O Preço da Magia
18 Episódio 18: Comme À La Mode Païenne
Notas iniciais
A mente de Clopin rodopiou numa incerteza turva e enfurecida ao captar a cena que agora o assombrava. A criança que ele acolhera coberto de amor, compaixão e um sentimento de profunda paternidade, se tornara uma adulta capaz de confraternizar com o maior assassino de sua estirpe.
Sua Esmeralda. Sua menina...
Sua filha. Uma traidora dos próprios costumes e de seu povo.
O quadro que se mostrava à sua frente soava como uma realidade que exigia enorme esforço à compreensão do boêmio. Mesmo que seus próprios olhos testemunhassem o quão verídica era aquela cena, parecia um tanto difícil acreditar que realmente vivia aquela terrível revelação de sua criança.
Compreendeu, de súbito, as apreensões que a cigana demonstrara quanto à invasão programada à catedral. Como se seu inconsciente tentasse defendê-lo da terrível imagem à frente — em que Esmeralda se prostrava nua, cheia de intimidade, ao lado do arquidiácono —, a mente do líder do Pátio vagou para algumas horas atrás, remoendo o próprio infortúnio à velocidade de milésimos de segundo.
Estava sentado num toco morto de árvore que fora incendiada junto à maioria das casas na última visita dos soldados reais. Sua mente, irrequieta e tomada por mirabolantes visões de como transcorreria o ataque à Notre Dame, não o deixava sossegar antes da invasão, jogando a ele cenas despretensiosas e que pouco lhe ajudariam naquele contexto de adversidades. Mais do que tudo, tentava buscar pela própria concentração, ciente de que era necessário manter o sangue frio até que seu plano chegasse ao fim. Estava tão imerso nas próprias conjecturas, que sequer percebeu o aproximar sorrateiro da cigana que o encarava com seus olhos negros intensos, também contemplativos, como se eles vissem através do líder.
— Se carregasse algo de valor comigo, usaria para apostar que você sequer se mexeu daí após planejarmos o ataque dessa noite... — A cigana não pôde evitar sorrir ao percebê-lo se sobressaltar com sua presença, e algo se aqueceu em seu peito já tão maltratado quando o olhar do homem se iluminou ao reconhecê-la.
— Minha ansiedade é assim tão óbvia? — Deslocou-se sobre o tronco, dando espaço para que Sara se acomodasse ao seu lado. Ela suspirou ao se sentar, deixando que a atenção se fincasse nos últimos instantes de luminosidade solar. Um dos momentos do dia que mais amava, de intraduzível beleza, porém hoje carregando um teor melancólico pelo significado do que estavam prestes a fazer.
A hora estava próxima, e ela, tão bem quanto seu líder, conseguia distinguir a tensão recaída sobre o Pátio dos Milagres, que de forma atípica passava seus dias mergulhado em silêncio e angústia.
Sem música. Sem dança. Desprovidos do espírito cigano.
— Sua ansiedade não, Clopin. Sua vontade de nos impulsionar em busca de algo melhor. — Sorriu de leve ao fitá-lo de esguelha, oferecendo ao homem uma marmita — Vamos, você tem que comer alguma coisa. Mais do que nunca precisamos que você esteja forte para nos guiar essa noite.
O líder dos ciganos aceitou de bom grado o alimento trazido por Sara, encontrando cheio de gratidão o olhar da mulher.
— Eu não tinha me dado conta de que já era tão tarde... Obrigado, irmã! — Agradeceu, surpreso ao se dar conta de que aquele tratamento tão comum entre os egípcios o incomodou ao ser direcionado a ela. Sem que pudesse controlar, imaginou a textura da pele escura contra a sua, e logo se repreendeu com afinco por desrespeitá-la em pensamento. Por mais que guardasse as mais sinceras intenções em seu peito, não poderia haver momento mais inoportuno para aquele tipo de distração.
— Não precisa agradecer. É nosso dever cuidar uns dos outros... Irmão. — Ela devolveu o tratamento com algum traço involuntário de diversão na voz. Como se também intuísse o quanto aquele título simplesmente soava desonesto quando usado com o líder. — Eu te aconselharia a dormir um pouco, mas acho que ninguém vai ser capaz disso... Não tão cedo, pelo menos. Então me contento em vê-lo comer... — Ergueu as sobrancelhas, indicando o alimento ainda intocado no colo de Clopin. Ele obedeceu de pronto, já se sentindo um tanto mais leve e tranquilizado pela presença da boêmia, embora realmente se intrigasse com sua postura.
Era fascinante, no mínimo, a forma com que aquela cigana lidava com as desgraças que recaíam sobre eles.
— Como você consegue? — Ele finalmente inquiriu, não conseguindo desviar os olhos de cenho franzido da mulher, que pareceu ligeiramente surpresa com o súbito questionamento.
— Não é tão difícil quanto parece... Você basicamente joga todos os ingredientes numa panela e fica mexendo até dar o ponto... O verdadeiro segredo é saber temperar, e...
— Não! — Clopin a interrompeu em meio a um dos poucos risos honestos que foi capaz de dar naqueles últimos dias — Não me referi à comida. Como você consegue se manter calma com tudo o que está prestes a acontecer?
— Ah, isso! — Sara sorriu, encarando-o com verdadeiro afeto — É ainda mais fácil. Sei que estamos todos em ótimas mãos! — Pousou um beijo longo na testa do homem, em seguida se erguendo e o deixando a sós com seus tantos pensamentos, dúvidas...
...E algumas poucas certezas. Poucas, porém irrefutáveis.
A recente lembrança chegou rascante ao peito do líder, como se viesse colocar à prova sua capacidade em lidar com aquele assunto atormentador.
“Sei que estamos todos em ótimas mãos!” — A frase se reproduziu no mesmo timbre gentil de Sara, e de repente o punhal que segurava ganhou um peso incalculável sobre os dedos que rodeavam o cabo da arma, e toda sua visão pareceu ainda mais incoerente, mais imprecisa. Sabia o que tinha de ser feito.
Urrando de ódio, frustração e tristeza, Clopin lançou-se na direção de Frollo à medida que erguia o punhal com violência, tão perturbado que apenas conseguia distinguir seu alvo ao redor de todo o ambiente.
— CLOPIN, NÃO! — Esmeralda colocou-se entre os dois com notável agilidade, o lençol escorregando do corpo que acabara de cobrir para novamente revelar sua nudez. Tentou redirecionar os olhos raivosos do líder para si, arfando com tanta força que não soube como encontrou fôlego para falar — Abaixe isso, Clopin, por favor!
— Você ainda tem a audácia de defendê-lo? — Só então o líder passou a encará-la, e por mais que fosse difícil manter o contato com aquele olhar, a menina pagã se forçou a isso, jamais se permitindo recuar pela ira que emanava do egípcio.
— Você não entende... Frollo é um bom homem! Ele me salvou do...
— Um bom homem? — Clopin a interrompeu num sussurro perigoso, a arma ainda a postos enquanto a mão livre apertou com exagerada força o braço da cigana — Enlouqueceu, Esmeralda? Por acaso sabe...
— Solte-a, cigano! — O arquidiácono pronunciou-se, mal contendo a fúria por testemunhar sua menina sob o aperto impetuoso daquele inconveniente estrangeiro. Recebeu um olhar desacreditado e ainda mais indomado de Clopin, que parecia incapaz de processar o que transcorria à sua volta. Claude avançou um novo passo, sequer se importando com a clara desvantagem em que se encontrava. Ao invés disso, os olhos castanhos ganharam uma flama ameaçadora, prometendo apenas ruína aos que ousassem prejudicar sua cigana de algum modo — Solte Esmeralda agora, ou farei com você o mesmo que fiz ao último que tentou forçá-la a algo.
Clopin trincou os dentes, a cólera transbordando por suas íris escuras, irracionais de uma maneira que Esmeralda jamais vira ao longo de todos os anos de convivência.
— Está insinuando que eu faria algo para machucá-la, gajô? — O cigano questionou num tom desafiador, tentado mais do que nunca a usar o punhal que ainda tinha em mãos, impedido apenas pelo corpo da menina que se colocava com firmeza entre eles.
— Clopin, chega! Com quem eu me relaciono não é problema seu! — A cigana exaltou-se, começando a se irritar com toda aquela exposição — Frollo, por favor, vá embora. Você só vai piorar nossa situação se ficar.
— Irei apenas quando puder levá-la comigo, em segurança. — O sacerdote replicou de pronto, os orbes castanhos ainda bem focados no homem que liderava os estrangeiros.
— Se algum de vocês tiver a sorte de sair do Pátio hoje, não será o padre, isso eu garanto. — Olhou com íntima tristeza para a cigana que criara, sentindo que não mais a reconhecia. Temeu fazer a pergunta que o incomodou desde o momento em que a vira naquela companhia, simplesmente por já saber qual seria a resposta, mas mesmo assim a verbalizou, vislumbrando a egípcia com a mesma frieza rígida de seu tom — Você o avisou do ataque, Esmeralda?
— Avisei. — Respondeu, sem nenhuma hesitação, sentindo-se despedaçar quando a angústia se pronunciou ainda mais intensa dentro dos olhos de seu antigo protetor, porém incapaz de se arrepender daquela decisão — Não havia outra forma. Vocês estavam obcecados, direcionando uma vingança às pessoas erradas. Eu tive que intervir.
— Isso é grave, Clopin! — Artemio, o último ancião vivo do clã, se pronunciou pela primeira vez, dizendo aquilo que o líder mais temia ouvir naquele momento — Você sabe o que precisa ser feito. Devemos reunir a Kris Romani.
Quando o líder novamente a encarou, havia lágrimas espessas querendo se desprender de seus olhos, tão fatigados que de repente pareceram se agregar de várias décadas a mais. Esmeralda sabia o que tudo aquilo significava. Um julgamento cigano por sua traição...
Uma traição que ela mesma já confessara.
— O que deu em você, menina? — O homem que a acolheu quando criança murmurou, finalmente derrotado. Esmeralda lutou contra o aperto na garganta, já ciente do que a esperava a partir daquele pedido do sábio. Por mais que quisesse chorar, forçou-se a engolir as lágrimas, apesar de tudo vendo injustiça na forma como era tratada.
— O que deu em mim? Eu consigo ver além de rótulos, Clopin. Sei que Frollo representa tudo de pior que já recaiu sobre nós, mas ele mesmo não tem culpa de nada, assim como Quasímodo. Duas pessoas boas que vocês condenaram sem qualquer remorso nessa investida insana contra Notre Dame. Será que nos tornamos tão cruéis quanto os nossos algozes? Agora nos prestamos a atacar inocentes?
— Não é possível que você não se lembre... — Clopin meneou a cabeça, atônito, porém descartou o assunto antes que Esmeralda pudesse questionar mais acerca dele. Não aguentaria lidar nem mais um segundo com a perturbadora conversa naquele instante — Você ficará em prisão domiciliar até que a Kris decida o seu destino. O sacerdote se manterá sob nossa custódia, e será enforcado ao pôr do sol. E por Júpiter, Esmeralda, cubra-se com alguma coisa. Ainda a considero minha filha.
— Clopin, isso não está certo! Foi ele quem me salvou do capitão Phoebus! — A boêmia relutou, recuperando o lençol e o rodeando através do corpo após o pedido do líder — Se Frollo não tivesse aparecido e se importado em me ajudar, eu não estaria aqui hoje!
— Eu preferia que não estivesse... — Clopin assegurou num tom baixo e melancólico, dominado pela angústia sincera de seu desabafo. Após um último olhar decepcionado retirou-se do aposento da cigana, deixando-a completamente boquiaberta e ferida por ser alvo daquelas palavras duras. Ditas por uma das pessoas que mais amara em toda a sua vida, fazendo crescer ainda mais a dor por ter que ouvi-las.
Tinha muito o que protestar ainda, porém sequer conseguiu se mexer quando levaram Frollo de sua casa — sem nem mesmo preocuparem-se em vesti-lo adequadamente — e a trancaram ali, pouco se importando se a deixariam de fora da decisão de seu destino.
Estava acostumada a ser rechaçada pelos parisienses que se consideravam superiores. Mas nada a prepararia para provar aquele veneno de seu próprio povo.

Menos de dez minutos depois, a Kris Romani já estava formada, composta por uma meia dúzia dos homens mais velhos do clã — apenas Artemio ocupando a elevada posição de ancião e sábio. O líder, Clopin, se dispunha ao seu lado, tentando sem muito sucesso esconder dos outros o quanto se sentia intimamente envolvido com aquele caso. Há muito tempo não precisavam julgar um dos seus, e nada poderia ser pior do que direcionar aquele momento à Esmeralda.
Frollo era feito prisioneiro no arredor da corte, a fim de que os ciganos destinados a vigiá-lo pudessem acompanhar o desenrolar da reunião. Poucos pareciam propensos a de fato acreditar nas acusações que recaíram sobre a menina órfã tão querida, e não tardou para que cada membro restante do clã se reunisse ao redor dos mais velhos para ver que fim teria aquele julgamento.
— Irmãos... — O líder principiou com vigor, embora por dentro nunca se sentisse mais desgastado — Todos já sabem quais foram os motivos que nos fizeram organizar a Kris nesse dia triste. O julgamento pela traição de Esmeralda, aquela que todos vocês tinham como irmã. Aquela que eu tinha como filha... — Pausou seu discurso pela necessidade de engolir em seco, cada nova palavra parecendo capaz de esmagar o que restara de seu coração cigano — Antes de dar início formal à Kris, é meu dever perguntar se alguém tem alguma dúvida ou consideração a ser feita sobre o caso.
Um instante de silêncio se abateu sobre os ciganos reunidos, e somente no momento em que Clopin se preparava para retomar a fala, uma voz feminina se interpôs, alta e clara, sobre a reunião de homens.
— Eu tenho algo a dizer! — Esmeralda surgiu ofegante, sua pele e roupa toda coberta por terra, algo que em outra circunstância tiraria um sorriso de Clopin pelo comportamento arteiro da jovem.
— Mulheres não participam da Kris Romani, Esmeralda! Não nos desrespeite ainda mais trazendo sua presença onde não é bem vinda. — Artemio asseverou de forma rude, incapaz de compreender como poderia haver tamanha ousadia em alguém que acabara de trair o próprio povo. Que o vinha traindo há algum tempo, a julgar a intimidade que demonstrara ter com Claude Frollo.
— Sinto muito, mas hoje uma mulher será ouvida na Kris. Meu destino aqui já foi traçado, e todos nós sabemos qual é. Nada vai mudar o que me espera, e nem mesmo mais uma transgressão das nossas leis pode piorar o que eu estou prestes a viver no término desse julgamento. Mas não posso permitir que uma corte de homens fale por mim. Ninguém aqui sabe pelo que eu passei, ninguém foi testemunha de tudo o que aconteceu depois que deixei o Pátio. Ninguém aqui pode julgar a mim ou a Frollo com justiça antes de pelo menos ouvir minha versão.
— Como chegou até aqui? — Um cigano inquiriu, parecendo também triste com a necessidade de julgá-la — Deveria estar em prisão domiciliar até que a Kris terminasse!
— Certa vez me ensinaram que todo cigano deveria ter uma rota de fuga secreta em sua casa para os momentos de aperto — Explicou, fitando Clopin enquanto invariavelmente se recordava de todas as precauções zelosas que ele lhe dera quando a cigana decidiu morar sozinha — Apenas dei ouvido a antigos conselhos.
— Nada do que disser a seu favor muda a sua traição, Esmeralda... — Clopin abaixou o rosto, entre o envergonhado e o aflito — Já que todos estamos cientes sobre qual será o seu fim, deveria aproveitar a chance de se afastar desse julgamento e poupar-se do embaraço de nos encarar.
— Eu não me envergonho do que fiz. Faria de novo, mesmo sabendo que terminaria desse mesmo modo... — Replicou, conseguindo atrair expressões chocadas de todos, exceto a de Clopin. Os traços do líder denotavam profunda decepção e derrota, um semblante que Esmeralda jamais esqueceria. Apesar do burburinho que se instalou, tornou a falar, ainda mais firme do que antes — Nenhum de vocês entende o que me levou a proteger o homem que agora vocês querem matar, sem nenhum motivo além do próprio orgulho de capturá-lo. Foi por causa de Frollo que eu sobrevivi ao ataque do capitão na noite em que desapareci. Quando Phoebus me estuprou e espancou nas cercanias do Pátio, foi ele quem tratou das minhas feridas mais urgentes. Esse homem foi corajoso o suficiente para me abrigar em Notre Dame enquanto eu me recuperava, mesmo ciente de que poderia sofrer represálias caso me descobrissem ali. Eu tenho minha própria dívida de sangue com Frollo, seja ele cristão ou pagão, gajô ou cigano, isso não deveria importar aqui e agora. Não para nós, que conhecemos de perto o peso da intolerância injustificada.
— Claude Frollo... — Artemio articulou o famigerado nome como se apenas devaneasse, atraindo um olhar curioso de Esmeralda — Eu me lembro bem de quando esse nome circulava com naturalidade pelo Pátio dos Milagres. Da criança que cresceu aqui como um de nós. Lembro, inclusive, de estar presente nos rituais pagãos do qual ele fez parte, e que agora repudia. Quando nasceu, eu orei para que o menino fosse próspero e tivesse sorte... — O ancião foi listando, mal se importando com a reação quase unânime de espanto de seus irmãos ao saber que o sacerdote já vivera entre eles. Como parte deles. — Porém o menino inocente cresceu, e assim que pôde partiu de nossa comunidade para se voltar contra nós, com a mesma fúria dos soldados que hoje nos atacam. Você diz que tem uma dívida com ele, criança... — O sábio fitou Esmeralda com intensidade, inflexível no que dizia — ...mas isso é uma grande tolice de sua parte. Diante de todos os males que ele já nos infligiu, ouso dizer que isso seria impossível.
— Vocês estão enganados! Frollo nunca representou perigo para nosso povo. Ele apenas cortou os laços com o Pátio, e até onde sei isso não constitui um crime... — A boêmia defendeu o sacerdote com firmeza, porém a segurança de suas palavras vacilou no momento em que testemunhou a expressão temerosa no rosto de Claude, que fitava a cigana com angústia. Acima de tudo, temendo o que poderia ser dito à menina pagã que tanto venerava.
— Eu esperava que você fosse capaz de recordar os fatos por si mesma, Esmeralda... — Foi o líder dos ciganos quem falou, não conseguindo encará-la diretamente ao se colocar à frente daquele novo discurso — Mas talvez seja exigir demais da sua memória. Por mais traumático que tenha sido, você não passava de uma criança nova demais na época, e acredito que às vezes nos forçamos a esquecer algumas das lembranças mais dolorosas que a vida nos dá. Não é algo que possamos escolher...
— Do que está falando, Clopin?
— O padre não é a pessoa que ele te convenceu ser, filha... — Alertou com angústia, um suspiro pesado dando ainda mais intensidade ao tratamento outrora afetuoso, que imediatamente pareceu causar algum nível de dor ao cigano naquelas circunstâncias — Assim que Frollo conquistou sua posição privilegiada na catedral, deu-se início à nossa era mais sombria. Dezenas de ciganos eram condenados toda semana sob suas ordens, sem nenhuma razão até mesmo para o padrão das inquisições parisienses. O Pátio dos Milagres, nosso refúgio, tornou-se uma prisão. Fomos obrigados a jamais ultrapassar os limites da periferia se não quiséssemos ser caçados... Bastava que ele visse um estrangeiro fora de sua zona, que o destino dessa pessoa se resumia à fogueira ou ao pelourinho, sem nenhuma exceção. Quando Chantefleurie, sua mãe, foi queimada em praça pública, foi por ordem deste monstro que você insiste em humanizar.
Esmeralda sentiu-se gelar, incapaz de expressar que tipo de sentimento a envolvia naquele segundo em que perdeu por completo a reação. Perscrutou o semblante do sacerdote como se implorasse para que ele lhe desmentisse tudo aquilo, que esclarecesse o provável mal entendido, porém o prisioneiro de seu povo nem mesmo era capaz de esconder a aflição ao encará-la de volta. Inconvenientes, lágrimas grossas começaram a se formar sob as íris esverdeadas, os olhos alarmados transmitindo todo o incômodo da boêmia por jamais ter correlacionado Frollo com as mortes que quase destruíram aquele clã há cerca de quinze anos.
— Sua mãe foi a última. — Clopin prosseguiu o relato, ele mesmo parecendo profundamente mergulhado naquele período da mais legítima aflição — Do mesmo modo abrupto que seu bom homem deu início à nossa caçada, ele se retirou dela com a morte de Chantefleurie, enclausurando-se mais a cada dia nas dependências da catedral e se tornando indiferente à nossa existência. Sua intenção ao ajudá-lo foi nobre, porém ignorante. Ainda acha que possui alguma dívida de sangue para com o homem que a tornou órfã, Esmeralda? Ainda seria capaz de me olhar nos olhos e dizer que não é meu problema ver que a menina que eu criei, como se fosse do meu próprio sangue, se relaciona com nosso maior assassino?
Esmeralda, resoluta em seu novo silêncio, não deu ao líder nenhuma resposta direta. Apenas manteve-se fitando Claude com um sentimento desacreditado e confuso. Odiando-se ao enxergar a comprovação de tudo o que era dito no olhar atormentado do sacerdote, que sequer tentava defender-se de todas as acusações dirigidas. Sentiu-se, em meio ao contemplar mudo, a criatura mais estúpida de Paris por se entregar justamente àquele homem. Por defendê-lo. Por trair seu povo ao escolher salvar um assassino...
...O mesmo homem responsável pela morte horrível de sua mãe.
— Você estava reticente quanto à decisão de enforcá-lo, Esmeralda... — Artemio retomou a palavra, apenas tornando a falar quando a cigana finalmente voltou o seu olhar para ele — Não queremos cometer uma injustiça com uma de nossas irmãs, ainda mais nesses tempos em que já perdemos tanto. Todos sabemos que nosso espírito de unidade é o que nos faz sobreviver a cada dia... O que nos faz fortes. Mas precisamos saber qual lado você escolhe, criança, e se ainda é leal à sua família. Estou disposto a oferecer uma saída apenas por estar claro que seus erros foram inconscientes. Erros que, apesar de graves, carregavam sua gentileza já comprovada por todos aqui. Você não conhecia o verdadeiro Claude Frollo e por isso o julgou mal, mas agora conhece. E o destino de vocês dois estará em suas mãos... — Anunciou, fazendo acender um brilho esperançoso nos olhos de Clopin assim que o líder compreendeu que poderia haver uma saída para a jovem cigana. Suas falhas, afinal, ainda poderiam ser passíveis de reparo — Poderá manter-se no Pátio, vivendo junto dos seus irmãos, caso sentencie o prisioneiro à morte. Se, mesmo após tudo o que foi dito e ouvido, ainda interceder pela vida do padre, não será mais uma de nós, e deverá viver por conta própria longe do clã. — O ancião consentiu que um sorriso discreto ganhasse espaço em seu rosto ao realizar aquela jogada perspicaz que satisfaria a todos os ciganos. Através dela, conseguiria permitir que Esmeralda permanecesse vivendo entre eles numa decisão que não desmoralizaria a corte, e ao mesmo tempo seria capaz de redimi-la de seus atos através da condenação do arquidiácono.
Afinal, já haviam perdido mais homens e mulheres do que parecia possível à capacidade humana superar, e em seu peito já calejado pela vida, Artemio compreendia que Esmeralda jamais foi maldosa em suas ações, jamais quis prejudicá-los. Seu coração ainda era jovem e ingênuo, e o dia de hoje representaria um grande aprendizado para a talentosa dançarina que tanto estimavam. O cigano idoso já estava certo e tranquilo do resultado que se seguiria, o que fez o baque ser ainda maior quando a deliberação foi tomada. Por mais sabedoria que todos os anos vividos já tivessem lhe agregado, jamais seria capaz de prever a resposta firme que Esmeralda lhe deu, sem ao menos titubear.
— Eu escolho pela vida de Frollo. — Anunciou, apática, sem encarar nenhum dos rostos que se voltaram com desamparo em sua direção, inconformados. Cada semblante passando a acusá-la com veemência da traição agora bem solidificada, sem mais brechas para nutrir qualquer tipo de dúvidas a seu respeito — Escolho ser banida. — Reafirmou sem nenhuma nota de remorso, aumentando ainda mais a descrença daqueles que logo deixariam de vê-la como igual.
Clopin, diante da decisão improvável, sentiu cada fiapo de sua esperança se retorcer dentro de si e se transformar num sentimento oposto, tão amargo e denso que não demorou para que uma sensação sufocante começasse a se alimentar de seu desespero. Não conseguia entender por quais razões Esmeralda agia daquela maneira, mas de alguma forma a menina demonstrava uma determinação inabalável que sustentava a inconsequência de sua resposta.
Uma resposta que a levaria para longe do líder num caminho sem volta.
O alarido se intensificou entre os presentes, cada cigano tentando fazer sua voz se elevar um pouco mais alto em meio à confusão. Vários gritos incitavam com fervor a morte do prisioneiro apesar do acordo feito, muitos dispostos a anular aquele contrato verbal, cientes de que jamais tornariam a viver uma oportunidade como aquela — em que o arquidiácono se encontrava completamente vulnerável em mãos egípcias. O perfeito oposto do que normalmente ocorria. De todos ali, apenas Esmeralda trajava uma expressão impassível, sem ousar quebrar o próprio silêncio ou chamar alguma nova atenção para si. Forçou-se a não desviar o olhar para o arquidiácono, contudo não foi capaz de manter-se firme apesar de seus maiores esforços naquela tentativa. As íris verdes o buscaram, mirando o padre por átimos de segundos num olhar lancinante, detestando reconhecer nos orbes castanhos a ilusão esperançosa de que ainda poderia se explicar. De que entre eles tudo poderia voltar a ser como era antes.
Virou o rosto, fechando os olhos com pesar quando alguns ciganos tomaram a iniciativa de subir na elevação que tinha Frollo por prisioneiro. Revoltados, instigaram os outros ao assassinato a sangue frio do padre, dispostos a colocar um fim em sua existência independente do que fora combinado. Quando Esmeralda julgou que tudo fugiria de vez do controle, a voz que todos respeitavam freou com surpreendente potência os anseios assassinos dos ciganos.
— Já basta! — Artemio, o último sábio do clã, ergueu-se de um salto e bramiu com vigor apesar da rouquidão causada pela idade, fitando a todos com crescente aspereza. A decepção também se entremeava nos traços idosos de seu rosto, porém era impossível discernir se aquele sentimento era voltado para todos ali presentes ou unicamente para Esmeralda — Uma barganha não deve ser infringida quando é feita sob as leis da Kris Romani. Esmeralda fez sua escolha, e deverá conviver com as consequências que advirão dela, assim como nós. Eu mais do que todos! — Disse, culpando-se abertamente por permitir que a corte terminasse naquele resultado tão avesso, tão fora do que todos gostariam.
“Jamais tente ajudar um traidor...” — Refletiu, atormentado. Como todos ali, extremamente ferido. Lembrou-se de quando ele conduziu a cerimônia de sorte e prosperidade à menina que agora os renegava, e simplesmente não conseguia compreender como haviam chegado àquele ponto. Sentiu — mais do que ouviu — a consternação incutida no timbre de Clopin quando o líder se pôs à frente, disposto a dar fim no tormentoso julgamento.
— Esmeralda. Você provou-se indigna de seu clã e da unidade familiar que ele representa. Teve sua chance de se redimir, contudo ao invés de abraçá-la com gratidão preferiu reafirmar seu descaso por nós. Será marcada com a vergonha do banimento, e jamais tornará a ser bem vinda junto aos nossos... — Clopin, sem olhar para ninguém específico, posicionou-se junto às costas da egípcia, erguendo o punhal com os dedos ligeiramente trêmulos, o líder ainda mais ansioso diante do silêncio solene e inconformado que marcou aquele procedimento. Com a mão livre segurou o volumoso cabelo negro e cacheado da menina que tanto amara, cortando o seu comprimento ao deslizar da lâmina. Sentia o choro discreto de sua antiga protegida, e mais do que tudo queria ele também poder se render às próprias lágrimas. As mechas longas que antes alcançavam o quadril da mulher agora terminavam, irregulares e sem o mesmo charme, na altura média de seus seios. Clopin fez uma pausa, ainda lamentando sentir a textura do cabelo cortado de Esmeralda entre os dedos. A tensão apenas se energizou quando o líder não disfarçou um breve vacilar de dor ao perceber a cigana tentar conter um soluço em meio ao seu choro controlado e baixo. Olhou para a pequena multidão em seguida, recomposto apenas externamente — Uma cigana que tem o cabelo cortado é uma cigana que foi marcada pela vergonha de seus atos. Que perde sua identidade e seu orgulho. Para que todos os nossos irmãos e irmãs reconheçam nela a traição aos seus próprios costumes. — Clopin rodeou o corpo da cigana até que se prostrasse de frente a ele, forçando-se a encará-la com profundidade nos olhos verdes — Nunca mais nos procure, Esmeralda. Não é mais bem vinda entre nós... — Clopin começou a sair de seu campo visual, porém ainda foi capaz de um sussurro rápido no ouvido da cigana enquanto passava — Tome cuidado, menina! — Embainhou discretamente o punhal por dentro da saia da egípcia à medida que se retirava, um movimento imperceptível e habilidoso que passou despercebido a todos os outros. Elevando novamente a voz, Clopin encarou Frollo com desprezo — Quanto a você, padre, retorne ao Pátio novamente e garanto que não terá a mesma sorte de sair vivo dele.
Clopin deixou a cena antes que tivesse o desgosto de testemunhar a ida definitiva de Esmeralda ou mesmo a soltura do arquidiácono. Muitos dos egípcios ainda se mantiveram estáticos antes de conseguir esboçar qualquer reação, e Esmeralda adiantou-se em partir, não suportando os olhares. Não suportando imaginar que Frollo seria capaz de alcançá-la se demorasse ao ir embora.
Djali seguiu a corrida da humana num ritmo respeitável, vez ou outra lançando olhares preocupados à mulher que parecia completamente desengonçada no caminho traçado. Tropeçava a cada meia dúzia de passos, seu corpo estranhamente bamboleando à medida que seu choro ia perdendo o controle. Os soluços se descompensavam conforme atingia maior distância de seu antigo lar, rechaçada de seus costumes, afastada pelas pessoas que eram o mais próximo que possuía de uma família.
Cada aspecto de sua vida ruindo de seu controle, como os avanços trôpegos de seus pés. Finalmente caiu após tentar correr com mais rapidez, desequilibrando-se sem controle sobre o piso irregular e indo de encontro a ele. Toda a lateral direita de seu corpo baqueou contra o chão frio, abrindo alguns arranhões na pele morena. Rendendo-se à própria angústia, a cigana sequer tentou buscar forças para prosseguir ou mesmo levantar, deixando-se conduzir pelo choro compulsivo.
A cabra se aproximou devagar, farejando com cuidado o arredor de Esmeralda antes de se aconchegar junto ao corpo de sua humana. Os olhos expressivos do animal se fincaram no rosto atormentado da egípcia, como se tentasse entender qual era a angústia da cigana que amava.
— O que eu fiz, Djali? — Abraçou o belo animal, escondendo o rosto tomado de vergonha por sobre a maciez de seu pelo branco. Um rosto que perdera a própria identidade.
— Esmeralda! — O grito aliviado e afoito de Claude ao encontrá-la fez o corpo da cigana se contrair ainda mais sobre si, e por mais que quisesse lutar contra sua presença, conseguiu apenas chorar com ainda mais violência sobre o chão imundo que a abrigava. Não teve forças para se opor à aproximação do sacerdote. Seu próprio corpo não estava disposto a obedecer aos comandos voluntários, apenas se rendia ao choro compulsório que a fazia sacolejar, tirando-lhe até mesmo a voz que queria protestar quando ele a tocou — Vamos, ma belle. Vamos sair daqui. — Disse num murmúrio tão gentil e cuidadoso que apenas causou uma onda incontrolável de asco à cigana, ainda incapaz de se expressar em todo o seu ódio, dominada por uma paralisia excruciante.
Quando Frollo a ergueu, sua respiração se dificultou tamanha a cólera que a invadia, mais do que tudo precisando fugir do alcance daquele homem, porém sem conseguir impor ao corpo que a obedecesse.
— Vai ficar tudo bem, minha menina... — Abraçou-a, e em meio aos soluços e à falta de ar, a cigana apenas conseguiu rugir em desagrado. Subiu com dificuldade as mãos até o peitoral de Frollo, tentando empurrá-lo para longe de si, porém apenas capaz de se amparar no tecido de sua roupa negra para evitar cair. O arquidiácono interpretou aquele gesto como algum tipo de sinal amoroso, e a constringiu com ainda mais afinco no aperto daquele abraço, o alívio o preenchendo — Eu sabia que entenderia, mon coeur! — Beijou o pescoço de sua cigana, não sabendo traduzir os ruídos indistintos de sua dor.
— Sai... — Conseguiu finalmente dizer, a vibração de sua fala quase incompreensível pela mistura confusa de sons. Tentou fincar as unhas de forma dolorosa sobre os ombros do padre, mas seu corpo parecia completamente desprovido de energia. Concentrou-se então na fala, por mais dificultada que estivesse. Sentia como se sua garganta quisesse se fechar para o mundo — Eu nunca... Nunca mais... Quero ouvir falar de você... Assassino!
Claude a fitou com espanto, sem contudo ousar soltá-la de perto.
— Esmeralda, tudo não passou de um terrível mal entendido...
— Me deixe em paz... — Tentou novamente afastá-lo, mas ainda parecia que controlar os próprios movimentos era uma tarefa árdua demais para si. Rugiu ainda mais alto, inconformada com o quanto se sentia fraca no momento em que mais precisava de força — Vá embora!
— Se não me quer mais, por que intercedeu por mim no Pátio? — A pergunta tentou soar incontestável, como se lógica alguma pudesse refutá-la, porém apenas aumentou o nojo nos orbes verdes e úmidos de sua menina pagã. Sua, e para sempre sua, não importando o que se seguisse.
— Porque sou fraca. Não sei e nem quero aprender a ser como você, que aponta para uma vida e manda tirá-la como se fosse nada. Não fiz isso por você, Frollo. — Apesar de ainda cambaleante, conseguiu se distanciar por si mesma do sacerdote, sentindo-se imunda não pela sujeira física que a cobria, mas pelos toques do arquidiácono que ainda era capaz de sentir sobre sua pele — Tomei essa decisão por mim. Para me certificar de que eu nunca vou poder ser comparada a um assassino como você.
— Precisa entender, Esmeralda... — Segurou-a num movimento desesperado pelos ombros, sentindo que seria capaz de rastejar aos pés da cigana se fosse preciso. As palavras fugiram de sua mente, algo incomum a um homem tão eloquente quanto ele. Tudo o que conseguiu foi exteriorizar uma respiração mais pesada enquanto sentia o ódio de Esmeralda direcionado a si através do olhar expressivo da egípcia — Naquela época, eu procurava por algo... Algo importante que precisava encontrar...
— Isso com certeza te redime de tudo, monsieur... — Esmeralda replicou com ironia, raivosa, aproximando-se do homem apenas para dar ênfase ao seu ultimato — Fique longe de mim, padre. Não me obrigue a usar isso! — Ergueu de leve a blusa, deixando à mostra o cabo do punhal que Clopin secretamente lhe devolvera, e só então caminhou para longe, sem ao menos imaginar para onde iria.
Estava mais sozinha do que nunca.
O sacerdote a observou se afastar com os olhos alucinados de quem está à beira da loucura, alguém que apenas aguarda um leve empurrão para atravessar a tênue linha que delimitava seus delírios.
O tipo de fatalidade que não tardaria a chegar para Claude Frollo, o arquidiácono de uma catedral tão destruída quanto seu próprio íntimo.
“Voltará para mim, cigana. Está fadada a ser minha, com ou sem o seu querer!”
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