magia do seu mundo, assim como o povo do qual ela deriva. Outras realidades, mais sábias, cuidam melhor dessa dádiva e a cultivam.
— Como serei capaz de acessar esses mundos?
— A única vertente em comum entre cada um dos mundos é que, cedo ou tarde, todos morrem — Hades abriu um sorriso perverso. — Todos os caminhos trazem para cá, não importa de onde você venha ou para onde pretende ir. Ao fim da jornada, seu espírito se juntará a todos os outros errantes no rio das almas. Dessa forma, é possível fazer o caminho inverso e acessar todas as realidades a partir do Mundo Inferior — abriu os braços, indicando que falava do lugar em que estavam.
— E como posso reconhecer esse mago poderoso de que fala? — Frollo questionou, incapaz de compreender de que forma ele poderia ser útil naquela empreitada totalmente diversa dos seus conhecimentos e vivências.
— Com seu discernimento. Algo que Pânico e Agonia jamais chegaram perto de possuir. O pingente que eu lhe dei não serve apenas para passar ileso por Cérbero, ele te dará uma noção de quais são os mundos que possuem uma quantidade relevante de magia, para que não fique vagando por lugares inúteis à minha busca, tal qual aqueles dois boçais. Mas esse subterfúgio não será capaz de dar pistas do mago que eu procuro. Isso dependerá exclusivamente de você. Desbrave esses mundos e use sua astúcia para encontrar o mago talentoso da profecia.
Frollo encarou por mais tempo o amuleto de faíscas azuis, pensativo. A atenção do ser imortal desfocou-se por um instante do arquidiácono, em busca dos serviçais que tanto o tiravam do sério.
— Pânico! Agonia! — Urrou, vislumbrando com aversão os asseclas se arrastando aos tropeços para perto de si. Pânico freou a corrida apenas a centímetros de esbarrar no deus, porém seu esforço de não trombar em Hades foi completamente arruinado por Agonia, que calculou mal sua corrida e bateu com a protuberante barriga no companheiro, fazendo-o se desequilibrar sobre a túnica de seu mestre.
— Pois não, Vossa Malignidade — Agonia posicionou a mão em riste na testa rosada, direcionando o olhar para cima numa continência patética.
— Estamos aqui para servi-lo, senhor das desesperanças! — Pânico emendou, também adotando a mesma postura servil após finalmente erguer-se.
— Escoltem o humano para os caminhos além do submundo. Deixem-no a par dos seus risíveis avanços, se é que se pode chamar assim, e acompanhem-no nas novas investidas para achar o mago da profecia.
— Mas, mestre... — Pânico principiou, naquele instante seu semblante fazendo jus ao significado do próprio nome — Não estamos livres desse serviço agora que trouxemos o humano?
Agonia se pôs à frente, iniciando o tagarelar que em segundos tiraria Hades do sério.
— Pensamos que não teríamos mais serventia para Vossa Ruindade no cumprimento da profecia, e decidimos tirar umas férias nas Bermudas — o demônio ergueu a protuberante banha com as mãos, orgulhoso, revelando que vestia um traje de banho floral bem justo, antes escondido pela barriga — Veja, mestre, já estou até a caráter...
— BASTA! — Hades rugiu, o fogo em seu couro cabeludo crepitando de forma perigosa. Massageou o osso protuberante entre as sobrancelhas, farto da estupidez daqueles dois inúteis — Vocês, criaturas nefastas, são escravos do submundo. Se um dia tirarem férias, será no estômago faminto do Cérbero, quando eu finalmente perder a paciência e decidir me livrar dessa dupla paspalha! Algo que, com o passar das idiotices que sou obrigado a ouvir, está perigosamente próximo de acontecer — Ameaçou, percebendo-os engolirem em seco. — Entenderam?
Os dois disseram em uníssono:
— Sim, Vossa Lugubresidade...
— Ótimo! Agora tire essa porcaria, Agonia — referiu-se à sunga, desagradado —, e nunca mais me obrigue a ter essa visão repugnante novamente! Ao trabalho, os três! — Sentenciou, afastando-se dos serviçais ainda em meio a resmungos desacreditados — Férias...
Frollo observava a cena ainda sem acreditar que aquela era sua nova realidade, e muito menos que teria que conviver com as duas criaturas no mínimo excêntricas. Olhou para o pingente entre seus dedos, como se buscasse uma confirmação daquela nova condição em que se encontrava.
— Eu gostei da sunga — Pânico tentou consolá-lo, dando uma cotovelada amigável no braço do comparsa. — Prefiro nadar pelado, mas tenho que admitir que ficou bem estilosa...
— Eu também achei... Do balacobaco...
“Enfiei-me num picadeiro... Temi tanto pela minha sanidade, e agora percebo que a perdi junto com o amor de minha cigana!” — Frollo considerou em pensamento, cogitando seriamente se as últimas horas vividas na presença daqueles seres se tratava de alguma alucinação cruel criada por sua mente para torturá-lo ainda mais.

Alguns minutos depois, Frollo encontrava-se novamente na barcaça que o trouxera até aquele local das mais inusitadas sandices. Tanto Agonia quanto Pânico dividiam com ele o diminuto espaço, ambos parecendo ainda mais desconfortáveis do que o próprio padre com a proximidade do cachorro de três cabeças.
O barco que os amparava era conduzido pela própria fluência das almas que vagavam no rio, o ambiente nitidamente mais frio acima das águas mortíferas. O ritmo do avanço era cadenciado, quase demonstrando desinteresse pelo percurso. Passaram a sentir um tremor nas águas, e tanto Pânico quanto Agonia se entreolharam com desânimo.
No segundo seguinte, Frollo entendeu que aquele tremular era proveniente do rosnado baixo e potente de Cérbero, ao perceber que tinha companhia, e que aquelas almas desgarradas pretendiam sair de seus domínios. Os dois demônios se encolheram à visão do cachorro gigantesco, e assim que o barco se aproximou minimamente da orla em que a besta jazia, Cérbero adiantou todas as suas cabeças até os integrantes do barco, farejando.
Frollo segurou com mais força o amuleto que Hades lhe dera, quase sentindo o fogo em seu interior lhe esquentar a mão. As três cabeças ignoraram Pânico e Agonia, interessadas apenas no arquidiácono. Como se o próprio animal tivesse dado a ordem silenciosa, o rio parou o avanço do barco para que o cachorro do submundo pudesse fazer sua vistoria acerca dos integrantes da pequena barcaça.
O ar quente e fétido do hálito de Cérbero invadiu todo o ambiente ao redor do padre, que instintivamente procurou o crucifixo em seu pescoço naquele gesto tão natural a si quando buscava proteção. Porém, não estava mais nos limites de seu deus, e mesmo que estivesse, ele era dominado pela certeza de que nenhuma de suas preces seria atendida.
Sem encontrar o crucifixo que havia jogado fora no mundo dos mortais, Frollo apertou o amuleto que ganhara há pouco de Hades e, sem entender como, conseguindo manter-se ereto diante do analisar minucioso de Cérbero. Os três pares de olhos bem rubros cravados em si e donos das mais cruéis ameaças.
A cabeça do meio entoou um rosnado irritado, dando visão aos enormes dentes afiados da criatura. Um fio da saliva do animal voou na direção de Frollo, encharcando-o. O focinho gigantesco empertigou-se em sua direção, farejando o homem num equilíbrio exato entre minúcia e ameaça. A atenção do animal logo se voltou à mão direita do padre, segurando o amuleto dado por Hades.
Assim que Cérbero reconheceu aquele pequeno pedaço de seu mestre, afastou-se do humano, porém nitidamente desagradado por se ver obrigado a domar seus instintos assassinos. Fungou, como que querendo externalizar sua frustração, e todos os olhos se mantiveram ainda cravados nos passageiros que tencionavam ir de encontro à outra margem.
O barco, como se novamente comandado por Cérbero, tornou a navegar sobre o rio das almas, afastando-se da bestial criatura com menos rapidez do que todos ali gostariam. Quando já se encontravam relativamente à distância, Pânico escorregou o corpo trêmulo pela baleeira, um suspiro aliviado escapando de seus lábios.
— Nunca me acostumo com essas cabeças fiscalizando a passagem... — confessou, ainda apresentando tremores difíceis de controlar.
— Nem me fala... Ainda me pergunto por que me candidatei a esse emprego... — Agonia concordou, por um instante parecendo arrependido — Devia ter mandado currículo pra Monsters Inc. quando abriu seleção... — desabafou num timbre triste.
— Lá eles têm férias... — o outro demônio asseverou com um toque de rancor, insatisfeito com as condições proporcionadas por Hades, porém ao mesmo tempo incapaz de demonstrar seu descontentamento ao próprio deus da morte.
— ...e salário! — Agonia complementou, triste.
O silêncio se estabeleceu assim que sentiram o suave tranco do barco colidindo na outra margem do rio das almas, anunciando que a desconcertante passagem finalmente chegara ao fim. Os demônios pularam de imediato para longe do barco, notando o humano ainda estático no mesmo lugar. Seus olhos estavam bem fechados, e ele segurava à frente do peito o amuleto dado por Hades, dotado do mesmo fervor que outrora sentira pela religião que hoje não lhe significava mais nada.
“É bom que possa proteger minha cigana, demônio maldito!” — Frollo conjecturou, apavorado pelos perigos que percebia estarem à volta de sua menina pagã, por sua culpa. Simplesmente porque ele não fora capaz de reconquistar o amor de Esmeralda. Porque, ao fim de todos os seus esforços, ela o obrigara a tomar as medidas mais drásticas possíveis diante de tantas recusas.
Instintivamente Frollo apertou o pingente entre os dedos, imaginando o que teria sido de si caso ele atravessasse o caminho daquela besta de três cabeças sem a proteção do estranho amuleto.
Apavorado, acima de tudo, por imaginar como aquele lugar mortífero tinha potencial para destruir o corpo e a alma da mulher que tanto amava.
Pânico enviesou o rosto, em dúvida ao ver o antigo padre totalmente inerte.
— Você acha que o humano quebrou?
— Talvez... Aquele cachorro sabe aterrorizar como ninguém, lembra da nossa primeira vez? — Tremeu, negando com a cabeça como se tentasse espantar a lembrança. — Ou ele ficou muito deprimido por descobrir que não tem direitos trabalhistas... — Agonia arriscou o palpite, quase sentindo compaixão pelo infortúnio do homem.
— Não podemos deixar nosso bode expiatório ficar inútil, ele é nosso escape da fúria de Hades! — Pânico atestou, preocupado — Ei, humano! — Cutucou-lhe a canela, sem cuidado — Vamos, temos trabalho a fazer!
Frollo pareceu despertar apenas naquele instante, encarando com extremo asco o demônio que ainda o cutucava. Puxou com força a bainha da calça, fuzilando-o com o olhar.
— Não torne a me tocar, aberração! — Alertou, finalmente saindo do barco a passos rígidos, porém firmes — Mostrem-me logo quais caminhos tomar! — Ordenou num tom que não permitia contestação, já caminhando à frente dos dois para longe da margem do rio.
— Pânico... — Agonia o chamou devagar, parecendo um tanto absorto — Trouxemos um segundo Hades ao submundo?
— Parece que sim... — seu companheiro anuiu com desagrado, imaginando até que ponto teriam feito uma boa jogada ao delegar suas antigas funções ao arquidiácono — Parece que sim... — Repetiu, passando a acompanhar os passos do humano em completo desalento.

Já diante das várias bifurcações que permitiam deixar o submundo, Frollo perscrutava com atenção o pingente que Hades lhe dera, correlacionando as causas e efeitos que a escolha de determinadas passagens ocasionavam no objeto. Percebeu certo magnetismo ser liberado do invólucro conforme era direcionado para caminhos que, ele julgou, eram dotados de maior carga de magia. Ao olhar mais atento, o pêndulo com a chama do deus da morte parecia brilhar um pouco mais dependendo da direção tomada.
— Quais destes caminhos vocês já seguiram? — O padre inquiriu, atordoado com a quantidade considerável de possibilidades à sua volta. Algumas passagens sequer pareciam diferenciar-se num primeiro momento, como se fossem mundos gêmeos compartilhando a mesma origem, para só então se separarem.
— Terminamos todo esse quadrante — Pânico apontou, deixando uma gama ainda gigante de possibilidades ao padre.
— Este lado? — O humano questionou, descrente. — São caminhos em que a magia parece se manifestar com muito menos força... Certamente não obteriam sucesso, deviam ter apostado no lado oposto. Aqui parece estar concentrada toda a essência desse poder — asseverou, surpreso ante o magnetismo forte do pingente, praticamente o puxando para aquele caminho.
— Tivemos alguns bons palpites desse lado, mas Hades detestou todos — Agonia adotou um ar saudoso. — Ainda não me conformo que o macaco não foi uma boa opção...
— Era mandril — o outro demônio o corrigiu pelo que julgou ser a milésima vez.
— Basta seguir em frente? — Frollo perguntou sem ao menos ouvir o que os demônios haviam dito, e tampouco sem esperar por uma confirmação verbal àquela pergunta retórica, já que seus pés pareciam afoitos por desbravar o desconhecido diante de si. Invariavelmente pensou em todos os anos infrutíferos que dedicara ao estudo da alquimia, e que talvez o principal ingrediente às pretensões daquela ousada ciência estivessem bem ali, apenas aguardando para que ele o descobrisse. Noutra época, estaria em êxtase diante de tal possibilidade, porém hoje seus maiores interesses se afunilaram naquela única menina de olhos pagãos e sorriso matreiro.
O pingente latejava sobre seus dedos, parecendo quase afoito à medida que Frollo seguia pelo caminho escuro e ainda dominado pelo enxofre, sem nenhum atrativo adicional das promessas de uma terra de poderio fantástico.
— Não sei se é muito indicado vir por aqui... — Pânico praguejou, sentindo o corpo estremecer ao ser dominado pelo mau agouro das lendas locais. — Dizem que essa região é dominada por um ser maléfico capaz de controlar as próprias trevas...
— Me embrulha o estômago só de pensar... — Agonia emendou, amparando a barriga com os braços finos como que para comprovar seu ponto.
Frollo parou por um minuto, fitando-os com verdadeira incredulidade.
— E não é exatamente isso que seu mestre busca? — Ergueu uma sobrancelha julgadora diante da expressão subitamente estarrecida dos demônios, como se um grande enigma lhes fosse revelado apenas naquele momento.
Retomaram o caminho em silêncio, Pânico e Agonia se encarando com culpa e indiscutível medo. Foi o demônio azul quem sussurrou para o comparsa, gemendo.
— Hades vai nos matar...
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